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Moar

“Esta noite vou estar com você
quando o sol morrer
e  A-M-R-O não será mais escrito assim… “
Bret Easton Ellis

— Ainda bem que não são muitos os anagramas de “amor”. Senão, pelo visto, ficaríamos horas e horas falando de suas aventuras.  A não ser que seja possível acrescentar letras. Amora também vale? É claro que vale, não?

O café onde estávamos promoveu um concurso para premiar o autor de uma frase usando o nome do local. Daquelas que fazem rimas tolas ou um jogo infantil de palavras. A premiação corria solta. Um casal de rapazes com uma criança de colo recebia o prêmio. Trocavam olhares amorosos. Um deles esboçava o agradecimento de modo quase inaudível.

— São cento e vinte possibilidades; se acrescentarmos uma letra, serão setecentas e vinte. Quem começou o assunto foi você – ela retrucou. — Não tenho necessidade de me exibir, de mostrar nada para ninguém. Aliás, lembre-se de que estou contando meus meses, porque você me telefonou. Pediu.

— Pois sim, mas eu não queria estar sentado, com a perna engessada e com uma luneta, olhando para as cenas do prédio em frente, tentando descobrir o que você está fazendo.

— E eu, de vez em quando, sinto falta de um rosto de pele escanhoada, azulado pela lembrança da barba cortada, de queixo quadrado, de nariz romano, cabelos pretos e ombros largos. O último deles me apanhou vestida com uma bata chinesa, vermelha, e me conduziu pela cidade. Entramos em alta velocidade em uma alça de acesso à Avenida Vereador Zé da Farmácia e nos deparamos com um auto em sentido contrário. Ele freou violentamente. Passado o susto, gesticulou furioso, xingou, e indicou a placa de contramão, pedindo que o motorista se afastasse de ré, dando passagem. O automóvel continuou imóvel. Dele, saíram dois homens, com muita carne, vestidos com calças jeans, camisetas de alças, braços e ombros à mostra. Vieram em nossa direção, abaixaram na altura da janela e disseram: “Caiam fora, dê você a porra da ré, e suma da nossa frente. Tá sabendo, mermão?”. “Você está errado, cara. É contramão.” “Chama a polícia. E bem rápido, enquanto você pode falar  e a gostosa aí está inteira”, o outro rosnou. Ele deu na partida. Nesse momento, aconteceu algo inimaginável: eles nos deram as costas. Imediatamente, o meu namorado bateu com a mão  no porta-luvas, tirou de lá uma Glock automática e ficou esperando que eles entrassem. Assim que se acomodaram, ele saiu.  Aproximou-se do outro carro, disparou três vezes, uma em cada vidro lateral e a última no de trás, vociferando: “Quero saber quem é que vai se afastar: eu ou vocês?”. E engatilhou a arma para disparar outra vez. “Saiam do carro, agora!” As veias do pescoço saltadas, as pernas fincadas no chão,  suas mãos agarrando a arma, fazendo mira. “Não precisa disso, mermão. A gente sai”, disse o carona. “Sai o cacete”, disse o outro, “a gente dá a ré e vaza. Falou?” O silêncio e a tensão da cena foram quebrados pelos tiros que ele deu no vidro dianteiro, um em cada lado e outro bem no centro. Os ocupantes não esperaram mais nada e deram o fora, batendo com as laterais na mureta de proteção, até desaparecer completamente. Ele voou  para o carro, engatou a marcha e correu desabalado até encontrar um fluxo de trânsito para se esconder. Em seguida, retomou a marcha normal até chegar em casa.  Jantamos alguma comida chinesa. Delivery. Nossa noite foi maravilhosa.

— A nossa é uma história de desencontros. Lembra quando me perdi no Aeroporto de Los Angeles procurando você?  Você já tinha embarcado.  Você está cada vez mais distante. Aqueles milhares de quilômetros entre nós continuam aumentando. Adolescente e adulta, vivendo a sua vida e agarrando todas as suas chances. Você não interpreta seus instintos. Apenas os vive. (Digo isso querendo o contrário.) Eu também vivo a minha vida, sem tantas variações, mas cuidando de ser feliz, considerando o que há para ser considerado. Por exemplo, as coisas celestes, cuja consideração está reservada apenas aos homens.

