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Varlam Shalamov

 

 

 

“Sabeis de algum lugar no mundo onde exista a inteligência”? Jó

 

Todos nós somos condenados. Condenados a viver em uma prisão, como aquela terceira margem do rio, saídos do nascimento, que não pedimos e seguimos seu curso rumo à morte, tampouco sabendo quando, como e onde.

Diante dessa realidade só nos cabe compreender este percurso, encontrar algum sentido nele, e para compreendê-lo só nos resta a perspectiva como método. E o homem como fautor. Um tonel sem fundo enquanto não compreender que tem um fundo.

Nosso parente mais próximo, Quixote, ergueu meio corpo fora dessa realidade e viveu outra, a da fantasia, tomou o cuidado de ter sempre como companheiro uma régua, para dar a cada momento , o tamanho da mesquinharia e do interesse, que não o deixava escapar voando, prendendo-o, por assim dizer, no real. Deu-nos uma graça original ao contá-la, inaugurando uma nova era, a moderna, e com isso deu nova perspectiva à vida e à inteligência.

Outro parente notável, Kafka, a viveu da mesma maneira, entendeu aquela perspectiva, contando-a de outra forma. Renunciou à realidade objetiva. Seguiu adiante graças à sua sensibilidade extraordinária, revelou o sem sentido, o acaso, e o caos da existência percurso através de suas parábolas, metáforas. Talvez por isso mesmo se tornou profeta de uma religião laica. Jamais comeu do “pão” sobrenatural. Contou dos processos que vivemos sem nunca sermos julgados por ninguém, a não ser em casos desimportantes, tampouco sabendo o porquê da condenação, apenas esperando. Até que finalmente se vê diante da porta e do porteiro, sentado diante dela, aberta, sem jamais entrar. Olhando, pensando, concluindo, usando a inteligência, sua servil inteligência.

Apontou nosso processo de desumanização, através de seus belos e tristes contos, até nos vestiu uma casca de barata. Como o espanhol, ele jamais perdeu o seu humor, apenas o tornou mais irônico, menos espalhafatoso, cínico. Usou a linguagem concisa, abandonou o barroco e o excesso. Desesperançado adotou a palavra de um tabelião.

Assim aprendemos a maneira de quebrar a rotina massacrante com a aventura, dizem alguns, e eu concordo. Ganhamos o conforto de pensar que a história do homem (afinal somos sempre o protagonista dela) é a história exploração da Terra, do itinerário dos percursos que ele fez, cada vez mais longínquo, distantes da sua casa.  Uma consequência disso seria a da inexistência de lugar, de caminho a ser conquistado, visto e narrado.  Engano. Completo engano. Apenas cinco por cento do fundo dos oceanos é conhecido.

Os ‘Contos de Kolimá’ saem em busca do fundo daquele barril.

Utiliza a mesma economia de meios para desnudar nossa aventura íntima, enquanto navegamos entre as margens. Descreveu a prisão pelo lado de dentro. Vivendo nela vinte quatro horas por dia, sete dias por semana durante anos e anos. Exibiu-a em seu estágio aperfeiçoado o Campo de Trabalhos Forçados (Gulag). Trabalhou tendo como roteiro o fundo do oceano, ainda inédito, da alma homem. Aquele fundo escuro, sem luz, e cada passo, avanço, soca a nossa cabeça, cada linha percorrida faz da leitura náusea e exigindo algumas paradas para retomar o fôlego, e para processar o pensamento, o sentimento. No meu caso o impacto foi tão grande que precisava além da pausa, precisava de tempo de reflexão, olhar outras coisas enquanto a minha mente desarranjada ordenava, pouco a pouco, o que estava lendo.

