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Varlam Shalamov

 

 

 

“Sabeis de algum lugar no mundo onde exista a inteligência”? Jó

 

Todos nós somos condenados. Condenados a viver em uma prisão, como aquela terceira margem do rio, saídos do nascimento, que não pedimos e seguimos seu curso rumo à morte, tampouco sabendo quando, como e onde.

Diante dessa realidade só nos cabe compreender este percurso, encontrar algum sentido nele, e para compreendê-lo só nos resta a perspectiva como método. E o homem como fautor. Um tonel sem fundo enquanto não compreender que tem um fundo.

Nosso parente mais próximo, Quixote, ergueu meio corpo fora dessa realidade e viveu outra, a da fantasia, tomou o cuidado de ter sempre como companheiro uma régua, para dar a cada momento , o tamanho da mesquinharia e do interesse, que não o deixava escapar voando, prendendo-o, por assim dizer, no real. Deu-nos uma graça original ao contá-la, inaugurando uma nova era, a moderna, e com isso deu nova perspectiva à vida e à inteligência.

Outro parente notável, Kafka, a viveu da mesma maneira, entendeu aquela perspectiva, contando-a de outra forma. Renunciou à realidade objetiva. Seguiu adiante graças à sua sensibilidade extraordinária, revelou o sem sentido, o acaso, e o caos da existência percurso através de suas parábolas, metáforas. Talvez por isso mesmo se tornou profeta de uma religião laica. Jamais comeu do “pão” sobrenatural. Contou dos processos que vivemos sem nunca sermos julgados por ninguém, a não ser em casos desimportantes, tampouco sabendo o porquê da condenação, apenas esperando. Até que finalmente se vê diante da porta e do porteiro, sentado diante dela, aberta, sem jamais entrar. Olhando, pensando, concluindo, usando a inteligência, sua servil inteligência.

Apontou nosso processo de desumanização, através de seus belos e tristes contos, até nos vestiu uma casca de barata. Como o espanhol, ele jamais perdeu o seu humor, apenas o tornou mais irônico, menos espalhafatoso, cínico. Usou a linguagem concisa, abandonou o barroco e o excesso. Desesperançado adotou a palavra de um tabelião.

Assim aprendemos a maneira de quebrar a rotina massacrante com a aventura, dizem alguns, e eu concordo. Ganhamos o conforto de pensar que a história do homem (afinal somos sempre o protagonista dela) é a história exploração da Terra, do itinerário dos percursos que ele fez, cada vez mais longínquo, distantes da sua casa.  Uma consequência disso seria a da inexistência de lugar, de caminho a ser conquistado, visto e narrado.  Engano. Completo engano. Apenas cinco por cento do fundo dos oceanos é conhecido.

Os ‘Contos de Kolimá’ saem em busca do fundo daquele barril.

Utiliza a mesma economia de meios para desnudar nossa aventura íntima, enquanto navegamos entre as margens. Descreveu a prisão pelo lado de dentro. Vivendo nela vinte quatro horas por dia, sete dias por semana durante anos e anos. Exibiu-a em seu estágio aperfeiçoado o Campo de Trabalhos Forçados (Gulag). Trabalhou tendo como roteiro o fundo do oceano, ainda inédito, da alma homem. Aquele fundo escuro, sem luz, e cada passo, avanço, soca a nossa cabeça, cada linha percorrida faz da leitura náusea e exigindo algumas paradas para retomar o fôlego, e para processar o pensamento, o sentimento. No meu caso o impacto foi tão grande que precisava além da pausa, precisava de tempo de reflexão, olhar outras coisas enquanto a minha mente desarranjada ordenava, pouco a pouco, o que estava lendo.

