Ave do Paraíso

 

…nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências vai se anulando e negando a si mesma em sua aparente repetição até que nada seja nada e ninguém seja ninguém que tenham sido antes, e a frágil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e veem e sabem o que não se diz nem sucede nem é cognoscível nem comprovável.

Javier Marías.

 

Na superlotada sala de espera, a tela muda exibe uma ave de plumagem multicolorida, intensa, irregular e espetada, dançando freneticamente, saltando adiante e para trás sobre o galho de uma árvore perdida no tempo e no espaço; em seguida, há um corte e vemos outra ave, menor e de cor monótona, tom sobre tom, que parece avaliar aquele show de calouros; novo corte, e outra surge, com plumagem diferente da primeira, na forma e nas cores, bem como nos passos da dança; um quarto e último corte para a “monótona”.

Essa sucessão de imagens me traz à mente o documentário sobre as Aves do Paraíso, habitantes na Nova Guiné. É o mais impressionante, belo e artístico exemplo de exibição para conquista sexual que presenciei. Parece que os machos dessa espécie exibem plumagens diferentes. Aqueles que têm plumagem idêntica à da fêmea são condenados a cuidar da prole, formando um casal. Os “artistas diferentes” tomam seu rumo após a conquista, deixando a fêmea solitária e com o filhote.

A vivacidade contrasta, violentamente, com a apatia do ambiente em que estou, intenso em linhas retas, de poucas cores, muita gente com a atenção voltada aos telefones. Não se ouve nenhuma conversação. Há os que olham para o chão e os que folheiam revistas velhas e manuseadas, raramente um livro. Às vezes, escuta-se o ruído de uma folha rasgada, de uma página dilacerada enfiada no bolso ou bolsa, sem nenhum pudor, assumindo todos os demais como cúmplices.

 

Acende-se um número no monitor: o meu. Sou atendido por uma moça, nova, de olhos negros e faiscantes, melancólica, o rosto sorridente é o escudo para a expressão cansada do corpo. O exame exige que eu tire a roupa e me deite em uma cama móvel de metal, encimada por um equipamento que percorrerá todo o meu corpo. O médico descobriu que tenho osteoporose e quer saber o quanto de massa óssea eu já perdi. Os preparativos são demorados, o lugar é frio e a máquina, ameaçadora. O silêncio torna todas as sensações muito concretas, quase corpóreas. Ele é estilhaçado pela minha voz: “Gosta do seu trabalho?”. “Ah, eu amo o que faço.” “Faz tempo?” “Dez anos.” “Você mora perto?” “Santo André.” “Puxa, é tão longe de Moema.” “É. Levo uma hora e meia, de moto. Quando saio cedo, é rapidinho. E, como trabalho em dois empregos, o dia passa depressa, quando me dou conta já estou em casa novamente, à noite. O outro emprego é na filial deste laboratório, a que atende a clientela mais humilde, de baixa renda.” “E o atendimento é diferente?” “É diferente, moço, os equipamentos são descartes daqui, a equipe é bem menor, e a fila de clientes, muito maior.” “Como você descobriu sua vocação?” “Comecei como atendente e fui me encaixando em posições e salários melhores. Fiz um curso técnico de instrumentação, e consegui meu lugar atual. Apesar de gostar daqui, a firma fez um acordo comigo uns tempos atrás e fui demitida. Sabe aquela vontade de melhorar? Indenização, direitos, e coisa e tal. Com a grana, comprei um salão de beleza, perto de casa, e comecei a trabalhar por conta. É uma coisa bacana trabalhar sem patrão, a gente tem mais entusiasmo; comecei a guardar um pouco de dinheiro, para cuidar do meu futuro, sabe como é?, casar, ter filhos, casa própria, essas coisas que dão segurança, calor e alegria.” “Mas, menina, você já trabalha em dois lugares, como você consegue estar no terceiro?” “Ah, não, não. Quem cuida do salão, agora, é a mãe. No começo, eu cuidava após deixar meus empregos, mas tive que abandonar depois de um tempo e lutar para ser readmitida. A minha irmã caçula arrumou duas crianças, e foi na sequência abandonada pelo pai delas. Ele não quis saber da responsabilidade. E o senhor acha que posso deixar minhas sobrinhas na pior? Ah, elas são tão lindas. Tomo conta como se fossem minhas. Minha irmã, coitada, é uma largada, desanimada, faz algum servicinho de casa (lava, passa, cozinha). Raspei o fundo do tacho das economias. Mas elas todas estão bem. Com o tempo tudo se resolve. O senhor não acha?”

 

 

Enquanto a ouvia, calculava: seis horas aqui, seis horas no outro emprego, uma hora para almoço, feito sanduíche de mortadela em cima da motoca, três horas de trânsito, ida e volta, tudo isso totaliza dezesseis horas. Oito horas para dormir, jantar, arrumar suas coisas, ajudar a mãe nas contas e problemas do salão, além dos problemas da irmã. Porque essa mulher não mandou tudo ao diabo que o carregue e cuidou só da própria vida? Será que ela quer algum? Ou é tudo uma exibição?

“É, com o tempo tudo se resolve, claro”, eu disse, tentando animá-la. Será que sabemos se possuímos esse tempo necessário? De vez em quando, desce a impressão de que a vida é uma corrida de esquina em esquina, sem noção, e podemos ser pegos, a qualquer momento, por uma bala perdida. E pronto. Lá se foi o tempo. “É verdade, seu moço, mas a gente tem que fazer o correto, né? Pronto, terminei o exame.” “Você pode me adiantar o resultado?” “Posso, mas não devo, o senhor tem que conversar com o médico. Desculpe.”

 

Tempos atrás, ali perto, na Berrini, presenciei a cena da perseguição de um velho por uma turba de gente. Um apedrejamento. Ele tentava alcançar abrigo, uma casa feita de tábuas, precária, buraco construído sobre pedaços de frases sem sentido. A distância entre ele e os perseguidores diminuía a cada momento, ao passo que aumentava a distância entre a porta do buraco e o velho. O coitado sacava do medo força para correr, estava prestes a se render. Mandei o motorista parar e, quando toquei o trinco da porta para sair, ele me segurou pelo ombro, gritando que eu estava louco, que morreria ali mesmo na avenida, caso eu me metesse naquela confusão.  “Qual era a minha chance?” Assim que eu pusesse o pé fora do carro, ele arrancaria e me deixaria ali. Estava sério e exasperado. “Me desculpe, mas que tipo de herói é você?” Socado na boca do estômago, fechei a porta entreaberta e saímos dali.

A conversa com aquela enfermeira trouxe de volta essa cena. Ou talvez fosse a proximidade dos locais, ou apenas a tentativa de encontrar o meu verdadeiro rosto?  O só vá até onde puder aconselhado pelo meu pai.

 

 

Meu pai era um defensor ardoroso dessa estratégia. Vá até onde puder. Para mim, até então, essa metáfora não passava de uma frase solta no ar. Quem pode ir além? Ela ganhou densidade, corpo e história ao sairmos juntos de um almoço, depois de passarmos um bom tempo no Amigo Fritz, onde bastava ele chegar para que o almoço viesse correndo nas mãos do garçom. Sempre o mesmo prato. Após alguns minutos sentados, a cerveja estupidamente gelada apontava lá no fundo apoiada em uma bandeja e logo atrás dela o roxo do prodigioso nariz de Albert, que se espalhava em tons de vermelho naquele rosto comprido, até se desfazer contra o amarelo dos cabelos escassos. Uma segunda corrida com o repolho, as batatas e salsichas. Enquanto comíamos, ele guardava posição de sentido, contando os casos ocorridos. O do mendigo, que morrera dois dias antes, enquanto dormia sob a marquise que desabara no prédio ao lado.  “Nossa, quanta gente se juntou para ver.” E, apesar da conversa, o serviço era impecável, o copo jamais ficava quente ou vazio. Meu pai seguia uma rotina infalível. Parecia gostar disso, uma vida sem acidentes. Ignorava o acaso, fazia dele algo distante de si. “O mendigo é bem estúpido, não se deve dormir debaixo de marquises. Aliás, se não fosse estúpido, não seria mendigo.” E a conversa, invariavelmente, derivava para anedotas e casos engraçados. Enquanto ele se despedia de Albert, eu vi uma pessoa entrando no nosso carro e o chamei, avisando que estávamos sendo roubados. Ele se encaminhou calmamente em minha direção e confirmou o fato, enquanto o carro arrancava. E me mandou entrar. “Mas, pai, você não vai fazer nada? Corre lá, quem sabe a gente alcança o cara no farol.” “Que coisa mais estúpida! Pra quê? O carro está no seguro. Vou ligar pedindo o carro reserva e vamos pra casa. Cada um faz a sua função, faz aquilo para o que nasce. Esse é o tamanho da felicidade de cada um. Vamos entrar e tomar uma cerveja enquanto esperamos.”

 

 

Saí dali, peguei a Avenida República do Líbano em direção ao Ibirapuera e encontrei uma menina na calçada, às oito e meia da manhã. Bonita, negra, alta de pernas compridas, saia curta. Estava confuso, com fome, em jejum. Estacionei o carro, esperei ser abordado. “Bom dia. Está querendo se divertir?” “Quanto?” “Setenta” “Entre.”

O meu pensamento voltara àquela sala gelada, àquele sorrir triste, queria me livrar daquilo, o sorriso dessa garota é o mesmo, o olhar também é brilhante, doce (é negócio, cara, não é doce, é enjoativo, se liga!) “Vira na próxima à direita, o hotel é logo ali.” Entramos, ela se dirigiu ao banheiro. Eu me desloquei para o acidente no Rio, ele se repete uma vez mais, a mesma cena já repetida centenas de vezes, em câmera lenta.  Primeiro, o choque do rosto no para-brisa, surgido na minha frente do nada, é só o que vejo, depois o corpo que se choca com meu carro, e a mulher é lançada metros adiante. Não, eu não vinha correndo, estava em velocidade regular. Como é que pode alguém atravessar a rua desse jeito? Breco o carro imediatamente. A minha mão abaixa a trava de segurança do cinto, faço menção de sair do carro, olho no retrovisor e vejo uma pessoa correndo em minha direção, de boca aberta, gritando, falando alguma coisa, olho no outro espelho, um monte de gente corre também, vinda da praia, da ciclovia. O farol lá na frente me chama: verde, vem. Vou ser linchado. Ninguém vai querer ouvir nada. A batida não foi tão forte.  O pé direito assume o comando automaticamente e pisa forte no acelerador. Saio voando. Sigo pela Vieira Souto até a primeira à direita, entro na primeira rua que dá mão, cantando o pneu, assustando as pessoas que estão por ali, todos me olhando. De novo, olho no retrovisor, procurando algum carro que esteja me seguindo, olho pelas calçadas para saber se alguém vem correndo ou se há alguma gritaria. Nada. Não consigo disfarçar ou diminuir a marcha, continuo correndo até que o meu coração deixe de querer explodir no peito.  Depois da eternidade feita de minutos, descubro-me no Jardim Botânico. Estaciono junto ao meio-fio.

