O silêncio bruscamente.

 

 

Ar da fazenda lembra a saudade do abraço de um grande e lanudo pastor alemão preto e marrom. No campo reina o rústico, o tempo em que as coisas recém concebidas ainda não estavam (como o fio de lã) penteadas pelos hábitos do homem de esconder o disforme e o irregular. Desenhando e regulando linhas retas por todos os cantos; amaciando as rugores, enchendo os buracos com terra tirada das pequenas bossas. Ansiando pelo regular, ajoelhado ao deus que clama pelas rotinas das pequenas coisas. Orando os eufemismos como cobertores multicoloridos no lugar da língua franca, primitiva e sólida. Temendo o silêncio que é a teima deste tempo anterior.

 

O som de um sino batendo é o chamado do próprio vento e de ninguém mais, não há o ritmo do pulso, há uma vacuidade que se manifesta sem finalidade. A indústria, a certeza, está distante.

 

Vivemos em meio às cascas, colinas, degraus, cabras, madeiras, seriemas. Terra batida, grama, capim-gordura e pedra mineira todas próximas, rejuntadas ou amontoadas.

 

Só gigantes calçando sete-léguas conseguem caminhar sem tropeços. Troncos de madeira amarrados nivelam desníveis inacessíveis. Formam rampas para alpinistas da cidade plana. Surgem sorrisos envergonhados, toques de cotovelo, olhares medrosos e a deficiência se alarga, atinge a todos os seres medianos com seus defeitos a serem corrigidos.

 

São tempos ancestrais que voltam às origens de tudo que nos cerca na cidade. O leite lembra vaca, não caixa. A amizade lembra o diálogo, não o medo da diferença. Lembra a delicadeza do Buda ao se desdobrar em dezenas para cada um usar os guarda-sóis oferecidos pelos trinta deuses. Mesmo sabendo da ruína futura, o lugar é apenas gente, não afasta nada, tampouco apressa pela violência ou falta de criatividade.

 

*P. Modiano

 

Varlam Shalamov

 

 

 

“Sabeis de algum lugar no mundo onde exista a inteligência”? Jó

 

Todos nós somos condenados. Condenados a viver em uma prisão, como aquela terceira margem do rio, saídos do nascimento, que não pedimos e seguimos seu curso rumo à morte, tampouco sabendo quando, como e onde.

Diante dessa realidade só nos cabe compreender este percurso, encontrar algum sentido nele, e para compreendê-lo só nos resta a perspectiva como método. E o homem como fautor. Um tonel sem fundo enquanto não compreender que tem um fundo.

Nosso parente mais próximo, Quixote, ergueu meio corpo fora dessa realidade e viveu outra, a da fantasia, tomou o cuidado de ter sempre como companheiro uma régua, para dar a cada momento , o tamanho da mesquinharia e do interesse, que não o deixava escapar voando, prendendo-o, por assim dizer, no real. Deu-nos uma graça original ao contá-la, inaugurando uma nova era, a moderna, e com isso deu nova perspectiva à vida e à inteligência.

Outro parente notável, Kafka, a viveu da mesma maneira, entendeu aquela perspectiva, contando-a de outra forma. Renunciou à realidade objetiva. Seguiu adiante graças à sua sensibilidade extraordinária, revelou o sem sentido, o acaso, e o caos da existência percurso através de suas parábolas, metáforas. Talvez por isso mesmo se tornou profeta de uma religião laica. Jamais comeu do “pão” sobrenatural. Contou dos processos que vivemos sem nunca sermos julgados por ninguém, a não ser em casos desimportantes, tampouco sabendo o porquê da condenação, apenas esperando. Até que finalmente se vê diante da porta e do porteiro, sentado diante dela, aberta, sem jamais entrar. Olhando, pensando, concluindo, usando a inteligência, sua servil inteligência.

Apontou nosso processo de desumanização, através de seus belos e tristes contos, até nos vestiu uma casca de barata. Como o espanhol, ele jamais perdeu o seu humor, apenas o tornou mais irônico, menos espalhafatoso, cínico. Usou a linguagem concisa, abandonou o barroco e o excesso. Desesperançado adotou a palavra de um tabelião.

Assim aprendemos a maneira de quebrar a rotina massacrante com a aventura, dizem alguns, e eu concordo. Ganhamos o conforto de pensar que a história do homem (afinal somos sempre o protagonista dela) é a história exploração da Terra, do itinerário dos percursos que ele fez, cada vez mais longínquo, distantes da sua casa.  Uma consequência disso seria a da inexistência de lugar, de caminho a ser conquistado, visto e narrado.  Engano. Completo engano. Apenas cinco por cento do fundo dos oceanos é conhecido.

Os ‘Contos de Kolimá’ saem em busca do fundo daquele barril.

Utiliza a mesma economia de meios para desnudar nossa aventura íntima, enquanto navegamos entre as margens. Descreveu a prisão pelo lado de dentro. Vivendo nela vinte quatro horas por dia, sete dias por semana durante anos e anos. Exibiu-a em seu estágio aperfeiçoado o Campo de Trabalhos Forçados (Gulag). Trabalhou tendo como roteiro o fundo do oceano, ainda inédito, da alma homem. Aquele fundo escuro, sem luz, e cada passo, avanço, soca a nossa cabeça, cada linha percorrida faz da leitura náusea e exigindo algumas paradas para retomar o fôlego, e para processar o pensamento, o sentimento. No meu caso o impacto foi tão grande que precisava além da pausa, precisava de tempo de reflexão, olhar outras coisas enquanto a minha mente desarranjada ordenava, pouco a pouco, o que estava lendo.

Para ensinar a verdade basta aludi-la com um gesto, nada mais. Isso é uma verdade já conquistada, e é o caso destas narrativas. Descrevem os gestos que nos desnudam.  Ele viveu o tempo todo em contato com a lama primitiva da qual somos feitos. Olhando-a bem diretamente nos olhos, sem descanso. É possível afirmar que as narrativas são o corolário da história moderna, a confirmação da tragédia que vem se desenvolvendo no mundo moderno. Depois do seu anúncio sistemático pela literatura, a realidade surge aqui no auge da sua glória como tragédia. Descoberta pela inteligência do ser humano, agora ela não é apenas concebida e encenada, é vivida em toda sua crueldade desarrazoada. O processo continua sem sentido aparente, resta apenas a imposição de uma forma de pensamento ou não pensamento através da rudeza e a brutalidade como rotina. Não só de um trabalho que vai até o limite do desfalecimento e da morte. A fome e o frio e o homem comandando a desumanização, a demolição de todos os sentimentos até que reste apenas o último deles, aquele que nos abandona quando estamos completamente nus: a raiva. São parábolas exemplares, exibindo a inconexão com os demais seres, o aniquilamento. O poder não quer ter razão, mostra-se resolvido a impor suas opiniões. “Eis aqui o novo:” – ele anuncia – “ o direito a não ter razão, a razão da sem razão.”

Eu não ouso dizer que ele chegou ao fundo, ao abissal, é plausível dizer que ele chegou até aonde podemos suportar. Ele, o herói, retornou depois de atingir o máximo de pressão suportável. Precisaremos, doravante, de novas técnicas para ir além, mais fundo. Quem sabe, ficar ali mesmo, por mais um tempo, apenas um pouco mais de tempo para acostumarmos o organismo com a falta de oxigênio e luz. Não consigo imaginar o fundo, não posso vê-lo, apenas sei que ele estará lá, e outro o descobrirá. Posso apontar, apenas.

Na viagem de volta à superfície ele obteve o auxílio de um arbusto, o Cembro (Stlánik), parente afastado do cedro, que lhe ensinou o quanto as sensações da natureza são mais refinadas que o homem. Subindo com ajuda dos seus galhos, voltou a sentir algum calor reparador, que descreveu assim:

O amor não voltou a mim. Que distância separa o amor da inveja, do medo, da raiva! As pessoas apenas precisam de amor! O amor chega quando todos os sentimentos humanos já voltaram. O amor é o último a chegar, o último a regressar. Mas regressará ele? A indiferença, a inveja e o medo não foram as únicas testemunhas do meu regresso à vida. A piedade para com os animais voltou antes da piedade para com os homens”.

O Processo foi publicado em 1928. Nele Kafka colocou seu personagem diante da porta da Lei. Guardada por um porteiro que alertava ao curioso diante dele: “Eu sou apenas o último porteiro, lá dentro existem outros, de sala para sala, cada um mais poderoso que o outro, eu mesmo não resisti à visão do terceiro”.

Em 1929 Shalamov foi detido pela primeira vez e jogado de campo em campo como prisioneiro até 1951. Estes contos foram escritos entre 1954 e 1973. A sua obra cumpriu a tarefa de fazer com que o seu personagem não respeitasse a proibição daquele guardião da Lei, e entrasse para, resistindo à visão terrível anunciada pelo terceiro vigia, seguisse adiante. Para nos revelar o que fora apenas intuído. Talvez seja por isso que em um dos contos o personagem, cansado e com medo de perder sua “vida salvadora” teve um lampejo quando nasceu em seu cérebro uma palavra.

“Palavra que não servia para a taiga, uma palavra que nem eu, nem meus amigos compreendíamos. Levantado na tarimba, gritei essa palavra para o céu, para o infinito.

- Sentença! Sentença! – E desatei a rir. – Sentença! – Gritei para o céu nórdico, para a aurora, sem compreender ainda o significado desta palavra que em mim tinha nascido”.

Você será privilegiado com a visão dessa pungente beleza caso queira acompanhá-lo e pagar o preço de sua curiosidade.  Esta é a recomendação do poeta Rumi: “Não dê as costas. Mantenha o seu olhar na atadura. É ali que a luz entra em você”.

Caso eu pudesse ajudá-lo, eu diria que ele encontrou um bosque ao chegar, e cada conto é a descrição de uma árvore dele. Ele nos dá uma trilha, e seguimos curiosos, conhecemos cada canto, mas perderemos a visão do arvoredo. Ele só aparece quando estamos fora. Apenas na posse desta perspectiva da mecânica humana de sofrer e infligir o sofrimento em nossa bagagem é que seguiremos adiante.

 

 

 

Presépio

El Pulmón

 

Presépio

 

 

Por que, até, perguntar por quê?

Por que não apenas descrever e depois

 deixar que a descrição responda

 a todos os porquês cabíveis?

Gore Vidal

 

 

Dia de trabalho duro na creche abarrotada de crianças. Uma correria natalina sem fim, pessoas indo e voltando. O recorte do jornal não descrevia o ramo da atividade, apenas listava as exigências para o exercício da função. Passei algumas horas, em dias alternados, participando do processo de seleção.

Olhando pela bandeira envidraçada das portas, conversando, imagino aquele negócio como pouco lucrativo, mal rendendo para uma pessoa viver. No entanto, ele surpreende o observador: constituído por dois sócios, ainda que bem diferentes. Um fez dali um refúgio para a aplicação de seu dinheiro, ou melhor, do excesso dele. Ele já tinha uma fonte de renda que o abastecia, e bem. Era funcionário público de carreira, obtivera o cargo que ocupava graças à influência política. A hipótese do rendimento ridículo nos dá o direito de pensar que ele pretendia obter prestígio, ganho indireto, não financeiro? Perseguir a imagem de um benfeitor? Ou atender ao pedido de algum chefão? Ou, quem sabe, a carreira na vida pública (todos voltados ao bem estar social), sendo homem de instrução rarefeita (primeiro grau incompleto) em meio a tantos bacharéis e doutores, moldara nele a exigência patológica de ser respeitado? Bem, já que tudo é vaidade, ela pode se manifestar nas mais curiosas e impossíveis atitudes. Uma delas, quiçá a mais curiosa, foi a matrícula deste homem (aos cinquenta anos) em um curso superior (curso vago) com presença livre, localizado em outro Estado. Curso em que compareceu apenas para fazer a inscrição.  E esta lhe rendeu poucas e decisivas (sempre dizia) linhas em seu currículo, suficientes para justificar sua indicação ao cargo de (sub) Chefe da Casa Civil do Governo do Estado.  Função que não lhe rendeu outra coisa além de distribuir muletas, covas, dentaduras e pernas mecânicas. Dinheiro? Nenhum. (Seu bordão predileto: “Dinheiro pouco, tenho muito. Dinheiro muito, tenho pouco”.) Frequentava aquela creche da mesma forma que o emprego e a faculdade, só para fazer contatos sociais e reafirmar a sua autoridade como patrão. A creche e seus problemas exigiam muito do seu tempo, e a única solução que encontrou foi a contratação de um assistente. Com ele, conseguiria tempo para se libertar dos maiores problemas.

Candidatou-se para a vaga um rapaz que acabara de terminar o primeiro ciclo. De aspecto saudável, um sorriso alvo e constante, que aparecia tão logo percebia a aproximação de alguém. Um irradiador de confiança e proximidade. Mostrou-se ambicioso e cheio de planos. O empresário relutara muito antes da admissão, o olhar do rapaz era errático e vago, insistindo em não se fixar no interlocutor, se prendendo nos locais mais disparatados. Ele não usava óculos escuros para ocultar a cegueira. Os olhos não eram vazados, mas opacos, e pareciam querer fugir da morbidez do interlocutor; só depois de algum tempo de conversa amena ao som agradável daquela voz, eles libertavam o olhar alheio daquela atração hipnótica. O entrevistador duvidou que ele pudesse desempenhar as funções sem enxergar. Entretanto, como não o conseguira despachar de pronto, o encabulado entrevistador, levado pela conversa agradável, pelas histórias divertidas que ouvia, de como ele fazia para conseguir o que precisava, exibindo acima de tudo a sua independência, acabou por admiti-lo. As constantes interrupções durante a entrevista, causadas por problemas que exigiam solução imediata, ajudaram muito nessa decisão. A premência e o desembaraço do candidato solaparam a dúvida. Imediatamente sentiu seu peito inundado pelo efeito de uma boa ação. Sentiu-se um ser superior.

Praticamente não se via a cegueira nele, nada a denunciava. Simpático, armado do sorriso, tudo funcionava. Ele se especializara em diluir, esfumaçar aquela insistente perplexidade inicial. O cego logo tomou conhecimento da rotina do lugar e acompanhava tudo e todos bem de perto.  ‘Macaco gordo’, aquele que quebra qualquer galho, era o que se comentava dentre os demais. Desde o primeiro dia, chegou bem cedo. Natural, ele colocou a mão no ombro de alguém, como se fosse um amigo antigo, pediu que o levassem até a recepção e ali se sentou. Depois de se apresentar, ficou ao lado do telefonista (um refugiado político), ouvindo como ele atendia aos chamados. Sendo ambos novatos, reagiam às perguntas usando o bom senso, distribuindo as chamadas para os ramais pedidos. Nada demais. Até que alguém perguntou qual era o número daquele telefone. O telefonista não sabia. Parou. Ficou olhando, hesitante, pensativo. Quando fixou o olhar no teclado, formou-se a imagem da resposta e foi dizendo: “O nosso número é 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e zero”. O cego exclamou: ”Não, não. Não é nada disso”.

O ceguinho se definia como alguém que trabalhava para viver, sua dieta era “não trabalha, não come”. Ele pontificava sua história, orgulhoso, agora como sócio, tendo começado como ajudante de telefonista. Alguém que olhou atentamente todo o panorama, participou dele, ombro a ombro, para só então modificá-lo.  Organizou uma rotina de trabalho, distribuídas segundo as características de cada empregado.  Ele se transformara em cada um deles. Fizera estágio em todos os departamentos: na limpeza, na cozinha, na brinquedoteca, na lavanderia. Acompanhara as entregas de mercadoria, a estocagem, os prazos de vencimento.  Entrevistara os pais, conversara com as crianças, atendera suas necessidades, antecipara seus desejos. Estivera obcecado para sair daquela amargura de viver da “mão para a boca”. Sempre adepto do trabalho intenso, da rapidez e da simplicidade, desprezava qualquer comportamento diferente desse. Enfurecia-se quando percebia desleixo, desrespeito e futilidades. E, no íntimo, antes de dormir, cansado, ficava sonhando com a oportunidade de se tornar sócio. E aconteceu quando ele já havia poupado o suficiente para comprar boa parte das ações. Ele também pensara na “segurança” que o cargo de sócio lhe daria. Excluía a terrível hipótese da demissão (um horror secreto dele). Essa obsessão, que ele pensava secreta, invisível, também agia sob os dois gumes da segurança e da insegurança. Ao ver os relatórios financeiros, tinha certeza de que fizera um mau negócio. Acreditava que poderia mudar isso. Não sabia como. Faltavam novas ideias, as informações. E desatou a estudar. Foi procurar o que precisava. Devia haver uma saída.

