Caixa com ratos

Casa de secretário é roubada e polícia cobra ação de vigia.

Delegado-geral cobra atuação mais efetiva de vigilantes de rua;

Estado passará a cadastrar e fiscalizar autônomos.

(Folha de S. Paulo, 09 de fevereiro de 2011, n. 29.897)

Depois de cumprir um cansativo roteiro de trabalho no Arizona, ele chegou. Estava sentado na varanda do hotel Brasil, em Miami, o único lugar da América onde não se precisa falar inglês para ser entendido. Olhava o tráfego que diminuía à medida que a noite chegava. Um devoto judeu e seu chapéu sem aba, com copa alta de pele, estava na calçada, de costas para a rua, olhando fixamente para a porta. Parecia não querer se distrair; deu alguns passos, para diante e para trás, sem tirar os olhos da porta. Um rapaz, de calção e camiseta, com aspecto atlético, surgiu do escuro, ultrapassou o homem, pegou na maçaneta e abriu totalmente a porta, em um gesto típico dos americanos, forte, brutal, dispensando a ela o tratamento de coisa, a mola titubeou um pouco e depois começou a fazer o seu trabalho de trazê-la ao lugar original. Nesse meio tempo, o hassídico se esgueirou com uma rapidez juvenil, insuspeitada, e entrou sem toca em nada. Parecia aliviado, já estava ali há vários minutos e ninguém se dispusera a ajudá-lo. Comentou alguma coisa na recepção e pegou as escadas em direção ao seu quarto. Talvez porque o elevador fosse tão lento, ele preferiu o caminho mais rápido, a despeito do esforço de escalar algumas dezenas de degraus.

Ele resolveu entrar. Na recepção, pediu a Raul um café. Explicou que gosta de café expresso, mais fraco ou carioca, como dizem os paulistas. Raul ouviu pacientemente. Afinal, parecia não compreender. Usava o inglês, o dele bem mais fluente que o do nosso herói. Usava o portunhol, e nada. Blando? “Como? Flaco?”Sim, sim. Fraco. E com um pouco de espuma de leite.” “Crema?”Não, leite, espuma de leite. O creme é enjoativo. Por favor, ferva o leite e colha a espuma com a colher e coloque no café.” “Capuccino?”Não, esse tem canela e chocolate. Apenas café e leite.” “?” Entrou outro cliente, pedindo a atenção de Raul. Ele desistiu antes que o guatemalteco o chamasse de complicado novamente, em tom de amável e sorridente brincadeira. Ao passar, pediu para ser chamado às cinco horas da manhã.

O táxi chegou pontualmente. Ao volante, um russo chamado Igor, velho, expressão cansada. Ele, sorridente, perguntou: “Como está?” “Não sei.” “Está começando ou terminando o dia?” “Começando.” “Espero que seja bom.” Ouviu um murmúrio que significava: não quero conversar. Máfia russa, talvez.

Balcão do aeroporto. Lembrava a rodoviária de São Paulo. Gente carregando forno de microondas, equipamento de som, caixas gigantes contendo carrinhos de bebê. Carregadores de malas, com os maiores bíceps que já vira. Conseguiu reservar o seu lugar. Terceira fila da terceira classe. Airbus.

Ele aprendera com o Turista Acidental que a menor quantidade de bagagem era a melhor política. Lavar a roupa no hotel, levar apenas um terno e duas camisas, duas mudas de roupa de baixo, utilizando-se apenas da bagagem de mão. Enfim, tornar a viagem quase inexistente.

Entretanto, ao observar a entrada de duzentos e tantos passageiros naquele cilindro de aço turbinado com duas asas, onde as pessoas da companhia tentavam desesperadamente, e sem nenhum resultado, colocar ordem de prioridade na entrada, primeira classe, deficientes, grávidas, crianças desacompanhadas, resolveu relaxar e entrar ao final.

Enquanto esperava, pensou que a melhor atitude a tomar quando se entra em um avião é ler algum estudo da vida dos ratos nas caixas, com o espaço mínimo para manter as atividades vitais, como a respiração, alimentando-se de pão e água e com todas as outras necessidades mantidas à distância, incluindo se lavar e evacuar. O corpo completamente comprimido, os movimentos restritos a tirar os sapatos e, na medida do possível, esticar as pernas. Ir e vir? A não ser que se esteja preparado para tropeçar, raspar, enroscar, esbarrar em corpos estranhos e parecidos com o seu. O que se preserva, em condições de extrema adversidade, é o ar.

Talvez o uso completo da razão fosse possível se ele não estivesse submetido a tamanhos ultraje e pressão. Ele se limitou a usá-la no mínimo indispensável à sobrevivência.

