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São Sebastião das Três Orelhas

Eu pergunto à Natureza

Segundo em seus filhos vejo

Por que fez o gozo anão

E fez gigante o desejo.

Bartrina.

1.

Depois da separação, nada, aparentemente, havia mudado, exceto o lugar onde morar. Escolheu um flat na cidade, a ex-mulher foi até lá, fez a cama, colocou as roupas nos armários, aprovando a escolha, como se nada houvesse acontecido. Ele esperou que ela saísse e jantou um tomate com um pedaço de queijo ricota, regados com azeite, e foi dormir. Gostava das coisas práticas, comida simples e rápida, sem complicação, cumprindo apenas uma necessidade. Descomplicava o ato de comer, cumpria apenas uma obrigação para com o estômago. Lá fora, o ruído contínuo do tráfego fazia as vezes de um curso de rio.

Assim embalado, dormiu. Sonhou com uma longuíssima escada no aeroporto, aonde chegou após um complicado trajeto no trânsito, com muita lentidão em engarrafamentos, enquanto tentava alcançar o prédio da universidade. Lá, pretendia encontrar a namorada e avisá-la de sua viagem. Já fazia alguns dias que não a via e tampouco conversava com ela, e não queria vê-la preocupada com a sua prolongada ausência. Acabou desistindo do aviso. Estava impaciente demais para enfrentar o trânsito. E tocou para o Aeroporto. Chegou e ficou lá, parado, com suas malas e pertences de mão diante daquele monumento branco, de mármore, corrimão metálico e brilhante. Fascinado. O pedaço de pirâmide do sol urbana estava lá, recém-terminada, esperando por ele. Ainda não tinha sido liberada ao público. Ele atendeu ao convite tácito que ela fez, e pediu a um funcionário que liberasse o seu uso.   Recebeu a autorização e subiu  o seu calvário, puxando malas, ajeitando os pacotes, inseguro, após verificar que o corrimão balançava, estava solto. Quando acabaram os degraus, viu o funcionário se encaminhar em sua direção, dizendo: “Eu fiquei com receio ao vê-lo. Afinal, um homem gordo com aquele monte de coisas e de olhos esbugalhados subindo aquelas escadas, podia muito bem ter se machucado. Felizmente, tudo correu bem. Posso ajudá-lo no seu embarque? Qual a sua companhia?” Acordou banhado em suor, o corpo dolorido. Tomou um banho rápido e foi checar a correspondência, sempre pressionado por suas pendências, atender pedidos de clientes, verificar se não havia esquecido nada.

Conseguiu acertar o seu ingresso no abrigo de animais da cidade de São Sebastião das Três Orelhas. Um lugar suficientemente remoto e calmo, para reabastecer suas energias. Será um assistente e ajudará com os galos de briga. Animais vitoriosos nos combates que, no entanto, tiveram a infelicidade de não morrer na rinha. São inúmeros os combatentes aprisionados pelos institutos de proteção ao meio ambiente, sem lugar adequado para viver. Estavam encostados em um depósito central. A grande maioria está cega, mutilada ou com outras doenças. Fora indicado por um amigo para trabalhar nessa fundação sem fins lucrativos. Assim que percorreu as dependências, alistou-se como ajudante no canil. Foi capturado pelos olhares dos galgos de corrida e de um cão de briga. Aqueles são submetidos a obsessivos treinamentos para atingir o seu potencial máximo na corrida, e por isso têm frequentes hemorragias, acumulando sangue no pulmão pelo esforço da corrida. Com o passar do tempo, claro, eles se desvalorizam. Para não perder dinheiro, alguns proprietários abatem seus animais para receber o seguro; outros não se dão a esse trabalho, ou não conseguem um cadáver equivalente na aparência, e os abandonam. O ex-campeão é recolhido para ser cuidado até o final da sua vida. A sua atenção foi chamada pelo olhar de um cão de briga.  Sobrevivente, sem uma das pernas, cheio de cicatrizes. Ele causa pavor nas pessoas, por sua aparência, pelo possível ou potencial ataque. Ele foi capturado por aquele olhar. Gostou daquele desafio sem palavras.

Estava otimista, livre de qualquer atividade comercial. Deixara os três filhos na cidade com a mãe. Assegurou a educação deles até o final da faculdade. Deu como cumprido o seu dever. Com algum dinheiro que sobrou, comprou uma propriedade e pretendia arrumar as portas, cercas e janelas da pequena e velha casa, cobrir os buracos da estrada para facilitar o acesso, impossível após qualquer chuvinha boba, também queria preparar uma horta, um pomar.  Teve o cuidado de comprar manuais para se preparar. Ele não tinha habilidade manual para qualquer dessas tarefas, deveria antes aprender. Esvaziaria a mente com essa rotina. Seria o seu mantra. Não suportava mais seu estilo de vida. Precisava de paz no espírito.

Fora um homem acostumado a viver em família, mas percebera com o passar do tempo o quanto ela demandava de esforço incessante na entrega. Todas as relações familiares estavam condenadas ao insucesso. As palavras não serviam para o entendimento. Tudo era confusão. Ele não compreendia e não era compreendido. Talvez no futuro distante, quando fosse apenas uma lembrança, prevalecesse uma nuvem de compreensão. Talvez, mas não agora. Ele sabia que, se ocorresse, seria fruto da imaginação. Nos últimos tempos, do nada, ele irrompia entre os seus com uma pergunta: “Diga a palavra que está na sua mente”. “Como assim?” “Qual palavra?” “Para quê?” “Não importa, por favor, apenas diga.” E anotava as palavras. Fazia, assim, o diário do dia. Não permitia que ninguém visse as anotações, para não causar nenhum embaraço. O medo da palavra escrita ainda existia, e provavelmente nublaria o resultado. Para evitar cobranças posteriores. Variavam as situações, os horários e as pessoas.  Nos seus horários de folga, dedicaria seus esforços a decifrar os resultados.

A relação com a ex-mulher percorreu todo o caminho da degradação, do desmonte. Não, ele não culpava ninguém. Parecia que a familiaridade ocasionava um abrir exagerado de portas, canalizava os ventos nem sempre perfumados de parte a parte. E lentamente aquela construção idealizada, chamada vida em comum, ia se desmanchando, formando duas bolhas sem intersecção. Estivera lendo um texto sobre as diferenças entre o desejo e o gozo. A força de um, comparada com a frustração do outro. Ele, um homem sonhador, sempre deixou sua imaginação voar, aprendeu quase tudo sobre a formação, os tipos e a nomenclatura das nuvens, e, quando estas se transformavam em chuva, levavam tudo consigo na enxurrada. Ele se casara por amor. Passara por aquele sentimento descontrolado, exagerado, que assume o comando do corpo e o direciona em mão única para a intimidade. Ela é que leva ao desmanche. São vários os níveis de intimidade alcançados. Todas as camadas que protegem o âmago são ultrapassadas, desfolhadas até que se encontre o centro inteiramente nu, sem proteção de qualquer espécie. Essa, digamos, nudez exagerada leva ao rompimento fatal.  Ao desenlace. Se, de um lado, provou duas vezes daquilo que se chama de amor, fracassou duas vezes na convivência, nenhuma delas suportou por mais de dez anos. Decorrido o prazo, a convivência emitia alertas seguidos, idênticos. Cada vez em intervalos menores de tempo. Não há mais espaço para o conforto da criação. Acabada a capacidade de reinventar o mundo. Mensagens que queimavam no local onde eram fixadas. Ele ficava sem ar, como se estivesse submerso e precisasse desesperadamente de ar. Precisava da superfície. A realidade é a superficialidade das coisas?