Imaginando a creche como um mecanismo de precisão, principiou apertando ao máximo todos os torniquetes da máquina. Intensificou, descreveu e dividiu todo o trabalho em uma sequência de tarefas uniformes, transformou as pessoas em peças de linha de montagem. Para cada tempo, um movimento. Cada um fazia uma determinada função, sempre igual, e com um mínimo de imprevistos. Eliminou qualquer diversidade. Diminuiu drasticamente o número de empregados.  Estava no centro de Santo Amaro, um lugar que se transformou, com o tempo, de cidade autônoma em bairro de periferia. Dos colonos alemães para os retirantes nordestinos. Crianças e adultos abandonados à própria sorte. Apenas com lugares para dormir, e ônibus à vontade, indo e voltando, levando e trazendo trabalhadores, que não tinham renda, tampouco tempo para mais nada. Depois desse aperto, conseguiu diminuir o valor das mensalidades e aumentar o número de crianças até o limite do inimaginável. Não havia espaço para mais ninguém.

Um dia, os sócios foram convidados para uma festa. Um acaso feliz. Raramente frequentavam o mesmo lugar. O temperamento social e amistoso de um contrastava com o isolamento do outro. Este não conseguia ver graça alguma na atividade social, exceto com seus poucos e fieis amigos; preferia o prazer de sentir a transformação das letras em frases, formando histórias. Entretanto, o convite veio de um amigo e cliente, era impossível recusar. E não se arrependeram. Submeteram-se a vários acontecimentos extraordinários, além da grata surpresa de serem recebidos com música. Cânticos de tempos antigos, já perdidos, em uma língua que desconhecia.  E, por algum sortilégio, a melodia, a harmonia e a letra abraçavam a alma do ouvinte por vários lados. Primeiro, mais alegre e festivo, da comemoração; mas logo outro se aproximava, melancólico, talvez por efeito da percussão. A letra acompanhava o ritmo, deixando o sabor da saudade da antiga terra e da esperança do novo lar na boca do ouvinte. A alma se descobriu maior que a soma das partes. O cego apenas as conhecia desconectadas. A complexidade foi uma grande novidade. Era a festa da páscoa judaica. Do povo judeu. Uma celebração da peregrinação, do caminho árido no deserto. Daquele deserto, que de vez em quando nos chama para a contemplação. A música é a suma dessa aspereza, dessa busca do imponderável e inacessível.

A originalidade não se resumia a isso, e tampouco a comida, tudo era diferente, desde os nomes que não conseguia entender até os sabores, diferentes, exóticos e deliciosos. Doce com salgado. Cebola e mel. Peixe e ravióli. Maçã e farinha. Não ao fermento. A rotina monótona do seu paladar explodiu, desapareceu. Antes de se começar a comer, foi lido um livro pelos familiares. Cada um relatava seu trecho. Oraram em hebraico.

Para um dos sócios, ocorreu a revelação do lado escuro da lua. Não conseguia conceber que seu amigo tivesse tradições tão diferentes, tão majestosas.  Tão ricas e estranhas. Foram os sons, os sabores, a complexidade da alma. Havia lido alguma coisa sobre o poder das tradições judaicas, porém a música transmitiu uma materialidade daquilo tudo. Apesar de não entender nada, soube e viu tudo o que havia de ver dentro dele.  Ele soube que sua cegueira revelava coisas obscuras aos demais. Entraria para a confraria dos cegos?  O sócio puxou-o de lado e, entusiasmado, relatava tudo que estava desfilando, as roupas, as joias, os enfeites. Foi uma das raras vezes em que se aproximaram.

Do nada, surgiu um casal dançando agarradinho. Jovens de quinze ou dezesseis anos. Ela possuía traços mongóis, contrastando com o loiro dos cabelos e a pele muito claros. Coisa de judeu russo, disse alguém. Ele, o sobrinho do cliente, era um rapaz moreno, cabelos crespos e fartos, robusto, sem nenhum traço particular.  Havia algo nele que chamava a atenção, porém ficava embaçado na sua imagem. Até que o mistério foi dissolvido pelo amigo que os convidara. Perguntando se tudo estava bem, se havia algo que poderia fazer por eles, ao mesmo tempo os convidava para sentar à sua mesa, como convidados de honra. Ali foram informados das rezas, dos significados das comidas e das canções, ouviram nomes exóticos, logo esquecidos. E o cego, curioso, perguntou daquele casal: “Por que só eles estavam dançando? Por que ninguém, além das crianças, os acompanhava?” “Ah! Eles são assim mesmo. Não ligam para essas convenções. Ela é muito alegre, divertida, ninguém nota, a não ser depois de algum tempo, que é portadora de Down.” E o amigo continuou: “Orgulha-se de ser diferente na risca da palma da mão. Seu atraso é bem leve, quase imperceptível. Ele, o sobrinho, sofreu uma lesão cerebral leve, adquirida em um parto muito longo. Bonito, moreno e forte, enrola a língua ao falar. O dano torna a fala quase incompreensível em suas pausas longas e sons guturais. As pessoas sempre querem terminar a frase por ele, tentam acertar o que ele quer dizer. Erram sempre, claro, e o deixam nervoso, ansioso”. Dançando, estavam felizes e sorridentes.

Depois de algum tempo, os dançarinos se aproximaram das mesas. Cada um sentou-se ao lado dos seus familiares. Famílias muito ricas que ajustavam, discretamente, o casamento deles. A menina olhava para a mãe e, indicando o menino, fez um sinal característico de apontar a mão para a boca, intermitente, a mão bem fechada, exceto pelo polegar e o mindinho esticados para cima, sugerindo que: “Ele está bêbado”. Por seu lado, o menino se aproximava do pai e, mostrando a menina, fazia gestos frenéticos com a mão para dar ênfase em suas palavras. O indicador apontando para o ouvido e girando insistentemente. “Ela é louca.” E todos desataram a gargalhar.

Na volta para casa, o sócio investidor disse para o cego: “Que pena, não? Gente tão rica e tão desafortunada. O que adianta ter helicóptero para levar os meninos para todo lugar? De que adianta tanto dinheiro?”. E enfileirou mais uma série de demagogias emocionais ou preconceitos sentimentais semelhantes. O cego desanimou de continuar a conversa, limitou-se a ouvir.

A festa, seus cânticos, suas demonstrações de riqueza e poder, tudo isso lhe transmitiu alguns ensinamentos.

O primeiro sócio usou o seu tempo livre para iniciar um novo negócio. Gastou grande quantidade de seu capital para abrir um salão de recepções. Lugar de reunião das pessoas para fazer celebrações, bodas, campanhas.  Como frequentador assíduo delas, acreditava que possuía conhecimento necessário para prepará-las e cobrar por isso. O cego, por sua vez, deslumbrado com aquelas famílias, percebeu que os ricos também tinham seus deficientes, membros com corpos e mentes devastados que precisavam de cuidado. Elas eram famílias como todas as outras que ele já conhecia. Nem sempre o casamento era uma forma plausível de solução. Pensou mais, que aquele local no centro do bairro periférico era inapropriado e inseguro. Precisava de um lugar mais arborizado, com mais “qualidade de vida”. E tratou de encontrar o lugar “certo”. Encontrou uma casa senhorial, que passava a impressão de ser habitada por gente de bem. Um ótimo sinal para se cobrar um preço diferente. Enquanto um se embriagava com as festas, frequentadas por pessoas com cartão de boca-livre, o ceguinho se empenhou no treinamento de boas maneiras, em procedimentos especializados, contratando estagiários em fisioterapia, fisiatria, todos com salário de fome, é verdade, mas ambição de fazer dinheiro, e para isso se sujeitando a qualquer trabalho.

Se o ceguinho fazia as coisas pela intuição, o conhecimento trouxe novas possibilidades para ele. Por exemplo, pôde testar seu poder de convencimento com as mulheres.  Conhecia as jovens e bonitas pelo cheiro e pelo tato. Aproveitou a oportunidade e trocou quase todos os funcionários antigos por novos, na idade e no comportamento, a grande maioria do sexo feminino. Fez da creche uma extensão da sua família. Uma vez atraídas para junto de si, usava de todos seus argumentos para conquistá-las. Ele sempre dizia que precisava de uma mulher o elogiando o tempo todo. Claro que a estratégia era óbvia demais, apesar das incessantes negativas dele.  As meninas, logo depois de conquistadas, corriam e avisavam às demais. Mesmo com toda essa algaravia, nada mudava. A sequência continuava seu ritmo. Uma depois da outra. Diziam todas elas que, para o cego, cada conquista bem sucedida só confirmava sua tese, cínica, cretina, sobre o interesse. Isso não se chamava amor, tampouco amor fraterno, era outro negócio, o interesse pela riqueza de bens ou segurança e satisfação que a companhia dá. Segundo elas, isso tudo era uma armadilha, sem saída possível. De nada adiantava ele se declarar um monogâmico serial e fiel. Conquistava e as jogava fora. Não parecia ter consciência de que esse era um jogo inevitável e sem saída para elas. Não se envolvia emocionalmente, não se entregava. Ao encerrar o ciclo de cada mulher, ele enchia o peito de orgulho e afirmava que nenhuma delas ficava desemparada, abandonada. Cada fim de caso, pacífico ou tempestuoso, só ocorria quando a moça se empregasse em outro local, ou mesmo arranjasse um casamento. Apesar de tudo, ele jamais foi acusado de ser um homem sem escrúpulos. E escrúpulo, para ele, era isso: ninguém ficava na rua da amargura. Não havia nem amor, nem ódio. Apenas conveniência.

A empresa prosperou rapidamente. A quantidade de clientes diminuiu e a renda aumentou. As mensalidades subiram exponencialmente. Ele fazia aumentos sucessivos, até atingir o que considerava uma porcentagem razoável da renda familiar do doente. Cada cliente era uma renda vitalícia. Quanto melhor cuidasse, mais tempo teria de ‘aluguel’. Escolheu como tesoureira a menina a quem prometera, pela primeira vez, casamento. Isso lhe assegurava a sua lealdade. Além disso, ensinou-a a fazer poupança. Nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Era metódica e foi bem fácil treiná-la para obedecer às suas ordens. O cegueta manipulava a conta caixa. Desviava o lucro para sua própria conta. A empresa, no papel continuava deficitária pelo aumento excessivo dos custos. Bastava ele declarar uma despesa para que ela se tornasse realidade, até que o lucro zerasse. E o cego continuava solteiro.

O convívio entre os sócios se tornou ainda mais distante. Ambos viviam dentro de bolhas flutuantes que raramente se tocavam, e, quando isso ocorria, por força de algum vento assoprado de algum lugar ou por falta de espaço, o toque se dava naquela casca tênue, que se costuma chamar de “polidez”. Um breve toque, um curto diálogo, e logo elas se separavam. O capitalista estava habituado com o prejuízo, pois, se jamais tivera lucro, por experiência, com as modificações ou sem elas, continuava na mesma. Ele não atinou nada, a sua bolha toda ocupada com seu novo negócio e suas três mulheres. Ambos trabalhavam da mesma forma, e o negócio continuava aparentemente igual. O capitalista economizara o salário do funcionário, tornando-o sócio. Considerava que fizera um bom negócio. Em determinados momentos do dia, na sua passagem diária pela sala do cego, observava atentamente o seu comportamento obstinado, a cabeça afundada na mesa de trabalho, absorto, perdido em seus projetos mirabolantes e grandiosos, só levantando para ir embora. Sempre o último a sair. Dessa observação constante surgiu o pensamento de que tanto trabalho, e tanta modificação, algum efeito deveria surtir nas finanças. Como é que o sócio vivia sem o salário? Os empregados estavam mais felizes, todos trabalhavam melhor, treinados pelo sócio. Essa reflexão começou a pipocar no seu cérebro, coadjuvada por algum funcionário maledicente: “O senhor colocou um sócio e perdeu sua liderança, ninguém o respeita mais. Só existem olhos para o ceguinho”.

Um dia, ele levantou a cabeça, saiu de sua cadeira e chamou o sócio. Apresentou um projeto de expansão, o de fazer com que ambos aplicassem uma nova soma de dinheiro para instalar várias filiais da creche. Estava na hora de se fazer um bom dinheiro.  A sociedade, doravante, só cuidaria de deficientes e idosos ricos (família, bem entendido, de alta renda). Para tanto, bastava aprofundar o estudo dos hábitos dos ricos e idosos, cuidando de ter os serviços exigidos por aquela gente. No íntimo, ele já sabia da necessidade de jovens perfeitos e belos, simétricos e pobres. Esse plano não entusiasmou o investidor, mas ele concordaria desde que o cego também entrasse de sócio no outro negócio, o de recepções. O ceguinho sabia que o outro negócio ia mal das pernas, exigindo constantes investimentos. As bolhas se tocaram e se afastaram.

Apesar da recusa do investidor, a creche inaugurou a primeira filial com seus próprios recursos. Alugou uma grande e velha mansão em um bairro chique. E, com esse aluguel, tudo se tornou diferente. Viver perto de gente de bem foi o primeiro de decisivo passo. O lugar era espaçoso, claro, dentro de um bosque, imitando uma estação de águas, sem nada que o identificasse como depósito de gente.  Eu percebia que a sociedade entrava em nova fase. Não se atendia mais os pobres. O “morto de fome” começava a aplicar sua ideia, mesmo sem a aquiescência do outro, e o empreendimento se fortaleceu, adquiriu força. Ah, esquecia de um detalhe: ele se aproveitava de sua condição física e, agora, manipulava também os clientes para obter aquilo que queria. Usava um arsenal de diversas máscaras, uma para cada tipo de negócio. Cuidava de incapacitados, deformados, aberrações e velhos, ganhava a vida com isso, fazia bem o trabalho e arrancava dinheiro da culpa dos pais das crianças. Vivia disso. Estudou, aperfeiçoou-se e ganhou notoriedade pela sua eficiência e aplicação. Passou a ser apelidado de “braço direito” da sociedade. Todos notavam a sua condição submissa em relação ao outro sócio. E esse prêmio de consolação o engrandecia. Ele sabia que, mesmo incompetente ou burro feito uma porta, como às vezes se sentia, as pessoas lhe dariam a chancela contrária, por compaixão. Não pode haver, pela lei de Deus, um cego imbecil e incompetente. Não existe o deficiente medíocre. Bem como não existe o morto vil. Mesmo inútil e incompetente, prevalece o mito da aberração como privilegiada no quesito da inteligência. É a lei da compensação. E aplicam a justiça inexistente no reino dos homens. Aquela que só existe no reino particular da publicidade, das páginas das revistas, dos finais felizes dos filmes de amor e nas fábulas para crianças. O deficiente poderá ser uma ruína moral, mas será sempre considerado trabalhador e justo.

Um empregado da creche começou a namorar, em segredo, uma menina de dezessete anos com sequelas de poliomielite. O vírus a tornara prisioneira da sua cama e de seu travesseiro de plumas. Tetraplégica. Nem a devastação integral em seu corpo impediu que ela aprendesse a pintar com a boca. Ativa e obstinada pela independência, vendia suas obras para uma associação suíça, acusada de diversas irregularidades, incluindo desvio de verbas, e com esse rendimento conseguiu juntar uma boa soma. Em segredo, ela destinava essa grana para a compra de uma coleção de tintas importadas. O cego não viu, não sentiu essa paixão no ar. Afinal, ele mesmo ensinara a todos: “Escondam seus sentimentos, eles não interessam a ninguém.” Ou talvez ela, paixão, não existisse mesmo.  O fato é que tomou conhecimento mediante o testemunho tardio da menina. Ambos tinham o hábito de conversar, e ela, um dia, desabafou.  Não suportava mais guardar segredo daquele seu amor, e, depois de uma série de indiretas não compreendidas pelo rapaz, passou a se servir das diretas, das assertivas. Todas errando o alvo. Ele, o enfermeiro, não entendia, ou fazia que não. Correspondia com algo mais que amizade. Algo bem leve, sem palavras, só gestos, toques e olhar enquanto tratava de suas várias escaras pelo corpo. Conhecia a intimidade dele, do corpo, mais do que ela mesma. Talvez restasse alguma consciência nele, mas foi engolfada pelo furor selvagem e apressado do sentimento dela. E a abraçou. Era o seu maior desejo. A sua maior conquista. E saiu. Saiu, de posse do dinheiro dela, para comprar a sua coleção de tintas na Michelangelo. Não voltou.

A paralítica fora uma aposta do cego. Apesar de ela não ter um gato para puxar pelo rabo, apostou na carreira, sabia que ela um dia pagaria suas mensalidades. Algo que ela , agora, fazia com folga. Vivia feliz e realizada. E, mais que tudo, sentia-se amada. Triste pela ausência do enfermeiro, que deveria estar ocupado com alguma coisa, ou doente, mas que logo, logo estaria de volta. Ela conseguiria o telefone dele e ligaria qualquer dia desses. O cego ouviu quieto e sem interrupção toda a história. Sentindo-se muito mal. E prometeu, conversando consigo mesmo, que faria alguma coisa.