Para ensinar a verdade basta aludi-la com um gesto, nada mais. Isso é uma verdade já conquistada, e é o caso destas narrativas. Descrevem os gestos que nos desnudam.  Ele viveu o tempo todo em contato com a lama primitiva da qual somos feitos. Olhando-a bem diretamente nos olhos, sem descanso. É possível afirmar que as narrativas são o corolário da história moderna, a confirmação da tragédia que vem se desenvolvendo no mundo moderno. Depois do seu anúncio sistemático pela literatura, a realidade surge aqui no auge da sua glória como tragédia. Descoberta pela inteligência do ser humano, agora ela não é apenas concebida e encenada, é vivida em toda sua crueldade desarrazoada. O processo continua sem sentido aparente, resta apenas a imposição de uma forma de pensamento ou não pensamento através da rudeza e a brutalidade como rotina. Não só de um trabalho que vai até o limite do desfalecimento e da morte. A fome e o frio e o homem comandando a desumanização, a demolição de todos os sentimentos até que reste apenas o último deles, aquele que nos abandona quando estamos completamente nus: a raiva. São parábolas exemplares, exibindo a inconexão com os demais seres, o aniquilamento. O poder não quer ter razão, mostra-se resolvido a impor suas opiniões. “Eis aqui o novo:” – ele anuncia – “ o direito a não ter razão, a razão da sem razão.”

Eu não ouso dizer que ele chegou ao fundo, ao abissal, é plausível dizer que ele chegou até aonde podemos suportar. Ele, o herói, retornou depois de atingir o máximo de pressão suportável. Precisaremos, doravante, de novas técnicas para ir além, mais fundo. Quem sabe, ficar ali mesmo, por mais um tempo, apenas um pouco mais de tempo para acostumarmos o organismo com a falta de oxigênio e luz. Não consigo imaginar o fundo, não posso vê-lo, apenas sei que ele estará lá, e outro o descobrirá. Posso apontar, apenas.

Na viagem de volta à superfície ele obteve o auxílio de um arbusto, o Cembro (Stlánik), parente afastado do cedro, que lhe ensinou o quanto as sensações da natureza são mais refinadas que o homem. Subindo com ajuda dos seus galhos, voltou a sentir algum calor reparador, que descreveu assim:

O amor não voltou a mim. Que distância separa o amor da inveja, do medo, da raiva! As pessoas apenas precisam de amor! O amor chega quando todos os sentimentos humanos já voltaram. O amor é o último a chegar, o último a regressar. Mas regressará ele? A indiferença, a inveja e o medo não foram as únicas testemunhas do meu regresso à vida. A piedade para com os animais voltou antes da piedade para com os homens”.

O Processo foi publicado em 1928. Nele Kafka colocou seu personagem diante da porta da Lei. Guardada por um porteiro que alertava ao curioso diante dele: “Eu sou apenas o último porteiro, lá dentro existem outros, de sala para sala, cada um mais poderoso que o outro, eu mesmo não resisti à visão do terceiro”.

Em 1929 Shalamov foi detido pela primeira vez e jogado de campo em campo como prisioneiro até 1951. Estes contos foram escritos entre 1954 e 1973. A sua obra cumpriu a tarefa de fazer com que o seu personagem não respeitasse a proibição daquele guardião da Lei, e entrasse para, resistindo à visão terrível anunciada pelo terceiro vigia, seguisse adiante. Para nos revelar o que fora apenas intuído. Talvez seja por isso que em um dos contos o personagem, cansado e com medo de perder sua “vida salvadora” teve um lampejo quando nasceu em seu cérebro uma palavra.

“Palavra que não servia para a taiga, uma palavra que nem eu, nem meus amigos compreendíamos. Levantado na tarimba, gritei essa palavra para o céu, para o infinito.

- Sentença! Sentença! – E desatei a rir. – Sentença! – Gritei para o céu nórdico, para a aurora, sem compreender ainda o significado desta palavra que em mim tinha nascido”.

Você será privilegiado com a visão dessa pungente beleza caso queira acompanhá-lo e pagar o preço de sua curiosidade.  Esta é a recomendação do poeta Rumi: “Não dê as costas. Mantenha o seu olhar na atadura. É ali que a luz entra em você”.

Caso eu pudesse ajudá-lo, eu diria que ele encontrou um bosque ao chegar, e cada conto é a descrição de uma árvore dele. Ele nos dá uma trilha, e seguimos curiosos, conhecemos cada canto, mas perderemos a visão do arvoredo. Ele só aparece quando estamos fora. Apenas na posse desta perspectiva da mecânica humana de sofrer e infligir o sofrimento em nossa bagagem é que seguiremos adiante.