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent silence

Vou até o balcão e pergunto o nome da banda que está cantando a música de fundo. Radiohead. Em todo o lugar não há mais nenhum casal como o nosso. Flagro alguns beijos. Há apenas uma mulher sozinha, com fones de ouvido, longas pernas descobertas pelo vestido bem curto, sentada em uma banqueta alta. Simula uma pose sexy, não conseguindo disfarçar o enfado. Outras duplas de homens ou de mulheres. Pais com filhos ou filhas. Lá adiante, uma mesa farta de executivos de ambos os sexos, rostos brilhantes, limpos, descolados, olhos vidrados, muitos óculos com lentes escuras. Cada um com seu escudo em forma de computador, a silhueta opaca de uma fruta. Estão conversando sobre o psicopata chinês que ataca os berçários e mata as crianças. Um deles menciona algo como liquidar a próxima geração.

— Vamos embora?

— Você não quer emendar? Podíamos dar uma volta.

— É?… Não.

— Então vou conhecer o iFly. É um tubo vertical de vento, a duzentos quilômetros por hora. Você paga uma taxa, recebe as instruções e um uniforme e fica planando, subindo ou descendo, dando piruetas, uma simulação do salto de para-quedas. É uma delícia. Meus amigos me falaram que as instalações são novíssimas, o lugar é seguro. Dá para reunir até seis pessoas.

— Se você quiser saltar de para-quedas, eu topo. Subir de avião, olhar, sentir o frio na barriga e saltar. Considerar. Vamos?

Saímos. A avenida está atulhada, em obras, o leito desviado em várias curvas para dar vazão ao imenso fluxo dos veículos. As grandes estruturas antigas estão sendo demolidas para dar lugar aos edifícios de vidros de cristal, que distorcem as imagens que refletem. Um formigueiro humano de capacetes amarelos e verdes e azuis caminha por entre as vigas de metal. Alguns manejam as escavadeiras, abrindo espaços para novos túneis. Precisamos pular de bloco em bloco, na calçada, para caminhar. Encontramos um templo antigo, que ainda resguarda algumas colunas e carrancas femininas suportando as vigas lá de cima. E de lá nos olham com as bocas e olhos bem abertos. Parecem horrorizadas.  O prédio da Igreja foi vendido para uma casa de shows. Por um tempo foi o maior point da cidade, até que foi fechada após o homicídio de um traficante, no auge de uma balada. O público se assustou e sumiu. Foi vendido novamente. Hoje, é a festa de inauguração de um centro comercial. A fachada foi restaurada para remeter à dignidade antiga. Manter a pose. Ele oferecerá a maior variedade de artigos com marcas famosas, acessíveis apenas para uns poucos privilegiados. Caminhamos até o estacionamento, cada um entrega seu bilhete para o manobrista. Um ambulante passa em frente ao estacionamento, nos vê e oferece, discreto:

— Tenho um estoque de camisinhas retardantes. O doutor vai querer?

Omar

– Entrou como quem entra em uma caixa de música com a tampa entreaberta. Esperando encontrar algum tipo de redenção, alívio, purgação ou dor. Nenhuma de nós sabe quem encontrará pela frente. Sabemos que é uma fisgada, uma puxada na carretilha. É o que faço neste último ano: ampliar meus horizontes.

Entra uma mulher alta. Grande, com o rosto absolutamente oval, olhos verdes oblíquos, sedenta, um Rolex Presidente em cada pulso, cabelos ruivos, vestida de preto, saltos altíssimos. Passado o susto inicial causado pelo engano, perguntou por que eu chorava. Contei um caso de desilusão, indiferença. Toquei seu braço quando fez menção de sair. Pedindo desculpas, olhei fixamente em seus olhos e pedi com os meus que ficasse. O motorista fechou a porta e seguiu na direção combinada.

Ela me conta o sucesso da sua transportadora, do seu trabalho desenvolvido ao longo dos anos, do abdicar de sua vida pessoal para atingir suas metas. Além disso, encontrou no Jardim Japonês uma fonte de prazer estético. Estudou, conheceu e aprendeu as técnicas de formação, e agora se dedica à pratica do Bonsai, pela falta de tempo e espaço. O marido aprendeu a fazer Origami. Ele está construindo uma cidade completa. Com ruas, prédios, prefeitura, jardins, estádios, uma perfeição. Ele disse que aquele que constrói mil origamis tem o seu desejo atendido, ao terminar. Depois de me contar, fez questão de apresentar-me, pelo fone de ouvido, as canções de Tsuyoshi Nagabuchi, seu cantor predileto.

Amar uma mulher não é nada difícil, é uma ação narcisista, fácil. Um olhar bem demorado no espelho e acaba por se revelar outra face do mesmo corpo. Uma ação decorrente das mesmas ausências, angústias e carências. Ela sempre se inicia com o toque. Um toque matreiro e acidental forma o primeiro arco voltaico que eleva as temperaturas para a solda.  Depois da surpresa inicial, sirvo dois martinis bem secos, e um alívio sereno parece nos preencher.