Ao sentar, ouviu a discussão entre a aeromoça, cabelos puxados no alto da cabeça, e um senhor. Ele, deficiente; ela com um sorriso de plástico, informando que o lugar dele já está ocupado. O atual ocupante se recusava a deixar o lugar, informando que pagou por ele. Ele era o dono do lugar naquela viagem. A moça aludiu às prioridades designadas nas normas. “Eu compreendo o que a senhora diz, mas eu paguei pela passagem.” Chamaram o supervisor para resolver a questão. Ele conversou com o pretendente, dizendo apenas, como argumento, que sua preferência pessoal era a segunda fila. Ali, ele poderia esticar as pernas com mais espaço que no primeiro assento. Era a sua poltrona predileta. “Se o senhor insistir, eu conseguirei algo, claro. Mas alerto que o melhor lugar é este aqui”, apontando para uma cadeira no corredor. O senhor tentou argumentar dizendo que o problema era o espaço entre os bancos. O outro respondeu que daria um bônus para a próxima viagem e contaria os pontos em dobro. O murmúrio dos demais começou a se tornar alto. O ocupante colocou fones de ouvido e abriu um jogo de paciência na tela do computador portátil. Sua mulher e acompanhante, de camisa listrada, calça preta e justa, tirou os sapatos e colocou os pés nus na parede divisória para atender às necessidades de circulação. O funcionário deu a cartada final: “O senhor pode utilizar o banheiro da primeira classe”. Foi o golpe de graça. Sentaram-se todos. E a fila andou.

Viajar com um bebê, no caso de trinta dias, dá direito de o lugar oferecer um espaço chamado de berço. Prioridade para o bebê. Certo? Errado. O mesmo lugar fora vendido para dois clientes. A um pai com dois bebês de vinte e cinco e trinta anos, respectivamente, um metro e noventa de altura e cento e vinte quilos de peso, e para uma senhora do Paraná, que viajava com a filha, primigesta idosa, lactante, e o bebê. A filha ia se encontrar com o marido, que já retornara ao Brasil. Uma nova controvérsia se instalou, resolvida com a retirada da mãe para o fundão, restando a filha com o bebê no lugar adequado. A mãe protestou veementemente, pagara há vinte e um dias pelo lugar. A filha não podia ficar longe. Pagou a mais para ter esse conforto, viajar ao lado da filha. Entrou em cena o comissário supervisor e anotou os dados para fazer a devolução do dinheiro. Pediu desculpas com ar de enfado, ao mesmo tempo em que sorria. A mãe se acomodou no fundão e tudo parecia resolvido.

Diante dessas discussões, o nosso viajante sentia-se quase que em uma posição razoável, não fosse pelo fato de estar ao lado de um índio de dois metros de altura, com um nariz de totem, cuja pele se esticava forçada por quinze arrobas de carne, ossos e banha. O índio, ao ser indagado se não seria o caso de processar o responsável por aquela distribuição de espaço, respondeu: “Não, senhor, ele é que deveria viajar aqui”. E se recostou com os braços cruzados sobre a minha cabeça, depois de baixar a vedação da escotilha e escurecer o ambiente, para tentar dormir.

A mãe veio do fundão, pedindo licença para todos, e abriu o bagageiro sobre a cabeça da filha para encontrar alguma coisa. Fechou. Abriu o segundo, deixou cair a mala no chão, pediu ajuda para recolocá-la no lugar  de origem. Descobriu um cobertor para cobrir a filha e atender o bebê que desatou a chorar, acordado pelo barulho da mala, ou pela pregação da mater et magistra. A infeliz tripulante veio e discretamente disse que a aeronave não decolaria se ela não se aquietasse, e que não era permitido ela desatarraxar o cinto e ficar circulando pelo corredor. “Isso não é da sua conta. A senhora se coloque no seu lugar.” O argumento da força ameaçou tomar o lugar da força do argumento. As portas estavam cerradas. Alguém fez as vezes do comandante para aquietar os ânimos: ele permitirá a circulação, desde que os avisos de perigo, ou cintos amarrados, estejam desligados.

Sob o cacique, ex-jogador de basquete, ele abriu seu livro (Máfia) para conseguir suportar as horas que tinha pela frente. A tentativa era de evitar o filme (Jantar para Idiotas) e as músicas (Sambas, Axé, Trechos dos Clássicos Inesquecíveis). Estava prevista a exibição de Bravura Indômita, cancelada por motivos supervenientes. Ele pensou que, de qualquer forma, não poderia ver o filme. A tela estava na altura do seu peito porque a poltrona da frente se deslocara na direção da sua cabeça para que o vizinho da frente pudesse esticar as pernas. E ele ficou espremido entre os dois espaldares, o dele e o do outro, como se estivesse dentro de um triângulo.

Ele não podia ficar com seu encosto na mesma posição, pois a filha solícita acabara desistindo do seu lugar privilegiado para restar ao lado da mãe, no fundão, bem atrás dele. Ele ficou prensado entre um homem com um sono criminoso e a avó briguenta, e queria evitar os olhares condescendentes dos demais passageiros. Se fizesse uso do seu direito de declinar o encosto, seria uma nova, interminável discussão.