 

 

 

Peixinhos dourados

Ao  Ralph Kaldeich

O banheiro é branco e imaculado, o piso, a parede, as peças. A janela possui uma veneziana pintada da mesma cor, dividida em quatro grandes quadriculados vítreos. Por ali passa o sol, que bate direto em cima do lavatório, irradiando a luz em todo ambiente. Apoiado em um plinto de mármore sem mescla, uma coluna que culmina com o tampo, sobre o qual há uma cuba apoiada formando uma circunferência, dividida ao meio. Uma elegante torneira de aço forma uma curva por onde esguicha a água corrente. O recipiente onde se coloca o sabonete é de cristal, com uma válvula por onde escorre o líquido dourado. Por alguma ilusão, imaginei que ele fosse translúcido e apenas refletisse a cor da estrela; não. É dourado, suave e pastoso ao repousar na concha da mão. Leva-se uma mão de encontro à outra, espreme-se o líquido com ritmo e se forma a espuma prodigiosa que as envolverá, completamente, exceto por pequenas quantidades caídas inteiras, pisciformes. A pia está vedada e a água se eleva até mais da metade, forçando que a destape. Em seguida, a massa d’água adquire um movimento circular, no mesmo sentido dos ponteiros do relógio, e capta a minha atenção. Percebo alguns peixes dourados em volta do ralo, parecem fazer um esforço para ficar de fora; o buraco negro os puxa para dentro. Outros conseguem, mas por pouco tempo. Ao se grudar na louça, eles se desfazem, perdem a sua forma original, restando pequenos pedaços agarrados. Tiro totalmente a espuma das mãos e, com as pontas dos dedos, eu os ajudo a cumprir seu destino final.

Dingo

Wednesday morning at five o´clock as the day begins
Silently closing the bedroom door
Leaving the note that she hoped would say more
She goes downstairs to the kitchen
Clutching her handkerchief
Quietly turning the backdoor key
Stepping outside she is free

(Lennon&McCartney)

Meus tios, meu pai e minha mãe estão envolvidos na briga pela herança de Artur Alves Reis, litigando para receber algo, acreditando seu, o direito. E as brigas e discussões e reuniões infindáveis em que eles estão envolvidos desde a cremação do corpo perdem seu peso sobre mim quando me lembro de um deles, que não está aqui e faz muita falta.

Segredo é um atributo de toda família. A minha, contudo, possui algo diferente, um enigma: meu tio Dingo. Um homem esquivo e impassível. Alto e magro, com marcas fundas variadas e irregulares na pele. Estava sempre vestido com apuro, mas de maneira simples. Deixava à mostra apenas o rosto e as mãos. Os cabelos cortados na altura exata para ficarem como cerdas, cinzas, de uma escova. Tivemos uma, se posso dizer assim, intensa convivência por um período. Uma pessoa instruída que se alimentava apenas de frutos, folhas, sementes, legumes e raízes. Tinha bom humor, mas entranhado. Não extravasava suas emoções; ele as sentia e sabia que jamais poderiam ser descritas; evitava, pois incompreensão e discórdia. Quem quisesse encontrá-las devia ouvir as suas histórias, a alegria dos seus apelidos, sua delicadeza.

Manuel veio das Minas Gerais, de uma família de tropeiros, e parou no interior de São Paulo, região de Sorocaba. Trabalhou como escriturário pelo Brasil. Estivera em Manaus e de lá me deixou boquiaberto com a história do calor do lugar. O ar era tão abafado e perfumado de floresta que poderíamos servi-lo como sobremesa, cortado em rodelas e cobertos com massa de sorvete. Descreveu a pesca do peixe-boi. Uma prática comum aos índios e caboclos, que ele narrava com  tristeza serena: “Esquentavam uma melancia e a jogavam no leito do rio, e subitamente ela era abocanhada pelo animal. Após algum tempo de agonia causada pela alta temperatura do miolo, ele se virava de borco: morto. Uma maneira prática de retirá-lo da água, sem grande esforço ou luta, visto que seu peso chegava até os quinhentos quilos”. Hoje se sabe que os poucos sobreviventes já têm nome, sobrenome e registro no IBAMA.

Ele me contou as histórias do nosso folclore: do Saci-Pererê, do Boitatá, da Curupira e da Mula-sem-cabeça. Leu todo o Monteiro Lobato. Nas refeições, fazia uma “vitamina” de cevada, lúpulo, levedo, aveia. Apesar do gosto horrível, experimentei várias vezes o seu preparado, com medo de desapontá-lo. Ele comia cerveja, nozes, tofu e suco dos frutos. Perambulava pela cidade para encontrar suas frutas prediletas: acerola, açaí, cajá, caju, cupuaçu, graviola, limão (uma variedade vermelha e doce), umbu, manga e maracujá, as de melhor sabor. Lembro que ele ficava horas escolhendo. Conhecia todos os tamanhos e variedades, aprendi com ele a gostar delas. Não tomava nenhum remédio, curava-se com plantas. Aprendera com uma índia no Mato Grosso.