A aldeia era ideal. A terra daquele lugar não valia grande coisa, comprara um alqueire por uma ninharia, no meio do vale, oco entre as várias montanhas da serra, ao redor. O antigo dono estava de mudança para a Capital, sequer discutiu o valor oferecido, aceitou na hora. Ele, o ex-marido, estava resolvido a não fazer contato com ninguém, evitaria aqueles habitantes com a sua cara feia de costume. A natureza lhe dera uma expressão reticente e feroz. De qualquer maneira, ele também sabia que estava vivendo o momento do antegozo. Sabia que, satisfeito o desejo, a realidade o mandaria para outro lugar depois de algum tempo. Era inevitável. Estava pronto para viver mais dez anos em progressiva perda daquela grande paz interior que o invadira.

2.

Georgete viaja muitas horas para encontrar a pousada, e com ela vem a paz, o descanso e a sensação de objetivo alcançado. Trabalhou os últimos anos como arquiteta de interiores para uma grande companhia de navegação. Passava o tempo decorando cabines, salões de festas, de ginástica e de eventos em grandes transatlânticos. A empresa mantinha diversos deles percorrendo todo o planeta. O departamento de pesquisa e desenvolvimento descobriu que a maioria dos seus clientes comprava pacotes de viagens consecutivos.  Passavam a maior parte do seu tempo de aposentados em cruzeiros em alto-mar, navegando daqui até acolá, satisfeitos em desfrutar da companhia da tripulação e de outras pessoas.

Ela era uma parte minúscula dessa grande cadeia de solidão embutida nas mais variadas dessas caravelas modernas. Tivera que se isolar no norte da Europa, por questões de economia de custos para o estaleiro. Viveu durante muitos meses em um lugarejo frio, com dias curtos e congelantes, onde não havia outra estação a não ser a hibernal. No pequeno verão, não havia nada para se fazer no fim de semana ou ao final do dia de trabalho. Não havia cinema, o comércio fechava e a cidade, com ele. Para encontrar alguma vida, Georgete tinha que viajar na sexta feira. E para viajar, tinha que encontrar um aeroporto, distante seis horas dali. Mais algumas horas de viagem, e o seu sábado já estava corroído pela metade. Restava, então, meio sábado e um terço de domingo como tempo livre. Passava seus dias de folga dentro de aviões.

Tentava conversar com a dona do mercado e o farmacêutico. Nenhum deles, apesar de afáveis, tinha alguma coisa de interessante para dizer ou para ouvir, e a conversa morria ali mesmo. Rasa. Seus colegas se divertiam assistindo às notícias pela tevê. Quando se reuniam, a conversa, depois de algum tempo, fatalmente desembocava nos novos projetos, novas embarcações. E cada um voltava para o seu alojamento e assistia a um filme baixado pela internet.

Ela se considerava bem-sucedida. Era jovem, cabelos loiros alcançando a linha da cintura, olhos azuis, e era mesmo bonita, não fosse o nariz saliente demais. De temperamento paciente, queria encontrar a pessoa certa. E para isso escolhia com muito cuidado os homens com quem ficava. Realizava aproximações sucessivas; a questão principal não era a oferta, essa sempre foi intensiva, ainda que muito precária nas opções. Encontrou em uma exposição, no último passeio, uma tela que chamou a sua atenção. Golconda mostrava uma interminável chuva de homens, todos com o mesmo traje, distantes um do outro o suficiente para trazer à vista uma sequência de casas geminadas, de mesma arquitetura, predominando o tom pastel das cores nas paredes e no telhado. A única nuance de cor era o azul do céu, indicando o nascer ou o pôr-do-sol. O dia querendo se juntar com a noite. Nada prendia a atenção, exceto o inusitado da imagem, e com uma força tal que, de repente, ela se sentiu dentro da tela, tomando aquela chuva de homens iguais em um subúrbio qualquer de casas idênticas, presa naquela armadilha. E se alguém podia pintar aquela representação maluca, quebrando todas as regras da coerência, ela também poderia deixar de seguir esse caminho tão uniforme e despótico. E, também, de repente, decidiu abandonar aquela armação.

Palmira, sua companheira de todas as horas, foi deixada na casa da amiga mais próxima. Sua antecessora fora encontrada morta no hall do apartamento daquele rapaz, a sua última tentativa com o sexo oposto. Não, não poderia chamá-lo de namorado. Ele se aproximara usando o mote do interesse em Palmira. Georgete cultivava uma palmeirinha-azul de estimação. Intrigado com o fato, ele perguntou como é que se cuidava dela, se não ficava entediada com a falta de resposta daquela criatura, enfim, todo aquele papo introdutório (a genitália pulsando) para se aproximar da vítima. Ela concedeu acesso. Este, protegido com tanta prudência, resultou infrutífero. Ele logo perdeu o interesse, e a conversa entre eles passou a ser, predominantemente, por meio de mensagens de texto.

Numa de suas viagens, escrevera ao amigo perguntando se ele poderia cuidar da Palmira. Ele concordou, até escolheu palavras amistosas e entusiasmadas para cumprir a tarefa. Ela logo deduziu o interesse renascido. Regularmente, perguntava pela saúde de Palmira. Ele respondia, dizendo que estava cada vez mais bonita e saudável, notava até os sinais de saudade na sua coroa de folhas. Ao voltar, Georgete escreveu perguntando o dia e hora em que poderiam se encontrar a fim de que ela apanhasse a palmeira. Ele se desculpou dizendo que precisava viajar, mas que ela seria deixada no hall do apartamento, no dia e hora aprazados.

A pousada é rústica, encerrada entre as montanhas a mil e quatrocentos metros acima do nível do mar. O seu quarto tem três paredes de vidro de onde descortina todo o acolhedor verde da mata. Uma parede está colocada exatamente na beirada da margem de um rio, cujo leito de pedras é palco para o desfiar ininterrupto das águas. Elas cantam, às vezes gorgolejam, comemorando a descida. Começa a se entregar à preguiça. O som ritmado das águas age como um apaziguador. Nada interfere no seu ritmo. Ela reage, desfaz a mala, guarda as roupas. Sai em busca de um cavalo. Quer conhecer as trilhas da serra, planeja visitar todos os morros à sua volta.

Em cada um deles encontra casas dos mais diferentes tamanhos, todas com uma simplicidade franciscana, cavalgando pelos terrenos cortados, pelas culturas em quadriláteros, descobrindo o que foi plantado em cada um deles, pela forma, pelo cheiro, por eliminação; recusa, por timidez, os cafés oferecidos, as cadeiras para conversar; tímida, observa as matronas enxugando as mãos calejadas nos aventais surgindo nos umbrais daquelas portas. Atravessa o seu caminho a casa mais miserável de todas, as boas-vindas oferecidas pela caveira de boi, branca e ressecada, encaixada no mourão e atravessada por uma flor fresca. Ela amarra o cavalo, entra.  Observa, em um canto, um guarda-sol amarelo e esmaecido, e sob ele um homem, de pele queimada, barba por fazer, calças usadas, outrora, por um defunto bem mais gordo, cinzelando um toco de madeira. Um pouco mais atrás, uma fileira de homens santos forma uma brigada ligeira. Todos com uma expressão dolorida, uns com mãos postas, outros segurando um cajado, como são Quixotes; senta-se sem ser convidada, apenas observando o trabalho dele. Cada pingar daquele tempo do homem é utilizado para afilar um nariz, arredondar um lóbulo, acertar uma conta do rosário, esculpir uma unha, lixar o manto, até que a figura escapa da mão, resplandecente, e toma um lugar na fila, com sua porção de vida à mostra.