Não, não. Era melhor acender a luz e ler. Afinal, oito horas passarão bem rápido. O livro era bom. Encostou a testa no banco da frente, abriu o volume e tentou acender a luz: não funcionava. Chamou a comissária, que ficou de resolver o assunto: “Ah, sim, claro. O sistema ainda não está ligado”. Esperou. Nada. Acendeu o sinal para chamá-la. Talvez tenha esquecido. Ela voltou, pediu desculpas e prometeu solução imediata.

O avião decolou, ele curvado, tentando ler através da luz que vinha da janela da frente. Alguém a fechou. E começou o serviço de bordo. “Café, chá, água ou suco? O botão da luz? Ah, sim. Estamos com um problema. Desculpe-nos a inconveniência.” Pegou um papel e anotou o número do assento: 16D. Farei uma reclamação ao setor competente. Desesperado diante da alternativa de horas e horas de escuridão, arrotos e flatulências, procurando uma solução, descobriu ao ler a tarjeta de embarque que sentara no lugar errado. O cidadão que ocupava o lugar que lhe seria destinado (18D) acendeu o seu foco de luz, leu o jornal e depois a apagou, colocando uma venda para dormir. Ele abriu o seu computador e começou a escrever. O viajante mostrou para a aeromoça o seu número, CORRETO, e olhou indagando, com o rosto, a solução. Ela franziu a testa e lhe respondeu com um olhar desanimado. Pouco depois, distraída, jogou o papel com a anotação no lixo do carrinho.

Exasperado, próximo a se descontrolar, colocou os fones de ouvido: “Eu não imaginava, quando fundei a companhia, que ela atingiria esse tamanho. Eu chorei. Todos nós choramos quando chegou o nosso primeiro jato. Ela começou com um monomotor. A razão do nosso sucesso é a vocação de bem servir. Oferecemos algo a mais. Além das expectativas dos nossos clientes”.

Ele teve um acesso de riso incrível e solitário, enquanto todos vizinhos comiam com apetite contagiante. Subiu acima dos roncos dos motores um odor cuja origem era sabida e a autoria, anônima, e sumiu pelo duto do ar condicionado, após empestear o olfato de todos. Ao seu lado direito, uma senhora roncava estrepitosamente.

Uma janela foi aberta e o clarão repentino iluminou: “Estamos governados pela ralé, diz o diretor do Instituto de Estudos Filosóficos de Nápoles…” apareceu na folha do livro que estava aberto sobre as pernas dele. O livro estuda o comportamento da Máfia na Itália, a repercussão da imigração dos calabreses e napolitanos e seus efeitos na Alemanha. Todo italiano daqueles lugares que abre uma pizzaria é um mafioso, a não ser que prove o contrário.

Atrás dele, estava o senhor que foi preterido, apesar da sua condição física, de flagrante necessidade de ajuda, para dar lugar a alguém que apenas pagou pelo conforto. Ele parecia estar sereno, nenhum sinal de inconformidade. Devia ser por fraqueza.

O bebê começou a chorar. Quase que incessantemente. Para. Toma fôlego e recomeça. Uma passageira da fila lateral se apresentou como professora de Reiki e faz um diagnóstico: “A pressão no ouvido da criança é que faz com que ela chore. Basta envolver com a sua mão o dedo anelar dela”. Após alguns instantes, o choro cessou. Ela chorou ainda mais.

Ele colocou o fone de ouvido, escolheu a estação dos clássicos, ouviu um incessante Tchaikovsky, o romântico Chopin, o inevitável trecho das Quatro Estações. O seu pensamento divagou: primeiro nos picos gelados dos Andes, onde os sobreviventes da queda quebraram alguns tabus, segundo testemunhas, para sobreviver. O mais divulgado foi o canibalismo. E o medo que o invadiu, no caso de uma pane qualquer, paradoxalmente contribuiu para acalmá-lo. Pensou também no amigo que se gabou de ter conseguido com o dono dos camelos no Cairo um desconto equivalente à metade do preço por um passeio. Descoberto o hálito fétido do bicho, os dentes esverdeados, os olhos vazados, enjoou com o sobe e desce constante e pediu, desesperadamente, ajuda para descer, ao que o cairota, alegre, mostrou uma cédula de cem dólares americanos como preço. Desligou a música, ligou no canal de notícias: Massacre no metrô em Moscou: trinta e oito mortos. Atirador de vinte e dois anos dispara defronte a loja Safeway, em dezenove ou vinte pessoas em Tucson; uma das alvejadas é Deputada na Câmara dos Representantes. Especula-se que fora o principal objetivo do autor.

Foi quando ele finalmente conseguiu adormecer, e dormiu tanto que perdeu o almoço. Ao desembarcar, foi barrado na alfândega. E sorriu.

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