A vida dos espelhos.

Estudavam juntos.  Ciência da administração. Antes, ele cursara várias vezes o preparatório até conseguir a matrícula e ela fizera o Bandeirantes e a conseguira na primeira tentativa. Elio tinha disciplina. Dulce, o instante. Lendo e relendo várias vezes os assuntos obrigatórios, ele adquiriu algum entendimento. Ela era preguiçosa e inteligente, entendia os assuntos apenas ouvindo e não se preocupava com o resto. Ela pedia a Elio que fizesse todos os seus deveres. Sempre. Alegava gostar da caligrafia dele, apesar de não ser necessária alegação alguma.

Dulce era uma menina morena, de baixa estatura, o busto farto como seus cabelos cacheados, que mudavam de cor rotineiramente. Hoje, decidiu juntá-los em grossas faixas de diversas cores sobre a cabeça. Miúda, de corpo elástico e ondulante. Cobria o corpo apenas com o indispensável. Tecido, ora em forma de vestido, ora em forma de saia e blusa. Decotes, aberturas e transparências generosos exibiam repentinamente curvas, linhas, horizontes e cortes. Ele gostava de se abrigar dentro dos olhos dela: magníficos e castanhos e grandes e redondos e brilhantes. Lembravam os de uma gazela. Eles lhe respondiam. Seus movimentos eram vagarosos, sempre davam a impressão de esconder quando revelavam.

Antes que você continue, devo avisar Elio era mudo, adorava ler histórias de piratas e sempre estava com fones de ouvido. Deles, vinham baladas cantadas. Ele preferia as interpretadas com voz rouca e grave, como uma lixa afinada. As músicas davam as notícias do mundo. Os artistas sofriam e experimentavam por ele e ao mesmo tempo transmitiam paz. Ele intuiu que era artificial, mas tranquilizadora; logo, não se importava.

O encontro fora marcado para conhecerem a piscina do centro esportivo do Belenzinho. Estava distraído com o reverberar dos múltiplos risos, o espadanar da água, a agudeza das vozes e gritos das crianças, quando ela apareceu com seu maiô branco. Olhou a imagem refletida no ondulante espelho azul. A aparição causou um momento de silêncio quase instantâneo. Ela se vestia e despia com o simples movimento de suas pálpebras. Ele ficou ofegante e pálido. O sangue que corria rápido pelo corpo estacionou teso na linha da cintura. Precisou se jogar na água, mergulhando para dentro daquela superfície. Lá, conseguiu organizar seus pensamentos e escolher os sinais suficientes para que ela também mergulhasse. Daí, aspiraram todo o ar que podiam e imergiram. Lá dentro, a água sugeria a execução de uma dança: os cabelos pairavam, escondiam o rosto, seguiam adiante da cabeça;  os corpos leves adquiriam os movimentos dos seres marinhos. Um rodeava o outro. Ela cerrava os olhos, estendia as mãos e o puxava para si; sonhavam a realidade fugidia de um tango submerso iniciado com incandescência, seus movimentos de atração e repulsa, da tentação e do medo, fugas e aproximações repentinas. Os medos dele aliviados naquela coreografia. Mornos, quase sem ar, emergiram e deixaram a água. Ele estava leve, distraído, e escorregou,  deslizando até bater contra uma coluna e se espatifar no chão, o som de uma toalha encharcada espalhado e multiplicado pela acústica do lugar. Todos riram à sua volta.

Dulce o convidou para acompanhá-la em uma missa de corpo presente.  O casal se acomodou nas últimas fileiras. Perto da porta lateral. Os pais dela se interessavam em marcar presença nas homenagens prestadas ao tabelião falecido, conhecido de anos, e de quem queriam herdar o Cartório. Naquele ambiente rococó e embolorado, ele acabou se divertindo com o vizinho de frente, diretor de filmes pornôs, tentando convencer alguém do seu lado a financiar um projeto. Para tanto, narrava todo o argumento. Deu os nomes dos atores que conseguira atrair com pequeno custo, grandes dotes e passado sucesso. Não se acanhou ao exibir as palavras que descreviam o exotismo das cenas, as safadezas que engendrara, e como avaliara os atributos necessários. A película seria dublada em inglês e espanhol. Dulce cochichou a Elio do seu interesse em atuar. Pediu-lhe que conseguisse o contato enquanto ela se dirigia para dar as condolências. E lá foi ele até o diretor e o futuro produtor.

E se lembrou do funeral de sua avó. Não conseguira sequer entrar no velório. Toda a cidade desaguada em lágrimas comparecera.  Comentavam da frieza do neto. Ele não verteu uma lágrima sequer. Ele a acompanhara desde o início da sua última crise, no hospital, onde comia apenas para estimular o apetite dela. A culpa matava o seu  apetite. Mas não chorara. Horrorizado, tivera medo do depois sem ela. Com a avó Tina, o mecanismo do mundo tinha sentido. Seu pensamento era apenas esse enquanto a barba e o cabelo cresciam na mesma proporção. Ela gostava do seu cabelo cortado, para não parecer uma juba.