Saiu dali e, imediatamente, pegou o endereço do indivíduo na secretaria e se dirigiu à casa dele. Morava em uma vila distante, em uma casa pouco mais que miserável, na barranca do rio. Ao chegar, ouviu vindo dos fundos, o rangido de uma porta, os palavrões de alguém, xingando a privada. Procurou por ele e foi informado que estava trabalhando. Agradeceu e saiu. Esperou por mais de quatro horas até que ele voltasse. Ouviu primeiro o ronco de uma moto, deduziu que seria ele. Quando o veículo se aproximou, saiu de onde estava para encontrá-lo. Não precisou falar muito. O sujeito confessou tudo. Comprou a moto com o dinheiro dela. Ele prometeu devolver. “Não há necessidade disso. Volte para o trabalho.” “Como assim?” “Apenas volte, eu compro as tintas para ela. Vamos esquecer tudo.” Instaurou-se um silêncio profundo e constrangedor, até que se ouviu a voz do cego Jeremias: ”O estado de saúde dela é delicado, não há mais tempo para nada. Nada”.

O sócio capitalista morreu há pouco tempo, depois de tanto tempo de sociedade, disse a recepcionista, enquanto eu esperava o cego me atender, para a entrevista final.  Ele, já velho, se casara alguns anos antes. Mulherengo, namorava três mulheres ao mesmo tempo. E, pior, elas sabiam disso. Marcara o casamento em vários lugares diferentes, com receio do escândalo que poderia ser causado pelas mulheres rejeitadas; escolhera, na última hora, o cenário para o matrimônio. Viveram dez anos casados e sem filhos. Na última conversa que teve com o cego Jeremias, ouviu dele o conselho: “Vocês deveriam adotar um filho. Ele lhe daria muitos anos a mais de vida”. Ouviu, sem atenção, esse conselho que não pedira. E seguiu adiante. Um pouco mais tarde, surgiu uma grave e penosa doença, que lhe causou uma morte dolorosa. Jeremias, quem sabe motivado por gratidão ou agradecimento pelo primeiro emprego, oportunidade conseguida, que o livrara da detestável profissão de acordeonista que o destino parecia lhe reservar, acompanhou toda a doença. Tentou, mesmo sendo rejeitado, se aproximar do doente. Ouviam-se os rumores que ele queria ser premiado com alguma coisa no testamento já registrado e escriturado no Tabelião.

Após o féretro, a viúva se apresentou na empresa para tomar o seu lugar de sócia, como herdeira. Tencionava participar ativamente da condução dos negócios. Atônito, Jeremias a recebeu muito bem. Vestido com a roupa da abnegação, do bom anfitrião. Não foi necessário muito tempo para que ambos percebessem que não havia espaço comum entre eles, dois projéteis rumo à colisão. O cego Jeremias perguntou se o sócio havia dito alguma coisa a respeito dele. Ela se apressou em responder, sem hesitar um só instante: “Ele me deu a missão de ficar por aqui, não importa o que aconteça ou o que você diga. Disse mais, que você jamais deixaria seu trabalho, sua criação”. E completou: “Que você é o melhor profissional que ele conheceu”. Jeremias se afastou, entre surpreso e triste.

Como candidato, durante o malfadado processo de seleção, convivi por vários dias com os funcionários, ouvindo comentários de todos, desde a copeira até o guarda do estacionamento. Este relato é o resultado dessas conversas, alguns detalhes não devem ser deixados de lado. Eu fui rejeitado ao posto de gerente da creche. Jeremias não admite funcionários deficientes. Algum tempo depois deixou para sempre a empresa. 

 

 

Quadros de uma exposição

Ele veio de Aix que é de onde veio Cézanne e é

desse jeito que são as pessoas elas acham

que se vem de um lugar talvez se tenha

um pouco das coisas desse  lugar.

Gertrude Stein

 

Praga

 

Um sonho de viagem ou uma viagem rumo ao sonho. Na companhia da minha irmã, visitaríamos pela primeira vez a casa de Kafka, alugada pela irmã dele para lhe proporcionar paz, o silêncio indispensável para escrever. Já sonhava em ver a mistura de cores e casas de dois e três andares, geminadas, cortadas pelas ruas de paralelepípedos, formando um mosaico, avançando em grandes moles sobre nós, os milhares de visitantes. Ilha fluvial do rio Moldava e suas janelas emolduradas debruçadas sobre os canais. Do cinza que varre as ruas cortadas por trilhos, também nascem as lápides dos cemitérios e as construções góticas, palácios e catedrais que terminam em pontas afiadas puxadas pelas mãos dos artistas e apontando para o céu. Elas dizem algo para quem as vê. Atravessar a ponte do Rei Carlos, teríamos a sorte de escolher um dia com neblina, e cada trecho seria uma descoberta, olhar o largo curso do rio, ver o que Kafka tinha visto centenas de vezes, e mais tarde sentar no Café Kafka e olhar uma jovem tomando um sorvete, sentada em um canto privilegiado.

 

O avião pousou suavemente no aeroporto local. Desembarcamos em último lugar, esperando que os apressados saíssem primeiro. Alguém apareceu para nos ajudar com a bagagem, indicou a esteira e seguimos o carretel de pessoas onde cada uma pescava suas malas, disse algo que não entendemos, apontando a casa de câmbio, agradecemos, fazendo gestos que não precisávamos. Perguntou pelo nosso nome, olhou os documentos. Seguimos adiante, congelados pelo frio do ar condicionado, ajustado para o clima Ártico. Logo nos entregou para outro senhor que ostentava uma tabuleta com o meu nome pendurada no pescoço, e que, descobri mais tarde, ser o motorista do ônibus vermelho, antiquado, duplo, colocado à nossa disposição. Ele nos conduziu para fora do saguão, e tivemos o primeiro contato com o ar local, regulado para o clima África. Ele aparentemente não falava nenhum outro idioma a não ser o dele, incompreensível. Ele nos levou até ônibus já com o motor ligado, bufando sobre nós, mostrando que estávamos atrasados. Estacionado em meio à centena de carros, em um dia de sol faiscando a pino, começamos a arrumar a nossa bagagem, apenas duas malas. Como fôramos os últimos a chegar, tivemos de colocá-las no lugar mais alto, em meio a uma infinidade de outras malas, pacotes e engradados, tudo arrumado e encaixado com lógica, mas o espaço restante parecia insuficiente. Fizemos muita força para abrir espaço. O motorista colocou suas mãos em concha para eu subir. Sobre aquele equilíbrio instável, puxei as malas pelas alças e as subi até a altura da cabeça e as empurrei, bati, esmurrei até que entrassem naquele espaço, tudo isso sob os grunhidos de incentivo? aprovação? impaciência? daquele homem lá embaixo. O ônibus estava lotado de outros viajantes, um casal de indianos (que bem poderiam ser bengalis ou paquistaneses) nos sorriu imediatamente, assim que nossos olhos se cruzaram. Um sorriso de desconforto e apreensão. Todos sentados em ordem, a mesma ordem das malas, aguardando a porta se fechar para iniciar a parte seguinte da viagem. Ninguém se atrevia a falar com o motorista, talvez pelo fato de se utilizar de um quepe, vestir um paletó com dragonas, camisa cinza com gravata da mesma cor e coturnos. Era a força da ordem. Tentei balbuciar algo, apontando para a cidade, fiz algumas micagens mostrando o meu relógio e o céu, fazendo menção ao Relógio Astronômico de Praga. Nada. Olhou-me fixamente e pediu meus papéis. Disse alguma coisa. O indiano me olhava, assim como sua mulher e as duas filhas, todos sorrindo de medo. Um painel na frente do ônibus se acendeu com o nome Maribor, a distância e o tempo da viagem. Uma viagem de aproximadamente cento e cinquenta quilômetros que demorou três horas e meia; a região é montanhosa e a estrada, sinuosa, com trechos em que se afunilava até se tornar via única. Fomos obrigados a parar e dar vazão ao fluxo contrário, estacionados no acostamento, à direita um abismo considerável e a montanha à esquerda. Os indianos conversavam em sussurros entre si. Esperamos um tempo enorme para escoar a fila interminável de veículos, até o tremular da bandeira levantada. Era o sinal de partida. Depois do contraste entre o Ártico e a África, o suor do meu corpo secou deixando um rastro insuportável. Seguimos viagem, velocidade máxima controlada, atravessamos lentamente a primeira cidade, de nome ignorado e ilegível, apesar do esforço da placa indicativa, parecida com aquelas encontradas no oculista, lotada de consoantes e vogais acentuadas e riscadas, que juntas não fazem sentido algum. No destino, paramos ao lado de uma construção de onde saiu a nossa sobrinha, sorridente, com um papel em mãos autorizando a sua despensa da jornada de trabalho, graças ao tio e a tia que chegaram para visitá-la. Falei com ela da intenção de visitar Praga. E ela me explicou que arranjou a viagem dessa maneira, por ordem do seu superior: ele a liberaria para nos acompanhar, desde que fosse para conhecer nossas belezas regionais. Olhei para minha irmã. Ela parecia animada, aliás, ela sempre parece animada, tem uma juventude eterna, entusiasmada com toda e qualquer oportunidade surgida. Perdida a chance de conhecer a casa de Kafka, fomos conhecer algumas cavernas (Postojnske) com vinte e um quilômetros de extensão, além de estalagmites, estalactites e desenhos pré-históricos, embalados pela trilha-sonora da interessante história (contada em espanhol) de um dragão que soltava fogo pelas narinas e que divertia muito todos os visitantes desde os tempos medievais. O que é vivo não comporta cálculo. (Franz Kafka)

 

Paris

 

Encontramos o hotel e nos acomodamos sem ajuda de ninguém. Quando solicitada, recebemos um caloroso não como resposta. O primeiro sinal da esfuziante hospitalidade parisiense. A minha primeira preocupação foi a de encontrar a casa de Balzac. O convívio que tivéramos (eu e ele) por vários meses incendiou minha imaginação de tal maneira que eu me considerava um amigo vindo de outra era para visitá-lo e à sua cidade. E, de fato, não foi difícil localizá-la. Estava ali por perto. Não falo francês. Após várias tentativas frustradas de fazê-lo, aprendi que anotar o endereço é mais prático: 47, rue Raynouard, 75016. Ao chegarmos, percebi que não poderia fazer a visita tal como planejara. O terreno onde ela foi construída é uma clareira dentro de uma ravina. Eu estava na calçada da rua aqui em cima. A casa, lá embaixo. Uma escadaria me conduziria até lá, caso eu pudesse descê-la. Mas eu não podia. O meu orgulho não me permitia ficar ali parado, alguém poderia oferecer ajuda para a descida, e minha recusa involuntária, automática, ofenderia o próximo ou me humilharia, ou ambos. Pedi à minha mulher que descesse com a máquina fotográfica e registrasse a escrivaninha (onde ele trabalhava à luz de vela e encharcado de café.) e a porta postiça, feita para facilitar sua fuga dos credores insistentes. Minha intenção de sentir o espaço em que ele viveu, tentar reviver os mesmos sentimentos e de alguma forma me conectar com o escritor foi frustrada. Aqui de cima, apesar de próximo, estava ainda distante da realidade dele. Daquela que ele deixou. A Paris que foi dele também foi a minha, a única que conheci, tão detalhadamente descrita. Foi a Paris que ficou em minha memória, e a que eu via fisicamente agora não alterou a impressão. Não quis visitar o cemitério de Père Lachaise para reviver a sua descrição detalhada, tampouco procurei ver a sua mansão na rue Balzac (8e arrondissement).  Ele a comprou (jamais pagou) para instalar a esposa depois de anos e anos de promessas não cumpridas, dificuldades e impedimentos, e, quando o fez, faleceu pouco depois.

 

Paris é o resultado das emoções genuínas dos seus habitantes e das evocações dos que a visitam. Estas é que dão cor e carne aos acidentes geográficos, são as recordações e lembranças que a transformam em cidade luz. Para aqueles que a visitam hoje em busca daquelas, Paris é uma cidade fria e bela como um lagarto e insensível como um táxi.

As lembranças de Marcel Proust foram espalhadas em dois lugares. No museu, estão seus objetos de uso pessoal, recolhidos ao longo de sua vida, arranjados da mesma maneira que ele descrevia minuciosamente em seus textos. Sua casa foi comprada por uma instituição bancária. Assim, a câmara revestida de cortiça, para evitar o ruído exterior, está preservada, e hoje é apenas uma dependência, parte de outro conjunto, servindo como atração para os atuais clientes. Estarão eles interessados naqueles vestígios de vida com tanto trabalho e nenhum emprego, exaurida na descrição de suas memórias, da sua época e da sua cidade? Eu, que gostaria de viver por alguns instantes no mesmo lugar em que ele viveu, eu me vi dividido em dois e sem conseguir decidir o que fazer. Não fiz nada.

 

 

Bézancourt

 

Rouen seria o próximo destino. Expulsos de Paris, tomamos a estrada e saímos. Ao chegar perto da cidade, fiquei impressionado com seu tamanho, pois a imaginava pequena, uma vila, mas me deparei com um lugar enorme, antigo, moderno, mão e contramão, rio, porto, cargueiro, transatlânticos, mastros, cordames, murais, marinheiros, operários, galerias, centros comerciais, catedrais, enxaimel, vidros, esplanadas, avenidas largas nas duas margens do rio caudaloso, tão vigoroso quanto o seu marrom, atravessadas por ruas até perder de vista. Ultrapassamos todos estes obstáculos e, ajudados por um satélite que falava português de Portugal, encontramos o hotel programado para nos receber. Ficava em uma rua estreita, com passagem autorizada para automóveis somente em certos dias. O olhar de desaprovação dos pedestres nos indicava que aquele não era o dia. Pedi o nosso quarto para o recepcionista e fui informado de que o lugar estava lotado. Havia uma convenção na cidade e, a propósito, não encontraria acomodação em qualquer outro lugar. Rouen estava lotada. Apesar disso, ele fez alguns telefonemas que serviram apenas para reiterar o que já dissera. A minha chegada estava prevista para dois dias depois.  Depois de muita insistência, descobriu um hotel a quarenta e tantos quilômetros dali. Imprimiu um roteiro com orientações para que eu o encontrasse e mo entregou. Fui despachado com um olhar. Antes de sair, perguntei onde ficava a casa de Gustave Flaubert. Quem? Ele não sabia, não tinha a menor ideia. Um escritório de turismo, talvez, tivesse alguma informação. Estávamos no final da tarde, com um trecho de estrada ainda pela frente. Resolvi deixar a cidade e encontrar Bézancourt. Arrisquei uma última pergunta: sabe me dizer se o hotel possui escada? Escaliers? Não, não há. Depois de uma viagem pelo interior da Normandia, encontramos a, agora sim, pequena cidade. Tão pequena a ponto de não caber nela o hotel, ele não existia, por telefone tentei me comunicar com a recepção, explicando que estava defronte à Igreja e não sabia como chegar até lá. Consegui entender algo como seguir por uma determinada estrada de terra à esquerda, deserta. Um grande vulto surgiu, atrás do muro com a placa, dentro da noite escura, silenciosa, e sem qualquer iluminação a não ser a dos faróis do carro. Entrei hesitante na alameda cascalhada até chegar ao pátio. Buzinei. Uma pessoa magra, envelhecida e gentil, apareceu e me convidou a entrar, e logo agarrou as malas, subindo pela escada principal de entrada (vinte degraus).  Atrás da recepção, outra escadaria, para o primeiro andar (trinta degraus). Nosso quarto. Podíamos escolher, éramos os únicos hóspedes. Jantei no quarto, depois fui explorar as figuras nas paredes, gravuras e cópias, da época de Napoleão III.

“Vous ne savez pas, vous, ce que c’est que de rester toute une journée, la tête dans ses deux mains, à pressurer sa malheureuse cervelle pour trouver un mot.

L’idée coule chez vous largement, incessamment, comme un fleuve. Chez moi c’est un mince filet d’eau. Il me faut des grands travaux d’art avant d’obtenir une cascade.”

Flaubert à George Sand, 27 novembre 1866.

O Senhor não sabe, senhor, o que é ficar um dia inteiro, a cabeça nas mãos, espremendo o seu cérebro infeliz para achar uma palavra.

A ideia flui bem no senhor, incessantemente, como um rio. Mas em mim é um estreito filete de água. Eu preciso de muito trabalho na arte antes de obter uma cascata.

Resolvemos sair no dia seguinte. Seguiríamos viagem, sem voltar à cidade de Flaubert, um roteiro qualquer, passeando por vilas e lugarejos. Tive uma surpresa no café da manhã: fomos servidos por um senhor muito parecido com o Anthony Hopkins de Vestígios do Dia. Não resisti e perguntei se ele era da região. Não, ele nascera na Inglaterra e resolvera emigrar para a Normandia para acompanhar seu filho mais velho. Gostava de ler e admirava Thomas Hardy. A conversa girou em torno dos sentimentos dos personagens revelados pelo autor, e da sua repercussão em ambos os leitores.