 

“Você não vai tomar uma ducha? Está todo suado.” “Não, obrigado.” Uma mulher atropelada no Rio não é manchete de jornal, talvez, no máximo, uma nota de pé de página.  Assistia à tevê diariamente, acompanhava o jornal, e não encontrei nada a respeito. Não era ninguém importante, filha de político, bicheiro, empresário. Uma mulher comum. Ainda bem. “Olha, benzinho, desse jeito tá difícil, venha para cá.” Depois de terminado, olhei para ela. “Qual é o seu nome?” “Ângela.” “Você tem nome de anjo. Mensageira.” “Não sei, mas as pessoas gostam de mim.” “Por que você não descobre a cintura, e essa saia, por que fica com enrolada na cintura?” “A minha barriga é feia, tem uma cicatriz, de uma cirurgia mal feita.” “Você acha que alguém vai reparar?” “O meu corpo é meu patrimônio, tenho vergonha de mostrar esse defeito.” “É, de fato, ninguém gosta de mostrar suas fraquezas.” “Mas você é tão bonito, perfeito. Seu equipamento é de primeira linha: GG” “Ângela, deixa de onda, peça uma bebida pra gente.” “Tome você, eu não bebo em serviço.” Enquanto ela se levantava, mostrando sua bunda redonda, bem delineada pela faixa na cintura, refleti se não poderia servir como minha confessora. Afinal, era uma estranha, não havia nenhuma ligação, sequer sabia o meu nome, não preenchi ficha alguma, era uma tentação. Quem sabe posso encontrar um alívio? A palavra como exorcismo. Liberação. O que ela vai me dizer? Você tem cara de ser esperto mesmo. Rico não vai preso. Dos homens você foge, e da sua consciência? Lugares-comuns. Nada disso me ajudaria a resolver a questão. A enfermeira, quando contou sua história, despertou essa recordação. Mexeu comigo, me humilhou. Ângela seria uma boa confidente. Ou condenação certa, ou demonstração piedosa, pedindo que eu me arrependesse. Com ela poderia me defender. Talvez ela dissesse algum lugar-comum. Desfiando sentimentos comprados em supermercados?  Ouvidos na novela das nove. E se ela dissesse: Você foi um cagão de primeira. Devia enfrentar as pessoas porque estava com a razão. Mas, ouça bem, coragem só aparece em quem tem. É verdade que a justiça dos homens é falha, mas qual é o problema? Você vai morrer mesmo, cara. Ou sofrer um enfarte saindo daqui e plof. Acabou. É vantagem de fugir da engrenagem? Ela vai te pegar mais adiante. Ninguém escapa. Caso ela falasse assim, eu ficaria chocado. Ela estaria mentindo, e para si mesma. Aquele rosto era uma máscara. Mentirosa como eu mesmo sou. Pensar assim é fácil. Agir assim no calor é diferente. A sua história, ou era uma adaptação feminina da dança da ave-do-paraíso, para uma cantada, ou um conto moralista para provocar piedade. Piedade só vale se é gratificada. E esse é o caso dela. Eu acabava de descobrir que era mesmo um covarde. Tão covarde quando o motorista que me impediu.

 

Não, não contaria nada para Ângela, não valia a pena incluí-la nessa busca. A moral e os fatos são passageiros, e tudo estará mesmo derruído em um futuro bem próximo.

Quando ela voltou, depois do segundo banho, me olhou e, julgando-me mais sereno, ofereceu uma segunda, “a dose do santo”. E gastei toda a minha força, renascida, dentro daquela fenda.

Deixei-a nas proximidades do local onde a pegara, e ela se despediu, deixando um número de celular, avisando da disponibilidade nos dias úteis, horário comercial, exceto segundas-feiras e Sexta-Feira da Paixão. Guardei dela o gesto de retirar do maço de notas de cem, que lhe ofereci, o valor que ela quisesse. Perguntou-me se poderia revistar minhas roupas. “Claro.” Sem descobrir nada, contou todas as notas: dez. Retirou cinco. Para que eu não ficasse sem dinheiro, explicou.

Até onde ela foi com esse gesto?

 

 

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

Interlúdio: “arrasto emocional”.

 

 

 

Dias atrás você me disse que eu sou enigmático. Ou dividido entre duas pessoas. Talvez até mais, eu poderia dizer agora. Sim, é verdade. Essas impressões que você obteve ao ver o meu lugar (o meu blog, e meus escritos) também são enigmáticas. Pessoas com uma grande sensibilidade também são e causam essa impressão, para que tudo e todos fiquem mais enigmáticos ainda.

Não vejo nenhum problema nisso. Percebo, ao contrário, que os enigmas aumentam à medida que vivemos.

Outro dia, você pediu que eu mandasse um resumo de minha vida. Juntei uma série de fatos, cronológicos apenas. Deles se extrai o quê? Que posso dizer de mim? Aprecio o gesto de estender um tapete, escolhido com muito cuidado, a dedo mesmo, e nele, cabendo nós dois, desfiarmos um papo, mesmo fiado, sem importância, relativo a essas duas pessoas que têm disposição para conversar. E isso é o que importará. “Viver a vida em voz alta.”

E, assim, o gesto se torna natural, mais belo, confortável, e melhor que explicações, ou mesmo que eu retribuir e lhe pedir explicações ou notas sobre a sua vida. Por maior que seja a boa vontade, e ela existe, eu sinto, eu sei; explicar não explica, serve apenas serve para propagandear, ou algo semelhante. E seríamos publicitários. Vendedores.  Isso acontece pela nossa natureza, da qual não nos afastamos jamais. Afinal, quem gosta de falar dos seus defeitos? Das suas doenças e fraquezas? Eu tenho tantos e tantas, e sua descrição e motivação tornariam esse texto interminável. Monótono.

Essa sensação de que sou um quarto arrumado, é a minha também. Narrativas e fotos.  Algo que acontece comigo regularmente. E não sei explicá-la. Talvez seja para compensar a minha bagunça mental, onde tudo está tão desarranjado que preciso de uma ordem aparente, em algum lugar, para ficar mais tranquilo. Talvez seja o medo da morte, que exige que eu deixe tudo arrumadinho, compensando as consequências dessa surpreendente e inevitável visita, e não me encontre deitado e descomposto. Poderia, também, ser apenas uma falha de caráter, um exibicionismo valorizando a razão. E já que é para valorizá-la, continuando um pouco por essa vereda, concluiremos que ela não nos serve para muita coisa, além da sobrevivência. Se é que isso é importante.

Disse um poeta, um dia, tempo atrás, que o homem jamais deveria interrogar os deuses e as mulheres sobre seus segredos. E essa frase é muito linda de esperta. Emocional. Sensível. E fui aprendendo, com os dias, a deixar a razão de lado na maior parte do tempo e curtir meus (nossos) sentimentos. Proponho, então, quedarmo-nos sentadinhos aqui. Falando de cozinhar, de música, de poesia, de livros (sim, eu tenho uma versão digital do meu livro e tenho uma versão impressa – que posso enviar para alguma caixa postal, caso você queira, com o maior prazer.). E, ao falar desses assuntos, encontraremos um pouco da beleza que está espalhada por esse mundo vasto, e dela tirar alegria algumas vezes por dia. Ela, a beleza, não se deixa apreender por muito tempo. Ela é fugaz e se esconde depois desses instantes. Eu e minha obsessão a perseguimos. E tenho (temos?) a vaidade de tentar prendê-la por um bom tempo.

Outra coisa que me prende: o carinho. Sou viciado nele. E faço todo o possível para obtê-lo. Todo mesmo. Assim, pessoas como você, preenchidas desse mesmo sentimento, me atraem. Me chamam para perto de si. E não tenho a menor dúvida, a menor vergonha, o que é raro, e me aproximo e converso e troco, rio, me emociono e me deixo prender.

Não conseguiremos encontrar as causas que perturbam os seres. Elas estão juntas, misturadas, em um verdadeiro novelo. Não encontraremos também nenhuma surpresa, a não ser as nossas próprias, que nos fazem rir ou ficar perplexos. Apenas nos quedaremos sentados no tapete de vez em quando, e, distraídos, perceberemos algum traço, algum desenho nele. Saberemos que nada é nossa propriedade, apenas desfrutaremos do passar do tempo. Sentando nossas bundinhas nele, concluiremos que ele é macio e confortável para tomar um café, e trocaremos um olhar enigmático, simpático e festivo. Falaremos, além dos pratos, do nosso paladar, do nosso toque, da nossa visão, curtiremos os odores, e oferecerei uma semente de cardamomo, para curtir o seu sabor.

Quero respeitar a sua vontade para comentar, bagunçar, tirar do lugar alguma peça. Esse momento é nosso e de ninguém mais. Ainda que, depois, você se arrependa e coloque tudo de volta no lugar.  Não há problema. Mesmo que eu arrume novamente, quando você sair. Não há problema. Ou mesmo que ele fique assim, também não há problema. Quando você voltar aqui, tudo estará em outro tempo. Proponho que procuremos apenas beleza nas coisas, utilizando o carinho como câmbio; tudo ficará melhor assim. O mundo já é suficientemente feio sem a nossa ajuda, então não precisamos ajudá-lo nessa tarefa horrível.

Sem expectativas, sem desejos, e sem sofrimento. Curtir a forma magnífica dos objetos pela mão ou pela expressão dos artistas.  As letras ou a melodia das canções que você escolheu ou cantou, como interpretar a beleza de uma foto.

Em outra mensagem, você menciona que sentiu falta das minhas fotos diárias. Hoje, ao abrir esse computador e antes de escrever, passeando, encontrei e mecanicamente publiquei uma foto. Composta, quebrada em duas imagens. A primeira, à esquerda, retrata o lugar onde a criança dorme, e a segunda, de corpo inteiro, mostra a criança no seu dia-a-dia. Pronto. Está lá.  Encontrei nela algo de sagrado, de etéreo, de eterno. Ela abre e apresenta aos nossos olhares um lugar, um lago distante, muito além da nossa compreensão, místico. E, sem nenhuma dessas palavras, mostrou tudo o que eu pretendia dizer. O sentimento que me invadiu foi o de destruir essa mensagem, por inútil. Apenas por desrespeito à beleza de que falei acima, por uma questão de redundância ou presunção é que não faço isso e a envio. Fique sentada aqui comigo. Basta isso.

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

“Tudo aqui é tão terno que é como se pisássemos no ar, e não em chão firme.”

“Na reverberação do sol, a planície parecia uma lagoa transparente,
desfeita em vapores por onde se transluzia um horizonte acidentado.
E mais além uma linha de montanhas.
E mais além ainda, a mais remota lonjura.”
- Juan Rulfo
Sol: o sol intenso como jamais o havia sentido. Ele abria os desvãos, eliminava as sombras, destacava todos os detalhes; os azulejos rachavam, trincando seus desenhos, os trincos das portas ardiam, as pedras do chão martirizavam os pés descalços, os muros refletiam seu calor, tudo parecia arder nas retinas. Ele desceu alguns degraus com bastante dificuldade. Praticamente fora obrigado a fazê-lo, a não ser que considerasse a alternativa de voltar pela linha de asfalto que o trouxera por mais de três horas e meia, entre palos verdes e saguaros, de escassos verdes e imensos cinzas, vulcões extintos, minas desativadas de cobre e parques nacionais (Altar). Três mulheres, de aspecto viril, irromperam saídas da construção, a pele com a cor do pão torrado, tomando água em pequenas garrafas. Despreocupadas, avisaram aos viajantes que a casa estava arrumada, conforme as ordens do señor… (pronunciaram um nome que ninguém compreendeu), alertaram também que havia um pequeno problema de falta de água durante o dia. Entretanto, dizem com um esboço de sorriso, não há motivo para preocupação, durante a noite a água volta em abundância.
A casa se revelou fresca. Para tanto bastou abrir as janelas, descortinando o mar, que saudou os viajantes com suas boas-vindas ventadas e rugidas desde sempre, e se revelou imenso, aberto, azul-escuro, verde e azul-celeste no juntar-se com o céu sem nuvens. Fazia lembrança do dia perdido em que alguém ou algo os separara. Olharam para a direita e para a esquerda, acompanharam a estreita e sinuosa faixa de areia que se alongava até onde a vista alcançava. Ela recebia o mar, suas ondas, o beliscar do brilho do sol, o remanso desfeito em dedos e espumas brancas, rastejantes e dóceis. Uma pequena cabana de sapé fazia sombra sobre o retângulo de areia, e tirava dela a sua utilidade. Um deles, apertando a vista, viu três picos brancos aparecendo na linha do horizonte e um triângulo solitário,,perdido entre reflexos. Nada além disso. A construção se debruçava alta, acima do quebra-mar, enfeitado com um enorme osso de baleia; para atingir a praia, havia uma interminável escarpa, escavada em irregulares e precários degraus de madeira.

Cada um dirigiu-se ao seu quarto. Ele não trouxera roupa alguma. Deitou-se um pouco. A mobília era constituía por uma confortável cama de casal, um armário com livros, escondidos no fundo de uma estante, e um aparelho de tevê. Nenhum quadro nas paredes. A única decoração era a cabeceira da cama: desenhada com motivos primitivos multicoloridos, lembrando as faces quebradas e quadradas desenhadas pelos astecas, o cenário dominado pelo sol, radiante e raiado. Escondido atrás de uma porta, o banheiro com seu piso revestido de uma fina camada de areia.