Depois do jantar, ela se recolhe ao quarto, acende a luz, incendiando aquela escuridão murmurante que reina lá fora. Enche a banheira, no centro do cômodo, com água bem quente, e desliza lá para dentro. Depois de algum tempo, ela inspira toda a névoa que se formou e se umedece por dentro. Ouvindo a melodia natural fluindo, se dá conta de que o ritmo era o mesmo de Robert Johnson cantando:  I got a kind hearted woman/ do anything in this world for me/ I got a kind hearted woman/do anything in this world for me/ but these evil-hearted women/ man, they will not let me be. Adormece. Sonha com o Rio Jordão, volumoso, azul, sem pedras. Ela nada a favor da corrente, com muito empenho, as margens longínquas, é ultrapassada por um grupo de homens, invariavelmente loiros, nadando com vigor. Não dá nenhuma importância e segue até reencontrá-los adiante, na margem direita. Curiosa, aproxima-se para ver. Participam de uma cerimônia. Estão com água até os joelhos, com roupas brancas, banham pessoas que esperavam em terra firme, logo atrás.  Ouve a salmodia, não sente o sabor da letra e resolve seguir seu trajeto. Quer aproveitar todo o percurso do rio, mais do que tudo, o irreal volume de água limpa e azul, e aquela abundância das plantações na margem. Foi recepcionada ao final, perto da foz do Mar Morto, por todos aqueles homens loiros como ela.

3.

Na montanha mais alta e ventosa de São Sebastião das Três Orelhas, detrás de uma prancha de madeira, onde se lê, garatujada, a palavra Cantina, surge uma casa com os tijolos à vista, vestidos com uma demão de cal virgem. Uma porta de madeira entreaberta deixa ver a chapa com as letras e números de um velho automóvel, estacionado há muito tempo, denúncia feita pela grossa camada de pó vermelho sobre a lata do porta-malas. Um pequeno caminho de cascalho incentiva que se dê a volta pela esquerda. Alguns guarda-sóis cobrem mesas feitas com tábuas, sobre cavaletes, onde rolhas de cortiças ajustam o equilíbrio entre eles. Círculos escuros daquelas sombras sinalizam que logo adiante existe uma porta tão aberta que incita o viajante a entrar. Antes, entra o sol fazendo um tapete de claridade, com a forma de paralelogramo alongado. Todo o ambiente está em penumbra, em contraste com a luz exterior. Ouve-se uma voz acompanhando a canção italiana que domina o ambiente. Sombras se movem de um lado a outro, o fundo musical é acompanhado pelo som da louça, dos talheres, tachos e tinas. Só depois da vista acostumada é que aparece um homem claro, com olhos azuis, cabelos crespos e curtos, vestido com sandálias, calças de brim azul, camiseta branca, com marcas de suor na altura do peito. Quando fala, a cena se concentra no rosto daquele homem: um rosto marcado, vincado, como se ele tivesse sido despertado subitamente e ainda mostrasse os sinais de uma luta recém-terminada e violenta. Aquele rosto afasta imediatamente o interlocutor, não permite que outros olhos pousem sobre ele. Não importa o que ele fala, importa apenas o jogo dos olhos, que tem a argúcia, a perícia e o domínio da águia. Deles emana uma força correspondente à dos pulmões, que até agora estavam carregando nas cores daquela música. São necessários alguns minutos para que o ambiente se apazigue e as vozes consigam expressar algo audível, compreensível.

O homem da camiseta suada é Roberto, o cozinheiro e responsável pelo lugar. Atende os viajantes famintos que passam por ali. Deixou a sua terra natal, Itália, para viver aqui. Serve comida apenas com os produtos que a terra oferece naquele dia. Não há cardápio disponível, muito menos preço fixado em lugar algum. Ele acorda e colhe, corta, pica, tempera, cozinha, assa ou frita, e serve. “Vocês estão servidos a almoçar?”, pergunta ao casal que acabou de entrar depois de se apresentar. Renê, o ex-marido, e Georgete, a dona da palmeira azul, concordam prontamente, e são levados para uma sala com três ou quatro mesas, separadas entre si por pequenas esteiras de sapé que pendem do teto, causando um efeito acolhedor e estranho. A mesa é posta pelas filhas do chefe, meninas, entre dez e doze anos, hesitantes entre o servir e o brincar. A mãe delas, em seguida, traz uma cesta de pães, um vidro de azeite de oliva e pergunta se querem beber algo. Lembra-se de se apresentar, desculpa-se por não dar as mãos, brancas de farinha.

O casal se acomoda, um de frente para o outro. Estão cansados da caminhada, a música volta a tocar (Andrea Bocelli) com menos volume, um fundo musical agradável. O cheiro é convidativo, trazido por levas de vento. E Renê aproveita a deixa, reafirmando sua opção pela vida natural. Havia esquecido a função dos ventos, na cidade ele espalha germes, vírus e dióxido de carbono, aqui espalha as sementes das árvores; servem como estradas aos pássaros e insetos, polinizam as flores; e nos traz esses odores. Georgete está bastante entusiasmada com a escolha que fez, conta da sua paixão pela fotografia e pelas oportunidades que tem, agora, de registrar todos os cenários e os momentos que está vivendo. Algo impensável algum tempo atrás. E ambos conversam e contam em detalhes os fatos relevantes de suas vidas, as decepções, as esperanças. Tudo regado a vinho.

No local em que estão sentados, logo atrás, há na parede uma reprodução de Georgia O’Keefe. Uma orquídea com as suas pétalas e sépalas como se fossem lábios, na dúvida entre mostrar e esconder o labelo, o grande âmago de beleza daquela flor que atrai os que contêm o pólen até o seu ápice. O centro do centro da flor. A conversa se encaminhou para a descoberta da concordância entre ambos em vários assuntos. Sim, as interpretações que faziam de todos os fenômenos, tanto os exteriores e interiores a cada um, só adquiriam algum sentido se compartilhados.  A certeza não é desse mundo. Apenas é desse mundo a certeza que um tem e passa para o outro. Verdadeira ou falsa. Ela sempre será falsa, pela ciência, mas verdadeira enquanto fator de aproximação. As mãos atuavam como as pétalas, e os silêncios ganhavam espaço. Cada vez mais.  Eles permitiram que os olhos conversassem. Eles atingiram, diziam, lugares íntimos e inéditos. Mostraram parcelas do seu íntimo, separando-se para o olho alheio. Chegaram à conclusão de que aquela flor exibida pela pintora fora a responsável pelo êxtase do momento. Eles conseguiram compreender uma mensagem comum, diante daquela reprodução. Renê, mesmo sendo admirador da palavra escrita, sabia que ela faltava em determinados momentos, sendo substituída por uma imagem. Georgete acrescentava que o mesmo ocorria com a imagem, ela não conseguiria jamais saborear a totalidade que vai pela alma do ser, a não ser quando tornada palavra.

Pareciam viver um momento único de descoberta íntima, quando Renê e Georgete se levantaram simultaneamente para se aproximar do quadro, lado a lado, voltaram suas cabeças e se tocaram. E os lábios se colaram, definitivos. Momentos depois, as sementes espalhadas pelo vento pediam passagem por entre eles para formar uma coluna e receber a língua feita pássaro. A de Renê disparou na direção dela.

E ela desapareceu.

Caixa com ratos – Redux

Casa de secretário é roubada e polícia cobra ação de vigia.

Delegado-geral cobra atuação mais efetiva de vigilantes de rua;

Estado passará a cadastrar e fiscalizar autônomos.

(Folha de S. Paulo, 09 de fevereiro de 2011, n. 29.897)

Depois de cumprir um longo roteiro de trabalho no Grande Texas, a região que se encontra entre Nova York e Los Angeles, ele chegou. Estava sentado na varanda do hotel Brasil, em Miami, o único lugar onde não se precisava falar inglês para ser entendido. Ele estava sentado na varanda de frente para a rua.

Cansado de tanto se esforçar para compreender a língua, traduzir o seu pensamento muitas vezes confuso para um inglês que não provoque risos ou gargalhadas. Em um dos últimos almoços, distraído, pediu uma truta (trout) e repolho, e a garçonete (de patins), muito solícita nas visitas à mesa, não saiu do lugar, sorrindo encabulada, e perguntou se ele pretendia jogar o peixe no lixo. Cabbage e Garbage.

