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A perdição das árvores

Pai, lá no alto, são fogueiras ou estrelas?

Cesare Pavese.

Aquietando o pensamento, rodo até encontrar a lareira. O fogo será preparado por um jovem meticuloso, um cadete de cabelos grossos, curtos, claros e espetados. Ele escolhe da pilha, cada indivíduo, e os coloca um ao lado do outro, formando um quadrado; dispõe os demais lenhos em simetria, de sorte que cada um se apóie sobre o outro pelas extremidades, subindo quatro paredes ventiladas. Resta ao final uma coluna de centro oco. Ele preenche aquele miolo com aparas, cavacos, varetas, ripas e gravetos.

A assembléia está organizada, mas ainda não está pronta.

Entre aqueles seres diferentes e organizados, insere os provocadores: feitos de folhas de antigos jornais amassados, enrolados, adquirem a forma de línguas, e são enfiadas, calcadas, em cada brecha das paredes da torre. Ficou produzido um todo indistinguível em suas partes. Lenho, lignina, celulose.  Canetti a chamaria de massa ou multidão.

O cadete responde ao patrão quando perguntado se a madeira estaria boa para fazer fogo: “Sim, é boa, é seca e não é verde. A verde queima devagar e faz muita fumaça. Faz um fogo ardido, pálido, esfumaçado.”

Pronto: pega do seu isqueiro, bate a pedra e faz a chama; aproximando-a das pontas daquelas línguas, aqui, ali, acolá, todas colocadas, estrategicamente, em seus cantos. E aquela labareda primitiva ganha corpo insano: brasas, línguas, incêndio, vir a ser carvão.

Não é o fogo gordo do Braga, é magro e alto e irritadiço. As pequenas labaredas formadas na lenha que ficou no rés do chão se atraem e se lambem, mesclam-se com os cavacos, e assumem o discurso único. Escandescer.

De repente, aquela figura se desestrutura.

Há um estalar, uma explosão surda, e as peças ruem. Cada uma se derruba em direção ao centro, e, ao cair, faz uma farândola de faíscas sugadas com estardalhaço pela chaminé.

Os gases liberados vão se transformando numa só rampa de borboletas.”

Resta um ser solitário. Caído ao lado, ainda íntegro, próximo ao centro, foi parcialmente atingido, ardeu ao ponto de criar uma cresta negra na superfície. Está livre da ameaça da queima completa (Eppur si muove).

O crepitar das chamas se apazigua, e o fogo parece querer deitar e dormir: não passa de uma ilusão.

O cadete toma do atiçador, começa a bulir, e logo a fogueira espirra e recompõe a força da destruição, retomando o vigor daquela conspiração entre os jornais e a arraia, sem seiva, miúda. Pipoca das cinzas um tição que pula e bate na tela da lareira, e ao voltar cai em cima dos outros salvados. Eles, que resistiam até aquele momento, também enrubescem e não conseguem resistir mais.

“Fogos azuis não geram fogos azuis. Fogos crepitantes não herdam a crepitação do fogo-pai que cuspiu sua fagulha iniciadora. Os fogos apresentam reprodução sem hereditariedade.”

Aqui, no alto da montanha, não houve eternidade, não se cultuou os deuses, não se buscou a justiça entre os homens. Apenas segui duas delgadas nuvens em forma de linhas paralelas até este ponto, onde a nuvem cúmulo se esgarçava em mil outros pedaços, por sobre a casa, sugerindo-me o destino: o de fecundar céu quando queimado.

Peixinhos dourados

Ao  Ralph Kaldeich

O banheiro é branco e imaculado, o piso, a parede, as peças. A janela possui uma veneziana pintada da mesma cor, dividida em quatro grandes quadriculados vítreos. Por ali passa o sol, que bate direto em cima do lavatório, irradiando a luz em todo ambiente. Apoiado em um plinto de mármore sem mescla, uma coluna que culmina com o tampo, sobre o qual há uma cuba apoiada formando uma circunferência, dividida ao meio. Uma elegante torneira de aço forma uma curva por onde esguicha a água corrente. O recipiente onde se coloca o sabonete é de cristal, com uma válvula por onde escorre o líquido dourado. Por alguma ilusão, imaginei que ele fosse translúcido e apenas refletisse a cor da estrela; não. É dourado, suave e pastoso ao repousar na concha da mão. Leva-se uma mão de encontro à outra, espreme-se o líquido com ritmo e se forma a espuma prodigiosa que as envolverá, completamente, exceto por pequenas quantidades caídas inteiras, pisciformes. A pia está vedada e a água se eleva até mais da metade, forçando que a destape. Em seguida, a massa d’água adquire um movimento circular, no mesmo sentido dos ponteiros do relógio, e capta a minha atenção. Percebo alguns peixes dourados em volta do ralo, parecem fazer um esforço para ficar de fora; o buraco negro os puxa para dentro. Outros conseguem, mas por pouco tempo. Ao se grudar na louça, eles se desfazem, perdem a sua forma original, restando pequenos pedaços agarrados. Tiro totalmente a espuma das mãos e, com as pontas dos dedos, eu os ajudo a cumprir seu destino final.

Histórias Possíveis sai com novo número (41). E nesse vocês encontrarão Michiko, de minha autoria. Além de outros excelentes. Visitem, comentem por aqui ou por lá. Ou não comentem, mas divirtam-se. Obrigado.

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