De onde estamos, a cidade inteira fica à mostra. Abaixo e adiante, os focos interiores de luz de uma raia olímpica ressaltam o azul profundo e imóvel da água. Um ponto repentinamente tocado por um inseto atraído pela luminosidade se espalha quase até a borda, enquanto ele alça vôo, da água sobe um vapor. No terraço, deitadas de costas, estamos acomodadas e observamos; o momento nos convida a mergulhar. Ficamos debruçadas olhando a linha civilizada do horizonte deixando tudo para trás. Aproximamo-nos naturalmente uma da outra. Lado a lado. Os pés se encostam. As pernas, coxas, troncos, ombros e cabeça. Tateando-nos, avançamos no assunto do trabalho, no que nos é exigido pela carreira: um comando firme, um poder decisório sobre as diversas opiniões, conflitos, batalhas para afirmação e resultados. Principalmente, os resultados das nossas ações. Ganhar o respeito, a admiração e a grana antes reservadas apenas aos homens. E, após o respeito, vem a predominância. Ambas concordamos com a antiga dependência de satélite entre o homem e a mulher, éramos a Lua do planeta Terra. Hoje, ela está prestes a ser ultrapassada e extinta. E cada uma pincelou cores diferentes, fortes, à imagem: a atração que exercemos sobre os líquidos na Terra; o afastamento crescente da Lua; o resfriamento ocasionado por essa distância, até a extinção da Terra.

– Quanta soberba. Quanta imaginação. Só em sonhos mesmo.

– Quem saberá? Posso continuar? Quer ir embora?

Atravessamos a raia algumas vezes, relaxando. Ao subirmos, encontramos as toalhas para nos enxugar. Pergunto se poderia tirar dela o excesso de água. Não espero pela resposta, e inicio massageando sua cabeça, secando seus cabelos, com toda a calma do mundo. Apalpo as felpas da toalha contra o seu rosto, mais carinho que trabalho; passeando pelo torso, desvencilho-me dos fios e da faixa que o recobrem. Cada molécula de água das suas costas é objeto de minha preocupação e se integram ao algodão em minhas mãos. Também assim procedo quando a viro de frente, desde o colo, passeando pelos seios, até o abdômen. Ela mesma tira a parte de baixo do traje e me convida para o ventre, a virilha, em um breve afastar de pernas. Um inseto sibilante se aproxima de nós. Nem o mais leve sobressalto. Ninguém se dá conta dele. Continuo explorando cada pedaço daquela seda, cada nuança de suas mucosas, indo em direção às penugens. Após trocar a toalha por outra recém-aquecida, meu próximo passo é segurar suas coxas e, percorrendo-as com movimentos lentos e firmes, seco suas pernas. Ela, de olhos cerrados, agarrando firme a borda da espreguiçadeira, vez por outra suspira. Dou uma atenção toda especial aos seus pés. Por mérito próprio, bem cuidados, sem nenhuma das marcas deixadas pelos calçados feitos em série, parecem jamais ter pisado qualquer solo, sempre flutuando à minha espera. Seco cada um dos dedos. Meu rosto está próximo o suficiente para ela sentir o calor da minha respiração. E sente. Como sente, sentimos. Terminado o dorso, dedico-me à sola dos pés. Aperto com meus polegares todos os pontos, formando uma trilha imaginária. E os pressiono para tirar todo o estresse ainda acumulado. E beijo seus pés, um após o outro, de cima abaixo.

Afasto-me dela e me deito, extenuada. Não exatamente cansada, mas descarregada, vazia. E logo sinto o seu peso sobre mim. Não apenas a sombra, mas o corpo também me cobre. Agradecida, age. Rápida, direta e eficaz. Repete todos os meus movimentos, sem ajuda de toalha: seca o meu corpo apenas com a boca. Percorre-me desde as orelhas até os pés. Também fico com os olhos cerrados e as mãos presas, agarradas ao corpo dela, apertando e soltando conforme o momento. Um controle-remoto. E o melhor dos mundos se joga sobre mim. Aquela sensação de entrar no mar, quando as águas cobrem os seus pés, seus tornozelos, suas coxas, sempre subindo e envolvendo seu corpo em outro. Morno, marulhante, sonoro, os inesperados salpicos salgados nos lábios. Ela a toma no colo, balançante, fundindo-se em outro ser. E, de súbito, uma onda vem e se arrebenta contra mim, me lança longe. Fico semienterrada na areia, com arrepios de febre terçã, arqueando meu corpo até o ponto máximo que a espinha permite. E nada mais pode me tocar. Restam as convulsões, os tremores e o nada.

Alguém canta ao fundo: “Con la dulce y total renunciación.”

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