O homem e as três mulheres fugiram da cidade, da peste que a invadiu e os amedrontou, e ali encontraram refúgio, segurança, isolamento. Combinaram não fazer perguntas, apenas conversar, contar histórias, aquelas que sentissem necessidade de compartilhar, não para ouvir comentários ou receber conselhos (que valem exatamente aquilo que se recebe por eles), apenas como desabafo. Viveriam por algum tempo apenas o momento. O passado e a memória apareceriam apenas em forma de relato, o futuro não passaria de inúteis prognósticos e o presente, como um instante fugidio que se esvai no infinito passar do tempo.
As mulheres saíram para passear na praia. Ele se quedou naquele terraço panorâmico, não arriscaria descer as escadas. Percebeu que o mar avançava em sua direção, a praia se reduzindo a um fio. Olhou para o céu, distraído, e viu uma série de gaivotas voando de oeste para leste logo acima dele. Elas formavam grupos de três até cinco, e era como se passeassem distraídas. Logo, ele notou que outros pássaros, pelicanos, também faziam o mesmo percurso. Ficou ali distraído, até que um desses últimos mergulhou dentro do oceano, para logo depois sair. Pescavam os peixes trazidos pela maré. Escolheram a casa como ponto de referência. Mais tarde, ao caminhar o sol para o poente, as aves faziam a direção contrária, e a maré vazante ampliava a faixa de areia, mostrava as pedras escondidas, fazia surgir lagoas efêmeras onde as gaivotas pastavam. Uma deixava cair sua presa, que logo era apanhada por outra. Algumas assediavam uma ave carregada, na intenção de fazê-la soltar a presa. Quando conseguiam, seu esforço era em vão, outra que vinha logo atrás já a apanhara durante a queda. Peixes morriam nas lagoas agora secas e pantanosas, pelo efeito do sol, e serviam de prato feito. Formando outro círculo acima daquela movimentada e retilínea avenida de duas mãos, ora o falcão de rabo-vermelho, ora a águia pescadora (açor) espreitavam em voos circulares, aproximadamente a cinco metros de altura. Repentinos como um raio, esses rapaces se atiravam vertiginosos como pinos, perto da água colocam suas presas adiante,agarravam suas presas, inapeláveis, colocando-as em paralelo ao seu corpo, diminuindo o atrito com o ar e desaparecendo. Ele descobriu o nome desses gaviões graças a um vendedor de pé-de-moleque, caiçara típico, que apareceu para oferecer sua mercadoria. Ele comprou três pacotes e recebeu a informação: “São aves cujas fêmeas são maiores que o macho, e mais  habilidosas na caça. Durante a época da procriação, os machos assumem a responsabilidade da pesca para a família, e a convivência dura cento e vinte dias, até os filhos ganharem autonomia”. Perguntou o nome daquele mar. “Mar Bermejo”, respondeu o vendedor.
Esperou até que elas voltassem. Deu-lhes o doce de presente e ajudou no preparo do almoço. Peixe e legumes. Os produtos estavam armazenados e a adega foi encontrada em algum lugar que ele ignorava. Frutas, vinho. Ficou encarregado de descamar e limpar o peixe. Depois de almoçar, resolveu cortar sua calça e vestir a camiseta de uma delas. Estava apenas com uma camisa de manga comprida, e que considerada inadequada para a ocasião: “Você parece doente com essa roupa toda”. Duas se recolheram aos quartos para uma sesta. “O sol cansa muito.”
A que restou se acercou dele, que estava sentado à sombra (a pele muito branca não suportaria nem cinco minutos de sol), lendo um dos livros encontrados, e foi pela primeira vez observada sem seu disfarce. Estava animada com a novidade da situação, com o isolamento, com a atmosfera leve que reinava por ali, e o passeio sob o sol a deixou com vontade de contar uma história que ouvira da mãe, ocorrida nos tempos em que “o dinossauro ainda estava lá”.
“A sua amiga solteirona, Níobe, cuja missão invariável é narrar sua história: a de como foi enganada pelos homens. Um em especial. Ela sempre trabalhou para ajudar em casa. E era no trabalho que pescava suas oportunidades. Uma delas, a que chegou mais perto de conseguir sua realização, aconteceu com o sobrinho do seu patrão. Num belo dia, apareceu por lá um rapaz com seus dezessete anos, paralítico, de muletas, gordinho, baixinho, cultivava costeletas parecidas com as do Barão do Rio Branco. Começou a trabalhar na sala ao lado, onde atendia e distribuía os telefonemas. Falante e risonho. A maneira dele se comportar fazia com que a maioria das pessoas se acostumasse com sua aparência; a maneira com que contava os casos engraçados fazia com que todos rissem; admiravam, ainda, a sua obstinação em conseguir tudo o que lhe era pedido. Ela, apesar de seis anos mais velha, arriscou suas chances e se aproximou dele, para ver no que dava. E deu. Após lidar com a aparência física dele e aceitá-la, ainda não sabia exatamente se ele era sexualmente ativo. Mesmo sem ter isso esclarecido, resolveu dar todas as chances para que ele se aproximasse. Nada. As coisas ocorriam em câmera-lenta, era como o andar dele, muito demorado. O rapaz, apesar dos sorrisos, parecia tímido. Até que um dia a chamou para jantar. Ela não estava acostumada a sair, tivera até então os seus casos, mas sempre interrompidos antes dessa fase. Tinha medo de cair em outra esparrela. Ela já fora levada na conversa por um espertalhão, perdera a virgindade. Depois disso, evitava comentários sobre sua vida amorosa. Esse episódio fora riscado de sua vida. Temerosa, mas confiante, aceitou. Ele era inofensivo. O jantar foi agradável, conversaram animados, beijaram-se na despedida. Depois de alguns dias, mais um convite, aceito de pronto. Daí por diante, ele investiu sofregamente, e encontrou uma resistência física extraordinária. Ela se cansava, exausta de afastar as mãos e fechar as coxas. Utilizou todas estratégias possíveis e imagináveis. Inútil. O tempo não existia para ele. O momento era sempre adequado. Passo a passo, ele venceu todas as barreiras com os mais variados, extravagantes e incansáveis gestos, sempre conseguindo dar um passo adiante. E outro. E outro, até o limite final. Ela, definitivamente, não dava e não daria, a não ser que ele prometesse viver com ela, casado, em uma ilha, isolados de tudo e de todos. Ela não conseguia mais sobreviver naquele lugar, na cidade; enfim, queria o homem apenas para si. Ele, a princípio, concordou com um movimento de cabeça, talvez para conseguir o que queria e empurrando a decisão lá para adiante. Primeiro, temos que fazer a nossa vida. ‘Viver do quê, de brisa? Amor e uma choupana?’ Ele, então, se tornou um voyeur. Diante da proibição dos toques mútuos, ele a fazia exibir-se. Como um diretor de cinema, fazia com que ela se entregasse aos seus olhos, como se a estivesse fotografando, ou dirigindo um filme. Ela confessou gostar disso. A intimidade aumentava rapidamente, e era cada vez mais difícil de conter. Ela foi promovida, ele foi promovido. Ambos passaram a controlar o faturamento e o caixa da empresa. Ele contava suas histórias tristes, de como era injustiçado, de como trabalhava tanto e ganhava tão pouco. ‘O mundo é injusto, mesmo. Só morando em uma ilha.’ Até que, um dia, ele pediu que ela emitisse um cheque sem a despesa correspondente. ‘Invente uma’, disse ele, ‘o dinheiro será usado para o nosso projeto comum.’ ‘Isso é um desfalque?’ ‘Que nada, isso é justiça!’ Ela inventou a despesa, o cheque foi assinado. Eles nunca mais falaram do assunto. Criou-se a rotina, e falar no assunto era doloroso e desnecessário; apenas apareciam os cheques, quando não eram pedidos, ela o lembrava disso. Faria tudo que pudesse para conquistá-lo, desde que não desse. Ficaram juntos durante cinco anos, nessa situação. Ela separou uns cheques para si, acabou comprando uma casa, levou sua mãe para morar com ela. Esse fato, casa própria, despertou nela uma certeza. Instintivamente, acedeu ao pedido dele. Cedeu. Fizeram uma festa no escritório mesmo, à noite, na volta do jantar. Ele abriu a porta, não acenderam as luzes, e transaram sobre o tapete da sala da Níobe. Durante o sexo, o patrão repentinamente apareceu, acompanhado da namorada, subiram as escadas, apanharam alguma coisa e saíram. Quando, afinal, ele gozou dentro dela.”
Folha de S.Paulo, domingo, 12 de setembro de 1965:
“Quando uma mulher sentir em seu coração o desabrochar de um terno sentimento por um homem e compreender que o mesmo acontece com ele, espere. Não se precipite. Mesmo que o seu desejo de casar seja grande, não se comprometa, fale-lhe francamente e com serenidade, pois todo o homem fica feliz, quando finalmente encontra uma mulher que lhe fala sinceramente de seus sentimentos sem se agarrar a ele com unhas e dentes, aflita por arrastá-lo ao casamento. Uma mulher que deseja esperar para poder bem aquilatar o seu amor é coisa tão rara que até parecerá um milagre e isso o fará admirá-la e querê-la ainda mais.
Essa espera sem compromisso é excelente e necessária por um motivo especial. Se com o tempo os dois verificam grandes incompatibilidades que não surgiram nos primeiros arroubos, a mulher poderá deixar partir o namorado, sem ter o ar de que foi abandonada. E poderá então aceitar a corte de um terceiro, sem ser tachada de leviana. Quando falamos aqui em casamento falamos em casar bem e não em casar a qualquer custo, apenas para não ficar solteira.”
Terminado o relato, pipocou em sua mente a associação entre o namorado e o ouvinte, ambos com a mesma condição física. Sentiu-se muito mal, procurava por uma saída honrosa. Quando se ouviu: “Socorro, socorro! Fui atacada por um cacto!”.

 

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

Autorretrato

 

Nos olhos já se vê dissimulada

Preocupação de si, e amor terrível.

A incessante notícia de uma luta

Com as panteras bruscas do invisível

É como a sensação de sede e fome.

Mudo, na cor translúcida da face

Já se insinua o pálido comparsa.

Na fronte existe um vinco que disfarça

Qualquer coisa… se acaso disfarçasse.

Mas não se vê o coração que come

O sangue espesso da melancolia.

Na boca, outro sinal de uma disputa

- Discórdia, dispersão e covardia –

E um traço calmo buscando a castidade.

No rosto todo, a usura de uma saudade.

Paulo Mendes Campos

 

 

 

 

Passados alguns anos do enterro do pai, encontrou um velho amigo. Este estava acompanhado do filho e conversavam, distraídos, sem animação, sobre um contrato a ser assinado. Órfão, lendo e tentando deixar a poesia entrar em si, encontrando sob o iceberg dos fatos armazenados o real significado de si, ouvia sem atenção a série de palavras expelidas por aquelas bocas amigas. Exibiram um maço de papéis escritos, e o significado deles, por mais que depusesse os olhos sobre, não lhe concernia, as palavras não serviam, não se intrincavam em linhas e significados, recomeçava a leitura, enquanto os outros se calavam, aguardando o seu parecer a respeito. Ele gostou daquele momento de paz. E se ausentou.