Lembrou também de Josie e da explicação que ela lhe dera para aquela senhora aboletada, diariamente, no saguão de um dos hotéis que o abrigou. Veio à memória que, tempos atrás, esse momento exótico, de alguém parado feito estátua horas e horas no mesmo lugar, se passara em Vegas. Apesar da semelhança logo perdida; o homem sentado estava diante da mesa de Black Jack. E jogava desde a manhã até a noite. Um oriental com uma pilha enorme de fichas. Apenas tentava esquecer o passar do tempo. Lá, você pode apostar no balcão onde se espera pela bebida.

A mulher sentada trajava roupas de diferentes épocas. Camafeu no pescoço. Sob o abrigo vermelho nas costas, que lembrava os romances vitorianos, via-se a blusa branca, calças pretas, largas, sem modular o corpo. Uma peruca de penteado intrincado, uma torre instável de cabelos, vermelhamente falsos. Um adjetivo dispensável. O apetrecho mais incomum, um conjunto de mala e caixa: lá embaixo, a mala de viagem, suas hastes estendidas; sobre aquela, uma caixa com cãezinhos. Transbordante de pelúcias. Sentava-se ora em um sofá, ora em outro, sempre nas extremidades, olhando fixamente o horizonte invisível. Ela ignorava a parede adiante. Não se virava para lado algum. Quedava ali, solene. Parecia esperar.

Caixa com ratos

Casa de secretário é roubada e polícia cobra ação de vigia.

Delegado-geral cobra atuação mais efetiva de vigilantes de rua;

Estado passará a cadastrar e fiscalizar autônomos.

(Folha de S. Paulo, 09 de fevereiro de 2011, n. 29.897)

Depois de cumprir um cansativo roteiro de trabalho no Arizona, ele chegou. Estava sentado na varanda do hotel Brasil, em Miami, o único lugar da América onde não se precisa falar inglês para ser entendido. Olhava o tráfego que diminuía à medida que a noite chegava. Um devoto judeu e seu chapéu sem aba, com copa alta de pele, estava na calçada, de costas para a rua, olhando fixamente para a porta. Parecia não querer se distrair; deu alguns passos, para diante e para trás, sem tirar os olhos da porta. Um rapaz, de calção e camiseta, com aspecto atlético, surgiu do escuro, ultrapassou o homem, pegou na maçaneta e abriu totalmente a porta, em um gesto típico dos americanos, forte, brutal, dispensando a ela o tratamento de coisa, a mola titubeou um pouco e depois começou a fazer o seu trabalho de trazê-la ao lugar original. Nesse meio tempo, o hassídico se esgueirou com uma rapidez juvenil, insuspeitada, e entrou sem toca em nada. Parecia aliviado, já estava ali há vários minutos e ninguém se dispusera a ajudá-lo. Comentou alguma coisa na recepção e pegou as escadas em direção ao seu quarto. Talvez porque o elevador fosse tão lento, ele preferiu o caminho mais rápido, a despeito do esforço de escalar algumas dezenas de degraus.

Ele resolveu entrar. Na recepção, pediu a Raul um café. Explicou que gosta de café expresso, mais fraco ou carioca, como dizem os paulistas. Raul ouviu pacientemente. Afinal, parecia não compreender. Usava o inglês, o dele bem mais fluente que o do nosso herói. Usava o portunhol, e nada. Blando? “Como? Flaco?”Sim, sim. Fraco. E com um pouco de espuma de leite.” “Crema?”Não, leite, espuma de leite. O creme é enjoativo. Por favor, ferva o leite e colha a espuma com a colher e coloque no café.” “Capuccino?”Não, esse tem canela e chocolate. Apenas café e leite.” “?” Entrou outro cliente, pedindo a atenção de Raul. Ele desistiu antes que o guatemalteco o chamasse de complicado novamente, em tom de amável e sorridente brincadeira. Ao passar, pediu para ser chamado às cinco horas da manhã.

O táxi chegou pontualmente. Ao volante, um russo chamado Igor, velho, expressão cansada. Ele, sorridente, perguntou: “Como está?” “Não sei.” “Está começando ou terminando o dia?” “Começando.” “Espero que seja bom.” Ouviu um murmúrio que significava: não quero conversar. Máfia russa, talvez.

Balcão do aeroporto. Lembrava a rodoviária de São Paulo. Gente carregando forno de microondas, equipamento de som, caixas gigantes contendo carrinhos de bebê. Carregadores de malas, com os maiores bíceps que já vira. Conseguiu reservar o seu lugar. Terceira fila da terceira classe. Airbus.

Ele aprendera com o Turista Acidental que a menor quantidade de bagagem era a melhor política. Lavar a roupa no hotel, levar apenas um terno e duas camisas, duas mudas de roupa de baixo, utilizando-se apenas da bagagem de mão. Enfim, tornar a viagem quase inexistente.

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Se ele parasse, acabaria descobrindo como ele é triste.*


São-nos incutidos os efeitos benéficos

da observação firme e rigorosa das pequenas coisas,

ou seja, de nos acostumarmos e adaptarmos

às leis e ordens impostas por um exterior severo.

Robert Walser, Jakob Von Gunten

Tibum: o primeiro som guardado na memória. Seu pai o apanhou da cama, estreitou-o junto ao corpo e o levou pelo corredor da casa em passadas bem rápidas. Entraram na primeira porta aberta. Abaixou-se, deitando o corpo do menino nos braços, feito padiola, e o largou dentro de uma bacia de alumínio cheia de água fria até a borda.

O menino, desesperado, sequer imaginava uma receita médica como essa para aliviar a dor. Olhou assustado para cima: viu a face espinhenta do pai, o cabelo despenteado; o teto amarelo formado com as ripas encaixadas como macho e fêmea; as paredes esmaltadas; o espelho da luz; e, por último, a cabeça da mãe, enquadrada pela porta, logo atrás das lentes dos óculos, o par de olhos entre curiosos e aflitos. Ele continuava sem entender nada, apenas sentindo o frio da água.

Depois de algum tempo e muita discussão, chegou-se ao diagnóstico: pólio. A criança ficou algum tempo em febre alta, o corpo lutando para expulsar o vírus, letal em alguns casos, se dominasse os pulmões e o cérebro. Terminada a batalha, restou destruída noventa por cento da musculatura da perna esquerda e setenta da direita; alguns músculos do lado esquerdo do peito restaram inativos.

Otília Kafta

“La verdad, por escandalosa que sea,
es que los hindúes les importan más las ideas
que las fechas y que los nombres proprios.”
Borges

Reunião em família. Todos na sala de jantar ao redor da mesa. Na cabeceira, o pai Hermano e, em frente a ele, Noé, o filho. Sentadas à mão esquerda do pai, a filha, Valéria, o outro filho, Gabriel, e todas as recordações dos irmãos, pai, mãe e parentes, todos mortos; à mão direita, a mulher Júlia, mais uma filha, Otília, e Lalá, seu namorado.  Ao terminar o jantar, as meninas imediatamente ajudaram a mãe com a louça. O pai aguardou a arrumação jogando paciência na mesa redonda de tampo forrado de flanela verde. Gabriel esperou, sentado, olhando para a louça guardada no móvel, distraído com a paisagem rural esboçada nela em azul; estava distante. Lalá e Noé conversavam em voz baixa na varanda da frente.