Para ensinar a verdade basta aludi-la com um gesto, nada mais. Isso é uma verdade já conquistada, e é o caso destas narrativas. Descrevem os gestos que nos desnudam.  Ele viveu o tempo todo em contato com a lama primitiva da qual somos feitos. Olhando-a bem diretamente nos olhos, sem descanso. É possível afirmar que as narrativas são o corolário da história moderna, a confirmação da tragédia que vem se desenvolvendo no mundo moderno. Depois do seu anúncio sistemático pela literatura, a realidade surge aqui no auge da sua glória como tragédia. Descoberta pela inteligência do ser humano, agora ela não é apenas concebida e encenada, é vivida em toda sua crueldade desarrazoada. O processo continua sem sentido aparente, resta apenas a imposição de uma forma de pensamento ou não pensamento através da rudeza e a brutalidade como rotina. Não só de um trabalho que vai até o limite do desfalecimento e da morte. A fome e o frio e o homem comandando a desumanização, a demolição de todos os sentimentos até que reste apenas o último deles, aquele que nos abandona quando estamos completamente nus: a raiva. São parábolas exemplares, exibindo a inconexão com os demais seres, o aniquilamento. O poder não quer ter razão, mostra-se resolvido a impor suas opiniões. “Eis aqui o novo:” – ele anuncia – “ o direito a não ter razão, a razão da sem razão.”

Eu não ouso dizer que ele chegou ao fundo, ao abissal, é plausível dizer que ele chegou até aonde podemos suportar. Ele, o herói, retornou depois de atingir o máximo de pressão suportável. Precisaremos, doravante, de novas técnicas para ir além, mais fundo. Quem sabe, ficar ali mesmo, por mais um tempo, apenas um pouco mais de tempo para acostumarmos o organismo com a falta de oxigênio e luz. Não consigo imaginar o fundo, não posso vê-lo, apenas sei que ele estará lá, e outro o descobrirá. Posso apontar, apenas.

Na viagem de volta à superfície ele obteve o auxílio de um arbusto, o Cembro (Stlánik), parente afastado do cedro, que lhe ensinou o quanto as sensações da natureza são mais refinadas que o homem. Subindo com ajuda dos seus galhos, voltou a sentir algum calor reparador, que descreveu assim:

O amor não voltou a mim. Que distância separa o amor da inveja, do medo, da raiva! As pessoas apenas precisam de amor! O amor chega quando todos os sentimentos humanos já voltaram. O amor é o último a chegar, o último a regressar. Mas regressará ele? A indiferença, a inveja e o medo não foram as únicas testemunhas do meu regresso à vida. A piedade para com os animais voltou antes da piedade para com os homens”.

O Processo foi publicado em 1928. Nele Kafka colocou seu personagem diante da porta da Lei. Guardada por um porteiro que alertava ao curioso diante dele: “Eu sou apenas o último porteiro, lá dentro existem outros, de sala para sala, cada um mais poderoso que o outro, eu mesmo não resisti à visão do terceiro”.

Em 1929 Shalamov foi detido pela primeira vez e jogado de campo em campo como prisioneiro até 1951. Estes contos foram escritos entre 1954 e 1973. A sua obra cumpriu a tarefa de fazer com que o seu personagem não respeitasse a proibição daquele guardião da Lei, e entrasse para, resistindo à visão terrível anunciada pelo terceiro vigia, seguisse adiante. Para nos revelar o que fora apenas intuído. Talvez seja por isso que em um dos contos o personagem, cansado e com medo de perder sua “vida salvadora” teve um lampejo quando nasceu em seu cérebro uma palavra.

“Palavra que não servia para a taiga, uma palavra que nem eu, nem meus amigos compreendíamos. Levantado na tarimba, gritei essa palavra para o céu, para o infinito.

- Sentença! Sentença! – E desatei a rir. – Sentença! – Gritei para o céu nórdico, para a aurora, sem compreender ainda o significado desta palavra que em mim tinha nascido”.

Você será privilegiado com a visão dessa pungente beleza caso queira acompanhá-lo e pagar o preço de sua curiosidade.  Esta é a recomendação do poeta Rumi: “Não dê as costas. Mantenha o seu olhar na atadura. É ali que a luz entra em você”.

Caso eu pudesse ajudá-lo, eu diria que ele encontrou um bosque ao chegar, e cada conto é a descrição de uma árvore dele. Ele nos dá uma trilha, e seguimos curiosos, conhecemos cada canto, mas perderemos a visão do arvoredo. Ele só aparece quando estamos fora. Apenas na posse desta perspectiva da mecânica humana de sofrer e infligir o sofrimento em nossa bagagem é que seguiremos adiante.

 

 

 

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