A grande sensação que o assaltou foi a da inevitabilidade da morte. Ela o atingira profundamente ao levar seu velho. Aquele com o qual jamais trocara palavras sem significado, mas amizade e carinho, sem levar ou ser levado a qualquer lugar: tudo se resolvia em uma demonstração de afeto humano. Não, todas as palavras que trocaram, obrigatoriamente, tinham que significar algo transcendente que valeria, dali por diante, para assegurar seu futuro, suas responsabilidades, como se ele, pai, fosse o Oráculo de Delfos, sempre disponível para adivinhar seu futuro. Mas, para quê? O futuro é a morte. Talvez tenha sido esse o grande sentido, que em geral os oráculos revelam por palavras interpostas e arrevesadas.  Percebeu as lágrimas descendo sobre as faces, primeiro tímidas, escapando uma a uma da sua prisão [tira os óculos, alega uma conjuntivite, que droga], mas logo depois rebentado, descendo em cascatas brilhantes, salgadas, rios de amargura que afastaram os interlocutores mudos da sua dor [não sem antes pegar o documento que trouxeram para a análise e avisar que alguém passaria depois para lhe fazer uma surpresa]. E se viu sozinho, sem ninguém por perto. Incomensuravelmente só. Não conseguia sequer saber em que lugar estava. Ao redor, tudo limpo, seco, sem som, sem eco, sem céu. Pela primeira vez, estava só. Queria, precisava se lembrar de tudo que não ficara gravado em sua memória, de tudo aquilo que estava submerso nos fatos que relembrava, é era isso o que importava. Nadaria naquelas águas geladas azuis profundas. Era o que de fato possuía relevância em sua vida: encontrar aquilo que estava sob a água, e que geralmente, como nos icebergs, é oitenta, setenta por cento daquele pedaço de gelo que se deixa mostrar. Mas, tampouco é algo que se aprenda ou se mostre com as palavras; é algo anterior a elas. Seu pai, como pálido comparsa? Aquele que se revelou em uma fotografia antiga, roubada de um parente que a guardava em suas gavetas estéreis, mofadas. Festa de natal, em branco-e-preto, anos idos, e o pai com o mesmo olhar longínquo, o mesmo olhar em que se pegava depois de momentos de silêncio e abstração como no começo desta história. E ele entrou naquele cromo, transformou-se em pai. Viveu aquele momento. Cheio de parentes ao redor, irmã, pai, mãe, tios, tias, primos e primas, todos formando uma pirâmide para se enquadrar dentro daquele foco a ser guardado para a posteridade. Todas as relações familiares, transformadas em relações de poder e de interesse. Existia uma segunda agenda, que seria revelada oportunamente, mesclada ao amor filial. Todos desgarrados do seu lugar original e submetidos ao tratamento de choque de obter o sustento, a qualquer custo, e todos os sentimentos foram afastados como móveis velhos a serem encostados contra paredes nuas, sem serventia, para formar um palco onde se encontrariam os pares provisórios que por alguns minutos se harmonizariam em corpos perfeitamente complementares, sem nenhuma fissura que os separasse, apenas dançando a música ambiente, exibindo uma comunhão que mais tarde se revelaria impossível. Ele, o pai, e agora pegando outra foto, olhando o pai afastado do foco principal, observando também a mãe avó, separados pela mesa farta de Natal, um defronte ao outro, rindo exagerados, mostrando a alegria [mera dádiva de estranhos]. Em casa, nunca se via nada igual, apenas silêncio. Um tio contara que o pai avô era muito mulherengo, tinha várias muitas mulheres e pelo menos duas famílias. Para eles: usura de uma saudade. E descobriu, como um raio caído do céu: jamais conheceu o pai. Assim como o pai jamais conhecera o avô. Era filho, neto e bisneto de desconhecidos. Apenas relacionou-se com um corpo, desdenhando de todos os sentimentos filiais. Era um amigo distante, que jamais pôde, quis ou conseguiu participar ativamente da vida daquele que gerou. A mistura entre os sangues resultou em um ser anônimo, estranho, e que para cada um deles sempre era o outro, o estranho, o inatingível. Era esse o significado da orfandade: ela sempre existira, sempre estivera presente. Mesmo quando o corpo tinha vida, ele não tinha sentido. Agora sem vida, o sentido se revelava por inteiro: oco. Essa foi a explicação do vinco invisível que disfarçava coisa alguma. Ele só conseguia conversar com a imagem de seu pai. Com os fatos exteriores captados por uma lente fotográfica. Por isso, quem sabe, ele passava horas e horas vendo álbuns de fotografias de estranhos, milhares de imagens das quais ele jamais conseguira sonhar que significado tinham, apenas as escolhia por uma ruga, um detalhe, uma cor, um olhar. Em sua grande maioria, imagens sem rosto, ou de costas, ou cobertas com os cabelos, sempre em lugares isolados, outras mostrando apenas a parte inferior do corpo, com pés próximos, sempre de corpos diferentes. Se algum clarão de luz havia, era para mostrar a sombra que fazia no chão. Adorava a imagem que vinha do fotógrafo de Gotemburgo.  Mostrava sempre os rostos lanhados, com expressão grave: foi neles que encontrou o mapa do tesouro. Era ali, naquela prega anônima, que estava a grande revelação. Foi filho de um estranho. Órfão desde sempre. Todas as sensações que possuía foram construídas artificialmente para mostrar aos circunstantes que ele foi um filho natural, não adotado, de mesmo sangue e imensa [mas imanente] distância. Ele apenas recebera a herança espiritual; a material, deixara para a mãe. Recebera apenas o rancor, o interesse e a ignorância. Como se fosse um personagem satírico-cômico de um romance, sempre se relacionou com os demais com uma subalternidade abjeta. Com o interesse precípuo de obter as suas vantagens, o seu sustento, raspava diariamente a sua dignidade mostrando a todos a ferida da sua impotência, clamando, silencioso por piedade. Uma mensagem sempre perdida. “Pela minha experiência não podemos, de forma alguma, depender das relações humanas para qualquer recompensa duradoura.” “Só o trabalho realmente satisfaz?” “Sim. Não há muita gente que acrescente algo às nossas vidas.” Um recado enfiado no gargalo de uma garrafa para sempre jogada no mar aberto da insensibilidade. Perdera a vergonha de exibir seu defeito, mostrando-o como se fosse uma virtude que ele já sabia inexistente. Ele fora dotado apenas de paixões inferiores, aquelas para as quais não encontramos razões outras que não o medo, e a fome, e o isolamento: “planos superiores as comandam, e existe nelas um apelo perene que não se cala pela vida inteira; e hoje essa paixão já não parte de mim, e a minha fria existência se encerre naquilo me derrubará por terra um dia, diante da sabedoria celeste.” Ele, o pai e o avô aprenderam apenas a calar diante da ameaça. Paralíticos. Nenhum deles aprendeu a se defender, a socar, a bater no oponente, e ele representou o apogeu da resistência. Sem poder correr, aprendeu a calar, suportar, não demonstrar qualquer emoção, até cansar todos os músculos da face, que dobraram sobre si mesmos, cansados.

Ao olhar adiante, viu um carro aberto se aproximando. Um carro antigo, grande, com três mulheres dentro dele. Elas estavam fantasiadas, mas não como as que vemos no carnaval de tempos em tempos: trajavam roupas fora de época e com uma maquiagem exagerada, também fora de lugar. É dia claro, sol a pino, seus rostos mais pareciam máscaras do que qualquer outra coisa. Entrou para fazer um passeio, e o seu convite era a porta aberta. Nada mais.  Subiram de ré por uma alameda que não lhe permitia ver o lugar. Só quando estacionaram na frente do lugar é que ele percebeu se tratar de uma grande construção, magnífica, larga.

 

Tudo aqui é tão terno que é como se pisássemos no ar, e não em chão firme.

 

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

amaso ama amabo

Mas tudo na natureza relaciona-se mutuamente;

não existe ataque onde não exista defesa,

cada veneno tem o seu antídoto: basta conhecê-lo.

Primo Levi

Os primeiros pelos crescidos naquele rosto afloraram sob efeito de tortura constante. Causada pelo odor, corpo e cor da bosta de galinha, esfregada no buço. Ele desanimara de outros tantos métodos, e resolvera radicalizar. Queria fazer parte. Adulto. Não suportava mais a marginalidade. Aí, ó menino. O rosto estava abrasado, quase descascado. Sem se adiantar ou atrasar, repentinamente, eles começaram a crescer, desordenadamente, abrindo vários caminhos, crescendo uns contra os outros. Deixados ao léu, cresceram assim: ferrugem crespa e viva, contrastando com o cabelo castanho. A nova tortura movimento era a do barbear. Todos os dias, o rosto continuava abrasado pela lâmina.  Crescer a barba para fazer parte do rebanho, cortar a barba para não se destacar nele.

Hoje, a rotina se amenizou. Ele corta a barba, dia sim, dia não. Pensa em não a cortar mais, deixar que ela o esconda.  Evita se olhar no espelho. Corta a barba no banho. Protege com o dedo a pinta preta na base do pescoço, para não se cortar. E passa o aço, pelo rosto todo, várias vezes, de trás para frente e vice-versa. Intolerável com as imperfeições se escanhoa. A vermelhidão do rosto se tornou seu hábito. Concentrada em vermelho vivo sangue, pelo corte feito na asa do nariz, enquanto perseguia um tufo de pelos rebeldes. Sai da água, a toalha felpuda tingida que segura durante o tempo necessário para que o sangue pare de correr, cristalize a última gota.

Esse é o seu momento de liberdade total. Seu exercício físico diário. Nada, ninguém interfere. Não há dominação, não há poder. Sempre com o rádio ligado em uma estação que transmite apenas música, sem palavras, anúncios. Com a toalha abafando a parte inferior do rosto, repentinamente, ouve: Obama mata Osama.

Não é de se impressionar mais com a política. A cada dia mais tranquilo e submerso em sua própria ordem desordem, tenta aprender a não mais esperar nada vindo de fora. O fato irradiado parece se espalhar diante dele, diante de todos. Nele beberão todos, e espalharão seus anseios, egos envernizados em palavras pensamentos opiniões.

Enquanto se veste, algumas histórias teimam em aparecer. E de alguma forma, elas devem se relacionar com o acontecimento.

O GALO

Um viajante se encontra com um camponês, criador de carneiros, em um barco. Aquele fica encantado com a qualidade e o tamanho das criações. Após verificar o que tem no bolso, faz uma boa oferta para adquirir um dos animais. O camponês recusa, dizendo que a lã do carneiro vale muito mais, tanto que os compradores costumam revendê-la, depois de fiá-la, pelo triplo do preço. Do couro, ele continua, é feito o melhor sapato, das tripas, as melhores cordas para violinos, e onde ele mija se tira o melhor salitre. No lugar onde se enterra o chifre depois de moído, nascem os melhores aspargos do mundo inteiro. Assim, sacudido pela cobiça, o viajante aumenta a oferta paulatinamente, até atingir o valor de dois ou três bichos por apenas um. O mercador cede. Feito o negócio, oferece ao comprador o direito de escolher aquele que julgar o melhor. E, de fato, escolhe o mais gordo e é elogiado pelo comerciante. Ele soube escolher bem, o tratante! Entende das coisas, o salafrário. Na verdade, bem na verdade, eu o reservava para o senhor de Candale. De súbito, o viajante apanha o carneiro, que se põe a berrar e a espernear, e o joga por sobre a amurada da embarcação. Não mais que alguns segundos depois, todos os carneiros tomam o mesmo exemplo e se atiram ao mar, em fila, um após o outro. Nós sabemos que é natural aos demais seguir o primeiro. A roda girou.

A SERPENTE

Da América, vem outra história. A do escritor contando que se correspondeu durante três anos com um soldado, veterano da Guerra do Golfo. Ele foi condenado à morte após explodir um veículo abarrotado de explosivos jogado de encontro a um prédio da administração federal, matando uma centena de pessoas, ferindo outras tantas. Passado o episódio, deixou-se prender. Queria ser ouvido, em suas razões. As cartas o mostravam como pessoa culta, com letra uniforme, formado em universidade, com medalhas por merecimento e coragem. E com um senso todo peculiar de justiça. Não conseguia se conformar com o holocausto de um grupo de religiosos, ocorrido dois anos antes, sem nenhum motivo. Os religiosos foram perseguidos, acusados pelo governo, embora não houvesse provas contra eles. Portavam armas para se defender, e não queriam saber de nada vindo do exterior, de onde quer que fosse. Esse isolamento foi visto como uma ameaça potencial, e logo se forjou algo para invadir o retiro. Resultado: todos foram aniquilados. O senso de justiça do herói de guerra é absoluto. Ódio. Rancor. Clamava pela revanche, vingança. E a fez por conta própria. Ele acreditava, segundo o escritor, que dois erros fariam um acerto. E morreu por isso e com isso dentro dele. Serenado, firme. Seis anos de julgamento, de exposição e degradação pública, de debates. Inúteis. E a roda girou mais.

O JAVALI.