Noé largara a faculdade de medicina. Gostava mesmo era de poesia, que transformava em canções. Essa vontade era mais forte que qualquer outra, e, sendo forte, contrastava com seu corpo miúdo e seus movimentos lábeis. Estava com o propósito de seguir carreira artística. Seu espírito se arrumava em palavras e rimas e ritmos. Naturalmente. Sem esforço. Até quando dormia, era em versos que sonhava cantatas e mulheres. Contava com a ajuda sorrateira de Otília, e agora com a de Lalá,  seu companheiro de todas as horas e repudiado pela mãe e pelo pai. Com o seu jeito gozador, diziam, havia raptado dois de seus filhos. Otília tinha uma alma sutil de amante carinhosa. Já estava em rota de franca colisão com os pais. Afinal, Lalá era gói, americano (torcedor do América Futebol Clube) fanático, magro,  mulato, de voz fina, boêmio, amante fogoso, que nas horas vagas trabalhava com dedetização. Um tijucano que frequentava o piscinão de Ramos procurando rabo de saia. Causara escândalo ao surgir fantasiado de diabo, todo de vermelho dos chifres ao rabo, durante o corso de comemoração do título carioca.

O pai o considerava apenas um atencioso auxiliar no Shabat. Além de solícito, fazia todas as tarefas interditadas à família no dia a ser guardado. Beirava o servilismo. Foram o respeito, a educação e o carinho que conquistaram Otília. Apenas um amor platônico. O pai não o vetara, mas periodicamente sentenciava: “Isso não adianta de nada, ser talentoso e engraçado. Isso não enche a barriga de ninguém”. Considerava-o um reles, um parasita, exterminador de inseto, um grilo de casaco verde e pernas finas.

Atingido por uma dessas diásporas, o pai saíra de sua aldeia e conseguira comprar suas passagens para a América. Descera no Rio e sem falar uma palavra de português, pensando estar em Nova Iorque, falando o iídiche. Com a ajuda de alguns patrícios, conseguira lugar em uma pensão e, afinal, descobrira a América – do Sul. Em seguida, descobrira também a sua mulher. Casaram. E, de mascate vendedor de perucas para empregadas domésticas e próteses para desdentados, descobrira com muita luta um ponto em Cascadura e montara sua loja de móveis, que até hoje garantia o sustento e a prosperidade da família.

A mãe procurava evitar que ele descobrisse também a vocação do filho, acobertando-o.  O temperamento prático e irascível do pai tornava tudo mais difícil.  Até o dia em que Noé lhe entregou  uma folha com letras de músicas. Olhou de relance os versos:  “Não tem ideal na vida/Além de casa e comida/Tem seus amores também/E muita gente que ostenta luxo e vaidade/Não goza a felicidade/Que goza João Ninguém!” Jogou-a na mesa de cabeceira de sua cama, para ler depois, com calma. Foi esse o dia em que Noé declarou que não iria mais à faculdade. Ela estava acabando com ele. Consumindo seus dias. Queria fazer o que queria fazer.

Foi proibido de fazer tal asneira. Terminantemente. Não é coisa de nossa família. O filho jamais se tornaria um vagabundo enquanto o pai vivesse. Esqueça isso. Foi uma cena tragicômica. Ficou surpreso diante da firmeza do filho. Não dera nenhuma resposta, não entrou no clima de agitação e rebuliço instalado no lar. A mãe não ousou desafiar o pai, a frase “quem sabe fosse melhor assim” ficou rodando dentro da sua cabeça sem encontrar espaço para sair, os dentes cerrados, os ouvidos zonzos com os gritos, tapados, as mãos, sem lugar para se esconder ou coragem para abrigar Noé, ficaram presas uma na outra. Tronco curvado, Noé enfrentava o ciclone de gritos e perdigotos. Até que o pai, cansado, cessou. Ele fremia, arfava, o purpúreo desceu do rosto e se espalhou pelo corpo. Algum tempo depois, deu um longo suspiro e disse: “Seu irmão está encaminhado. Gabriel montou uma empresa de contabilidade, e poderá arranjar um emprego para você se sustentar. Noé, vá trabalhar com seu irmão. Basta de humilhação. Não basta o nosso nome ter sido manchado? Eu fui registrado no Brasil por um sefaradi, um… um árabe, ninguém me tira isso da cabeça. Isso foi vingança. Inveja. Nosso nome foi transformado em ‘escroquete’ de carne: Kafta. Um bolinho libanês. Trocar K por T? Essa troca das letras é motivo de troça pela comunidade. Pela frente ninguém me fala nada. Mas eu sei. É por trás, hã? Sem defesa. Eu não consigo suportar a idéia de você se tornar um arruaceiro, um dançarino, um… um… desclassificado”.

Depois de toda aquela agitação, o clima familiar recebeu uma demão de verniz e se acalmou. Entretanto, ao ser convidado para o jantar de hoje, Lalá tinha alguma coisa pesando em sua consciência. Não sabia exatamente o que era. Aliás, não sabia qual dos motivos fora descoberto. Mas tentou relaxar, esquecer. Não dar bola. E perguntou à Dona Júlia: “E aí, sogrinha, o que rola na janta?” Ouviu: “Teremos: Borscht, Varenyky, Piroshky, Latkes, Blintzes.” “Xi! Quanta gente! Vai sobrar um lugarzinho pra mim?” Ela se resignou a franzir a testa, dar de ombros e se encaminhar desanimada para cozinha. Logo depois, chegou Noé. Depois de informado, desatou a rir e disse entre os dentes: “São os pratos que a mãe só prepara em datas festivas. É sinônimo de fartura, das tradições e da perícia da dona da casa”.

Hermano terminou sua mão, chamou a todos e começou a conversar. Depois de esperar, tamborilando com os dedos da mão direita, a chegada de Noé e Lalá,  disparou:

– Meu amigo Salomão me contou que você, Otília, está alugando uma casa dele no Andaraí, e que apresentou o Lalá como fiador. O que significa isso?

– Não é nada do que você está pensando, pai – envergonhada, olhou para o chão e depois para a mãe.

– Estou pensando que você é uma sem-vergonhice sem tamanho, é isso que estou pensando.

– Seu Hermano – disse Lalá –, eu posso explicar?

– Por favor, Hermano, deixe o menino falar – suplicou Dona Júlia.

– Desembucha.

– A casa que estamos alugando é para o Noé. Ele está precisando se isolar, sair aqui do Grajaú, da família, para compor, para consolidar a carreira. Ele tem talento, mas não consegue sossego ou espaço para se concentrar. Trabalha até as quatro, só tem o final da tarde para compor. E de noite, bem de noite, nós vamos cantar, vender nossas composições, fazer negócios.

– O senhor é muito hábil para mostrar o lado bom de alguma coisa ridícula, que não tem o menor valor. Nós somos uma família honesta e trabalhadora. Meu pai foi açougueiro durante cinquenta anos da sua vida útil, nunca tirou férias, apenas não trabalhou quando era absolutamente proibido pela nossa religião. Era também um rabino e ajudava ao próximo naqueles momentos de folga. Cantou o Altíssimo sem ser um herege. Sempre foi humilde. Ganhou o seu pão honestamente. Eu tento seguir os seus ensinamentos, e vem o senhor com esta farsa? Não se envergonha de, compartilhando da nossa intimidade, sabendo como somos, fazer essas propostas?