Evitava, também, falar de sua vida pessoal. Apenas relatava nomes e lugares, não sabia de suas relações, se elas existiam ou não. Foi um enigma bondoso. Conversava muito com minha mãe. Parecia dar conselhos e acalmá-la. Trabalhava com escrita: fazer declarações ao fisco dava-lhe muita autoridade. Possuía uma caligrafia equilibrada e cuidadosa. Escrever tinha o método e o esmero da cerimônia do chá. Ensinou-me a empunhar o lápis ou a caneta. Você deve escrever assim: mostrava os três dedos (polegar, indicador e médio) juntos e esticados à frente, com o instrumento preso entre eles, naturalmente, sem forçar a pena ou o grafite no papel, dando forma às letras e palavras, e pousando a base da mão no papel. A mão que escreve deve deslizar sobre o papel fazendo o caminho do texto, jamais se retesando ou tomando uma posição perpendicular à folha. Regularmente trazia grandes livros para casa, com folhas em branco, pautadas e com linhas verticais formando colunas. Descrevia os atos das pessoas, logo após as quantificava, para no final fazer um balanço provisório, cujo resultado poderia ou não carregar para a próxima página. Todo final de ano, fazia algumas simples operações aritméticas e calculava o saldo das ações, o que foi acumulado, o que foi consumido, a quantidade de devedores incobráveis e o imposto que deveria ser pago. Explicava-me que cada papel que eu jogava na rua havia que ser retirado por alguém e isso logo mais apareceria também naquele livro. Eu não queria aparecer no livro dele, não assim; queria aprender com ele, não que ele soubesse de mim. Até hoje guardo meu papel no bolso.

Minha única irmã era a “pixoxó”. Foi assim que descobri meu primeiro pássaro. Até então, minha atenção jamais havia se prendido a nenhum deles. Sabiás, canários, azulões e bem-te-vis cantavam em grande quantidade e variedade por aqui, há muito tempo. Entretanto, o primeiro que vi foi esse extravagante e sonoro pixoxó. A voz estridente e canora daquela pequena garganta guardava semelhança com a da minha irmã. Logo, o apelido não era por acaso. Meu tio também a chamou algumas vezes de saracura. Minha mãe ria muito e dizia ser esse também o seu apelido de criança, diziam que ela também possuía perna fina. Assim que minha irmã ouviu, franziu a testa, suas feições ficaram vincadas e nunca mais usou esse apelido.

Tenho certeza que se daria muito bem com Fernando Pessoa, como se dava o tio Artur. Talvez alguém encontrasse seus cadernos e manuscritos em algum caixote perdido de suas várias mudanças. Encontrou a Rua dos Douradores em Manaus, talvez Araçoiaba da Serra, não sei. A frase que cotidianamente vem a mim: Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me. Seca-se-me a voz, como se houvesse uma audácia estranha em ter essas palavras em voz alta. É uma espécie de pudor de existir – não tem outro nome!”. Era um sussurro o seu … dia.

Ao chegar do trabalho, sempre com o guarda-chuva pendurado no braço, sentava-se para o café, preto e forte, e o cigarro de palha, ardido e cheiroso. Era o momento das lamúrias. Minha mãe o assediava com pedidos de dinheiro emprestado para a compra de algo; não reprovava, tampouco intercedia nas brigas do casal, nas discussões entre os irmãos da minha mãe e o cunhado, acusado de infidelidade. Serenava os ânimos com sua calma de bom ouvinte. Jamais interferia, mesmo quando eu era espancado pelo meu velho. Apenas se recolhia.