 

Saint Michel de Montaigne

Bordeaux estava preparada para brindar com seus universitários, em festa, e muitos brindaram além da conta, um deles enfiou o tronco pela janela aberta do carro para nos dar informações que não pedimos. O hotel com centenas de quartos e logo fomos avisados de que o restaurante estava em manutenção e não poderia nos atender. Pensamos, após consultar um guia, que não seria um problema, a cidade tem muitas opções. Ocorre que entre ler e viver a diferença é bem grande. Não conseguimos encontrar um local para jantar que tivesse estacionamento. Devia ter lido com mais atenção. Teríamos que caminhar de um local para o outro, e a distância, grande demais, tornava inviável essa opção. Depois de várias tentativas infrutíferas e caminhadas trôpegas, resolvemos pedir ao hotel que resolvesse a questão, estávamos exaustos. A única sugestão oferecida foi um disque-pizza. Deitamos sem jantar.  Resolvemos deixar a cidade e procurar pousada num local próximo, fora do perímetro urbano. Conseguimos um hotel térreo, tranquilo, uma construção moderna, cercada de jardins e campos. Ali conseguimos fazer nossas refeições a um preço razoável. Que tal visitar a torre de Montaigne? É longe? Não, descobri que a distância não era tão grande e o local, de fácil acesso, poderíamos até marcar o dia e a hora convenientes para a visita. E saímos. Depois de enfrentar as rodovias e suas rotundas (dão a impressão nítida de que o mundo é uma organização metódica infalível), pegamos a saída correta e seguimos pela Aquitânia com suas estradinhas coleantes, sob o sol outonal, suas vinhas, igrejas, ruínas romanas, leões rampantes nos mastros, muros, até chegarmos ao castelo. Ele continua produtivo e habitado, produz seus vinhos, recebe os visitantes e foi reconstruído após um incêndio no século XIX, quando era propriedade de um ministro de Napoleão III. Na loja, comprei os ensaios em francês moderno e antigo. A moça, muito gentil, nos conduziu até a torre onde Michel de Montaigne passava seus dias.  Isolada do conjunto, fica em um canto da propriedade. O quarto e a biblioteca surgiram como prêmios para quem vencesse a escada em caracol. Pedi que tirassem fotos das vigas e as frases que ele entalhava (ou escrevia?), como eu faço nos meus papéis. Contaram-me que ele possuía um duto para poder ouvir a celebração da missa, nos dias em que era atacado pela gota e não conseguia descer os degraus. Tenho como recordação: a janela na qual provavelmente observava os campos, a escrivaninha e a cama com dossel. Sentei-me em um banco no pátio, com várias castanheiras, já sem folhas, e fiquei por um bom tempo olhando as estrebarias e áreas de serviço, com charretes. Um gato preto e miúdo se juntou a mim. Estávamos sós. Ninguém mais o visitava naquele dia, tínhamos paz e silêncio. Durante esse tempo, consegui me transportar para os anos quinhentos, e a imagem do seu grande amigo, Étienne, surgiu e parecia me chamar. Lembrei que Montaigne o visitava regularmente, um cansativo passeio no lombo do cavalo que levava aproximadamente noventa dias. Para quem se pode doar uma biblioteca senão a um amigo único? E, desse chamado, desse pensamento, surgiu o plano de fazer a mesma viagem, até Sarlat. O prazer do reencontro seria o mesmo que o levara a escrever sobre a amizade. E assim fizemos. A região que agora enfrentávamos era montanhosa, passava por inúmeros vilarejos, e uma pequena igreja nos fez parar. Ela, talvez, tenha sido construída por fiéis pobres, sem conhecimento suficiente da arte da alvenaria, estava fora de esquadro, torta mesmo, mas íntegra, e com um édito pregado na porta no qual constava o nome da paróquia e os dias das celebrações das missas. Igreja de Saint Thomas, o mesmo nome de meu filho. Retomamos o caminho, passamos pelo Hotel Cro-Magnon, construído no mesmo local onde vivia o nosso antepassado de trinta e cinco mil anos atrás, e pudemos ver, da estrada, a quantidade enorme de pessoas escalando e subindo as pedras para conhecer a gruta daquele homem. Seguimos pela Avenida Pré-Histórica até encontrar a próxima estrada que nos levou a Sarlat. Paramos na praça para almoçar, e no primeiro lugar que encontramos, logo na entrada, à esquerda. Um local alto que abria a paisagem aos nossos olhos, mais adiante uma escultura em bronze, de um rapaz sentado no piso, com os joelhos na altura do queixo, nos quais apoiava os braços, ostentando uma pose gaiata, leve, despreocupada. Eu estava sentado na praça quando vi se aproximar uma senhora parecida com a minha mãe, incrivelmente parecida, perdi a timidez e a cumprimentei, pedi informações sobre a casa de La Boétie, ela me respondeu sem se mostrar surpresa, indicando o local, alertando que não chegaria a ele de carro. Fora construído um passeio em volta, para proteger a construção. Naquele dia, além do mais, estava fechado.

 

Posadas

 

Três homens em um carro ultrapassado. Ultrapassado pelos demais, com mais pressa e compromissos, e ultrapassados no tempo, o auto e os homens. Navegávamos um mar verde de erva-mate, algumas coxilhas, reses e árvores mirradas, rumo ao interior do continente sul-americano. O sol teimava em não desaparecer ao final do dia e avermelhava o céu, afogueando as nuvens e as águas do rio Paraná. Cruzamos a fronteira com a Argentina, engabelando o guarda-marinha, que insistia em pedir a carteira de identidade com menos de dez anos da emissão. Expliquei-lhe que essa lei não existia no Brasil, e mostrei a minha carteira da Ordem dos Advogados para comprovar que a fonte era legítima. A ocasião da viagem foi oportuna para mim, o homem do meio, em idade, entre eles. Gostaria de conhecer onde morou Horácio Quiroga, escritor uruguaio radicado na Argentina, cuja descrição de uma enchente e do efeito das toras pela corrente do rio era algo que dominava o meu imaginário desde que o lera pela primeira vez. Eu tinha certeza de que ele vivera na beira do rio, e Posadas é a cidade argentina que o margeia. Não busquei mais informações, não precisava de mais nada. Descobri um parente que morava lá, os nossos avós egressos da mesma cidade alemã, compartilhando o mesmo sobrenome. O homem, mais velho, era nascido nas imediações e fora dele a ideia da viagem para rever parentes e amigos. Durante o trajeto, fiquei sabendo que ele atravessava o rio a nado, ao chegar, vindo do Paraguai, e ao sair, para economizar o dinheiro do transporte e manter a forma física. Depois, mudara-se para o Rio Grande, onde fizera a vida, acumulara fortuna e influências. No final da vida, por problemas legais, entrara na clandestinidade. Dissera para o filho, o mais moço, que seus amigos sofreram muito apenas por editar alguns livros. “Pai, é melhor não falar disso, os livros foram apreendidos por denúncia da própria gráfica.” “Coisa de gente burra.” “Nada, pai, é coisa de gente que tem medo de se envolver com essa coisa racista.” “Bem, é melhor não falar mesmo, vocês não entendem nada.” Ao encontrar a cidade, estacionamos próximos ao centro e ligamos para os familiares do tio para marcar o encontro em um flat com vista para o rio, de água densa, oleosa, que rebatia a luz do sol sem alterar sua cor. No meio de uma praça arborizada, ruas asfaltadas se projetando até bem próximo das águas, quando o betume se transformava em terra vermelha. Ficamos sentados no terraço, curtindo o final daquele dia úmido, sem brisa, e monótono como o correr da água. Acordamos no dia seguinte com o café da manhã posto na mesa pelo velho tio. Ele saíra e comprara pão, queijo, geleia, manteiga, maçãs e chá no supermercado. Algo que nunca houvera presenciado: a preocupação dele com o próximo, nunca o vira tocado pela graça. Sempre pela razão, pela lógica. Aproximei-me desconfiando, perguntei-lhe se esperávamos alguém. “Perguntas pelo café? Não, não, é para ti e teu primo.”

 

No dia seguinte, procuramos pelo parente a fim de conhecê-lo. Roberto era o editor do jornal provinciano, de oposição aos governos federal e local, e exibia aquela disposição combativa do jornalista, apontando as mazelas do lugar (falou da epidemia de pólio na região, que afetou milhares de crianças, por falta de saneamento básico), interessado pela música brasileira (Martinho da Vila), e contou a história do avô (nosso parente comum) e de seu casamento com uma mulher local (culpado por não ser uma descendente de alemães). Depois, nos convidou para um almoço em sua casa. Ao contrário, nós é que queríamos oferecer-lhe e à família um almoço, em local que ele nos indicasse e que servisse um bom “asado”. Aceitou de bom grado, encontramos o local lotado, ele apresentou suas credenciais e conseguiu uma mesa ao lado da utilizada pelo governador provincial e sua comitiva. De frente para o rio, eu podia ver as pessoas fazendo caminhadas com fones de ouvidos, levando seus cães, andando de bicicleta, velhos e moças, indo e voltando, contando suas distâncias nos marcos miliares. Aguardava uma chance na conversa para lhe perguntar sobre Quiroga. Houve uma pausa súbita, quando ele disse que apoiava o candidato da oposição para a próxima eleição. Eu cortei a conversa com minha pergunta. “Sim”, respondeu apontando para o rio, “Quiroga morava lá em cima, perto da casa do meu avô, sabes que os alemães gostam de se isolar, um belo local, rústico e bem distante daqui. Eu e minha mulher”, agora apontou para a índia ao seu lado, “passeávamos no final de semana por lá, quando solteiros.” A resposta foi suficiente para não tocarmos mais no assunto, ninguém se animou a conhecer uma choupana no meio da mata. A conversa retomou seu rumo, e ele nos informou que seu candidato, segundo as pesquisas, seria eleito. Tudo ficaria melhor. Após o almoço, foram conhecer a cidade paraguaia do outro lado. Eu fiquei. Encontrei um mercado de pulgas e nele uma banca com livros. Uma edição completa das obras do Horácio veio até mim, fechada em envoltório plástico. Nova, sem uso. A edição era de má qualidade, as folhas e as capas não resistiriam ao uso e se soltariam. Conversei com o livreiro, também uruguaio, sobre o escritor, sabia detalhes biográficos, mas não o havia lido.  Barganhei um pouco, sem sucesso, e comprei os dois volumes. Hoje, estão encadernados.

 

Rio de Janeiro

 

A minha presença é indispensável em um negócio na cidade.  Marquei o compromisso para o final da tarde. E saí cedo, para passear. Seria a minha segunda viagem ao Rio de Janeiro em pouco tempo. Em ambas, estive só. A primeira fora para comprar um livro. Só existia um exemplar em um sebo. Pedira à vendedora que o reservasse, comprara a passagem e duas horas depois estava lá. Com o livro na mão, almoçara e viera embora. Agora seria diferente, queria visitar a Rua Cosme Velho, número dezoito. A casa de Machado de Assis, em que viveu por vinte e tantos anos. Cheguei bem cedo, tinha bastante tempo para encontrá-la. A imagem na memória era de um sobrado arborizado, com sótão e sacada no dormitório principal, no andar superior, feito de colunas torneadas de cimento, portão de lanças de ferro, com dez metros de frente para a via. Peguei um táxi e dei o endereço para o motorista, chegamos rapidamente e começamos a busca pelo número. A numeração não era regular, os números cresciam ou decresciam desordenados. Paramos no local onde o número deveria estar, caso obedecessem a algum critério. Um posto de serviços da Previdência Social, um prédio de estilo soviético, enorme, cinza, com uma guarita impedindo a entrada. O motorista perguntou onde era o número dezoito da rua. “Sei não, senhor.” Eu perguntei: “O senhor sabe onde é a casa em que morava o Machado de Assis?” “Ouvi dizer que era ali do outro lado da rua.” “Obrigado.” A numeração era ímpar do outro lado da rua. Além disso, nenhum prédio tinha semelhança com o que eu buscava. Talvez a numeração tenha se alterado com o tempo, a rua pode ter sofrido alguma mudança no nome ou na extensão. Seguimos adiante, para o local indicado pelo funcionário, e ali encontramos a Casa do Minho, um misto de casa de shows folclóricos e churrascaria gaúcha. Parei desanimado no estacionamento, mas resolvi subir um pouco mais a rua, imaginando qual seria o local aprazível que teria conquistado o escritor.  Parei em uma esquina, no sopé do morro, e vi uma placa de metal reluzindo em um muro. Um homem destrancava o portão para entrar, e perguntei: “Aqui é a casa de Machado de Assis?” “É sim, senhor.” “Posso entrar para ver?” “Infelizmente, não. Se fosse final de semana, até poderia, mas hoje os proprietários estão aí e não é possível visitar.” “É uma empresa?” “É uma companhia cinematográfica.” “Obrigado.” Desisti da busca. A casa era bem grande, totalmente diferente do que eu esperava. Não era, definitivamente, o número dezoito da Cosme Velho, que talvez tivesse sido ampliada, reconstruída, algo assim. Ele estava chutando. É comum as pessoas dizerem qualquer coisa ao invés do humilde “não sei”. Dei o novo endereço, meu tempo havia se esgotado.

 

Depois de voltar, fiz uma busca sobre a Rua Cosme Velho, 18. Encontrei um site com esse nome. Nele havia, além da biografia e bibliografia, a informação a respeito dos objetos deixados pelo autor em testamento ao seu compadre: um jogo de xadrez esculpido em madeira (existindo apenas seis no mundo, sendo este o único na América do Sul); dois meios-armários; duas cadeiras pequenas; uma mesa de chá com a figura de O Anjo da Noite; uma mesa de jantar com dez cadeiras; um aparador grande; dois aparadores menores; um leito de casal; um lavatório; uma mesa; uma escultura; um caldeirão; um quadro, óleo sobre tela, de autoria de Roberto Fontana, intitulado A Dama do Livro; uma impressão emoldurada com os nomes dos trinta amigos que se cotizaram para presentear o escritor com o quadro A Dama do Livro; um recorte emoldurado do soneto feito por Machado em agradecimento aos amigos que lhe ofertaram o quadro, publicado no jornal A Gazeta de Notícias de 18 de abril de 1895; um quadro, óleo sobre tela, de autor desconhecido, representando uma marinha; uma reprodução fotográfica do quadro Retrato de Mme. Récamier, de François Gérard, ofertado ao escritor por Graça Aranha; cinco pastas contendo documentos.

Não creio que seja necessário explicar muito mais. Basta mencionar que esse acervo ficou jogado durante muitos anos, dividido em lugares diferentes, até que fosse reagrupado graças à iniciativa de outro escritor, que, diante do estado lamentável, desmontou todas as peças para restaurá-las. Hoje, estão exibidos, em condições normais de temperatura e pressão, protegidos da umidade, do passar do tempo e das visitas, no prédio da Academia que ele fundou num século passado.

 

 

São Paulo

 

Em última análise, parece-me que devíamos ler apenas livros que nos mordam e firam. Se o livro que estamos a ler não nos desperta violentamente como uma pancada na cabeça, para que nos havemos de dar ao trabalho de o ler? Para nos dar felicidade, como tu dizes? Por Deus, seríamos igualmente felizes sem livros nenhuns; em caso de necessidade, podíamos nós próprios escrever livros que nos tornassem felizes. Do que precisamos é de livros que nos atinjam como a desgraça mais dolorosa, como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós próprios, que nos façam sentir como se tivéssemos sido expulsos para o meio dos montes, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser a picareta para o mar gelado dentro de nós. É isto que penso. – Franz Kafka, carta a Oscar Pollack, 1904.

 

Às vezes, as pessoas creem que ir ao lugar onde determinada pessoa nasceu ou viveu possa transmitir algo; que botar seus olhos na mesma paisagem trará as mesmas recordações. As viagens que fiz poderiam ser assim interpretadas. Poderiam, também, servir como demonstração da minha debilidade diante da disposição alheia de apenas engolir velozmente aquelas paisagens. Ou, ainda, a forma sentimental de culpar o insensível degrau, ou as escadas, pela minha impossibilidade. Por outro lado, as viagens através das eras levam ao desprezo do nosso horizonte e das pessoas que vivem e respiram o mesmo ar do nosso tempo.

 

Fui receber o escritor saído do interior do país. Como não nos conhecíamos pessoalmente, combinamos um local depois de fazermos uma descrição mútua e sumária. As horas passaram, as portas desceram, os funcionários, os empregados saíam. Tarde da noite, alguém desceu a escadaria com uma mochila nas costas vagueando pelo lugar, olhando de um lado para o outro. Era ele. Nós nos reconhecemos pelo olhar, depois de uma breve hesitação. Ele vinha para assistir ao show de sua banda preferida e ficou hospedado em minha casa.  E, pela primeira vez, convivi com um escritor.  Eu acordava de madrugada para ler. Ao sair do banho para ir ao trabalho, lá estava ele: escrevendo, sentado à mesa com seu caderno. Chegava à noite e ele estava sentado, lendo ou escrevendo. As conversas e a grande coincidência de interesses, de comportamentos e de temperamento não vêm ao caso e os pouparei disso. No entanto, suas atitudes exibiam algo que, apesar de conhecer através dos livros, não havia sentido, visto, presenciado. A busca da palavra, o afinco necessário para encontrá-la. E encontrar não descreve, nem resume, nem explica o processo.  Não basta encontrar; depois de achada, ela tem que expressar, por menor que seja, o inteiro significado do que se quer dizer. Na frase, no parágrafo, no texto. E o processo de reescrever se inicia. Incessantemente. Essa vivência ilumina. Transforma.