Ouviu-se a voz baixa de Noé:

– O senhor desde que eu me lembro jamais nos ouviu, não só a mim, mas a ninguém aqui de casa. Qualquer coisa que nós queríamos só podia ser ouvida depois de termos engolido o ovo cru pela goela, como ração diária de saúde e bem estar. Será que o senhor nunca pensou que a felicidade não é apenas sair ganhando e catando por aí? Que o senhor sabe se exprimir apenas com seu comércio? Quando compra suas coisas e as vende, tem a satisfação de ter sido entendido por um cliente seu. O senhor adivinhou o que ele gostaria de fazer com o dinheiro dele e por isso está feliz. Quer se radicar. Pertencer a algum lugar. Perante os seus, ser considerado um bom comerciante o enche todo de orgulho e exige que nós, seus filhos, sejamos iguais. Por que o senhor jamais parou para pensar nisso? Porque a sua vida é uma tábua de passar roupa. Pronta para entrar em ação de uma só maneira. Pensa que eu não o vejo lá na loja, parado, pensando, olhando o vazio? Será que eu não percebo quando o senhor vem para casa e a mãe se apressa a preparar o seu prato, reunir os filhos à mesa e servir tudo muito rápido, porque o senhor não tem tempo a perder? Tem, sim, pai. Tem tempo a perder, que o senhor perde só, sem testemunhas, lá na loja. O senhor nunca se voltou para si próprio. Nunca se deu uma chance de ser feliz. De curtir a sua passagem pela Terra sem se preocupar com a opinião alheia. Apenas fazendo o que bem quer. Seus acessos de cólera, a sua tirania, servem apenas para proteger ferozmente seu íntimo, e alguém, para amá-lo, tem que concordar com a essa distância. É isso, pai. O avô cantava, enquanto Rabino. Mas cantava para expressar a alegria que sentia ao servir algo ou alguém. Não protegia o seu interior, mas o compartilhava. Bem que eu queria ser um médico ou assistente de contabilidade, e ser feliz assim. Mas, pai, eu não consigo. Eu tenho uma fissura no meu corpo. Uma brecha luminosa que teima em aparecer, caudalosa como um rio, e a música se apoderou dela. E os versos se encadeiam em minha mente, querendo eu ou não. Acordo pela manhã com uma canção na cabeça, basta colocar no papel e ela está com rima e metro. Não quero me prender em lugar algum, nem em ninguém. Não pretendo me casar, muito menos deixar de aproveitar a vida. É do meu instinto vital. Gosto das mulheres que gostam de mim. Jamais vou me casar, não quero perder a minha liberdade. Não quero ser amarrado pelo pai a ninguém, por ninguém. O meu nome é honrado sim, não devo nada, não quero nada. Disse isso nos versos que lhe entreguei, e o senhor sequer os olhou. Viver jogando seu baralho, para ganhar o seu dinheiro e juntar coisas, para depois não saber o que fazer com elas? Não, pai, isso não faz nenhum sentido para mim.

Um silêncio preencheu o local, cobriu todas as pessoas. Eternizava-se, até:

– Você é um sonhador. Vai morrer na miséria e tuberculoso, de tanto ficar sem dormir e bebendo por aí. Você está é acobertando a sua irmã.

– A minha irmã é alguém que me ama, e que pensa como eu. Eu teria o máximo prazer em poder retribuir e acobertá-la, dando algum lugar em minha casa para ela morar também. Ela é que não quer. Quer casar com o Lalá e procriar, viver uma vida sem graça, como a mãe.

– Essa questão de sair de casa é uma coisa. A questão de aceitar a fiança do Lalá é outra coisa completamente distinta. Nós, como família, temos um projeto de economizar dinheiro e poder morar no Leblon, sair daqui. Não podemos sair gastando nosso dinheiro para despertar o seu instinto criativo. Não há lugar em nosso orçamento para essas bobagens.

– Então o senhor será meu fiador?

– Não, você não sai de casa. Esse dedetizador, explorador de donas de casa medrosas, vendedor de veneno falsificado, não irá nos jogar na sarjeta. E tampouco sua irmã continuará o namoro com ele. Aguentei demais: basta, chega. Essa é decisão do nosso tribunal familiar. Se alguém não estiver de acordo, por favor, se levante.

– Vou ao banheiro – disse Noé, e se levantou.

– Deixarei vocês à vontade – disse Lalá, e se dirigiu para a varanda. Ao cruzar o batente, olhou para trás e disse: – Seu Hermano, eu tenho um amigo que quer vender o apartamento na Rua Gastão Bahiana, Lagoa. O preço é bom. Se interessar, eu passo o contato.

Aos poucos a conversa adquiriu algum ritmo e outra direção. O silêncio se esfarrapou. Ninguém queria falar mais daquele assunto. Depois de um tempo, a mãe pediu licença para se encaminhar ao quarto para descansar, achou conveniente afirmar o seu apoio à decisão do marido.

Uma menina toda fantasiada, dourada como odalisca, com a barriga de fora, lisa e coroada pelo umbigo brilhante de purpurina, entrou perguntando pelo Noé:

– Boa noite, meu nome é Ceci. O Lalá me avisou que ele está aqui dentro. Temos uma festa para ir, alguém pode chamar ele?

E abriu um sorriso demolidor.

Plástico ou A desgraça provém da inteligência.

I love Los Angeles.

I love Hollywood.

They’re beautiful.

Everybody’s plastic, but I love plastic.

I want to be plastic.

Andy Warhol

Escrever é como comer doces. É a minha diversão. No meu almoço, começo a escrever sobre o que se passa pela minha cabeça. Trabalho o equivalente a nove dias por semana, oito horas por dia. Minha tarefa é a de extrair todos os fios soltos dentro dos jeans exportados para o oeste. (Como são grandes as calças; queria conhecer uma pessoa que as usa.) É uma tarefa cansativa, mas fácil de ser feita; requer apenas atenção e paciência. Tenho muitas saudades dos meus pais. Eles são de Sichuan. Estou em uma grande cidade, com muitas pessoas, que falam de muitas coisas que não entendo. Nem sei se quero entender ao observar como eles vivem os seus horários de descanso.  Eles se extenuam ainda mais, precisam ocupar mais espaço, estão contaminados pela competição, que nunca se esvai, nunca termina.

A minha colega Orquídea (ah, meu nome é: Jade.) me levou para uma reunião na associação cristã. Lá, conheci um menino que veio conversar comigo. Ele também veio de outra província, e é jogador profissional. Fica em frente ao computador, durante horas, jogando contra outros meninos do mundo inteiro, e ganha por isso. Ganha muito bem, vive rodeado de admiradores. Disse que apanhou todos os dias, ora do pai, ora da mãe, quando pequeno. Eles diziam que ele devia trabalhar e economizar, não passar o dia inteiro jogando. Ele treina, até hoje, doze horas por dia. Os pais se envergonhavam disso perante a vila. Até que o filho (SkY) mandou o seu primeiro salário. E junto com ele vieram os repórteres, a tevê, a fama. Ganharam o respeito alheio. Compraram carro, móveis, utensílios. Hoje tem orgulho do filho, que se tornou filho da aldeia inteira. Eu? Não sei qual a utilidade desses objetos. É só uma batelada de plásticos.

Os meus pais não pedem meu dinheiro, dizem que eu devo guardá-lo para o meu uso, que vou precisar dele. Eu mando mesmo assim, separando um pouco para mim. Aqui eu tenho tudo de que preciso. Bem, a comida poderia ser um pouco melhor e mais barata, mas é suficiente. Minhas colegas são minha família. Um rapaz que trabalha comigo também frequenta as reuniões. Ele é simples, econômico, não gasta quase nada do que ganha, economiza muito. Quer ter uma fábrica igual à do patrão no futuro. Escrevi para minha mãe, contando que gosto dele. Ela me recomendou que eu escolhesse um menino de família rica, não deveria me apaixonar por alguém pobre como eu. Já esperei por ele até meia-noite, e ele não apareceu. Explicou que precisara trabalhar até tarde. Ele, todo sem jeito, me deu uma corrente dourada com uma borboleta, e quer conhecer a minha família. Nós viajaremos para as festas do final do ano.  Afinal, são dois anos fora de casa.

Eu, Orquídea e Elegante (ela usa o corredor entre os beliches como passarela e desfila imitando o andar das modelos), escrevemos um bilhete que colocamos no bolso da calça: Jade, Orquídea e Elegante fizemos esta calça, espero que goste. Orquídea colocou os bolsos, Elegante costurou o zíper e Jade retirou as imperfeições. Somos de Sichuan, estamos curiosas para saber se você gostaria da nossa comida. Desejamos-lhe harmonia e equilíbrio.