Filho último de oito irmãos, vagueou pelo mundo afora sem nunca ter falado de ninguém. Viveu em pensões e com parentes em períodos alternados. Sempre que a convivência se estreitava, ele se mudava. Amizade não exige confidências, tampouco precisa de confirmações periódicas. Ele dava seu carinho dessa forma: convivendo. Quando do carinho se caminhava para a invasão e curiosidade, fosse amor, fosse algum outro sentimento humano qualquer, ele mudava de emprego, de cidade, e pronto. Ia embora. “Toda pessoa é morta pelo que ama.” Os seguidos empréstimos não pagos tampouco o prendiam onde quer que fosse. Um pesadelo o assolava constantemente: um tribunal do júri composto de rostos conhecidos o condena. Foge e encontra o caos em um redil de cães selvagens australianos com presas prontas para dilacerar sua carne.

Gostava de visitar o manicômio judiciário. Sentia necessidade periódica de conviver com os doentes. Observava e aprendia com a imperfeição deles. Passava as tardes de sábado conversando e ouvindo. Fez um resumo do que ouvia e me deu de presente a folha escrita à mão:

“Metafísica. o homem é uma criança com medo de castigo venera o suborno e morre com o taco de golfe nas mãos aos oitenta anos seu rosto e de qualquer outro é divino e horrível não sei pensar rosebud me compra um cigarro ninguém está vendo na Itália era porteiro da mais famosa exposição do Museu do Futuro haverá apenas veneno como alimento faço com a uva mais podre o vinho mais doce apoiado sobre o casco da tartaruga está o mundo onde músicos tocam instrumentos dourados de sopro uma canção inaudível das torneiras e dos homens apenas água é despejada inundando a maior e a menor coleção de notas do mundo seus detentores têm em comum sua inutilidade a vida inteira é um relatório dos fatos escrita no monólito negro a realidade é algo completamente distinto do que nos dão nossos sentidos me dá a sua guimba ao final encontramos o corrimão dourado de uma sólida e circular escada com degraus que levam sempre ao início é percorrida por esplêndidas mulheres em passo lento e ao serem indagadas pelo criador da tartaruga da utilidade respondem foi feita para a profanação para a noite do amante rosebud dois internos estão transando entre si não com monitores”


Às vezes, ele volta. Mas não consigo ver ou me lembrar de detalhes do seu rosto. Sei que era tanto sereno quanto horrível. Voltou hoje pela manhã, simultaneamente à leitura da história daquele velhote marido de dona Santinha, que havia lido mil e duzentos livros e chegara à conclusão de que isso não servia para nada. Foi embora nu, montado em seu burro. Depois de algum tempo, encontraram uma sandália à beira de uma cratera.

Minha ansiedade diminui ao contemplar o mar e decifrar os sinais que enviam as nuvens com seus mapas brancos e gordos em fundo azul. Fiz uma visita ao centro de atendimento aos alienados e a primeira frase dirigida a mim foi: “Me compra um maço de cigarros? Tá aqui o dinheiro, ó. Vai lá, ninguém tá vendo”.

Moar

“Esta noite vou estar com você
quando o sol morrer
e  A-M-R-O não será mais escrito assim… “
Bret Easton Ellis

— Ainda bem que não são muitos os anagramas de “amor”. Senão, pelo visto, ficaríamos horas e horas falando de suas aventuras.  A não ser que seja possível acrescentar letras. Amora também vale? É claro que vale, não?

O café onde estávamos promoveu um concurso para premiar o autor de uma frase usando o nome do local. Daquelas que fazem rimas tolas ou um jogo infantil de palavras. A premiação corria solta. Um casal de rapazes com uma criança de colo recebia o prêmio. Trocavam olhares amorosos. Um deles esboçava o agradecimento de modo quase inaudível.

— São cento e vinte possibilidades; se acrescentarmos uma letra, serão setecentas e vinte. Quem começou o assunto foi você – ela retrucou. — Não tenho necessidade de me exibir, de mostrar nada para ninguém. Aliás, lembre-se de que estou contando meus meses, porque você me telefonou. Pediu.

— Pois sim, mas eu não queria estar sentado, com a perna engessada e com uma luneta, olhando para as cenas do prédio em frente, tentando descobrir o que você está fazendo.