 

Nós nos tornamos amigos e hoje ele mora em São Paulo. Convivemos de muito perto, eu o incentivo sempre a viajar, para conhecer o mundo, e ele me incentiva a escrever, a encontrar e conhecer a palavra. Ele tem uma vida de trabalho, como a minha própria, mas ele passa o dia inteiro escrevendo. Não faz nada além disso. Focado. Mesmo sabendo que seu trabalho não é bem remunerado na imensa maioria dos casos, ele não se importa. Mesmo sabendo que não encontrará nenhuma verdade, não receberá nenhuma revelação, isso não importa, ele escreve. Ao comentar com entusiasmo um de seus autores favoritos, Thomas Pynchon, disse: “Os livros dele são um exemplo de liberdade, de que se pode escrever qualquer coisa. Não importa o quê, importa como”.

Os tempos são outros, a literatura parece viver em um gueto, no caldo insosso da palavra falada e da miscelânea das imagens. Vivemos dentro de uma multidão de seres que não se interessam por ela. Aleijões sentimentais. Como desde muito cedo ele encontrou e escolheu a sua vocação, não se adaptou ao mundo. O fato de vivermos em um é um mero detalhe, ele tem o seu paralelo e faz contatos breves e intermitentes, para rir, assistir a uma partida de futebol, ir ao cinema. Cinema é outra paixão e, se tiver tempo, quem sabe um dia dirigirá um filme.

 

Temos a mesma rotina, com objetivos diferentes. Ele dá vazão ao ser que o habita e o aperta como uma esponja e deita o líquido no papel pautado, em letra miúda, garranchos de cor preta ou azul. Fica seco. Vazio. É esse vazio que o anima, transfigura. Não se deixa distrair. Eu sou um distraído.

Hoje ele me ligou para dizer que na TV passaria um documentário inédito sobre a vida e a obra de Fellini, não perca. E brincou: não vi e já gostei.

Acreditar também faz parte de uma espera [...] Estou falando realmente de um estado de alma, de um estado cotidiano no qual essa sensação de espera nunca me abandonou. Se o senhor me perguntar o que é que eu espero, vai me complicar. – Federico Fellini, em “Eu Sou um Grande Mentiroso”.

         Eu? Eu sou um distraído.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ave do Paraíso

 

…nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências vai se anulando e negando a si mesma em sua aparente repetição até que nada seja nada e ninguém seja ninguém que tenham sido antes, e a frágil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e veem e sabem o que não se diz nem sucede nem é cognoscível nem comprovável.

Javier Marías.

 

Na superlotada sala de espera, a tela muda exibe uma ave de plumagem multicolorida, intensa, irregular e espetada, dançando freneticamente, saltando adiante e para trás sobre o galho de uma árvore perdida no tempo e no espaço; em seguida, há um corte e vemos outra ave, menor e de cor monótona, tom sobre tom, que parece avaliar aquele show de calouros; novo corte, e outra surge, com plumagem diferente da primeira, na forma e nas cores, bem como nos passos da dança; um quarto e último corte para a “monótona”.

Essa sucessão de imagens me traz à mente o documentário sobre as Aves do Paraíso, habitantes na Nova Guiné. É o mais impressionante, belo e artístico exemplo de exibição para conquista sexual que presenciei. Parece que os machos dessa espécie exibem plumagens diferentes. Aqueles que têm plumagem idêntica à da fêmea são condenados a cuidar da prole, formando um casal. Os “artistas diferentes” tomam seu rumo após a conquista, deixando a fêmea solitária e com o filhote.

A vivacidade contrasta, violentamente, com a apatia do ambiente em que estou, intenso em linhas retas, de poucas cores, muita gente com a atenção voltada aos telefones. Não se ouve nenhuma conversação. Há os que olham para o chão e os que folheiam revistas velhas e manuseadas, raramente um livro. Às vezes, escuta-se o ruído de uma folha rasgada, de uma página dilacerada enfiada no bolso ou bolsa, sem nenhum pudor, assumindo todos os demais como cúmplices.

 

Acende-se um número no monitor: o meu. Sou atendido por uma moça, nova, de olhos negros e faiscantes, melancólica, o rosto sorridente é o escudo para a expressão cansada do corpo. O exame exige que eu tire a roupa e me deite em uma cama móvel de metal, encimada por um equipamento que percorrerá todo o meu corpo. O médico descobriu que tenho osteoporose e quer saber o quanto de massa óssea eu já perdi. Os preparativos são demorados, o lugar é frio e a máquina, ameaçadora. O silêncio torna todas as sensações muito concretas, quase corpóreas. Ele é estilhaçado pela minha voz: “Gosta do seu trabalho?”. “Ah, eu amo o que faço.” “Faz tempo?” “Dez anos.” “Você mora perto?” “Santo André.” “Puxa, é tão longe de Moema.” “É. Levo uma hora e meia, de moto. Quando saio cedo, é rapidinho. E, como trabalho em dois empregos, o dia passa depressa, quando me dou conta já estou em casa novamente, à noite. O outro emprego é na filial deste laboratório, a que atende a clientela mais humilde, de baixa renda.” “E o atendimento é diferente?” “É diferente, moço, os equipamentos são descartes daqui, a equipe é bem menor, e a fila de clientes, muito maior.” “Como você descobriu sua vocação?” “Comecei como atendente e fui me encaixando em posições e salários melhores. Fiz um curso técnico de instrumentação, e consegui meu lugar atual. Apesar de gostar daqui, a firma fez um acordo comigo uns tempos atrás e fui demitida. Sabe aquela vontade de melhorar? Indenização, direitos, e coisa e tal. Com a grana, comprei um salão de beleza, perto de casa, e comecei a trabalhar por conta. É uma coisa bacana trabalhar sem patrão, a gente tem mais entusiasmo; comecei a guardar um pouco de dinheiro, para cuidar do meu futuro, sabe como é?, casar, ter filhos, casa própria, essas coisas que dão segurança, calor e alegria.” “Mas, menina, você já trabalha em dois lugares, como você consegue estar no terceiro?” “Ah, não, não. Quem cuida do salão, agora, é a mãe. No começo, eu cuidava após deixar meus empregos, mas tive que abandonar depois de um tempo e lutar para ser readmitida. A minha irmã caçula arrumou duas crianças, e foi na sequência abandonada pelo pai delas. Ele não quis saber da responsabilidade. E o senhor acha que posso deixar minhas sobrinhas na pior? Ah, elas são tão lindas. Tomo conta como se fossem minhas. Minha irmã, coitada, é uma largada, desanimada, faz algum servicinho de casa (lava, passa, cozinha). Raspei o fundo do tacho das economias. Mas elas todas estão bem. Com o tempo tudo se resolve. O senhor não acha?”

 

 

Enquanto a ouvia, calculava: seis horas aqui, seis horas no outro emprego, uma hora para almoço, feito sanduíche de mortadela em cima da motoca, três horas de trânsito, ida e volta, tudo isso totaliza dezesseis horas. Oito horas para dormir, jantar, arrumar suas coisas, ajudar a mãe nas contas e problemas do salão, além dos problemas da irmã. Porque essa mulher não mandou tudo ao diabo que o carregue e cuidou só da própria vida? Será que ela quer algum? Ou é tudo uma exibição?

“É, com o tempo tudo se resolve, claro”, eu disse, tentando animá-la. Será que sabemos se possuímos esse tempo necessário? De vez em quando, desce a impressão de que a vida é uma corrida de esquina em esquina, sem noção, e podemos ser pegos, a qualquer momento, por uma bala perdida. E pronto. Lá se foi o tempo. “É verdade, seu moço, mas a gente tem que fazer o correto, né? Pronto, terminei o exame.” “Você pode me adiantar o resultado?” “Posso, mas não devo, o senhor tem que conversar com o médico. Desculpe.”

 

Tempos atrás, ali perto, na Berrini, presenciei a cena da perseguição de um velho por uma turba de gente. Um apedrejamento. Ele tentava alcançar abrigo, uma casa feita de tábuas, precária, buraco construído sobre pedaços de frases sem sentido. A distância entre ele e os perseguidores diminuía a cada momento, ao passo que aumentava a distância entre a porta do buraco e o velho. O coitado sacava do medo força para correr, estava prestes a se render. Mandei o motorista parar e, quando toquei o trinco da porta para sair, ele me segurou pelo ombro, gritando que eu estava louco, que morreria ali mesmo na avenida, caso eu me metesse naquela confusão.  “Qual era a minha chance?” Assim que eu pusesse o pé fora do carro, ele arrancaria e me deixaria ali. Estava sério e exasperado. “Me desculpe, mas que tipo de herói é você?” Socado na boca do estômago, fechei a porta entreaberta e saímos dali.

A conversa com aquela enfermeira trouxe de volta essa cena. Ou talvez fosse a proximidade dos locais, ou apenas a tentativa de encontrar o meu verdadeiro rosto?  O só vá até onde puder aconselhado pelo meu pai.

 

 

Meu pai era um defensor ardoroso dessa estratégia. Vá até onde puder. Para mim, até então, essa metáfora não passava de uma frase solta no ar. Quem pode ir além? Ela ganhou densidade, corpo e história ao sairmos juntos de um almoço, depois de passarmos um bom tempo no Amigo Fritz, onde bastava ele chegar para que o almoço viesse correndo nas mãos do garçom. Sempre o mesmo prato. Após alguns minutos sentados, a cerveja estupidamente gelada apontava lá no fundo apoiada em uma bandeja e logo atrás dela o roxo do prodigioso nariz de Albert, que se espalhava em tons de vermelho naquele rosto comprido, até se desfazer contra o amarelo dos cabelos escassos. Uma segunda corrida com o repolho, as batatas e salsichas. Enquanto comíamos, ele guardava posição de sentido, contando os casos ocorridos. O do mendigo, que morrera dois dias antes, enquanto dormia sob a marquise que desabara no prédio ao lado.  “Nossa, quanta gente se juntou para ver.” E, apesar da conversa, o serviço era impecável, o copo jamais ficava quente ou vazio. Meu pai seguia uma rotina infalível. Parecia gostar disso, uma vida sem acidentes. Ignorava o acaso, fazia dele algo distante de si. “O mendigo é bem estúpido, não se deve dormir debaixo de marquises. Aliás, se não fosse estúpido, não seria mendigo.” E a conversa, invariavelmente, derivava para anedotas e casos engraçados. Enquanto ele se despedia de Albert, eu vi uma pessoa entrando no nosso carro e o chamei, avisando que estávamos sendo roubados. Ele se encaminhou calmamente em minha direção e confirmou o fato, enquanto o carro arrancava. E me mandou entrar. “Mas, pai, você não vai fazer nada? Corre lá, quem sabe a gente alcança o cara no farol.” “Que coisa mais estúpida! Pra quê? O carro está no seguro. Vou ligar pedindo o carro reserva e vamos pra casa. Cada um faz a sua função, faz aquilo para o que nasce. Esse é o tamanho da felicidade de cada um. Vamos entrar e tomar uma cerveja enquanto esperamos.”

 

 

Saí dali, peguei a Avenida República do Líbano em direção ao Ibirapuera e encontrei uma menina na calçada, às oito e meia da manhã. Bonita, negra, alta de pernas compridas, saia curta. Estava confuso, com fome, em jejum. Estacionei o carro, esperei ser abordado. “Bom dia. Está querendo se divertir?” “Quanto?” “Setenta” “Entre.”

O meu pensamento voltara àquela sala gelada, àquele sorrir triste, queria me livrar daquilo, o sorriso dessa garota é o mesmo, o olhar também é brilhante, doce (é negócio, cara, não é doce, é enjoativo, se liga!) “Vira na próxima à direita, o hotel é logo ali.” Entramos, ela se dirigiu ao banheiro. Eu me desloquei para o acidente no Rio, ele se repete uma vez mais, a mesma cena já repetida centenas de vezes, em câmera lenta.  Primeiro, o choque do rosto no para-brisa, surgido na minha frente do nada, é só o que vejo, depois o corpo que se choca com meu carro, e a mulher é lançada metros adiante. Não, eu não vinha correndo, estava em velocidade regular. Como é que pode alguém atravessar a rua desse jeito? Breco o carro imediatamente. A minha mão abaixa a trava de segurança do cinto, faço menção de sair do carro, olho no retrovisor e vejo uma pessoa correndo em minha direção, de boca aberta, gritando, falando alguma coisa, olho no outro espelho, um monte de gente corre também, vinda da praia, da ciclovia. O farol lá na frente me chama: verde, vem. Vou ser linchado. Ninguém vai querer ouvir nada. A batida não foi tão forte.  O pé direito assume o comando automaticamente e pisa forte no acelerador. Saio voando. Sigo pela Vieira Souto até a primeira à direita, entro na primeira rua que dá mão, cantando o pneu, assustando as pessoas que estão por ali, todos me olhando. De novo, olho no retrovisor, procurando algum carro que esteja me seguindo, olho pelas calçadas para saber se alguém vem correndo ou se há alguma gritaria. Nada. Não consigo disfarçar ou diminuir a marcha, continuo correndo até que o meu coração deixe de querer explodir no peito.  Depois da eternidade feita de minutos, descubro-me no Jardim Botânico. Estaciono junto ao meio-fio.

 

“Você não vai tomar uma ducha? Está todo suado.” “Não, obrigado.” Uma mulher atropelada no Rio não é manchete de jornal, talvez, no máximo, uma nota de pé de página.  Assistia à tevê diariamente, acompanhava o jornal, e não encontrei nada a respeito. Não era ninguém importante, filha de político, bicheiro, empresário. Uma mulher comum. Ainda bem. “Olha, benzinho, desse jeito tá difícil, venha para cá.” Depois de terminado, olhei para ela. “Qual é o seu nome?” “Ângela.” “Você tem nome de anjo. Mensageira.” “Não sei, mas as pessoas gostam de mim.” “Por que você não descobre a cintura, e essa saia, por que fica com enrolada na cintura?” “A minha barriga é feia, tem uma cicatriz, de uma cirurgia mal feita.” “Você acha que alguém vai reparar?” “O meu corpo é meu patrimônio, tenho vergonha de mostrar esse defeito.” “É, de fato, ninguém gosta de mostrar suas fraquezas.” “Mas você é tão bonito, perfeito. Seu equipamento é de primeira linha: GG” “Ângela, deixa de onda, peça uma bebida pra gente.” “Tome você, eu não bebo em serviço.” Enquanto ela se levantava, mostrando sua bunda redonda, bem delineada pela faixa na cintura, refleti se não poderia servir como minha confessora. Afinal, era uma estranha, não havia nenhuma ligação, sequer sabia o meu nome, não preenchi ficha alguma, era uma tentação. Quem sabe posso encontrar um alívio? A palavra como exorcismo. Liberação. O que ela vai me dizer? Você tem cara de ser esperto mesmo. Rico não vai preso. Dos homens você foge, e da sua consciência? Lugares-comuns. Nada disso me ajudaria a resolver a questão. A enfermeira, quando contou sua história, despertou essa recordação. Mexeu comigo, me humilhou. Ângela seria uma boa confidente. Ou condenação certa, ou demonstração piedosa, pedindo que eu me arrependesse. Com ela poderia me defender. Talvez ela dissesse algum lugar-comum. Desfiando sentimentos comprados em supermercados?  Ouvidos na novela das nove. E se ela dissesse: Você foi um cagão de primeira. Devia enfrentar as pessoas porque estava com a razão. Mas, ouça bem, coragem só aparece em quem tem. É verdade que a justiça dos homens é falha, mas qual é o problema? Você vai morrer mesmo, cara. Ou sofrer um enfarte saindo daqui e plof. Acabou. É vantagem de fugir da engrenagem? Ela vai te pegar mais adiante. Ninguém escapa. Caso ela falasse assim, eu ficaria chocado. Ela estaria mentindo, e para si mesma. Aquele rosto era uma máscara. Mentirosa como eu mesmo sou. Pensar assim é fácil. Agir assim no calor é diferente. A sua história, ou era uma adaptação feminina da dança da ave-do-paraíso, para uma cantada, ou um conto moralista para provocar piedade. Piedade só vale se é gratificada. E esse é o caso dela. Eu acabava de descobrir que era mesmo um covarde. Tão covarde quando o motorista que me impediu.

 

Não, não contaria nada para Ângela, não valia a pena incluí-la nessa busca. A moral e os fatos são passageiros, e tudo estará mesmo derruído em um futuro bem próximo.