Hoje comprei uma calça de brim. Encontrei o bilhete no bolso. Conheci a história de uma mulher romena que se oferecia em casamento ao homem, futuro comprador da sua roupa.  Meu sogro se encarregou de fazer a tradução (a caligrafia é linda, disse ele); ele é conterrâneo, mas precisou do dicionário para traduzir. Queria agradecer, dizer o quanto gosto da comida de lá, aprendi até o preparo. Criei a expectativa, frustrada, que aqui em casa apreciassem. Não há tempo para se deliciar. Apenas se mata a fome, e o ruído que o sabor faz na boca se torna branco. Não se percebe. Nós moramos perto do aeroporto. E o som das turbinas é outro ruído branco. As mulheres cuidam dos negócios. Nós cuidamos da casa. O velho, nas horas vagas, compra Kombis decrépitas, reforma e passa adiante. Um dia a aorta se desfez nele, desmanchando nossa dupla. Eu sou afinador de piano. Trabalho nisso depois de fracassar nas outras iniciativas. Aproveitei um dom de família que não conhecia. Depois de conseguir calma, e com ela tempo, tive disposição para ouvir o meu corpo e descobrir a minha habilidade: uma audição perfeita. Capaz de distinguir as menores variações de tonalidade. Peguei intimidade com o instrumento. O piano é uma pessoa, cada um tem a sua voz. Cada som é peculiar e único. Assim como os seres humanos, ele nos trata como nós o tratamos. E, hoje em dia, o meu trabalho é cada vez mais valorizado e  menos requisitado. Em sua grande maioria, os instrumentos são mal tratados, estão em locais precários, com muita umidade, e sem uso. Eles estão ali, como artigos de decoração. Imagem. O seu interior, marteletes, feltros, cordas, cravelhas, não se movimenta, e por isso, quando sou chamado, não consigo estabelecer uma afinação estável.

Hoje é dia da visita do afinador. Eu mesmo poderia fazer a afinação. O gosto pela perfeição, de tocar em ambientes controlados, fechados e sem qualquer ruído, permanece. Mas a perda dos movimentos da mão esquerda e da perna direita veio assim, do nada, uma mudança brusca. Primeiro, o repúdio. Não queria saber mais dele. Não podia mais tocar com ele. Cada nota da melodia, cada silêncio, tudo tem sentido, razão de ser e deve ser executado com a maior perfeição possível. Para isso é que existe a partitura e os andamentos. Somos e seremos sempre ajudantes do compositor, executores da sua inspiração. Os exercícios de fisioterapia já permitem que eu movimente a mão e a coloque sobre o teclado e o pé no pedal. Os movimentos são inexistentes. Estou aqui ao lado, esperando o fim da afinação. Como se depois dela eu pudesse tocar.

O que a música diz para mim? É um virtuosismo do compositor, uma obra para mostrar perícia e técnica? Ou um estado do seu espírito, transformado em sons, para nos comunicar algo? Eu preciso da música para tocar piano? Ou preciso do piano para tocar música?

É a primeira visita depois do meu incidente.  Ele chega, começa o seu trabalho, fico por ali para saber como ele encontra a afinação quatrocentos e quarenta. Ele fecha os olhos para ouvir cada som. E rapidamente encontra o padrão. Seus movimentos são precisos e delicados, as mãos são grandes e os dedos, finos.  Ao ser indagado por mim, revela que não toca. É tarde. Deveria iniciar desde muito cedo, para acostumar-se com os movimentos. Sendo a música um diálogo, deve-se começar desde muito cedo, quando se começa a falar. O som que produzimos no instrumento será a nossa palavra. A frase é o pensamento, e a música o nosso romance, conto ou novela. Cada um de nós consegue um som próprio. Um canto. Hoje eu seria, caso começasse a tocar, como aquele Kaspar Hauser. Alguém com um acento comprometedor.  Perguntou quando eu começara a tocar. Não esperou minha resposta, ele sabia que a minha comunicação é exclusivamente através da música, e eu estava mudo.

Eu lhe dei um silêncio evasivo, envergonhado por dizer a verdade. Do antagonismo que se criara entre o piano, mim e o público. E aquela conversa estava ajudando a solucioná-lo. Eu preciso me comunicar e produzir o novo som da minha voz, com ou sem a mão esquerda, com ou sem o pé.

Infelizmente, ele não conseguiu terminar o trabalho, um Si insistia em não dar afinação. Não conseguiu encontrar algum motivo lógico para isso. Não há componentes de plástico no meu Steinway. Ouvi minha mulher me convidando para sair. Precisamos tomar ar. Que tal fazer algumas compras?

Trabalhar como papai Noel não é tão amistoso quanto antes. De outro lado, eu posso começar mais cedo. A partir de fins de outubro, já existe necessidade do bom velhinho. As crianças têm um padrão de comportamento. Algumas choram, outras se assustam e não largam a barra da saia da mãe. Mas a maioria ainda curte. Elas ouvem a história dos pais durante o ano todo, recebem as promessas por seu bom comportamento, e, por fim, ficam ansiosas para conhecer o que carteiro dos presentes trará. Eu sou a encarnação das histórias contadas em casa. Era professor até algum tempo atrás. Tirei algumas fotos com a roupa adequada e as distribui com meu currículo. Por cultivar uma longa barba, fui aceito rapidamente.  Desde os tempos da escola, tenho o corpo inteiro tatuado. Nas costas um belo Lúcifer.  Não me atrevo a trocar de roupa diante dos funcionários. Fiz uma permuta com o tatuador: eu lhe dou lições de desenho, em troca de uma nova tatuagem sobre o anjo caído. Escolhi o Shrek.

Neste ano, recebi instruções drásticas a respeito do meu comportamento com as crianças. Apenas colocar a criança no colo na presença da mãe ou responsável. Não beijá-la, a não ser com expressa autorização prévia. Caso ela mesma o peça, tenho que referendar o pedido com o responsável. O beijo se transformou em um ato de comércio. A história se espalhou pela cidade, contada por um médico: um velhinho, gordinho, de vermelho, que se esgueira em uma casa, dando presentes, vindo do nada, gosta de crianças, as afaga e mima, as coloca no colo, afinal das contas, não é estranho? Não nos lembra nada? O beijo, o presente, o Natal, tudo é transação. Aos poucos, o Papai Noel se transforma apenas em uma imagem que se esvai. Todo cuidado é pouco. Até agora não há roteiro para as conversas que eu posso ter com elas. Será o próximo passo. As lojas pedem um resumo da minha conversa com elas: Tudo que você faz durante o ano é jogado dentro deste saco, e no dia do Natal ele é devolvido, transformado em presente. Já estou pronto para repetir uma séria de palavras programadas, insípidas. Basta mais um colega assaltar um banco.  E um daqueles robôs japoneses de plástico virá me substituir.

Observo a aproximação de três mães, carregadas de sacolas, com quatro crianças irrequietas, exceto uma, menina, que se aproximou para conversar, as demais ficaram correndo, subindo nas palmeiras artificiais, se debruçando no parapeito, chamando as outras. Uma menina de três anos, cabelinho preso no alto da cabeça, roupa de bailarina, com sapatilhas. Disse que foi fazer um ensaio. Enquanto ela fala, eu mostro alguns brinquedos que estão ao meu lado. Ela fica séria, olhando cada um, cuidadosamente, enquanto ouço a conversa das mães:

- A Gina tem um belo de um casamento. O marido é executivo, ganha muito bem, ela é mãe em período integral, com babá, motorista e empregadas. Ano que vem, o destino é a Índia. Vai ficar seis meses, fazendo retiro.

