amaso ama amabo

Mas tudo na natureza relaciona-se mutuamente;

não existe ataque onde não exista defesa,

cada veneno tem o seu antídoto: basta conhecê-lo.

Primo Levi

Os primeiros pelos crescidos naquele rosto afloraram sob efeito de tortura constante. Causada pelo odor, corpo e cor da bosta de galinha, esfregada no buço. Ele desanimara de outros tantos métodos, e resolvera radicalizar. Queria fazer parte. Adulto. Não suportava mais a marginalidade. Aí, ó menino. O rosto estava abrasado, quase descascado. Sem se adiantar ou atrasar, repentinamente, eles começaram a crescer, desordenadamente, abrindo vários caminhos, crescendo uns contra os outros. Deixados ao léu, cresceram assim: ferrugem crespa e viva, contrastando com o cabelo castanho. A nova tortura movimento era a do barbear. Todos os dias, o rosto continuava abrasado pela lâmina.  Crescer a barba para fazer parte do rebanho, cortar a barba para não se destacar nele.

Hoje, a rotina se amenizou. Ele corta a barba, dia sim, dia não. Pensa em não a cortar mais, deixar que ela o esconda.  Evita se olhar no espelho. Corta a barba no banho. Protege com o dedo a pinta preta na base do pescoço, para não se cortar. E passa o aço, pelo rosto todo, várias vezes, de trás para frente e vice-versa. Intolerável com as imperfeições se escanhoa. A vermelhidão do rosto se tornou seu hábito. Concentrada em vermelho vivo sangue, pelo corte feito na asa do nariz, enquanto perseguia um tufo de pelos rebeldes. Sai da água, a toalha felpuda tingida que segura durante o tempo necessário para que o sangue pare de correr, cristalize a última gota.

Esse é o seu momento de liberdade total. Seu exercício físico diário. Nada, ninguém interfere. Não há dominação, não há poder. Sempre com o rádio ligado em uma estação que transmite apenas música, sem palavras, anúncios. Com a toalha abafando a parte inferior do rosto, repentinamente, ouve: Obama mata Osama.

Não é de se impressionar mais com a política. A cada dia mais tranquilo e submerso em sua própria ordem desordem, tenta aprender a não mais esperar nada vindo de fora. O fato irradiado parece se espalhar diante dele, diante de todos. Nele beberão todos, e espalharão seus anseios, egos envernizados em palavras pensamentos opiniões.

Enquanto se veste, algumas histórias teimam em aparecer. E de alguma forma, elas devem se relacionar com o acontecimento.

O GALO

Um viajante se encontra com um camponês, criador de carneiros, em um barco. Aquele fica encantado com a qualidade e o tamanho das criações. Após verificar o que tem no bolso, faz uma boa oferta para adquirir um dos animais. O camponês recusa, dizendo que a lã do carneiro vale muito mais, tanto que os compradores costumam revendê-la, depois de fiá-la, pelo triplo do preço. Do couro, ele continua, é feito o melhor sapato, das tripas, as melhores cordas para violinos, e onde ele mija se tira o melhor salitre. No lugar onde se enterra o chifre depois de moído, nascem os melhores aspargos do mundo inteiro. Assim, sacudido pela cobiça, o viajante aumenta a oferta paulatinamente, até atingir o valor de dois ou três bichos por apenas um. O mercador cede. Feito o negócio, oferece ao comprador o direito de escolher aquele que julgar o melhor. E, de fato, escolhe o mais gordo e é elogiado pelo comerciante. Ele soube escolher bem, o tratante! Entende das coisas, o salafrário. Na verdade, bem na verdade, eu o reservava para o senhor de Candale. De súbito, o viajante apanha o carneiro, que se põe a berrar e a espernear, e o joga por sobre a amurada da embarcação. Não mais que alguns segundos depois, todos os carneiros tomam o mesmo exemplo e se atiram ao mar, em fila, um após o outro. Nós sabemos que é natural aos demais seguir o primeiro. A roda girou.

A SERPENTE

Da América, vem outra história. A do escritor contando que se correspondeu durante três anos com um soldado, veterano da Guerra do Golfo. Ele foi condenado à morte após explodir um veículo abarrotado de explosivos jogado de encontro a um prédio da administração federal, matando uma centena de pessoas, ferindo outras tantas. Passado o episódio, deixou-se prender. Queria ser ouvido, em suas razões. As cartas o mostravam como pessoa culta, com letra uniforme, formado em universidade, com medalhas por merecimento e coragem. E com um senso todo peculiar de justiça. Não conseguia se conformar com o holocausto de um grupo de religiosos, ocorrido dois anos antes, sem nenhum motivo. Os religiosos foram perseguidos, acusados pelo governo, embora não houvesse provas contra eles. Portavam armas para se defender, e não queriam saber de nada vindo do exterior, de onde quer que fosse. Esse isolamento foi visto como uma ameaça potencial, e logo se forjou algo para invadir o retiro. Resultado: todos foram aniquilados. O senso de justiça do herói de guerra é absoluto. Ódio. Rancor. Clamava pela revanche, vingança. E a fez por conta própria. Ele acreditava, segundo o escritor, que dois erros fariam um acerto. E morreu por isso e com isso dentro dele. Serenado, firme. Seis anos de julgamento, de exposição e degradação pública, de debates. Inúteis. E a roda girou mais.