— E eu, de vez em quando, sinto falta de um rosto de pele escanhoada, azulado pela lembrança da barba cortada, de queixo quadrado, de nariz romano, cabelos pretos e ombros largos. O último deles me apanhou vestida com uma bata chinesa, vermelha, e me conduziu pela cidade. Entramos em alta velocidade em uma alça de acesso à Avenida Vereador Zé da Farmácia e nos deparamos com um auto em sentido contrário. Ele freou violentamente. Passado o susto, gesticulou furioso, xingou, e indicou a placa de contramão, pedindo que o motorista se afastasse de ré, dando passagem. O automóvel continuou imóvel. Dele, saíram dois homens, com muita carne, vestidos com calças jeans, camisetas de alças, braços e ombros à mostra. Vieram em nossa direção, abaixaram na altura da janela e disseram: “Caiam fora, dê você a porra da ré, e suma da nossa frente. Tá sabendo, mermão?”. “Você está errado, cara. É contramão.” “Chama a polícia. E bem rápido, enquanto você pode falar  e a gostosa aí está inteira”, o outro rosnou. Ele deu na partida. Nesse momento, aconteceu algo inimaginável: eles nos deram as costas. Imediatamente, o meu namorado bateu com a mão  no porta-luvas, tirou de lá uma Glock automática e ficou esperando que eles entrassem. Assim que se acomodaram, ele saiu.  Aproximou-se do outro carro, disparou três vezes, uma em cada vidro lateral e a última no de trás, vociferando: “Quero saber quem é que vai se afastar: eu ou vocês?”. E engatilhou a arma para disparar outra vez. “Saiam do carro, agora!” As veias do pescoço saltadas, as pernas fincadas no chão,  suas mãos agarrando a arma, fazendo mira. “Não precisa disso, mermão. A gente sai”, disse o carona. “Sai o cacete”, disse o outro, “a gente dá a ré e vaza. Falou?” O silêncio e a tensão da cena foram quebrados pelos tiros que ele deu no vidro dianteiro, um em cada lado e outro bem no centro. Os ocupantes não esperaram mais nada e deram o fora, batendo com as laterais na mureta de proteção, até desaparecer completamente. Ele voou  para o carro, engatou a marcha e correu desabalado até encontrar um fluxo de trânsito para se esconder. Em seguida, retomou a marcha normal até chegar em casa.  Jantamos alguma comida chinesa. Delivery. Nossa noite foi maravilhosa.

— A nossa é uma história de desencontros. Lembra quando me perdi no Aeroporto de Los Angeles procurando você?  Você já tinha embarcado.  Você está cada vez mais distante. Aqueles milhares de quilômetros entre nós continuam aumentando. Adolescente e adulta, vivendo a sua vida e agarrando todas as suas chances. Você não interpreta seus instintos. Apenas os vive. (Digo isso querendo o contrário.) Eu também vivo a minha vida, sem tantas variações, mas cuidando de ser feliz, considerando o que há para ser considerado. Por exemplo, as coisas celestes, cuja consideração está reservada apenas aos homens.

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent silence

Vou até o balcão e pergunto o nome da banda que está cantando a música de fundo. Radiohead. Em todo o lugar não há mais nenhum casal como o nosso. Flagro alguns beijos. Há apenas uma mulher sozinha, com fones de ouvido, longas pernas descobertas pelo vestido bem curto, sentada em uma banqueta alta. Simula uma pose sexy, não conseguindo disfarçar o enfado. Outras duplas de homens ou de mulheres. Pais com filhos ou filhas. Lá adiante, uma mesa farta de executivos de ambos os sexos, rostos brilhantes, limpos, descolados, olhos vidrados, muitos óculos com lentes escuras. Cada um com seu escudo em forma de computador, a silhueta opaca de uma fruta. Estão conversando sobre o psicopata chinês que ataca os berçários e mata as crianças. Um deles menciona algo como liquidar a próxima geração.

— Vamos embora?

— Você não quer emendar? Podíamos dar uma volta.

— É?… Não.

— Então vou conhecer o iFly. É um tubo vertical de vento, a duzentos quilômetros por hora. Você paga uma taxa, recebe as instruções e um uniforme e fica planando, subindo ou descendo, dando piruetas, uma simulação do salto de para-quedas. É uma delícia. Meus amigos me falaram que as instalações são novíssimas, o lugar é seguro. Dá para reunir até seis pessoas.

— Se você quiser saltar de para-quedas, eu topo. Subir de avião, olhar, sentir o frio na barriga e saltar. Considerar. Vamos?