Voraz, ele comia muito e rapidamente, não escolhia entre um e outro alimento. Comia a ambos.  Sem exercício físico, seu corpo crescia até a morbidez. Não conseguia vencer seu hábito. E procurou ajuda. Durante vários anos, utilizou medicamentos para moderar o apetite e perdeu todo o peso excedente. Reduziu-se a cinquenta quilos. Na fase magra, passou a ser considerado um modelo de força de vontade. Seus amigos, quando almejavam algo impossível, pelas próprias forças, pediam conselhos e ajuda do recém-magro. Não adiantava nenhuma explicação dele, ou a justificativa de que o hábito leva à perfeição. Os amigos queriam experimentar o milagre daquela força da vontade que só existia no amigo. Isso foi o suficiente para ele perceber a força da opinião alheia. Comentando o fato, ela fornece apenas clichês, ou ideias advindas da imaginação. Diante dos contínuos e avassaladores lugares-comuns, todos se contaminam, por exaustão e ignorância. A opinião pública gosta de ser, ter, encontrar um bicho de estimação. Idealista. Morre pelos seus ideais. Vive a vida com muita inteligência e, se preciso, morre pelo outro. Aqui está o fulano. Ele, sim, é que tem força de vontade. Pode oferecer um doce, um pastel, uma lasanha, ele não come, não é como a gente, uns porcos glutões. Ele, agora, não tinha mais vontade de comer qualquer coisa. A vontade fora eliminada quimicamente. E se aliou a outro costume, o de se privar, após anos e anos engolindo remédios, inundando seu corpo como o agente laranja. A maior de todas as mudanças: ele também passou a acreditar em seu superpoder, todas as vezes que a luz da autocrítica se apagava. Passou também a fazer parte do clube da ignorância.  Outro giro na roda.

Nos dias posteriores, leu as opiniões publicadas a respeito do acontecimento. Depois de dez anos, a caçada finalmente terminara. Não havia alternativa viável. Existe a tradição inescapável nos povos do norte, que deve e será sempre seguida. Não vivemos tempos de gestos ousados, e os líderes são mesquinhos e medrosos. Do outro lado, no Oriente Médio, existe uma tradição de combate pela imposição de sua religião, da conversão dos ímpios. Seus líderes são coléricos, e autoritários. Há uma luta fratricida que só se interromperá com a ameaça real de uma hecatombe. As tradições de vingança, de sangue pelo sangue, não imperam apenas no nordeste do Brasil, nas montanhas da Albânia ou no deserto da China. Em nossos tempos, elas estão apenas enfeitadas de balangandãs legais, morais e militares. Entretanto, são visíveis a olho nu.  O poeta Francisco das Chagas Batista cantou em 1925:

Voltando à casa paterna

Já achou seu pae enterrado,

Por uma questão de terras

Um cabra o tinha matado

Disse ele aos dois irmãos

Vamos lavar nossas mãos

No sangue desse malvado

Agarraram o assassino

Picaram-o todo em pedaço,

Não deixaram delle inteiro

Nem mesmo perna nem braço,

Os três d’ahi por diante,

Não mais poderam um instante,

Abandonar o cangaço.

Banho tomado. Roupa limpa. Saiu pela Avenida Farroupilha. Dia ensolarado. Ar parado. No primeiro cruzamento, parou. Encontrou uma nuvem de pó escuro condensada como pessoa. Não se via o seu rosto, apenas dois pontos negros e brilhantes, e a roupa estava tão naturalmente colada ao corpo que se transformara em uma segunda pele. Fazia alguns movimentos lentos, suaves e determinados. A mudança da sinaleira do vermelho para a verde não foi percebida. Algo estava sendo preparado. Ele atravessou a rua e não conseguiu deixar de olhar.  O ar deu lugar a uma aragem muito pacífica que se espalhou, afastando todo o nocivo para longe. E, muito devagar, o corpo que estava em posição horizontal sobre um trapo se firmou na mão esquerda, depois na direita, ergueu-se paralelo ao chão, depois as pernas se encolheram em direção ao tronco. Para quem olhava de frente, o homem assumiu a pose de um grilo; em seguida, suavemente, o tronco e as pernas se levantaram, quase em ângulo reto, e se fez a posição do corvo. Aquele desconhecido, saído não se sabe de onde, fez com perfeição a chamada kakasana, um modelo de equilíbrio, de transformação lúdica da energia. Fazendo do homem um pássaro.

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

Era da Pedra

Tenho a impressão de que, caso fosse possível aceitar a existência tal como ela é, participar dela com plenitude, o mundo se tornaria mágico. O grilo em minha sacada, no momento espetando a noite repetidamente com suas afiadas agulhas de som, seria bem vindo apenas por estar ali, e não uma fonte de aborrecimento por me distrair do que tento fazer. Paul Bowles.


Ele andava sob o sol do meio-dia, abrasador em pleno inverno. A região era desértica, varrida por lufadas de vento quente com odores indistintos, ventos que arrastavam, afastavam e encaminhavam as pessoas contra a vontade. Ventos dominantes. Talvez por não encontrarem obstáculos. Estacionamento vazio, de solo cinza granulado, todo rabiscado por uma infinidade de espinhas amarelas de peixes, separados em intervalos regulares pelos fios buscando o céu, os postes de luz. Aquele aquário árido se iluminava ao anoitecer, formando cones enevoados, iluminando ponto a ponto a fria escuridão, alimentando cada uma daquelas costelas.  O contraste da temperatura dos ventos, diurnos e noturnos, agradava as pessoas pela previsibilidade que ofereciam.  Um exemplo da aragem entre o sim e o não. Os autos deveriam oferecer a carne, a cor, vida, ao preencher aqueles espaços entre as vértebras, mas só havia um: o carro vermelho que ele abandonara há pouco. O latido de um cão ou o cantar de um pássaro foram substituídos pelo rascar rouco e monótono do vento na concha da orelha, apressando sua busca por abrigo: uma corrida até o prédio do centro comercial. À esquerda, os cinemas múltiplos. Carpetes, vidros, separadores com fitas para filas e imensos sacos de pipocas formavam uma pirâmide de mel, manteiga, milho e sal. À direita, um espaço com brinquedos para crianças, de cores e formas variadas. Ele pegou a alameda central, ladeada por vitrines de lojas, encaminhando-se para a área de alimentação. O ar inodoro, não havia o ruído do ar condicionado. A perspectiva da visão dali até o final do corredor não era atrapalhada pelo movimento das pessoas, e sim pelos vários acidentes geográficos colocados em cada esquina. Ele ouviu o som dos próprios passos. No primeiro cruzamento, encontrou um balcão redondo de informações; no segundo, um painel com um mapa de orientação e vários bancos de madeira. Leu a indicação dos sanitários. Pegou outro corredor estreito, encaminhou-se até o final, fez um grande esforço para abrir a porta que teimava em se manter fechada Ele pensou: deve ser problema da mola, muito nova, ainda não se ajustou. No terceiro, um elevador panorâmico estava estacionado com as portas abertas ao lado de um viveiro com carpas. Ele gostava de se aproximar da beira d’água e saborear a aproximação dos peixes, Os animais sabem que serão alimentados, apesar da proibição de costume; mas isso não aconteceu. Pela primeira vez, percebeu que estava sozinho. Não havia ninguém por ali além da mulher e da cunhada. Primeiro imaginou, equivocadamente, que todos já haviam se encaminhado para o almoço. Depois, a sensação de mistério, do ignorado, que vinha daquele lugar vazio, aumentou proporcionalmente ao som dos seus passos. Cada um deles martelava a sua cabeça. Olhou em torno. Um caminhante solitário passou ao seu lado. Logo mais, outro. E foi só. Finalmente, encontraram a praça de alimentação, entraram no primeiro restaurante italiano que encontraram. Lendo o cardápio e os preços, descobriram uma enorme variedade de pizzas. Ele odiava pizza, mas não importava. Encostaram no caixa para fazer o pagamento. Ninguém. Aguardaram um pouco. Os três discutiam entre si. Foi acusado por sua falta de planejamento. De fazer as coisas ao léu. Você é um perdido, disse a mulher. Apareceu uma senhora falando espanhol, de uniforme, com um esfregão na mão. Avisou que chamaria alguém.  Acho que não é uma boa solução, comer em um lugar deserto, a comida deve ser dormida e preparada em micro-ondas, e sabe-se lá desde quando a massa está descansando, esperando a gente, disse a mulher. A cunhada também se voltou contra ele, embora com algum recato.

Pressionado, ele decidiu sair dali. Adotou uma direção segura: o centro da cidade. Não havia erro. Cairiam nos braços da multidão. Foram parar em Little Saigon. Uma rua apinhada de gente. Orientais, baixinhos e sorridentes. Pensa no que o seu amigo oriental dissera, que o sorriso deles é uma reação automática do rosto diante de algo embaraçoso. Como uma expressão facial pode representar algo tão diferente? Ele era um viajante, gostava de saber dos costumes estrangeiros, admirava o caminho que o pensamento do homem fazia para resolver os mesmos problemas. O fim era o mesmo, os meios são infinitos. Alimentar-se, por exemplo. Como criticar alguém que come ou deixa de comer determinado alimento? Cada pessoa tem alternativas limitadas e escolhe apenas entre as disponíveis. Por que censurá-las? Viajar é a escola para compreender o homem. Ao ver e refletir sobre os costumes alheios, abrigamos aquele estrangeiro dentro do nosso corpo por algum tempo, abandonamos a recusa violenta do juízo comum. Ele não contava todos os seus sonhos, não queria aborrecer as pessoas. Imaginava que a maioria delas eram turistas ou pessoas de negócios que passeavam pelo mundo quando estavam em férias. Elas apenas descansam os olhos em outras paisagens, não se interessam em compreender outros costumes, apenas querem ver novidades, sem risco algum. Acumulam lugares. Eu fiz a Hungria, a Áustria, a Romênia e a Bulgária, em dez dias. Elas estão doentes pelo progresso e orgulhosas de suas posições, não querem riscos. Ele aprendeu isso na prática, desde a sua primeira viagem acompanhada. Como antídoto, adorava levar crianças, seus sobrinhos, nas viagens. Crianças são corajosas.

Naquele bairro, as ruas eram mais estreitas, ou o número de pessoas era muito grande, ele não conseguia saber ao certo. O horizonte era feito de edifícios e antenas, os anúncios de neon berravam pela sua visão; o vento, encanado, passava por sobre as cabeças e, quando cessava, o aroma predominante era o de alimentos sendo preparados. Picante e exótico. Ele observou por algum tempo as letras vietnamitas: são latinas, algumas com sinais acima, uns poucos abaixo, anunciando uma dicção particular e lembrando um passado menos remoto. Uma recordação agradável.  As do alfabeto cambojano e do siamês têm uma grafia muito simétrica e parecem originárias da Índia. Os sinais, entretanto, começam a se arrojar e adquirir uma vida autônoma. No khmer, os sinais têm um ligeiro sobressalto, um primeiro sinal de loucura, mas ainda respeitam a pureza das letras guardando uma distância crítica. Ele parou, tirou uma foto para apreciar a beleza gráfica entre as letras e os diacríticos. O próximo letreiro ele reconheceu como do Sião. As linhas, tão belas, começam a dar adeus à tipografia. Os diacríticos penetram as letras, não guardam mais distância, nem compostura. A escrita é quase alegórica. Eles sugerem que foi na Cochinchina que a imagem se desfez em letras. Ou foi na China que os sinais se transformaram em imagens? Ou nenhuma dessas opções?

As mulheres encontraram um lugar para comer. Um ambiente quadrado com mesas retangulares cobertas com plástico branco e um losango de pano vermelho fazendo o papel de toalha. Pediram o cardápio em inglês. Enquanto ele escolhia Miojo com formigas vermelhas, elas tentavam conversar com a garçonete, pedindo explicações a respeito dos pratos. É muito apimentado? Não é cachorro, né? Macarrão de arroz? Broto do quê? A mesa ao lado chamou a atenção de todos. Nela estavam sentados oito homens, trajando bermudas, camisetas e tênis, ocidentais, e de cabelo cortado à escovinha. Um deles fazia o papel de mensageiro entre o cardápio na mão da moça e a mesa. A garçonete não se aproximava. Descrevia o conteúdo para o rapaz e ele anotava o pedido dos demais. A nora, nascida em Taiwan, ouviu a conversa de outra mesa próxima: tratava-se de um veterano psicótico, que desde a baixa no exército procurava se habituar à presença de chinas. A presença de um deles, muito perto, avançando sobre sua rota de fuga, era o suficiente para desequilibrá-lo, Ele fazia o tratamento por aproximações sucessivas há muito tempo, para suportar a presença deles sem o perigo de uma explosão de raiva descontrolada. Seus companheiros o ajudavam no processo. Eles faziam do almoço um teste, e da presença estrangeira um sensor de explosão de mina. As mulheres resolveram se retirar do local, sem almoçar.