Quando ela voltou, depois do segundo banho, me olhou e, julgando-me mais sereno, ofereceu uma segunda, “a dose do santo”. E gastei toda a minha força, renascida, dentro daquela fenda.

Deixei-a nas proximidades do local onde a pegara, e ela se despediu, deixando um número de celular, avisando da disponibilidade nos dias úteis, horário comercial, exceto segundas-feiras e Sexta-Feira da Paixão. Guardei dela o gesto de retirar do maço de notas de cem, que lhe ofereci, o valor que ela quisesse. Perguntou-me se poderia revistar minhas roupas. “Claro.” Sem descobrir nada, contou todas as notas: dez. Retirou cinco. Para que eu não ficasse sem dinheiro, explicou.

Até onde ela foi com esse gesto?

 

 

Interlúdio: “arrasto emocional”.

 

 

 

Dias atrás você me disse que eu sou enigmático. Ou dividido entre duas pessoas. Talvez até mais, eu poderia dizer agora. Sim, é verdade. Essas impressões que você obteve ao ver o meu lugar (o meu blog, e meus escritos) também são enigmáticas. Pessoas com uma grande sensibilidade também são e causam essa impressão, para que tudo e todos fiquem mais enigmáticos ainda.

Não vejo nenhum problema nisso. Percebo, ao contrário, que os enigmas aumentam à medida que vivemos.

Outro dia, você pediu que eu mandasse um resumo de minha vida. Juntei uma série de fatos, cronológicos apenas. Deles se extrai o quê? Que posso dizer de mim? Aprecio o gesto de estender um tapete, escolhido com muito cuidado, a dedo mesmo, e nele, cabendo nós dois, desfiarmos um papo, mesmo fiado, sem importância, relativo a essas duas pessoas que têm disposição para conversar. E isso é o que importará. “Viver a vida em voz alta.”

E, assim, o gesto se torna natural, mais belo, confortável, e melhor que explicações, ou mesmo que eu retribuir e lhe pedir explicações ou notas sobre a sua vida. Por maior que seja a boa vontade, e ela existe, eu sinto, eu sei; explicar não explica, serve apenas serve para propagandear, ou algo semelhante. E seríamos publicitários. Vendedores.  Isso acontece pela nossa natureza, da qual não nos afastamos jamais. Afinal, quem gosta de falar dos seus defeitos? Das suas doenças e fraquezas? Eu tenho tantos e tantas, e sua descrição e motivação tornariam esse texto interminável. Monótono.

Essa sensação de que sou um quarto arrumado, é a minha também. Narrativas e fotos.  Algo que acontece comigo regularmente. E não sei explicá-la. Talvez seja para compensar a minha bagunça mental, onde tudo está tão desarranjado que preciso de uma ordem aparente, em algum lugar, para ficar mais tranquilo. Talvez seja o medo da morte, que exige que eu deixe tudo arrumadinho, compensando as consequências dessa surpreendente e inevitável visita, e não me encontre deitado e descomposto. Poderia, também, ser apenas uma falha de caráter, um exibicionismo valorizando a razão. E já que é para valorizá-la, continuando um pouco por essa vereda, concluiremos que ela não nos serve para muita coisa, além da sobrevivência. Se é que isso é importante.

Disse um poeta, um dia, tempo atrás, que o homem jamais deveria interrogar os deuses e as mulheres sobre seus segredos. E essa frase é muito linda de esperta. Emocional. Sensível. E fui aprendendo, com os dias, a deixar a razão de lado na maior parte do tempo e curtir meus (nossos) sentimentos. Proponho, então, quedarmo-nos sentadinhos aqui. Falando de cozinhar, de música, de poesia, de livros (sim, eu tenho uma versão digital do meu livro e tenho uma versão impressa – que posso enviar para alguma caixa postal, caso você queira, com o maior prazer.). E, ao falar desses assuntos, encontraremos um pouco da beleza que está espalhada por esse mundo vasto, e dela tirar alegria algumas vezes por dia. Ela, a beleza, não se deixa apreender por muito tempo. Ela é fugaz e se esconde depois desses instantes. Eu e minha obsessão a perseguimos. E tenho (temos?) a vaidade de tentar prendê-la por um bom tempo.

Outra coisa que me prende: o carinho. Sou viciado nele. E faço todo o possível para obtê-lo. Todo mesmo. Assim, pessoas como você, preenchidas desse mesmo sentimento, me atraem. Me chamam para perto de si. E não tenho a menor dúvida, a menor vergonha, o que é raro, e me aproximo e converso e troco, rio, me emociono e me deixo prender.

Não conseguiremos encontrar as causas que perturbam os seres. Elas estão juntas, misturadas, em um verdadeiro novelo. Não encontraremos também nenhuma surpresa, a não ser as nossas próprias, que nos fazem rir ou ficar perplexos. Apenas nos quedaremos sentados no tapete de vez em quando, e, distraídos, perceberemos algum traço, algum desenho nele. Saberemos que nada é nossa propriedade, apenas desfrutaremos do passar do tempo. Sentando nossas bundinhas nele, concluiremos que ele é macio e confortável para tomar um café, e trocaremos um olhar enigmático, simpático e festivo. Falaremos, além dos pratos, do nosso paladar, do nosso toque, da nossa visão, curtiremos os odores, e oferecerei uma semente de cardamomo, para curtir o seu sabor.

Quero respeitar a sua vontade para comentar, bagunçar, tirar do lugar alguma peça. Esse momento é nosso e de ninguém mais. Ainda que, depois, você se arrependa e coloque tudo de volta no lugar.  Não há problema. Mesmo que eu arrume novamente, quando você sair. Não há problema. Ou mesmo que ele fique assim, também não há problema. Quando você voltar aqui, tudo estará em outro tempo. Proponho que procuremos apenas beleza nas coisas, utilizando o carinho como câmbio; tudo ficará melhor assim. O mundo já é suficientemente feio sem a nossa ajuda, então não precisamos ajudá-lo nessa tarefa horrível.

Sem expectativas, sem desejos, e sem sofrimento. Curtir a forma magnífica dos objetos pela mão ou pela expressão dos artistas.  As letras ou a melodia das canções que você escolheu ou cantou, como interpretar a beleza de uma foto.

Em outra mensagem, você menciona que sentiu falta das minhas fotos diárias. Hoje, ao abrir esse computador e antes de escrever, passeando, encontrei e mecanicamente publiquei uma foto. Composta, quebrada em duas imagens. A primeira, à esquerda, retrata o lugar onde a criança dorme, e a segunda, de corpo inteiro, mostra a criança no seu dia-a-dia. Pronto. Está lá.  Encontrei nela algo de sagrado, de etéreo, de eterno. Ela abre e apresenta aos nossos olhares um lugar, um lago distante, muito além da nossa compreensão, místico. E, sem nenhuma dessas palavras, mostrou tudo o que eu pretendia dizer. O sentimento que me invadiu foi o de destruir essa mensagem, por inútil. Apenas por desrespeito à beleza de que falei acima, por uma questão de redundância ou presunção é que não faço isso e a envio. Fique sentada aqui comigo. Basta isso.

“Tudo aqui é tão terno que é como se pisássemos no ar, e não em chão firme.”

“Na reverberação do sol, a planície parecia uma lagoa transparente,
desfeita em vapores por onde se transluzia um horizonte acidentado.
E mais além uma linha de montanhas.
E mais além ainda, a mais remota lonjura.”
- Juan Rulfo
Sol: o sol intenso como jamais o havia sentido. Ele abria os desvãos, eliminava as sombras, destacava todos os detalhes; os azulejos rachavam, trincando seus desenhos, os trincos das portas ardiam, as pedras do chão martirizavam os pés descalços, os muros refletiam seu calor, tudo parecia arder nas retinas. Ele desceu alguns degraus com bastante dificuldade. Praticamente fora obrigado a fazê-lo, a não ser que considerasse a alternativa de voltar pela linha de asfalto que o trouxera por mais de três horas e meia, entre palos verdes e saguaros, de escassos verdes e imensos cinzas, vulcões extintos, minas desativadas de cobre e parques nacionais (Altar). Três mulheres, de aspecto viril, irromperam saídas da construção, a pele com a cor do pão torrado, tomando água em pequenas garrafas. Despreocupadas, avisaram aos viajantes que a casa estava arrumada, conforme as ordens do señor… (pronunciaram um nome que ninguém compreendeu), alertaram também que havia um pequeno problema de falta de água durante o dia. Entretanto, dizem com um esboço de sorriso, não há motivo para preocupação, durante a noite a água volta em abundância.
A casa se revelou fresca. Para tanto bastou abrir as janelas, descortinando o mar, que saudou os viajantes com suas boas-vindas ventadas e rugidas desde sempre, e se revelou imenso, aberto, azul-escuro, verde e azul-celeste no juntar-se com o céu sem nuvens. Fazia lembrança do dia perdido em que alguém ou algo os separara. Olharam para a direita e para a esquerda, acompanharam a estreita e sinuosa faixa de areia que se alongava até onde a vista alcançava. Ela recebia o mar, suas ondas, o beliscar do brilho do sol, o remanso desfeito em dedos e espumas brancas, rastejantes e dóceis. Uma pequena cabana de sapé fazia sombra sobre o retângulo de areia, e tirava dela a sua utilidade. Um deles, apertando a vista, viu três picos brancos aparecendo na linha do horizonte e um triângulo solitário,,perdido entre reflexos. Nada além disso. A construção se debruçava alta, acima do quebra-mar, enfeitado com um enorme osso de baleia; para atingir a praia, havia uma interminável escarpa, escavada em irregulares e precários degraus de madeira.

Cada um dirigiu-se ao seu quarto. Ele não trouxera roupa alguma. Deitou-se um pouco. A mobília era constituía por uma confortável cama de casal, um armário com livros, escondidos no fundo de uma estante, e um aparelho de tevê. Nenhum quadro nas paredes. A única decoração era a cabeceira da cama: desenhada com motivos primitivos multicoloridos, lembrando as faces quebradas e quadradas desenhadas pelos astecas, o cenário dominado pelo sol, radiante e raiado. Escondido atrás de uma porta, o banheiro com seu piso revestido de uma fina camada de areia.

O homem e as três mulheres fugiram da cidade, da peste que a invadiu e os amedrontou, e ali encontraram refúgio, segurança, isolamento. Combinaram não fazer perguntas, apenas conversar, contar histórias, aquelas que sentissem necessidade de compartilhar, não para ouvir comentários ou receber conselhos (que valem exatamente aquilo que se recebe por eles), apenas como desabafo. Viveriam por algum tempo apenas o momento. O passado e a memória apareceriam apenas em forma de relato, o futuro não passaria de inúteis prognósticos e o presente, como um instante fugidio que se esvai no infinito passar do tempo.
As mulheres saíram para passear na praia. Ele se quedou naquele terraço panorâmico, não arriscaria descer as escadas. Percebeu que o mar avançava em sua direção, a praia se reduzindo a um fio. Olhou para o céu, distraído, e viu uma série de gaivotas voando de oeste para leste logo acima dele. Elas formavam grupos de três até cinco, e era como se passeassem distraídas. Logo, ele notou que outros pássaros, pelicanos, também faziam o mesmo percurso. Ficou ali distraído, até que um desses últimos mergulhou dentro do oceano, para logo depois sair. Pescavam os peixes trazidos pela maré. Escolheram a casa como ponto de referência. Mais tarde, ao caminhar o sol para o poente, as aves faziam a direção contrária, e a maré vazante ampliava a faixa de areia, mostrava as pedras escondidas, fazia surgir lagoas efêmeras onde as gaivotas pastavam. Uma deixava cair sua presa, que logo era apanhada por outra. Algumas assediavam uma ave carregada, na intenção de fazê-la soltar a presa. Quando conseguiam, seu esforço era em vão, outra que vinha logo atrás já a apanhara durante a queda. Peixes morriam nas lagoas agora secas e pantanosas, pelo efeito do sol, e serviam de prato feito. Formando outro círculo acima daquela movimentada e retilínea avenida de duas mãos, ora o falcão de rabo-vermelho, ora a águia pescadora (açor) espreitavam em voos circulares, aproximadamente a cinco metros de altura. Repentinos como um raio, esses rapaces se atiravam vertiginosos como pinos, perto da água colocam suas presas adiante,agarravam suas presas, inapeláveis, colocando-as em paralelo ao seu corpo, diminuindo o atrito com o ar e desaparecendo. Ele descobriu o nome desses gaviões graças a um vendedor de pé-de-moleque, caiçara típico, que apareceu para oferecer sua mercadoria. Ele comprou três pacotes e recebeu a informação: “São aves cujas fêmeas são maiores que o macho, e mais  habilidosas na caça. Durante a época da procriação, os machos assumem a responsabilidade da pesca para a família, e a convivência dura cento e vinte dias, até os filhos ganharem autonomia”. Perguntou o nome daquele mar. “Mar Bermejo”, respondeu o vendedor.
Esperou até que elas voltassem. Deu-lhes o doce de presente e ajudou no preparo do almoço. Peixe e legumes. Os produtos estavam armazenados e a adega foi encontrada em algum lugar que ele ignorava. Frutas, vinho. Ficou encarregado de descamar e limpar o peixe. Depois de almoçar, resolveu cortar sua calça e vestir a camiseta de uma delas. Estava apenas com uma camisa de manga comprida, e que considerada inadequada para a ocasião: “Você parece doente com essa roupa toda”. Duas se recolheram aos quartos para uma sesta. “O sol cansa muito.”
A que restou se acercou dele, que estava sentado à sombra (a pele muito branca não suportaria nem cinco minutos de sol), lendo um dos livros encontrados, e foi pela primeira vez observada sem seu disfarce. Estava animada com a novidade da situação, com o isolamento, com a atmosfera leve que reinava por ali, e o passeio sob o sol a deixou com vontade de contar uma história que ouvira da mãe, ocorrida nos tempos em que “o dinossauro ainda estava lá”.
“A sua amiga solteirona, Níobe, cuja missão invariável é narrar sua história: a de como foi enganada pelos homens. Um em especial. Ela sempre trabalhou para ajudar em casa. E era no trabalho que pescava suas oportunidades. Uma delas, a que chegou mais perto de conseguir sua realização, aconteceu com o sobrinho do seu patrão. Num belo dia, apareceu por lá um rapaz com seus dezessete anos, paralítico, de muletas, gordinho, baixinho, cultivava costeletas parecidas com as do Barão do Rio Branco. Começou a trabalhar na sala ao lado, onde atendia e distribuía os telefonemas. Falante e risonho. A maneira dele se comportar fazia com que a maioria das pessoas se acostumasse com sua aparência; a maneira com que contava os casos engraçados fazia com que todos rissem; admiravam, ainda, a sua obstinação em conseguir tudo o que lhe era pedido. Ela, apesar de seis anos mais velha, arriscou suas chances e se aproximou dele, para ver no que dava. E deu. Após lidar com a aparência física dele e aceitá-la, ainda não sabia exatamente se ele era sexualmente ativo. Mesmo sem ter isso esclarecido, resolveu dar todas as chances para que ele se aproximasse. Nada. As coisas ocorriam em câmera-lenta, era como o andar dele, muito demorado. O rapaz, apesar dos sorrisos, parecia tímido. Até que um dia a chamou para jantar. Ela não estava acostumada a sair, tivera até então os seus casos, mas sempre interrompidos antes dessa fase. Tinha medo de cair em outra esparrela. Ela já fora levada na conversa por um espertalhão, perdera a virgindade. Depois disso, evitava comentários sobre sua vida amorosa. Esse episódio fora riscado de sua vida. Temerosa, mas confiante, aceitou. Ele era inofensivo. O jantar foi agradável, conversaram animados, beijaram-se na despedida. Depois de alguns dias, mais um convite, aceito de pronto. Daí por diante, ele investiu sofregamente, e encontrou uma resistência física extraordinária. Ela se cansava, exausta de afastar as mãos e fechar as coxas. Utilizou todas estratégias possíveis e imagináveis. Inútil. O tempo não existia para ele. O momento era sempre adequado. Passo a passo, ele venceu todas as barreiras com os mais variados, extravagantes e incansáveis gestos, sempre conseguindo dar um passo adiante. E outro. E outro, até o limite final. Ela, definitivamente, não dava e não daria, a não ser que ele prometesse viver com ela, casado, em uma ilha, isolados de tudo e de todos. Ela não conseguia mais sobreviver naquele lugar, na cidade; enfim, queria o homem apenas para si. Ele, a princípio, concordou com um movimento de cabeça, talvez para conseguir o que queria e empurrando a decisão lá para adiante. Primeiro, temos que fazer a nossa vida. ‘Viver do quê, de brisa? Amor e uma choupana?’ Ele, então, se tornou um voyeur. Diante da proibição dos toques mútuos, ele a fazia exibir-se. Como um diretor de cinema, fazia com que ela se entregasse aos seus olhos, como se a estivesse fotografando, ou dirigindo um filme. Ela confessou gostar disso. A intimidade aumentava rapidamente, e era cada vez mais difícil de conter. Ela foi promovida, ele foi promovido. Ambos passaram a controlar o faturamento e o caixa da empresa. Ele contava suas histórias tristes, de como era injustiçado, de como trabalhava tanto e ganhava tão pouco. ‘O mundo é injusto, mesmo. Só morando em uma ilha.’ Até que, um dia, ele pediu que ela emitisse um cheque sem a despesa correspondente. ‘Invente uma’, disse ele, ‘o dinheiro será usado para o nosso projeto comum.’ ‘Isso é um desfalque?’ ‘Que nada, isso é justiça!’ Ela inventou a despesa, o cheque foi assinado. Eles nunca mais falaram do assunto. Criou-se a rotina, e falar no assunto era doloroso e desnecessário; apenas apareciam os cheques, quando não eram pedidos, ela o lembrava disso. Faria tudo que pudesse para conquistá-lo, desde que não desse. Ficaram juntos durante cinco anos, nessa situação. Ela separou uns cheques para si, acabou comprando uma casa, levou sua mãe para morar com ela. Esse fato, casa própria, despertou nela uma certeza. Instintivamente, acedeu ao pedido dele. Cedeu. Fizeram uma festa no escritório mesmo, à noite, na volta do jantar. Ele abriu a porta, não acenderam as luzes, e transaram sobre o tapete da sala da Níobe. Durante o sexo, o patrão repentinamente apareceu, acompanhado da namorada, subiram as escadas, apanharam alguma coisa e saíram. Quando, afinal, ele gozou dentro dela.”
Folha de S.Paulo, domingo, 12 de setembro de 1965:
“Quando uma mulher sentir em seu coração o desabrochar de um terno sentimento por um homem e compreender que o mesmo acontece com ele, espere. Não se precipite. Mesmo que o seu desejo de casar seja grande, não se comprometa, fale-lhe francamente e com serenidade, pois todo o homem fica feliz, quando finalmente encontra uma mulher que lhe fala sinceramente de seus sentimentos sem se agarrar a ele com unhas e dentes, aflita por arrastá-lo ao casamento. Uma mulher que deseja esperar para poder bem aquilatar o seu amor é coisa tão rara que até parecerá um milagre e isso o fará admirá-la e querê-la ainda mais.
Essa espera sem compromisso é excelente e necessária por um motivo especial. Se com o tempo os dois verificam grandes incompatibilidades que não surgiram nos primeiros arroubos, a mulher poderá deixar partir o namorado, sem ter o ar de que foi abandonada. E poderá então aceitar a corte de um terceiro, sem ser tachada de leviana. Quando falamos aqui em casamento falamos em casar bem e não em casar a qualquer custo, apenas para não ficar solteira.”
Terminado o relato, pipocou em sua mente a associação entre o namorado e o ouvinte, ambos com a mesma condição física. Sentiu-se muito mal, procurava por uma saída honrosa. Quando se ouviu: “Socorro, socorro! Fui atacada por um cacto!”.