Saímos. A avenida está atulhada, em obras, o leito desviado em várias curvas para dar vazão ao imenso fluxo dos veículos. As grandes estruturas antigas estão sendo demolidas para dar lugar aos edifícios de vidros de cristal, que distorcem as imagens que refletem. Um formigueiro humano de capacetes amarelos e verdes e azuis caminha por entre as vigas de metal. Alguns manejam as escavadeiras, abrindo espaços para novos túneis. Precisamos pular de bloco em bloco, na calçada, para caminhar. Encontramos um templo antigo, que ainda resguarda algumas colunas e carrancas femininas suportando as vigas lá de cima. E de lá nos olham com as bocas e olhos bem abertos. Parecem horrorizadas.  O prédio da Igreja foi vendido para uma casa de shows. Por um tempo foi o maior point da cidade, até que foi fechada após o homicídio de um traficante, no auge de uma balada. O público se assustou e sumiu. Foi vendido novamente. Hoje, é a festa de inauguração de um centro comercial. A fachada foi restaurada para remeter à dignidade antiga. Manter a pose. Ele oferecerá a maior variedade de artigos com marcas famosas, acessíveis apenas para uns poucos privilegiados. Caminhamos até o estacionamento, cada um entrega seu bilhete para o manobrista. Um ambulante passa em frente ao estacionamento, nos vê e oferece, discreto:

— Tenho um estoque de camisinhas retardantes. O doutor vai querer?

Omar

– Entrou como quem entra em uma caixa de música com a tampa entreaberta. Esperando encontrar algum tipo de redenção, alívio, purgação ou dor. Nenhuma de nós sabe quem encontrará pela frente. Sabemos que é uma fisgada, uma puxada na carretilha. É o que faço neste último ano: ampliar meus horizontes.

Entra uma mulher alta. Grande, com o rosto absolutamente oval, olhos verdes oblíquos, sedenta, um Rolex Presidente em cada pulso, cabelos ruivos, vestida de preto, saltos altíssimos. Passado o susto inicial causado pelo engano, perguntou por que eu chorava. Contei um caso de desilusão, indiferença. Toquei seu braço quando fez menção de sair. Pedindo desculpas, olhei fixamente em seus olhos e pedi com os meus que ficasse. O motorista fechou a porta e seguiu na direção combinada.

Ela me conta o sucesso da sua transportadora, do seu trabalho desenvolvido ao longo dos anos, do abdicar de sua vida pessoal para atingir suas metas. Além disso, encontrou no Jardim Japonês uma fonte de prazer estético. Estudou, conheceu e aprendeu as técnicas de formação, e agora se dedica à pratica do Bonsai, pela falta de tempo e espaço. O marido aprendeu a fazer Origami. Ele está construindo uma cidade completa. Com ruas, prédios, prefeitura, jardins, estádios, uma perfeição. Ele disse que aquele que constrói mil origamis tem o seu desejo atendido, ao terminar. Depois de me contar, fez questão de apresentar-me, pelo fone de ouvido, as canções de Tsuyoshi Nagabuchi, seu cantor predileto.

Amar uma mulher não é nada difícil, é uma ação narcisista, fácil. Um olhar bem demorado no espelho e acaba por se revelar outra face do mesmo corpo. Uma ação decorrente das mesmas ausências, angústias e carências. Ela sempre se inicia com o toque. Um toque matreiro e acidental forma o primeiro arco voltaico que eleva as temperaturas para a solda.  Depois da surpresa inicial, sirvo dois martinis bem secos, e um alívio sereno parece nos preencher.

De onde estamos, a cidade inteira fica à mostra. Abaixo e adiante, os focos interiores de luz de uma raia olímpica ressaltam o azul profundo e imóvel da água. Um ponto repentinamente tocado por um inseto atraído pela luminosidade se espalha quase até a borda, enquanto ele alça vôo, da água sobe um vapor. No terraço, deitadas de costas, estamos acomodadas e observamos; o momento nos convida a mergulhar. Ficamos debruçadas olhando a linha civilizada do horizonte deixando tudo para trás. Aproximamo-nos naturalmente uma da outra. Lado a lado. Os pés se encostam. As pernas, coxas, troncos, ombros e cabeça. Tateando-nos, avançamos no assunto do trabalho, no que nos é exigido pela carreira: um comando firme, um poder decisório sobre as diversas opiniões, conflitos, batalhas para afirmação e resultados. Principalmente, os resultados das nossas ações. Ganhar o respeito, a admiração e a grana antes reservadas apenas aos homens. E, após o respeito, vem a predominância. Ambas concordamos com a antiga dependência de satélite entre o homem e a mulher, éramos a Lua do planeta Terra. Hoje, ela está prestes a ser ultrapassada e extinta. E cada uma pincelou cores diferentes, fortes, à imagem: a atração que exercemos sobre os líquidos na Terra; o afastamento crescente da Lua; o resfriamento ocasionado por essa distância, até a extinção da Terra.