หากสิ่งที่ไม่สามารถเอาได้ตอนนี้ … มันไม่ใช่เหตุผลที่จะไม่ต้องการให้พวกเขา เศร้าที่ถนนก็ไม่ได้รับการแสดงตนของดาวที่ห่างไกล

Ganharam a rua novamente. Ainda indecisos, tomaram a decisão de seguir à esquerda, na direção do local onde estava o carro estacionado. Almoçariam no primeiro lugar que encontrassem. Uns poucos metros adiante, finalmente encontraram um prédio ocupando uma grande frente. Convidativo. Térreo, sem varanda ou degraus, dividido em quatro portas, altas, pintadas há muito tempo em vermelho, cada uma com duas bandeiras, a de cima com persianas, e a de baixo repleta de ideogramas chineses pintados em dourado. No topo do prédio, dois luminosos em vietnamita, fundo branco e letras azuis. Magotes de pessoa entravam com um andar calmo. Elas resolveram fazer o mesmo, e ele as acompanhou. Todos silenciosos, encaminharam-se para o fundo, para encontrar o esperado salão das refeições. Dos fundos, saiu um rapaz, sem barba, e de cabeça raspada, fita atravessada no peito, sobre o manto pregueado e ensolarado, um par de óculos desproporcionalmente grandes, um ideograma perfeito para magérrimo. E se ouviu um diálogo em mandarim, depois resumido em uma frase, assim: Sejam bem-vindos ao nosso monastério. Temos apenas pão para o espírito.

O marido ficou constrangido pelo equívoco. Depois de sair, rapidamente deflagrou-se uma discussão áspera, iniciada pela mulher, acusando-o  pela manhã desastrosa.  Ele se defendeu dos golpes, chamando-a de analfabeta, que não sabia ler o seu próprio idioma natal. Foram chamados à realidade pela cunhada, mostrando o carro deles sendo arrombado e ocupado por um estranho, enquanto abria a porta, em segundos, olhava para os lados. Corre lá, prenda o cara, rápido, disse ela. Deixe que ele faça o seu trabalho. Vou ligar para o seguro, ele respondeu.

…太多了頭部和崇高的理想,“她反映,“而沒有足夠的心…保羅鮑爾斯

Estava paralisado pela dor do arrependimento. Profundo, largo, revolvido em bile negra. Ele era a etapa final de um ritual repetido há tempos. Ritual que o tirava completamente da razão e da civilidade, arrancados de si os sentidos educados. Estes, que entravam na arena, não tinham controle, desfigurados, aleijões contendo só impulsos. Produziam efeitos de corte de lâminas compradas em supermercados no caixa da saída. O corpo era todo autômato, comandado por um ignorado centro nervoso, esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma. Apesar de abominar a violência, ele a utilizou e vibrou. Ofegante, rápido como o movimento do fumante ao jogar fora o palito de fósforo depois de acender seu cigarro, e queimar com ele a pele do outro. Naturalmente. Banal como o cheiro pairado do enxofre. Indagou a razão de só perceber depois esse apocalipse. Será que a raiva estava tão entranhada nele que não conseguia dominá-la? Eliminá-la? Ela saltava de uma fissura, até então invisível, na parede, feito uma serpente, e dava o bote? Haveria muitas? Talvez algum dia conseguisse perceber durante o conflito. Ou será que o seu aquífero fora contaminado? Seria possível ele perceber antes de entrar no clima de pau mandado? Estaria condenado às emoções que se afastam, apenas boiando e agindo as marrentas, emulsionadas por sulfúricos e ácidos infernais, até que se destruísse o inimigo? Seja filho, seja pai, irmão, mulher ou alguém? Enfim, não seria cortar os pelos e tampouco aparar os cabelos que o tornaria humano. O que o faria humano seria abominar todas as formas de violência. Equilibrar-se. Voltar a ser uma névoa. Hoje, tornou-se uma pedra atirada à luz, em busca da escuridão que está além dela, como o instinto fez com a mariposa.

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

Grafite

Ela é uma condutora: não flui sob a gravidade, mas é conduzida pelo homem. Ora na mão direita, ora na esquerda. Um minério obediente. Brotou do feixe de árvores fundidas pelos raios da tempestade. Surgiram no cenário as primeiras folhas negras paralelas de anéis aromáticos, brandos diamantes jogados pelo filho de Prometeu depois de um dos vários dilúvios.

Negra e lubrificante. Uma voz solitária do carbono, obstinada em obedecer do amo a fantasia; se desfaz em gravuras, hachuras, letras, palavras e sentenças, atrasa o seu desaparecimento agarrada à pedra, nos desenhos das grutas. Como um adolescente faz uso da resina do caucho, e altera ou apaga suas expressões.

Sensível e solitária, metamorfoseia-se ao tocar os dedos em cócegas escuras; assimilada, a madeira do álamo se faz lápis, obtém a cor; misturando-se às argilas coloridas, sai a passear pelo papel feito um pequeno pênis, pênsil, buscando naquela mão o pensamento dos homens, e descreve o itinerário das mentes, a busca irrefreável de emoção e aventura.

*

É, por isso mesmo, eterna associada na loucura e histeria. Pela infatigável busca da exatidão, ela e o amo percebem sua a inutilidade, antes de tornar-se pó: “Pó enamorado”.

Para uma parte dos seres, existir apenas não basta. Cambiam o grafite pela tinta, obtida em untuosas e dóceis quantidades. Vestidas em cores vivas, causando inveja ao sol. Combinam-se ao bismuto, ao enxofre e ao chumbo.  Para encontrar o espírito no azul e no verde, e o primeiro plano no amarelo e no vermelho. De tão vaidosas, imaginaram-se indeléveis e inimitáveis. Desafiaram o tempo e aceleraram sua dissolução.

Grafite é apenas uma coadjuvante da busca, ainda precisa de auxílio, das muletas sob os braços. Dentro do lápis, sua alma é firme e pulsa: mina.  Desfaz sua ponta esvaziando-se em trilhas, nas superfícies, buscando aprofundar o sentido da vida. É pressionada por mãos habilidosas. Sempre vorazes, velozes e precipitadas. Os tocos são incessantemente descascados por lâminas de metal; navalhados ou saltando cones ocos raspados, até redescobrir sua ponta. Os cavacos caem no lixo, a grafite se esvai sem uso.

Diferentes moléculas foram unidas para atender a propriedade: escrever. Tendem a se repetir indefinidamente. O desperdício das florestas e terras e alótropos criou o esqueleto exterior móvel e desgarrado: a lapiseira.  Resinosa, envernizada, desenhada com duas garras de metal, uma a prender-se ao bolso, outra para recolher e soltar grafite.

*

A escravidão não se alterou. Ela não escapa mais, não escorre entre os dedos, não forma mais nuvens escuras sem sentido, não se consome, inútil. Ela se aponta pelo escrever. Sensível à declividade, basta segurar a lapiseira e afiar a ponta enquanto se escreve, inclinar para a direita e para a esquerda, enfatizando o traço, a palavra ganha contornos de desenho para reescrever o Gênesis.

Sabe-se, entretanto, que sempre se encontrarão no mesmo ponto. O encontro entre a obra, definitiva, enquanto ela sempre ardente, lava jamais resfriada. Uma riscando a outra, buscando incessante ao sentido, ao espírito. E se prega ao papel, à gruta ou à madeira. Entretanto, sempre manchas com forma, sem sentido.

*

Ela é aventureira ancilar, sem apoio não vai a lugar algum. Não desce ou sobe escadas. Brincalhona, de obediência pueril, sem o esqueleto de metal ou sem a muleta de madeira, não se firma em pé. Evita o álcool. Sozinha, não vai a lugar algum. Viaja com o pensamento. Para sempre será lembrada, o instrumento de fixar palavras – inúteis.

Escrito para comemorar o dia de nascimento de Francis Ponge.

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

São Sebastião das Três Orelhas

Eu pergunto à Natureza

Segundo em seus filhos vejo

Por que fez o gozo anão

E fez gigante o desejo.

Bartrina.

1.

Depois da separação, nada, aparentemente, havia mudado, exceto o lugar onde morar. Escolheu um flat na cidade, a ex-mulher foi até lá, fez a cama, colocou as roupas nos armários, aprovando a escolha, como se nada houvesse acontecido. Ele esperou que ela saísse e jantou um tomate com um pedaço de queijo ricota, regados com azeite, e foi dormir. Gostava das coisas práticas, comida simples e rápida, sem complicação, cumprindo apenas uma necessidade. Descomplicava o ato de comer, cumpria apenas uma obrigação para com o estômago. Lá fora, o ruído contínuo do tráfego fazia as vezes de um curso de rio.

Assim embalado, dormiu. Sonhou com uma longuíssima escada no aeroporto, aonde chegou após um complicado trajeto no trânsito, com muita lentidão em engarrafamentos, enquanto tentava alcançar o prédio da universidade. Lá, pretendia encontrar a namorada e avisá-la de sua viagem. Já fazia alguns dias que não a via e tampouco conversava com ela, e não queria vê-la preocupada com a sua prolongada ausência. Acabou desistindo do aviso. Estava impaciente demais para enfrentar o trânsito. E tocou para o Aeroporto. Chegou e ficou lá, parado, com suas malas e pertences de mão diante daquele monumento branco, de mármore, corrimão metálico e brilhante. Fascinado. O pedaço de pirâmide do sol urbana estava lá, recém-terminada, esperando por ele. Ainda não tinha sido liberada ao público. Ele atendeu ao convite tácito que ela fez, e pediu a um funcionário que liberasse o seu uso.   Recebeu a autorização e subiu  o seu calvário, puxando malas, ajeitando os pacotes, inseguro, após verificar que o corrimão balançava, estava solto. Quando acabaram os degraus, viu o funcionário se encaminhar em sua direção, dizendo: “Eu fiquei com receio ao vê-lo. Afinal, um homem gordo com aquele monte de coisas e de olhos esbugalhados subindo aquelas escadas, podia muito bem ter se machucado. Felizmente, tudo correu bem. Posso ajudá-lo no seu embarque? Qual a sua companhia?” Acordou banhado em suor, o corpo dolorido. Tomou um banho rápido e foi checar a correspondência, sempre pressionado por suas pendências, atender pedidos de clientes, verificar se não havia esquecido nada.

Conseguiu acertar o seu ingresso no abrigo de animais da cidade de São Sebastião das Três Orelhas. Um lugar suficientemente remoto e calmo, para reabastecer suas energias. Será um assistente e ajudará com os galos de briga. Animais vitoriosos nos combates que, no entanto, tiveram a infelicidade de não morrer na rinha. São inúmeros os combatentes aprisionados pelos institutos de proteção ao meio ambiente, sem lugar adequado para viver. Estavam encostados em um depósito central. A grande maioria está cega, mutilada ou com outras doenças. Fora indicado por um amigo para trabalhar nessa fundação sem fins lucrativos. Assim que percorreu as dependências, alistou-se como ajudante no canil. Foi capturado pelos olhares dos galgos de corrida e de um cão de briga. Aqueles são submetidos a obsessivos treinamentos para atingir o seu potencial máximo na corrida, e por isso têm frequentes hemorragias, acumulando sangue no pulmão pelo esforço da corrida. Com o passar do tempo, claro, eles se desvalorizam. Para não perder dinheiro, alguns proprietários abatem seus animais para receber o seguro; outros não se dão a esse trabalho, ou não conseguem um cadáver equivalente na aparência, e os abandonam. O ex-campeão é recolhido para ser cuidado até o final da sua vida. A sua atenção foi chamada pelo olhar de um cão de briga.  Sobrevivente, sem uma das pernas, cheio de cicatrizes. Ele causa pavor nas pessoas, por sua aparência, pelo possível ou potencial ataque. Ele foi capturado por aquele olhar. Gostou daquele desafio sem palavras.