- A Andréa também. O marido é mais novo. Bonito, musculoso, carinhoso, cheio de amor pra dar e bom humor. Está feliz e satisfeita. Executiva, nem pensa em ter filhos. Contou que na semana passada trocou de carro com o marido e sem querer encontrou no console cupom da farmácia, registrando a venda de um energético e um pacote de camisinhas. Ele não usa, diz que detesta, e nunca o viu bebendo. Ela está pirando.

- A Alexandra, coitada, é a pior de todas. Casou por amor. Com três filhos, o terceiro veio sem pedir licença. Os dois trabalham e o marido ganha pouco.

A bailarina se aproxima da caixa contendo uma caravela, desmontada, do Pirata Barba Roxa, com seiscentas peças de encaixe, plásticas. Indicado para crianças com mais de seis anos: é minha obrigação tirar o brinquedo das mãos dela, antes que engula uma peça.

Batalhei um emprego de grumete. Navio cargueiro. Uma maneira barata de viajar. Tenho algum dinheiro, não o suficiente para comprar passagem. O dinheiro não é importante para viajar. Para ela, o que importa é a vontade. No meu caso, além dela, tenho impressão de que as pessoas ao meu redor tentam me intimidar, me prender, tornar a minha vida uma prisão. Não reajo, fujo. Talvez seja uma impressão falsa, apenas uma incapacidade de respeitar, após reconhecer o diferente. Prefiro idealizar. Conhecendo pessoas diferentes, na superfície, ali aonde reina: companheirismo, ideais elevados, ajuda humanitária.

A minha família é católica apostólica romana. E ponto final. Contei para minha velha uma lenda chinesa da dinastia Qing. Da deusa Nüwa, a criadora dos homens. Logo depois da separação do céu e da Terra, resolveu tomar da argila amarela para moldar várias crianças à sua imagem e semelhança; ao se sentir cansada, pegou uma corda, embebeu no mesmo material e passou a balançá-la. Daqueles pingos caídos, criou uma miríade de homens. Os ricos criados na primeira leva, e os pobres, na segunda. Mostrei para ela os pontos de contato entre as nossas histórias, o lirismo oriental. E fui excomungado. “Jesus ensinou que é contra os planos de Deus a existência de duas categorias de pessoas: ricos e  pobres. Os bens são de todos, e quem tem mais deve dividir com quem tem menos.”

Navegamos rumo a um porto na Califórnia. E, na superfície do Pacífico, consigo ver uma baleia vestida com um saco plástico na barbatana. Um marujo mais experiente me contou de um lixão mais ao norte com centenas de milhões de toneladas de plástico. Nos barcos pesqueiros, quando se passa a rede para plâncton, a quantidade de plástico é muito maior que a de animais. O plástico se fragmenta com a ação da luz do sol e os pequenos pedaços são comidos pelos peixes. Há  necessidade de ser muito inteligente para concluir que já estamos comendo plástico? E se os peixes morrem de anemia, com a barriga cheia de plástico, quando chegará a nossa vez?

Conheci São Francisco na minha folga durante os jogos de Warcraft Series. Precisava relaxar. Cassandra, minha namorada, além de ser uma das melhoras jogadoras de cyber games, é alguém com quem a conversa se desenvolve naturalmente. A gente se entende muito bem, em todos os sentidos. Ela não tem nada de oriental, só a aparência. É gata, foi eleita a menina mais bonita de Macau. Nós convivemos na mesma plataforma. Como se o game saísse da tela e continuasse para sempre, real. Ela ajuda na estratégia. Treina comigo. Exige muito de mim. Fico pilhadíssimo.

Tive uma discussão estúpida com o americano. Não estou interessado em participar dos campeonatos esportivos pelos prêmios oficiais. Eu tenho uma legião de fãs. E a capacidade de gerar receitas fabulosas para a fábrica. Estimulo as pessoas a comprar o jogo e acessórios.  E recebo prêmios de alguns mil dólares? Não. Viajo o mundo inteiro, estou verde, sem vida. Eu gosto de jogar, mas sei que minha capacidade vai declinar com o tempo, não dá para manter a mesma performance. Conseguirei sobreviver até os trinta anos, no máximo. E depois? Ele ficou de pensar em uma nova proposta. Adiantou que só dinheiro de plástico, para não pagar mais impostos e coisa e tal. Cassandra me aconselhou a contratar um agente. Para não perder o foco, a paciência. O jogo.

Em Los Angeles, vou jogar a final do campeonato com um chinês (SkY). Ele joga utilizando os “Humanos”, uma raça considerada predominantemente defensiva. Graças à sua capacidade de construir muitas pontes, moinhos e depósitos, aliada à tremenda quantidade de soldados, venceu com a agressividade tudo que é oponente até agora. Eu já passei por vários coreanos, estou acostumado com a rapidez deles. O forte do meu jogo é a malícia e a esperteza de atacar nos lugares mais inesperados. Graças a Cassandra, consegui a ficha completa dele. Os fatores além do jogo. A namorada dele não suporta o assédio das outras meninas, acredita que isso não é vida de gente honesta. Tem problemas de coração e não quer se submeter mais a essa separação absurda entre os mundos: quer um só para ela.

Essa narrativa seria impossível sem a ajuda de:

André de Leones; Mikhail Bulgákov; Contos sobrenaturais chineses (Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli);  Documentários da TV Cultura.

A vida dos espelhos.

Pedir é melancólico. Mas dar o é ainda mais.

- Rubem Fonseca

Ele passou por um portão gradeado. Foi atendido e encaminhado para um ambiente ornado com móveis torneados da nogueira. As cortinas quase fechadas ofereciam a nesga onde ele via a piscina completamente azul e a folhagem cerrada sobre o verde-musgo. Submerso nas almofadas do sofá, aguardou Dulce.

“Eu te darei o céu.”

Levítico.

Aquilo que jamais poderei fazer: comer alimentos que contenham fermento durante a Páscoa, vestir roupas feitas com tecidos mistos (linho com algodão), comer frutas de árvores com menos de cinco anos. Isso não é problema para mim, eu gosto de seguir regras. Elas sempre serão os sinais avançados da minha salvação. Fui autorizado pelo rabino a cortar a minha barba. Afinal de contas, ela é mesmo tão rala, quase invisível. Conversei também a respeito da alegria da música, do seu caráter misterioso, e dos efeitos que ela produz em mim. Quando canto, não gaguejo. Cantando, faço com que meus pesadelos desapareçam. O touro que sai de dentro do mar avança contra mim, bufando e apontando seus chifres, desaparece das minhas noites. Não acordo mais suando medo. O rabino recomendou que eu me afastasse do vício do onanismo.

Está no ar: Histórias Possíveis 59 . Onde você encontrará a continuação desta história. E mais, muito mais. Obrigado, por sua leitura, desde já.

Hoje foi um dia tão dinâmico.

Ele amava mais o Japão que ela

involuntariamente representava

do que ela própria;

amava a fuga, não o fato.

Daniel Piza.

— O senhor, depois, me passa os dados?

— Quais dados? — perguntou Pedro.

— Esqueceu?

— Hã?… Não, só não me lembro agora.

— Pode deixar — fazendo menção de sair.

— Se você me lembrasse, talvez…

— Deixa pra lá. Obrigado — e deixou a sala, fechando a porta atrás de si.

“Acho apertadas minhas roupas do amanhã.”


“Quando Salomão chorava pela morte do seu filho

e alguém lhe disse: “Você não alcança nada com isso”,

ele retrucou: “É exatamente por isso que choro,

porque nada alcanço.” Elias Canetti

Siga a linha verde. Foi o comando que ouvi logo na primeira vez. Olhei para o chão e acompanhei a linha até ser barrado pela porta do elevador. Ao sair, demorei alguns instantes para recapturá-la. Eu a segui pelas alamedas coloridas com flores artificiais, bustos beneméritos, arejadas por janelas cerradas. Ao longe, alguns morros, o ziguezague do asfalto e do o meu pensamento.

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