– Quanta soberba. Quanta imaginação. Só em sonhos mesmo.

– Quem saberá? Posso continuar? Quer ir embora?

Atravessamos a raia algumas vezes, relaxando. Ao subirmos, encontramos as toalhas para nos enxugar. Pergunto se poderia tirar dela o excesso de água. Não espero pela resposta, e inicio massageando sua cabeça, secando seus cabelos, com toda a calma do mundo. Apalpo as felpas da toalha contra o seu rosto, mais carinho que trabalho; passeando pelo torso, desvencilho-me dos fios e da faixa que o recobrem. Cada molécula de água das suas costas é objeto de minha preocupação e se integram ao algodão em minhas mãos. Também assim procedo quando a viro de frente, desde o colo, passeando pelos seios, até o abdômen. Ela mesma tira a parte de baixo do traje e me convida para o ventre, a virilha, em um breve afastar de pernas. Um inseto sibilante se aproxima de nós. Nem o mais leve sobressalto. Ninguém se dá conta dele. Continuo explorando cada pedaço daquela seda, cada nuança de suas mucosas, indo em direção às penugens. Após trocar a toalha por outra recém-aquecida, meu próximo passo é segurar suas coxas e, percorrendo-as com movimentos lentos e firmes, seco suas pernas. Ela, de olhos cerrados, agarrando firme a borda da espreguiçadeira, vez por outra suspira. Dou uma atenção toda especial aos seus pés. Por mérito próprio, bem cuidados, sem nenhuma das marcas deixadas pelos calçados feitos em série, parecem jamais ter pisado qualquer solo, sempre flutuando à minha espera. Seco cada um dos dedos. Meu rosto está próximo o suficiente para ela sentir o calor da minha respiração. E sente. Como sente, sentimos. Terminado o dorso, dedico-me à sola dos pés. Aperto com meus polegares todos os pontos, formando uma trilha imaginária. E os pressiono para tirar todo o estresse ainda acumulado. E beijo seus pés, um após o outro, de cima abaixo.

Afasto-me dela e me deito, extenuada. Não exatamente cansada, mas descarregada, vazia. E logo sinto o seu peso sobre mim. Não apenas a sombra, mas o corpo também me cobre. Agradecida, age. Rápida, direta e eficaz. Repete todos os meus movimentos, sem ajuda de toalha: seca o meu corpo apenas com a boca. Percorre-me desde as orelhas até os pés. Também fico com os olhos cerrados e as mãos presas, agarradas ao corpo dela, apertando e soltando conforme o momento. Um controle-remoto. E o melhor dos mundos se joga sobre mim. Aquela sensação de entrar no mar, quando as águas cobrem os seus pés, seus tornozelos, suas coxas, sempre subindo e envolvendo seu corpo em outro. Morno, marulhante, sonoro, os inesperados salpicos salgados nos lábios. Ela a toma no colo, balançante, fundindo-se em outro ser. E, de súbito, uma onda vem e se arrebenta contra mim, me lança longe. Fico semienterrada na areia, com arrepios de febre terçã, arqueando meu corpo até o ponto máximo que a espinha permite. E nada mais pode me tocar. Restam as convulsões, os tremores e o nada.

Alguém canta ao fundo: “Con la dulce y total renunciación.”

Ipê

O bairro amanheceu forrado de amarelo.

Os ipês fizeram sua comemoração de uma nova velha estação.

Algumas palavras estão desgastadas pelo tremendo e excessivo uso feito delas.

Amor, flor, beleza.

Fica a lembrança de uma quase desconhecida: primavera.

Não sabemos quando começa e quando termina.

Coisa dos trópicos.

Mas ela se jogou no chão, serenamente, para chamar a atenção.

E o cinza se tornou amarelo.

Histórias Possíveis sai com novo número (41). E nesse vocês encontrarão Michiko, de minha autoria. Além de outros excelentes. Visitem, comentem por aqui ou por lá. Ou não comentem, mas divirtam-se. Obrigado.

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