Estava otimista, livre de qualquer atividade comercial. Deixara os três filhos na cidade com a mãe. Assegurou a educação deles até o final da faculdade. Deu como cumprido o seu dever. Com algum dinheiro que sobrou, comprou uma propriedade e pretendia arrumar as portas, cercas e janelas da pequena e velha casa, cobrir os buracos da estrada para facilitar o acesso, impossível após qualquer chuvinha boba, também queria preparar uma horta, um pomar.  Teve o cuidado de comprar manuais para se preparar. Ele não tinha habilidade manual para qualquer dessas tarefas, deveria antes aprender. Esvaziaria a mente com essa rotina. Seria o seu mantra. Não suportava mais seu estilo de vida. Precisava de paz no espírito.

Fora um homem acostumado a viver em família, mas percebera com o passar do tempo o quanto ela demandava de esforço incessante na entrega. Todas as relações familiares estavam condenadas ao insucesso. As palavras não serviam para o entendimento. Tudo era confusão. Ele não compreendia e não era compreendido. Talvez no futuro distante, quando fosse apenas uma lembrança, prevalecesse uma nuvem de compreensão. Talvez, mas não agora. Ele sabia que, se ocorresse, seria fruto da imaginação. Nos últimos tempos, do nada, ele irrompia entre os seus com uma pergunta: “Diga a palavra que está na sua mente”. “Como assim?” “Qual palavra?” “Para quê?” “Não importa, por favor, apenas diga.” E anotava as palavras. Fazia, assim, o diário do dia. Não permitia que ninguém visse as anotações, para não causar nenhum embaraço. O medo da palavra escrita ainda existia, e provavelmente nublaria o resultado. Para evitar cobranças posteriores. Variavam as situações, os horários e as pessoas.  Nos seus horários de folga, dedicaria seus esforços a decifrar os resultados.

A relação com a ex-mulher percorreu todo o caminho da degradação, do desmonte. Não, ele não culpava ninguém. Parecia que a familiaridade ocasionava um abrir exagerado de portas, canalizava os ventos nem sempre perfumados de parte a parte. E lentamente aquela construção idealizada, chamada vida em comum, ia se desmanchando, formando duas bolhas sem intersecção. Estivera lendo um texto sobre as diferenças entre o desejo e o gozo. A força de um, comparada com a frustração do outro. Ele, um homem sonhador, sempre deixou sua imaginação voar, aprendeu quase tudo sobre a formação, os tipos e a nomenclatura das nuvens, e, quando estas se transformavam em chuva, levavam tudo consigo na enxurrada. Ele se casara por amor. Passara por aquele sentimento descontrolado, exagerado, que assume o comando do corpo e o direciona em mão única para a intimidade. Ela é que leva ao desmanche. São vários os níveis de intimidade alcançados. Todas as camadas que protegem o âmago são ultrapassadas, desfolhadas até que se encontre o centro inteiramente nu, sem proteção de qualquer espécie. Essa, digamos, nudez exagerada leva ao rompimento fatal.  Ao desenlace. Se, de um lado, provou duas vezes daquilo que se chama de amor, fracassou duas vezes na convivência, nenhuma delas suportou por mais de dez anos. Decorrido o prazo, a convivência emitia alertas seguidos, idênticos. Cada vez em intervalos menores de tempo. Não há mais espaço para o conforto da criação. Acabada a capacidade de reinventar o mundo. Mensagens que queimavam no local onde eram fixadas. Ele ficava sem ar, como se estivesse submerso e precisasse desesperadamente de ar. Precisava da superfície. A realidade é a superficialidade das coisas?

A aldeia era ideal. A terra daquele lugar não valia grande coisa, comprara um alqueire por uma ninharia, no meio do vale, oco entre as várias montanhas da serra, ao redor. O antigo dono estava de mudança para a Capital, sequer discutiu o valor oferecido, aceitou na hora. Ele, o ex-marido, estava resolvido a não fazer contato com ninguém, evitaria aqueles habitantes com a sua cara feia de costume. A natureza lhe dera uma expressão reticente e feroz. De qualquer maneira, ele também sabia que estava vivendo o momento do antegozo. Sabia que, satisfeito o desejo, a realidade o mandaria para outro lugar depois de algum tempo. Era inevitável. Estava pronto para viver mais dez anos em progressiva perda daquela grande paz interior que o invadira.

2.

Georgete viaja muitas horas para encontrar a pousada, e com ela vem a paz, o descanso e a sensação de objetivo alcançado. Trabalhou os últimos anos como arquiteta de interiores para uma grande companhia de navegação. Passava o tempo decorando cabines, salões de festas, de ginástica e de eventos em grandes transatlânticos. A empresa mantinha diversos deles percorrendo todo o planeta. O departamento de pesquisa e desenvolvimento descobriu que a maioria dos seus clientes comprava pacotes de viagens consecutivos.  Passavam a maior parte do seu tempo de aposentados em cruzeiros em alto-mar, navegando daqui até acolá, satisfeitos em desfrutar da companhia da tripulação e de outras pessoas.

Ela era uma parte minúscula dessa grande cadeia de solidão embutida nas mais variadas dessas caravelas modernas. Tivera que se isolar no norte da Europa, por questões de economia de custos para o estaleiro. Viveu durante muitos meses em um lugarejo frio, com dias curtos e congelantes, onde não havia outra estação a não ser a hibernal. No pequeno verão, não havia nada para se fazer no fim de semana ou ao final do dia de trabalho. Não havia cinema, o comércio fechava e a cidade, com ele. Para encontrar alguma vida, Georgete tinha que viajar na sexta feira. E para viajar, tinha que encontrar um aeroporto, distante seis horas dali. Mais algumas horas de viagem, e o seu sábado já estava corroído pela metade. Restava, então, meio sábado e um terço de domingo como tempo livre. Passava seus dias de folga dentro de aviões.

Tentava conversar com a dona do mercado e o farmacêutico. Nenhum deles, apesar de afáveis, tinha alguma coisa de interessante para dizer ou para ouvir, e a conversa morria ali mesmo. Rasa. Seus colegas se divertiam assistindo às notícias pela tevê. Quando se reuniam, a conversa, depois de algum tempo, fatalmente desembocava nos novos projetos, novas embarcações. E cada um voltava para o seu alojamento e assistia a um filme baixado pela internet.

Ela se considerava bem-sucedida. Era jovem, cabelos loiros alcançando a linha da cintura, olhos azuis, e era mesmo bonita, não fosse o nariz saliente demais. De temperamento paciente, queria encontrar a pessoa certa. E para isso escolhia com muito cuidado os homens com quem ficava. Realizava aproximações sucessivas; a questão principal não era a oferta, essa sempre foi intensiva, ainda que muito precária nas opções. Encontrou em uma exposição, no último passeio, uma tela que chamou a sua atenção. Golconda mostrava uma interminável chuva de homens, todos com o mesmo traje, distantes um do outro o suficiente para trazer à vista uma sequência de casas geminadas, de mesma arquitetura, predominando o tom pastel das cores nas paredes e no telhado. A única nuance de cor era o azul do céu, indicando o nascer ou o pôr-do-sol. O dia querendo se juntar com a noite. Nada prendia a atenção, exceto o inusitado da imagem, e com uma força tal que, de repente, ela se sentiu dentro da tela, tomando aquela chuva de homens iguais em um subúrbio qualquer de casas idênticas, presa naquela armadilha. E se alguém podia pintar aquela representação maluca, quebrando todas as regras da coerência, ela também poderia deixar de seguir esse caminho tão uniforme e despótico. E, também, de repente, decidiu abandonar aquela armação.

Palmira, sua companheira de todas as horas, foi deixada na casa da amiga mais próxima. Sua antecessora fora encontrada morta no hall do apartamento daquele rapaz, a sua última tentativa com o sexo oposto. Não, não poderia chamá-lo de namorado. Ele se aproximara usando o mote do interesse em Palmira. Georgete cultivava uma palmeirinha-azul de estimação. Intrigado com o fato, ele perguntou como é que se cuidava dela, se não ficava entediada com a falta de resposta daquela criatura, enfim, todo aquele papo introdutório (a genitália pulsando) para se aproximar da vítima. Ela concedeu acesso. Este, protegido com tanta prudência, resultou infrutífero. Ele logo perdeu o interesse, e a conversa entre eles passou a ser, predominantemente, por meio de mensagens de texto.

Numa de suas viagens, escrevera ao amigo perguntando se ele poderia cuidar da Palmira. Ele concordou, até escolheu palavras amistosas e entusiasmadas para cumprir a tarefa. Ela logo deduziu o interesse renascido. Regularmente, perguntava pela saúde de Palmira. Ele respondia, dizendo que estava cada vez mais bonita e saudável, notava até os sinais de saudade na sua coroa de folhas. Ao voltar, Georgete escreveu perguntando o dia e hora em que poderiam se encontrar a fim de que ela apanhasse a palmeira. Ele se desculpou dizendo que precisava viajar, mas que ela seria deixada no hall do apartamento, no dia e hora aprazados.

A pousada é rústica, encerrada entre as montanhas a mil e quatrocentos metros acima do nível do mar. O seu quarto tem três paredes de vidro de onde descortina todo o acolhedor verde da mata. Uma parede está colocada exatamente na beirada da margem de um rio, cujo leito de pedras é palco para o desfiar ininterrupto das águas. Elas cantam, às vezes gorgolejam, comemorando a descida. Começa a se entregar à preguiça. O som ritmado das águas age como um apaziguador. Nada interfere no seu ritmo. Ela reage, desfaz a mala, guarda as roupas. Sai em busca de um cavalo. Quer conhecer as trilhas da serra, planeja visitar todos os morros à sua volta.

Em cada um deles encontra casas dos mais diferentes tamanhos, todas com uma simplicidade franciscana, cavalgando pelos terrenos cortados, pelas culturas em quadriláteros, descobrindo o que foi plantado em cada um deles, pela forma, pelo cheiro, por eliminação; recusa, por timidez, os cafés oferecidos, as cadeiras para conversar; tímida, observa as matronas enxugando as mãos calejadas nos aventais surgindo nos umbrais daquelas portas. Atravessa o seu caminho a casa mais miserável de todas, as boas-vindas oferecidas pela caveira de boi, branca e ressecada, encaixada no mourão e atravessada por uma flor fresca. Ela amarra o cavalo, entra.  Observa, em um canto, um guarda-sol amarelo e esmaecido, e sob ele um homem, de pele queimada, barba por fazer, calças usadas, outrora, por um defunto bem mais gordo, cinzelando um toco de madeira. Um pouco mais atrás, uma fileira de homens santos forma uma brigada ligeira. Todos com uma expressão dolorida, uns com mãos postas, outros segurando um cajado, como são Quixotes; senta-se sem ser convidada, apenas observando o trabalho dele. Cada pingar daquele tempo do homem é utilizado para afilar um nariz, arredondar um lóbulo, acertar uma conta do rosário, esculpir uma unha, lixar o manto, até que a figura escapa da mão, resplandecente, e toma um lugar na fila, com sua porção de vida à mostra.

Depois do jantar, ela se recolhe ao quarto, acende a luz, incendiando aquela escuridão murmurante que reina lá fora. Enche a banheira, no centro do cômodo, com água bem quente, e desliza lá para dentro. Depois de algum tempo, ela inspira toda a névoa que se formou e se umedece por dentro. Ouvindo a melodia natural fluindo, se dá conta de que o ritmo era o mesmo de Robert Johnson cantando:  I got a kind hearted woman/ do anything in this world for me/ I got a kind hearted woman/do anything in this world for me/ but these evil-hearted women/ man, they will not let me be. Adormece. Sonha com o Rio Jordão, volumoso, azul, sem pedras. Ela nada a favor da corrente, com muito empenho, as margens longínquas, é ultrapassada por um grupo de homens, invariavelmente loiros, nadando com vigor. Não dá nenhuma importância e segue até reencontrá-los adiante, na margem direita. Curiosa, aproxima-se para ver. Participam de uma cerimônia. Estão com água até os joelhos, com roupas brancas, banham pessoas que esperavam em terra firme, logo atrás.  Ouve a salmodia, não sente o sabor da letra e resolve seguir seu trajeto. Quer aproveitar todo o percurso do rio, mais do que tudo, o irreal volume de água limpa e azul, e aquela abundância das plantações na margem. Foi recepcionada ao final, perto da foz do Mar Morto, por todos aqueles homens loiros como ela.