Voltou cansado, doido de vontade de tomar um bom banho. Deu sorte: o banheiro estava livre. De bom comprimento, mas estreito feito um túnel. Fruto de furto do quarto anexo, que já fora maior. Ladrilhado até a altura de um metro e meio, com alguns rebocos à mostra. As peças de cores diferentes davam o tom alegre; as torneiras faiscavam sob o efeito do jato de pó e sol entrando pelo buraco aberto à bala, no vidro canelado. O ar circulava através das bandeiras banguelas nos caixilhos de ferro da janela. O vermelhão do piso parecia escorrido da boca enferrujada de uma torneira ao lado do vaso sanitário. Elio pendurou a toalha no prego atrás da porta e ligou o chuveiro. Imediatamente, o cômodo se encheu mais de vapor do que de água. Cada pingo martelava fundo na sua cabeça. Saiu, cabelos pingando, vestindo um calção xadrez, e arrancou a coxa de frango que Jacob, seu esotérico colega de quarto, deixara sobre um prato branco. Nem percebeu que ele estava no chão e rodeado de várias velas brancas acesas.

Hoje, o programa seria alegre: acompanhá-la em algumas compras. Após pensar alguns segundos, assentiu, com a condição de não entrar na loja. Ficaria sentado, esperando.

Um imenso local iluminado e com amplas divisões envidraçadas, dando a impressão de um templo contíguo à rua. Quase vazio, com apenas um balcão de pernas translúcidas e algumas pessoas, talvez vendedoras. Por toda a extensão de uma parede, uma barra cilíndrica de metal dourado, na altura da cabeça, exibia alguns perfis de vestidos alinhados. Os pisos desnivelados ligados por suaves rampas sugeriam os ambientes. Uma rápida conversa resultou em um vestido. Foi-lhe mostrado um modelo, que Dulce se apressou em provar. Um curto vestido bege com alças, cinturado, pedindo saltos. Depois de vestida, ela se dirigiu ao espelho de provas. Embutido na única coluna da loja, refletia o corpo inteiro de Dulce, e sua imagem se replicava indefinidamente, graças ao jogo calculado dos espelhos. Elio a olhava, admirado, movendo o corpo para saber do efeito que fazia quando de costas, de lado, de frente. Alisava uma prega imperceptível formada pelo cinto, ajeitava cada uma das alças, queria medir o efeito do decote nas costas, e da frente, o que revelava, quanto, como. E as diversas imagens se multiplicavam, replicantes ao infinito. Examinou os seus olhos, colocou os cabelos para cima, para baixo. As mais ínfimas minúcias das imagens estavam aprovadas quando escapulissem dos espelhos. Duas senhoras calejadas passaram cochichando como colegiais.

Nesse meio tempo, ouviram-se alguns estampidos e gritos, e correria generalizada. O pobre Elio foi levado para prestar depoimento, arrastado por dois investigadores até a delegacia mais próxima. Durante todo o tempo que pode, insistia em volver o pescoço, olhando para as imagens dela.

Ao cabo de algum tempo, tomou coragem, pagando juros, o suficiente para convidá-la para uma balada. Não pediu conselhos para escolher o lugar. Decidiu pela fachada, pela região da cidade. Considerada a melhor, a que mais acionava o PSIU, programa de silêncio do lugar. A esperança de que ela gostaria do lugar o invadiu. Deixaram o carro com o manobrista, ultrapassaram a barreira do segurança na porta, entraram e sentaram desajeitados. Ele pediu alguma coisa para beber, descontrair. Logo em seguida, a agitação começou. As pessoas se encaminhavam para o centro aos pares. Um rapaz se dirigiu até a mesa e chamou Elio para dançar. Ele meneou a cabeça, numa negativa. Na mesa ao lado, um casal de homens se beijava sofregamente. Passado alguns instantes, olhou ao redor e se viu cercado apenas por homens. O salão também.  Dulce era a exceção.  Ao mesmo tempo em que ela o puxava pela mão, pedindo para ir embora.

A vida retomou seu curso. Depois de uma semana, ela ainda não aparecera na sala de aulas. Aguardou, preocupado, ainda outro dia. Passou para saber de notícias. Lá, foi-lhe entregue um bilhete dobrado com seu nome. Leu: Meu amor, o meu pai me deu uma bolsa de estudos na Juilliard School. Não sei se eu te contei, mas sempre sonhei em ser bailarina. Sabe, foi tudo muito rápido, tive que decidir na hora. Apesar da falta que você me fará, resolvi ir. Não se preocupe comigo. Se houver alguma lição escrita, fique descansado, eu mando para você fazer. Sei que você conseguirá fazer, você sempre consegue tudo.  No curso de balé, lição é coisa pouca, eu acho, né? Beijos. Dulce. Obs.: Tranca a minha matrícula? Assina lá, por mim, a papelada. Brigado. Beijos.

Tomou o ônibus, sentou-se, colocou a mão no bolso, abriu a página do livro que contava as aventuras de um francês do século dezessete no meio-oeste norte-americano, procurando acesso ao comércio do Pacífico, das Índias Orientais: “Jean Nicollet havia vagueado do lago Michigan ao Winnebago vestido com um manto de seda chinês, na expectativa de encontrar os chineses, a costa da China ou pelo menos alguém capaz de reconhecer a roupa”.

Caiu da lua, levantou a cabeça, a casa dela ficando cada vez menor. Quem estivesse ao seu lado veria um sorriso se esboçando em seu rosto.

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Uma resposta para “A vida dos espelhos.”

  • Olá Erwin, como anda as coisas? Tudo certinho?

    Estou começando a escrever um blog também.

    http://www.marcelloamora.com.br/geleiadeamora

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