 

Autorretrato

 

Nos olhos já se vê dissimulada

Preocupação de si, e amor terrível.

A incessante notícia de uma luta

Com as panteras bruscas do invisível

É como a sensação de sede e fome.

Mudo, na cor translúcida da face

Já se insinua o pálido comparsa.

Na fronte existe um vinco que disfarça

Qualquer coisa… se acaso disfarçasse.

Mas não se vê o coração que come

O sangue espesso da melancolia.

Na boca, outro sinal de uma disputa

- Discórdia, dispersão e covardia –

E um traço calmo buscando a castidade.

No rosto todo, a usura de uma saudade.

Paulo Mendes Campos

 

 

 

 

Passados alguns anos do enterro do pai, encontrou um velho amigo. Este estava acompanhado do filho e conversavam, distraídos, sem animação, sobre um contrato a ser assinado. Órfão, lendo e tentando deixar a poesia entrar em si, encontrando sob o iceberg dos fatos armazenados o real significado de si, ouvia sem atenção a série de palavras expelidas por aquelas bocas amigas. Exibiram um maço de papéis escritos, e o significado deles, por mais que depusesse os olhos sobre, não lhe concernia, as palavras não serviam, não se intrincavam em linhas e significados, recomeçava a leitura, enquanto os outros se calavam, aguardando o seu parecer a respeito. Ele gostou daquele momento de paz. E se ausentou.

A grande sensação que o assaltou foi a da inevitabilidade da morte. Ela o atingira profundamente ao levar seu velho. Aquele com o qual jamais trocara palavras sem significado, mas amizade e carinho, sem levar ou ser levado a qualquer lugar: tudo se resolvia em uma demonstração de afeto humano. Não, todas as palavras que trocaram, obrigatoriamente, tinham que significar algo transcendente que valeria, dali por diante, para assegurar seu futuro, suas responsabilidades, como se ele, pai, fosse o Oráculo de Delfos, sempre disponível para adivinhar seu futuro. Mas, para quê? O futuro é a morte. Talvez tenha sido esse o grande sentido, que em geral os oráculos revelam por palavras interpostas e arrevesadas.  Percebeu as lágrimas descendo sobre as faces, primeiro tímidas, escapando uma a uma da sua prisão [tira os óculos, alega uma conjuntivite, que droga], mas logo depois rebentado, descendo em cascatas brilhantes, salgadas, rios de amargura que afastaram os interlocutores mudos da sua dor [não sem antes pegar o documento que trouxeram para a análise e avisar que alguém passaria depois para lhe fazer uma surpresa]. E se viu sozinho, sem ninguém por perto. Incomensuravelmente só. Não conseguia sequer saber em que lugar estava. Ao redor, tudo limpo, seco, sem som, sem eco, sem céu. Pela primeira vez, estava só. Queria, precisava se lembrar de tudo que não ficara gravado em sua memória, de tudo aquilo que estava submerso nos fatos que relembrava, é era isso o que importava. Nadaria naquelas águas geladas azuis profundas. Era o que de fato possuía relevância em sua vida: encontrar aquilo que estava sob a água, e que geralmente, como nos icebergs, é oitenta, setenta por cento daquele pedaço de gelo que se deixa mostrar. Mas, tampouco é algo que se aprenda ou se mostre com as palavras; é algo anterior a elas. Seu pai, como pálido comparsa? Aquele que se revelou em uma fotografia antiga, roubada de um parente que a guardava em suas gavetas estéreis, mofadas. Festa de natal, em branco-e-preto, anos idos, e o pai com o mesmo olhar longínquo, o mesmo olhar em que se pegava depois de momentos de silêncio e abstração como no começo desta história. E ele entrou naquele cromo, transformou-se em pai. Viveu aquele momento. Cheio de parentes ao redor, irmã, pai, mãe, tios, tias, primos e primas, todos formando uma pirâmide para se enquadrar dentro daquele foco a ser guardado para a posteridade. Todas as relações familiares, transformadas em relações de poder e de interesse. Existia uma segunda agenda, que seria revelada oportunamente, mesclada ao amor filial. Todos desgarrados do seu lugar original e submetidos ao tratamento de choque de obter o sustento, a qualquer custo, e todos os sentimentos foram afastados como móveis velhos a serem encostados contra paredes nuas, sem serventia, para formar um palco onde se encontrariam os pares provisórios que por alguns minutos se harmonizariam em corpos perfeitamente complementares, sem nenhuma fissura que os separasse, apenas dançando a música ambiente, exibindo uma comunhão que mais tarde se revelaria impossível. Ele, o pai, e agora pegando outra foto, olhando o pai afastado do foco principal, observando também a mãe avó, separados pela mesa farta de Natal, um defronte ao outro, rindo exagerados, mostrando a alegria [mera dádiva de estranhos]. Em casa, nunca se via nada igual, apenas silêncio. Um tio contara que o pai avô era muito mulherengo, tinha várias muitas mulheres e pelo menos duas famílias. Para eles: usura de uma saudade. E descobriu, como um raio caído do céu: jamais conheceu o pai. Assim como o pai jamais conhecera o avô. Era filho, neto e bisneto de desconhecidos. Apenas relacionou-se com um corpo, desdenhando de todos os sentimentos filiais. Era um amigo distante, que jamais pôde, quis ou conseguiu participar ativamente da vida daquele que gerou. A mistura entre os sangues resultou em um ser anônimo, estranho, e que para cada um deles sempre era o outro, o estranho, o inatingível. Era esse o significado da orfandade: ela sempre existira, sempre estivera presente. Mesmo quando o corpo tinha vida, ele não tinha sentido. Agora sem vida, o sentido se revelava por inteiro: oco. Essa foi a explicação do vinco invisível que disfarçava coisa alguma. Ele só conseguia conversar com a imagem de seu pai. Com os fatos exteriores captados por uma lente fotográfica. Por isso, quem sabe, ele passava horas e horas vendo álbuns de fotografias de estranhos, milhares de imagens das quais ele jamais conseguira sonhar que significado tinham, apenas as escolhia por uma ruga, um detalhe, uma cor, um olhar. Em sua grande maioria, imagens sem rosto, ou de costas, ou cobertas com os cabelos, sempre em lugares isolados, outras mostrando apenas a parte inferior do corpo, com pés próximos, sempre de corpos diferentes. Se algum clarão de luz havia, era para mostrar a sombra que fazia no chão. Adorava a imagem que vinha do fotógrafo de Gotemburgo.  Mostrava sempre os rostos lanhados, com expressão grave: foi neles que encontrou o mapa do tesouro. Era ali, naquela prega anônima, que estava a grande revelação. Foi filho de um estranho. Órfão desde sempre. Todas as sensações que possuía foram construídas artificialmente para mostrar aos circunstantes que ele foi um filho natural, não adotado, de mesmo sangue e imensa [mas imanente] distância. Ele apenas recebera a herança espiritual; a material, deixara para a mãe. Recebera apenas o rancor, o interesse e a ignorância. Como se fosse um personagem satírico-cômico de um romance, sempre se relacionou com os demais com uma subalternidade abjeta. Com o interesse precípuo de obter as suas vantagens, o seu sustento, raspava diariamente a sua dignidade mostrando a todos a ferida da sua impotência, clamando, silencioso por piedade. Uma mensagem sempre perdida. “Pela minha experiência não podemos, de forma alguma, depender das relações humanas para qualquer recompensa duradoura.” “Só o trabalho realmente satisfaz?” “Sim. Não há muita gente que acrescente algo às nossas vidas.” Um recado enfiado no gargalo de uma garrafa para sempre jogada no mar aberto da insensibilidade. Perdera a vergonha de exibir seu defeito, mostrando-o como se fosse uma virtude que ele já sabia inexistente. Ele fora dotado apenas de paixões inferiores, aquelas para as quais não encontramos razões outras que não o medo, e a fome, e o isolamento: “planos superiores as comandam, e existe nelas um apelo perene que não se cala pela vida inteira; e hoje essa paixão já não parte de mim, e a minha fria existência se encerre naquilo me derrubará por terra um dia, diante da sabedoria celeste.” Ele, o pai e o avô aprenderam apenas a calar diante da ameaça. Paralíticos. Nenhum deles aprendeu a se defender, a socar, a bater no oponente, e ele representou o apogeu da resistência. Sem poder correr, aprendeu a calar, suportar, não demonstrar qualquer emoção, até cansar todos os músculos da face, que dobraram sobre si mesmos, cansados.

Ao olhar adiante, viu um carro aberto se aproximando. Um carro antigo, grande, com três mulheres dentro dele. Elas estavam fantasiadas, mas não como as que vemos no carnaval de tempos em tempos: trajavam roupas fora de época e com uma maquiagem exagerada, também fora de lugar. É dia claro, sol a pino, seus rostos mais pareciam máscaras do que qualquer outra coisa. Entrou para fazer um passeio, e o seu convite era a porta aberta. Nada mais.  Subiram de ré por uma alameda que não lhe permitia ver o lugar. Só quando estacionaram na frente do lugar é que ele percebeu se tratar de uma grande construção, magnífica, larga.

 

Tudo aqui é tão terno que é como se pisássemos no ar, e não em chão firme.

 

amaso ama amabo

Mas tudo na natureza relaciona-se mutuamente;

não existe ataque onde não exista defesa,

cada veneno tem o seu antídoto: basta conhecê-lo.

Primo Levi

Os primeiros pelos crescidos naquele rosto afloraram sob efeito de tortura constante. Causada pelo odor, corpo e cor da bosta de galinha, esfregada no buço. Ele desanimara de outros tantos métodos, e resolvera radicalizar. Queria fazer parte. Adulto. Não suportava mais a marginalidade. Aí, ó menino. O rosto estava abrasado, quase descascado. Sem se adiantar ou atrasar, repentinamente, eles começaram a crescer, desordenadamente, abrindo vários caminhos, crescendo uns contra os outros. Deixados ao léu, cresceram assim: ferrugem crespa e viva, contrastando com o cabelo castanho. A nova tortura movimento era a do barbear. Todos os dias, o rosto continuava abrasado pela lâmina.  Crescer a barba para fazer parte do rebanho, cortar a barba para não se destacar nele.

Hoje, a rotina se amenizou. Ele corta a barba, dia sim, dia não. Pensa em não a cortar mais, deixar que ela o esconda.  Evita se olhar no espelho. Corta a barba no banho. Protege com o dedo a pinta preta na base do pescoço, para não se cortar. E passa o aço, pelo rosto todo, várias vezes, de trás para frente e vice-versa. Intolerável com as imperfeições se escanhoa. A vermelhidão do rosto se tornou seu hábito. Concentrada em vermelho vivo sangue, pelo corte feito na asa do nariz, enquanto perseguia um tufo de pelos rebeldes. Sai da água, a toalha felpuda tingida que segura durante o tempo necessário para que o sangue pare de correr, cristalize a última gota.

Esse é o seu momento de liberdade total. Seu exercício físico diário. Nada, ninguém interfere. Não há dominação, não há poder. Sempre com o rádio ligado em uma estação que transmite apenas música, sem palavras, anúncios. Com a toalha abafando a parte inferior do rosto, repentinamente, ouve: Obama mata Osama.

Não é de se impressionar mais com a política. A cada dia mais tranquilo e submerso em sua própria ordem desordem, tenta aprender a não mais esperar nada vindo de fora. O fato irradiado parece se espalhar diante dele, diante de todos. Nele beberão todos, e espalharão seus anseios, egos envernizados em palavras pensamentos opiniões.

Enquanto se veste, algumas histórias teimam em aparecer. E de alguma forma, elas devem se relacionar com o acontecimento.

O GALO

Um viajante se encontra com um camponês, criador de carneiros, em um barco. Aquele fica encantado com a qualidade e o tamanho das criações. Após verificar o que tem no bolso, faz uma boa oferta para adquirir um dos animais. O camponês recusa, dizendo que a lã do carneiro vale muito mais, tanto que os compradores costumam revendê-la, depois de fiá-la, pelo triplo do preço. Do couro, ele continua, é feito o melhor sapato, das tripas, as melhores cordas para violinos, e onde ele mija se tira o melhor salitre. No lugar onde se enterra o chifre depois de moído, nascem os melhores aspargos do mundo inteiro. Assim, sacudido pela cobiça, o viajante aumenta a oferta paulatinamente, até atingir o valor de dois ou três bichos por apenas um. O mercador cede. Feito o negócio, oferece ao comprador o direito de escolher aquele que julgar o melhor. E, de fato, escolhe o mais gordo e é elogiado pelo comerciante. Ele soube escolher bem, o tratante! Entende das coisas, o salafrário. Na verdade, bem na verdade, eu o reservava para o senhor de Candale. De súbito, o viajante apanha o carneiro, que se põe a berrar e a espernear, e o joga por sobre a amurada da embarcação. Não mais que alguns segundos depois, todos os carneiros tomam o mesmo exemplo e se atiram ao mar, em fila, um após o outro. Nós sabemos que é natural aos demais seguir o primeiro. A roda girou.

A SERPENTE

Da América, vem outra história. A do escritor contando que se correspondeu durante três anos com um soldado, veterano da Guerra do Golfo. Ele foi condenado à morte após explodir um veículo abarrotado de explosivos jogado de encontro a um prédio da administração federal, matando uma centena de pessoas, ferindo outras tantas. Passado o episódio, deixou-se prender. Queria ser ouvido, em suas razões. As cartas o mostravam como pessoa culta, com letra uniforme, formado em universidade, com medalhas por merecimento e coragem. E com um senso todo peculiar de justiça. Não conseguia se conformar com o holocausto de um grupo de religiosos, ocorrido dois anos antes, sem nenhum motivo. Os religiosos foram perseguidos, acusados pelo governo, embora não houvesse provas contra eles. Portavam armas para se defender, e não queriam saber de nada vindo do exterior, de onde quer que fosse. Esse isolamento foi visto como uma ameaça potencial, e logo se forjou algo para invadir o retiro. Resultado: todos foram aniquilados. O senso de justiça do herói de guerra é absoluto. Ódio. Rancor. Clamava pela revanche, vingança. E a fez por conta própria. Ele acreditava, segundo o escritor, que dois erros fariam um acerto. E morreu por isso e com isso dentro dele. Serenado, firme. Seis anos de julgamento, de exposição e degradação pública, de debates. Inúteis. E a roda girou mais.