3.

Na montanha mais alta e ventosa de São Sebastião das Três Orelhas, detrás de uma prancha de madeira, onde se lê, garatujada, a palavra Cantina, surge uma casa com os tijolos à vista, vestidos com uma demão de cal virgem. Uma porta de madeira entreaberta deixa ver a chapa com as letras e números de um velho automóvel, estacionado há muito tempo, denúncia feita pela grossa camada de pó vermelho sobre a lata do porta-malas. Um pequeno caminho de cascalho incentiva que se dê a volta pela esquerda. Alguns guarda-sóis cobrem mesas feitas com tábuas, sobre cavaletes, onde rolhas de cortiças ajustam o equilíbrio entre eles. Círculos escuros daquelas sombras sinalizam que logo adiante existe uma porta tão aberta que incita o viajante a entrar. Antes, entra o sol fazendo um tapete de claridade, com a forma de paralelogramo alongado. Todo o ambiente está em penumbra, em contraste com a luz exterior. Ouve-se uma voz acompanhando a canção italiana que domina o ambiente. Sombras se movem de um lado a outro, o fundo musical é acompanhado pelo som da louça, dos talheres, tachos e tinas. Só depois da vista acostumada é que aparece um homem claro, com olhos azuis, cabelos crespos e curtos, vestido com sandálias, calças de brim azul, camiseta branca, com marcas de suor na altura do peito. Quando fala, a cena se concentra no rosto daquele homem: um rosto marcado, vincado, como se ele tivesse sido despertado subitamente e ainda mostrasse os sinais de uma luta recém-terminada e violenta. Aquele rosto afasta imediatamente o interlocutor, não permite que outros olhos pousem sobre ele. Não importa o que ele fala, importa apenas o jogo dos olhos, que tem a argúcia, a perícia e o domínio da águia. Deles emana uma força correspondente à dos pulmões, que até agora estavam carregando nas cores daquela música. São necessários alguns minutos para que o ambiente se apazigue e as vozes consigam expressar algo audível, compreensível.

O homem da camiseta suada é Roberto, o cozinheiro e responsável pelo lugar. Atende os viajantes famintos que passam por ali. Deixou a sua terra natal, Itália, para viver aqui. Serve comida apenas com os produtos que a terra oferece naquele dia. Não há cardápio disponível, muito menos preço fixado em lugar algum. Ele acorda e colhe, corta, pica, tempera, cozinha, assa ou frita, e serve. “Vocês estão servidos a almoçar?”, pergunta ao casal que acabou de entrar depois de se apresentar. Renê, o ex-marido, e Georgete, a dona da palmeira azul, concordam prontamente, e são levados para uma sala com três ou quatro mesas, separadas entre si por pequenas esteiras de sapé que pendem do teto, causando um efeito acolhedor e estranho. A mesa é posta pelas filhas do chefe, meninas, entre dez e doze anos, hesitantes entre o servir e o brincar. A mãe delas, em seguida, traz uma cesta de pães, um vidro de azeite de oliva e pergunta se querem beber algo. Lembra-se de se apresentar, desculpa-se por não dar as mãos, brancas de farinha.

O casal se acomoda, um de frente para o outro. Estão cansados da caminhada, a música volta a tocar (Andrea Bocelli) com menos volume, um fundo musical agradável. O cheiro é convidativo, trazido por levas de vento. E Renê aproveita a deixa, reafirmando sua opção pela vida natural. Havia esquecido a função dos ventos, na cidade ele espalha germes, vírus e dióxido de carbono, aqui espalha as sementes das árvores; servem como estradas aos pássaros e insetos, polinizam as flores; e nos traz esses odores. Georgete está bastante entusiasmada com a escolha que fez, conta da sua paixão pela fotografia e pelas oportunidades que tem, agora, de registrar todos os cenários e os momentos que está vivendo. Algo impensável algum tempo atrás. E ambos conversam e contam em detalhes os fatos relevantes de suas vidas, as decepções, as esperanças. Tudo regado a vinho.

No local em que estão sentados, logo atrás, há na parede uma reprodução de Georgia O’Keefe. Uma orquídea com as suas pétalas e sépalas como se fossem lábios, na dúvida entre mostrar e esconder o labelo, o grande âmago de beleza daquela flor que atrai os que contêm o pólen até o seu ápice. O centro do centro da flor. A conversa se encaminhou para a descoberta da concordância entre ambos em vários assuntos. Sim, as interpretações que faziam de todos os fenômenos, tanto os exteriores e interiores a cada um, só adquiriam algum sentido se compartilhados.  A certeza não é desse mundo. Apenas é desse mundo a certeza que um tem e passa para o outro. Verdadeira ou falsa. Ela sempre será falsa, pela ciência, mas verdadeira enquanto fator de aproximação. As mãos atuavam como as pétalas, e os silêncios ganhavam espaço. Cada vez mais.  Eles permitiram que os olhos conversassem. Eles atingiram, diziam, lugares íntimos e inéditos. Mostraram parcelas do seu íntimo, separando-se para o olho alheio. Chegaram à conclusão de que aquela flor exibida pela pintora fora a responsável pelo êxtase do momento. Eles conseguiram compreender uma mensagem comum, diante daquela reprodução. Renê, mesmo sendo admirador da palavra escrita, sabia que ela faltava em determinados momentos, sendo substituída por uma imagem. Georgete acrescentava que o mesmo ocorria com a imagem, ela não conseguiria jamais saborear a totalidade que vai pela alma do ser, a não ser quando tornada palavra.

Pareciam viver um momento único de descoberta íntima, quando Renê e Georgete se levantaram simultaneamente para se aproximar do quadro, lado a lado, voltaram suas cabeças e se tocaram. E os lábios se colaram, definitivos. Momentos depois, as sementes espalhadas pelo vento pediam passagem por entre eles para formar uma coluna e receber a língua feita pássaro. A de Renê disparou na direção dela.

E ela desapareceu.

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

Caixa com ratos – Redux

Casa de secretário é roubada e polícia cobra ação de vigia.

Delegado-geral cobra atuação mais efetiva de vigilantes de rua;

Estado passará a cadastrar e fiscalizar autônomos.

(Folha de S. Paulo, 09 de fevereiro de 2011, n. 29.897)

Depois de cumprir um longo roteiro de trabalho no Grande Texas, a região que se encontra entre Nova York e Los Angeles, ele chegou. Estava sentado na varanda do hotel Brasil, em Miami, o único lugar onde não se precisava falar inglês para ser entendido. Ele estava sentado na varanda de frente para a rua.

Cansado de tanto se esforçar para compreender a língua, traduzir o seu pensamento muitas vezes confuso para um inglês que não provoque risos ou gargalhadas. Em um dos últimos almoços, distraído, pediu uma truta (trout) e repolho, e a garçonete (de patins), muito solícita nas visitas à mesa, não saiu do lugar, sorrindo encabulada, e perguntou se ele pretendia jogar o peixe no lixo. Cabbage e Garbage.

Lembrou também de Josie e da explicação que ela lhe dera para aquela senhora aboletada, diariamente, no saguão de um dos hotéis que o abrigou. Veio à memória que, tempos atrás, esse momento exótico, de alguém parado feito estátua horas e horas no mesmo lugar, se passara em Vegas. Apesar da semelhança logo perdida; o homem sentado estava diante da mesa de Black Jack. E jogava desde a manhã até a noite. Um oriental com uma pilha enorme de fichas. Apenas tentava esquecer o passar do tempo. Lá, você pode apostar no balcão onde se espera pela bebida.

A mulher sentada trajava roupas de diferentes épocas. Camafeu no pescoço. Sob o abrigo vermelho nas costas, que lembrava os romances vitorianos, via-se a blusa branca, calças pretas, largas, sem modular o corpo. Uma peruca de penteado intrincado, uma torre instável de cabelos, vermelhamente falsos. Um adjetivo dispensável. O apetrecho mais incomum, um conjunto de mala e caixa: lá embaixo, a mala de viagem, suas hastes estendidas; sobre aquela, uma caixa com cãezinhos. Transbordante de pelúcias. Sentava-se ora em um sofá, ora em outro, sempre nas extremidades, olhando fixamente o horizonte invisível. Ela ignorava a parede adiante. Não se virava para lado algum. Quedava ali, solene. Parecia esperar.

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print

Caixa com ratos

Casa de secretário é roubada e polícia cobra ação de vigia.

Delegado-geral cobra atuação mais efetiva de vigilantes de rua;

Estado passará a cadastrar e fiscalizar autônomos.

(Folha de S. Paulo, 09 de fevereiro de 2011, n. 29.897)

Depois de cumprir um cansativo roteiro de trabalho no Arizona, ele chegou. Estava sentado na varanda do hotel Brasil, em Miami, o único lugar da América onde não se precisa falar inglês para ser entendido. Olhava o tráfego que diminuía à medida que a noite chegava. Um devoto judeu e seu chapéu sem aba, com copa alta de pele, estava na calçada, de costas para a rua, olhando fixamente para a porta. Parecia não querer se distrair; deu alguns passos, para diante e para trás, sem tirar os olhos da porta. Um rapaz, de calção e camiseta, com aspecto atlético, surgiu do escuro, ultrapassou o homem, pegou na maçaneta e abriu totalmente a porta, em um gesto típico dos americanos, forte, brutal, dispensando a ela o tratamento de coisa, a mola titubeou um pouco e depois começou a fazer o seu trabalho de trazê-la ao lugar original. Nesse meio tempo, o hassídico se esgueirou com uma rapidez juvenil, insuspeitada, e entrou sem toca em nada. Parecia aliviado, já estava ali há vários minutos e ninguém se dispusera a ajudá-lo. Comentou alguma coisa na recepção e pegou as escadas em direção ao seu quarto. Talvez porque o elevador fosse tão lento, ele preferiu o caminho mais rápido, a despeito do esforço de escalar algumas dezenas de degraus.

Ele resolveu entrar. Na recepção, pediu a Raul um café. Explicou que gosta de café expresso, mais fraco ou carioca, como dizem os paulistas. Raul ouviu pacientemente. Afinal, parecia não compreender. Usava o inglês, o dele bem mais fluente que o do nosso herói. Usava o portunhol, e nada. Blando? “Como? Flaco?”Sim, sim. Fraco. E com um pouco de espuma de leite.” “Crema?”Não, leite, espuma de leite. O creme é enjoativo. Por favor, ferva o leite e colha a espuma com a colher e coloque no café.” “Capuccino?”Não, esse tem canela e chocolate. Apenas café e leite.” “?” Entrou outro cliente, pedindo a atenção de Raul. Ele desistiu antes que o guatemalteco o chamasse de complicado novamente, em tom de amável e sorridente brincadeira. Ao passar, pediu para ser chamado às cinco horas da manhã.

O táxi chegou pontualmente. Ao volante, um russo chamado Igor, velho, expressão cansada. Ele, sorridente, perguntou: “Como está?” “Não sei.” “Está começando ou terminando o dia?” “Começando.” “Espero que seja bom.” Ouviu um murmúrio que significava: não quero conversar. Máfia russa, talvez.

Balcão do aeroporto. Lembrava a rodoviária de São Paulo. Gente carregando forno de microondas, equipamento de som, caixas gigantes contendo carrinhos de bebê. Carregadores de malas, com os maiores bíceps que já vira. Conseguiu reservar o seu lugar. Terceira fila da terceira classe. Airbus.

Ele aprendera com o Turista Acidental que a menor quantidade de bagagem era a melhor política. Lavar a roupa no hotel, levar apenas um terno e duas camisas, duas mudas de roupa de baixo, utilizando-se apenas da bagagem de mão. Enfim, tornar a viagem quase inexistente.

Continue lendo »

Compartilhar:
  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • Google Bookmarks
  • email
  • Print
Calendário
maio 2012
S T Q Q S S D
« abr    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  
Galeria
amazon-tree-houses canela body-in-mind-lloyd-burchell brigitte_niedermair
Newsletter
Nome
Email
Tags