Caixa com ratos – Redux

Casa de secretário é roubada e polícia cobra ação de vigia.

Delegado-geral cobra atuação mais efetiva de vigilantes de rua;

Estado passará a cadastrar e fiscalizar autônomos.

(Folha de S. Paulo, 09 de fevereiro de 2011, n. 29.897)

Depois de cumprir um longo roteiro de trabalho no Grande Texas, a região que se encontra entre Nova York e Los Angeles, ele chegou. Estava sentado na varanda do hotel Brasil, em Miami, o único lugar onde não se precisava falar inglês para ser entendido. Ele estava sentado na varanda de frente para a rua.

Cansado de tanto se esforçar para compreender a língua, traduzir o seu pensamento muitas vezes confuso para um inglês que não provoque risos ou gargalhadas. Em um dos últimos almoços, distraído, pediu uma truta (trout) e repolho, e a garçonete (de patins), muito solícita nas visitas à mesa, não saiu do lugar, sorrindo encabulada, e perguntou se ele pretendia jogar o peixe no lixo. Cabbage e Garbage.

Lembrou também de Josie e da explicação que ela lhe dera para aquela senhora aboletada, diariamente, no saguão de um dos hotéis que o abrigou. Veio à memória que, tempos atrás, esse momento exótico, de alguém parado feito estátua horas e horas no mesmo lugar, se passara em Vegas. Apesar da semelhança logo perdida; o homem sentado estava diante da mesa de Black Jack. E jogava desde a manhã até a noite. Um oriental com uma pilha enorme de fichas. Apenas tentava esquecer o passar do tempo. Lá, você pode apostar no balcão onde se espera pela bebida.

A mulher sentada trajava roupas de diferentes épocas. Camafeu no pescoço. Sob o abrigo vermelho nas costas, que lembrava os romances vitorianos, via-se a blusa branca, calças pretas, largas, sem modular o corpo. Uma peruca de penteado intrincado, uma torre instável de cabelos, vermelhamente falsos. Um adjetivo dispensável. O apetrecho mais incomum, um conjunto de mala e caixa: lá embaixo, a mala de viagem, suas hastes estendidas; sobre aquela, uma caixa com cãezinhos. Transbordante de pelúcias. Sentava-se ora em um sofá, ora em outro, sempre nas extremidades, olhando fixamente o horizonte invisível. Ela ignorava a parede adiante. Não se virava para lado algum. Quedava ali, solene. Parecia esperar.

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