O JAVALI.

Voraz, ele comia muito e rapidamente, não escolhia entre um e outro alimento. Comia a ambos.  Sem exercício físico, seu corpo crescia até a morbidez. Não conseguia vencer seu hábito. E procurou ajuda. Durante vários anos, utilizou medicamentos para moderar o apetite e perdeu todo o peso excedente. Reduziu-se a cinquenta quilos. Na fase magra, passou a ser considerado um modelo de força de vontade. Seus amigos, quando almejavam algo impossível, pelas próprias forças, pediam conselhos e ajuda do recém-magro. Não adiantava nenhuma explicação dele, ou a justificativa de que o hábito leva à perfeição. Os amigos queriam experimentar o milagre daquela força da vontade que só existia no amigo. Isso foi o suficiente para ele perceber a força da opinião alheia. Comentando o fato, ela fornece apenas clichês, ou ideias advindas da imaginação. Diante dos contínuos e avassaladores lugares-comuns, todos se contaminam, por exaustão e ignorância. A opinião pública gosta de ser, ter, encontrar um bicho de estimação. Idealista. Morre pelos seus ideais. Vive a vida com muita inteligência e, se preciso, morre pelo outro. Aqui está o fulano. Ele, sim, é que tem força de vontade. Pode oferecer um doce, um pastel, uma lasanha, ele não come, não é como a gente, uns porcos glutões. Ele, agora, não tinha mais vontade de comer qualquer coisa. A vontade fora eliminada quimicamente. E se aliou a outro costume, o de se privar, após anos e anos engolindo remédios, inundando seu corpo como o agente laranja. A maior de todas as mudanças: ele também passou a acreditar em seu superpoder, todas as vezes que a luz da autocrítica se apagava. Passou também a fazer parte do clube da ignorância.  Outro giro na roda.

Nos dias posteriores, leu as opiniões publicadas a respeito do acontecimento. Depois de dez anos, a caçada finalmente terminara. Não havia alternativa viável. Existe a tradição inescapável nos povos do norte, que deve e será sempre seguida. Não vivemos tempos de gestos ousados, e os líderes são mesquinhos e medrosos. Do outro lado, no Oriente Médio, existe uma tradição de combate pela imposição de sua religião, da conversão dos ímpios. Seus líderes são coléricos, e autoritários. Há uma luta fratricida que só se interromperá com a ameaça real de uma hecatombe. As tradições de vingança, de sangue pelo sangue, não imperam apenas no nordeste do Brasil, nas montanhas da Albânia ou no deserto da China. Em nossos tempos, elas estão apenas enfeitadas de balangandãs legais, morais e militares. Entretanto, são visíveis a olho nu.  O poeta Francisco das Chagas Batista cantou em 1925:

Voltando à casa paterna

Já achou seu pae enterrado,

Por uma questão de terras

Um cabra o tinha matado

Disse ele aos dois irmãos

Vamos lavar nossas mãos

No sangue desse malvado

Agarraram o assassino

Picaram-o todo em pedaço,

Não deixaram delle inteiro

Nem mesmo perna nem braço,

Os três d’ahi por diante,

Não mais poderam um instante,

Abandonar o cangaço.

Banho tomado. Roupa limpa. Saiu pela Avenida Farroupilha. Dia ensolarado. Ar parado. No primeiro cruzamento, parou. Encontrou uma nuvem de pó escuro condensada como pessoa. Não se via o seu rosto, apenas dois pontos negros e brilhantes, e a roupa estava tão naturalmente colada ao corpo que se transformara em uma segunda pele. Fazia alguns movimentos lentos, suaves e determinados. A mudança da sinaleira do vermelho para a verde não foi percebida. Algo estava sendo preparado. Ele atravessou a rua e não conseguiu deixar de olhar.  O ar deu lugar a uma aragem muito pacífica que se espalhou, afastando todo o nocivo para longe. E, muito devagar, o corpo que estava em posição horizontal sobre um trapo se firmou na mão esquerda, depois na direita, ergueu-se paralelo ao chão, depois as pernas se encolheram em direção ao tronco. Para quem olhava de frente, o homem assumiu a pose de um grilo; em seguida, suavemente, o tronco e as pernas se levantaram, quase em ângulo reto, e se fez a posição do corvo. Aquele desconhecido, saído não se sabe de onde, fez com perfeição a chamada kakasana, um modelo de equilíbrio, de transformação lúdica da energia. Fazendo do homem um pássaro.

Era da Pedra

Tenho a impressão de que, caso fosse possível aceitar a existência tal como ela é, participar dela com plenitude, o mundo se tornaria mágico. O grilo em minha sacada, no momento espetando a noite repetidamente com suas afiadas agulhas de som, seria bem vindo apenas por estar ali, e não uma fonte de aborrecimento por me distrair do que tento fazer. Paul Bowles.


Ele andava sob o sol do meio-dia, abrasador em pleno inverno. A região era desértica, varrida por lufadas de vento quente com odores indistintos, ventos que arrastavam, afastavam e encaminhavam as pessoas contra a vontade. Ventos dominantes. Talvez por não encontrarem obstáculos. Estacionamento vazio, de solo cinza granulado, todo rabiscado por uma infinidade de espinhas amarelas de peixes, separados em intervalos regulares pelos fios buscando o céu, os postes de luz. Aquele aquário árido se iluminava ao anoitecer, formando cones enevoados, iluminando ponto a ponto a fria escuridão, alimentando cada uma daquelas costelas.  O contraste da temperatura dos ventos, diurnos e noturnos, agradava as pessoas pela previsibilidade que ofereciam.  Um exemplo da aragem entre o sim e o não. Os autos deveriam oferecer a carne, a cor, vida, ao preencher aqueles espaços entre as vértebras, mas só havia um: o carro vermelho que ele abandonara há pouco. O latido de um cão ou o cantar de um pássaro foram substituídos pelo rascar rouco e monótono do vento na concha da orelha, apressando sua busca por abrigo: uma corrida até o prédio do centro comercial. À esquerda, os cinemas múltiplos. Carpetes, vidros, separadores com fitas para filas e imensos sacos de pipocas formavam uma pirâmide de mel, manteiga, milho e sal. À direita, um espaço com brinquedos para crianças, de cores e formas variadas. Ele pegou a alameda central, ladeada por vitrines de lojas, encaminhando-se para a área de alimentação. O ar inodoro, não havia o ruído do ar condicionado. A perspectiva da visão dali até o final do corredor não era atrapalhada pelo movimento das pessoas, e sim pelos vários acidentes geográficos colocados em cada esquina. Ele ouviu o som dos próprios passos. No primeiro cruzamento, encontrou um balcão redondo de informações; no segundo, um painel com um mapa de orientação e vários bancos de madeira. Leu a indicação dos sanitários. Pegou outro corredor estreito, encaminhou-se até o final, fez um grande esforço para abrir a porta que teimava em se manter fechada Ele pensou: deve ser problema da mola, muito nova, ainda não se ajustou. No terceiro, um elevador panorâmico estava estacionado com as portas abertas ao lado de um viveiro com carpas. Ele gostava de se aproximar da beira d’água e saborear a aproximação dos peixes, Os animais sabem que serão alimentados, apesar da proibição de costume; mas isso não aconteceu. Pela primeira vez, percebeu que estava sozinho. Não havia ninguém por ali além da mulher e da cunhada. Primeiro imaginou, equivocadamente, que todos já haviam se encaminhado para o almoço. Depois, a sensação de mistério, do ignorado, que vinha daquele lugar vazio, aumentou proporcionalmente ao som dos seus passos. Cada um deles martelava a sua cabeça. Olhou em torno. Um caminhante solitário passou ao seu lado. Logo mais, outro. E foi só. Finalmente, encontraram a praça de alimentação, entraram no primeiro restaurante italiano que encontraram. Lendo o cardápio e os preços, descobriram uma enorme variedade de pizzas. Ele odiava pizza, mas não importava. Encostaram no caixa para fazer o pagamento. Ninguém. Aguardaram um pouco. Os três discutiam entre si. Foi acusado por sua falta de planejamento. De fazer as coisas ao léu. Você é um perdido, disse a mulher. Apareceu uma senhora falando espanhol, de uniforme, com um esfregão na mão. Avisou que chamaria alguém.  Acho que não é uma boa solução, comer em um lugar deserto, a comida deve ser dormida e preparada em micro-ondas, e sabe-se lá desde quando a massa está descansando, esperando a gente, disse a mulher. A cunhada também se voltou contra ele, embora com algum recato.

Pressionado, ele decidiu sair dali. Adotou uma direção segura: o centro da cidade. Não havia erro. Cairiam nos braços da multidão. Foram parar em Little Saigon. Uma rua apinhada de gente. Orientais, baixinhos e sorridentes. Pensa no que o seu amigo oriental dissera, que o sorriso deles é uma reação automática do rosto diante de algo embaraçoso. Como uma expressão facial pode representar algo tão diferente? Ele era um viajante, gostava de saber dos costumes estrangeiros, admirava o caminho que o pensamento do homem fazia para resolver os mesmos problemas. O fim era o mesmo, os meios são infinitos. Alimentar-se, por exemplo. Como criticar alguém que come ou deixa de comer determinado alimento? Cada pessoa tem alternativas limitadas e escolhe apenas entre as disponíveis. Por que censurá-las? Viajar é a escola para compreender o homem. Ao ver e refletir sobre os costumes alheios, abrigamos aquele estrangeiro dentro do nosso corpo por algum tempo, abandonamos a recusa violenta do juízo comum. Ele não contava todos os seus sonhos, não queria aborrecer as pessoas. Imaginava que a maioria delas eram turistas ou pessoas de negócios que passeavam pelo mundo quando estavam em férias. Elas apenas descansam os olhos em outras paisagens, não se interessam em compreender outros costumes, apenas querem ver novidades, sem risco algum. Acumulam lugares. Eu fiz a Hungria, a Áustria, a Romênia e a Bulgária, em dez dias. Elas estão doentes pelo progresso e orgulhosas de suas posições, não querem riscos. Ele aprendeu isso na prática, desde a sua primeira viagem acompanhada. Como antídoto, adorava levar crianças, seus sobrinhos, nas viagens. Crianças são corajosas.

Naquele bairro, as ruas eram mais estreitas, ou o número de pessoas era muito grande, ele não conseguia saber ao certo. O horizonte era feito de edifícios e antenas, os anúncios de neon berravam pela sua visão; o vento, encanado, passava por sobre as cabeças e, quando cessava, o aroma predominante era o de alimentos sendo preparados. Picante e exótico. Ele observou por algum tempo as letras vietnamitas: são latinas, algumas com sinais acima, uns poucos abaixo, anunciando uma dicção particular e lembrando um passado menos remoto. Uma recordação agradável.  As do alfabeto cambojano e do siamês têm uma grafia muito simétrica e parecem originárias da Índia. Os sinais, entretanto, começam a se arrojar e adquirir uma vida autônoma. No khmer, os sinais têm um ligeiro sobressalto, um primeiro sinal de loucura, mas ainda respeitam a pureza das letras guardando uma distância crítica. Ele parou, tirou uma foto para apreciar a beleza gráfica entre as letras e os diacríticos. O próximo letreiro ele reconheceu como do Sião. As linhas, tão belas, começam a dar adeus à tipografia. Os diacríticos penetram as letras, não guardam mais distância, nem compostura. A escrita é quase alegórica. Eles sugerem que foi na Cochinchina que a imagem se desfez em letras. Ou foi na China que os sinais se transformaram em imagens? Ou nenhuma dessas opções?

As mulheres encontraram um lugar para comer. Um ambiente quadrado com mesas retangulares cobertas com plástico branco e um losango de pano vermelho fazendo o papel de toalha. Pediram o cardápio em inglês. Enquanto ele escolhia Miojo com formigas vermelhas, elas tentavam conversar com a garçonete, pedindo explicações a respeito dos pratos. É muito apimentado? Não é cachorro, né? Macarrão de arroz? Broto do quê? A mesa ao lado chamou a atenção de todos. Nela estavam sentados oito homens, trajando bermudas, camisetas e tênis, ocidentais, e de cabelo cortado à escovinha. Um deles fazia o papel de mensageiro entre o cardápio na mão da moça e a mesa. A garçonete não se aproximava. Descrevia o conteúdo para o rapaz e ele anotava o pedido dos demais. A nora, nascida em Taiwan, ouviu a conversa de outra mesa próxima: tratava-se de um veterano psicótico, que desde a baixa no exército procurava se habituar à presença de chinas. A presença de um deles, muito perto, avançando sobre sua rota de fuga, era o suficiente para desequilibrá-lo, Ele fazia o tratamento por aproximações sucessivas há muito tempo, para suportar a presença deles sem o perigo de uma explosão de raiva descontrolada. Seus companheiros o ajudavam no processo. Eles faziam do almoço um teste, e da presença estrangeira um sensor de explosão de mina. As mulheres resolveram se retirar do local, sem almoçar.

หากสิ่งที่ไม่สามารถเอาได้ตอนนี้ … มันไม่ใช่เหตุผลที่จะไม่ต้องการให้พวกเขา เศร้าที่ถนนก็ไม่ได้รับการแสดงตนของดาวที่ห่างไกล

Ganharam a rua novamente. Ainda indecisos, tomaram a decisão de seguir à esquerda, na direção do local onde estava o carro estacionado. Almoçariam no primeiro lugar que encontrassem. Uns poucos metros adiante, finalmente encontraram um prédio ocupando uma grande frente. Convidativo. Térreo, sem varanda ou degraus, dividido em quatro portas, altas, pintadas há muito tempo em vermelho, cada uma com duas bandeiras, a de cima com persianas, e a de baixo repleta de ideogramas chineses pintados em dourado. No topo do prédio, dois luminosos em vietnamita, fundo branco e letras azuis. Magotes de pessoa entravam com um andar calmo. Elas resolveram fazer o mesmo, e ele as acompanhou. Todos silenciosos, encaminharam-se para o fundo, para encontrar o esperado salão das refeições. Dos fundos, saiu um rapaz, sem barba, e de cabeça raspada, fita atravessada no peito, sobre o manto pregueado e ensolarado, um par de óculos desproporcionalmente grandes, um ideograma perfeito para magérrimo. E se ouviu um diálogo em mandarim, depois resumido em uma frase, assim: Sejam bem-vindos ao nosso monastério. Temos apenas pão para o espírito.

O marido ficou constrangido pelo equívoco. Depois de sair, rapidamente deflagrou-se uma discussão áspera, iniciada pela mulher, acusando-o  pela manhã desastrosa.  Ele se defendeu dos golpes, chamando-a de analfabeta, que não sabia ler o seu próprio idioma natal. Foram chamados à realidade pela cunhada, mostrando o carro deles sendo arrombado e ocupado por um estranho, enquanto abria a porta, em segundos, olhava para os lados. Corre lá, prenda o cara, rápido, disse ela. Deixe que ele faça o seu trabalho. Vou ligar para o seguro, ele respondeu.

…太多了頭部和崇高的理想,“她反映,“而沒有足夠的心…保羅鮑爾斯

Estava paralisado pela dor do arrependimento. Profundo, largo, revolvido em bile negra. Ele era a etapa final de um ritual repetido há tempos. Ritual que o tirava completamente da razão e da civilidade, arrancados de si os sentidos educados. Estes, que entravam na arena, não tinham controle, desfigurados, aleijões contendo só impulsos. Produziam efeitos de corte de lâminas compradas em supermercados no caixa da saída. O corpo era todo autômato, comandado por um ignorado centro nervoso, esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma. Apesar de abominar a violência, ele a utilizou e vibrou. Ofegante, rápido como o movimento do fumante ao jogar fora o palito de fósforo depois de acender seu cigarro, e queimar com ele a pele do outro. Naturalmente. Banal como o cheiro pairado do enxofre. Indagou a razão de só perceber depois esse apocalipse. Será que a raiva estava tão entranhada nele que não conseguia dominá-la? Eliminá-la? Ela saltava de uma fissura, até então invisível, na parede, feito uma serpente, e dava o bote? Haveria muitas? Talvez algum dia conseguisse perceber durante o conflito. Ou será que o seu aquífero fora contaminado? Seria possível ele perceber antes de entrar no clima de pau mandado? Estaria condenado às emoções que se afastam, apenas boiando e agindo as marrentas, emulsionadas por sulfúricos e ácidos infernais, até que se destruísse o inimigo? Seja filho, seja pai, irmão, mulher ou alguém? Enfim, não seria cortar os pelos e tampouco aparar os cabelos que o tornaria humano. O que o faria humano seria abominar todas as formas de violência. Equilibrar-se. Voltar a ser uma névoa. Hoje, tornou-se uma pedra atirada à luz, em busca da escuridão que está além dela, como o instinto fez com a mariposa.

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