O JAVALI.

Voraz, ele comia muito e rapidamente, não escolhia entre um e outro alimento. Comia a ambos.  Sem exercício físico, seu corpo crescia até a morbidez. Não conseguia vencer seu hábito. E procurou ajuda. Durante vários anos, utilizou medicamentos para moderar o apetite e perdeu todo o peso excedente. Reduziu-se a cinquenta quilos. Na fase magra, passou a ser considerado um modelo de força de vontade. Seus amigos, quando almejavam algo impossível, pelas próprias forças, pediam conselhos e ajuda do recém-magro. Não adiantava nenhuma explicação dele, ou a justificativa de que o hábito leva à perfeição. Os amigos queriam experimentar o milagre daquela força da vontade que só existia no amigo. Isso foi o suficiente para ele perceber a força da opinião alheia. Comentando o fato, ela fornece apenas clichês, ou ideias advindas da imaginação. Diante dos contínuos e avassaladores lugares-comuns, todos se contaminam, por exaustão e ignorância. A opinião pública gosta de ser, ter, encontrar um bicho de estimação. Idealista. Morre pelos seus ideais. Vive a vida com muita inteligência e, se preciso, morre pelo outro. Aqui está o fulano. Ele, sim, é que tem força de vontade. Pode oferecer um doce, um pastel, uma lasanha, ele não come, não é como a gente, uns porcos glutões. Ele, agora, não tinha mais vontade de comer qualquer coisa. A vontade fora eliminada quimicamente. E se aliou a outro costume, o de se privar, após anos e anos engolindo remédios, inundando seu corpo como o agente laranja. A maior de todas as mudanças: ele também passou a acreditar em seu superpoder, todas as vezes que a luz da autocrítica se apagava. Passou também a fazer parte do clube da ignorância.  Outro giro na roda.

Nos dias posteriores, leu as opiniões publicadas a respeito do acontecimento. Depois de dez anos, a caçada finalmente terminara. Não havia alternativa viável. Existe a tradição inescapável nos povos do norte, que deve e será sempre seguida. Não vivemos tempos de gestos ousados, e os líderes são mesquinhos e medrosos. Do outro lado, no Oriente Médio, existe uma tradição de combate pela imposição de sua religião, da conversão dos ímpios. Seus líderes são coléricos, e autoritários. Há uma luta fratricida que só se interromperá com a ameaça real de uma hecatombe. As tradições de vingança, de sangue pelo sangue, não imperam apenas no nordeste do Brasil, nas montanhas da Albânia ou no deserto da China. Em nossos tempos, elas estão apenas enfeitadas de balangandãs legais, morais e militares. Entretanto, são visíveis a olho nu.  O poeta Francisco das Chagas Batista cantou em 1925:

Voltando à casa paterna

Já achou seu pae enterrado,

Por uma questão de terras

Um cabra o tinha matado

Disse ele aos dois irmãos

Vamos lavar nossas mãos

No sangue desse malvado

Agarraram o assassino

Picaram-o todo em pedaço,

Não deixaram delle inteiro

Nem mesmo perna nem braço,

Os três d’ahi por diante,

Não mais poderam um instante,

Abandonar o cangaço.

Banho tomado. Roupa limpa. Saiu pela Avenida Farroupilha. Dia ensolarado. Ar parado. No primeiro cruzamento, parou. Encontrou uma nuvem de pó escuro condensada como pessoa. Não se via o seu rosto, apenas dois pontos negros e brilhantes, e a roupa estava tão naturalmente colada ao corpo que se transformara em uma segunda pele. Fazia alguns movimentos lentos, suaves e determinados. A mudança da sinaleira do vermelho para a verde não foi percebida. Algo estava sendo preparado. Ele atravessou a rua e não conseguiu deixar de olhar.  O ar deu lugar a uma aragem muito pacífica que se espalhou, afastando todo o nocivo para longe. E, muito devagar, o corpo que estava em posição horizontal sobre um trapo se firmou na mão esquerda, depois na direita, ergueu-se paralelo ao chão, depois as pernas se encolheram em direção ao tronco. Para quem olhava de frente, o homem assumiu a pose de um grilo; em seguida, suavemente, o tronco e as pernas se levantaram, quase em ângulo reto, e se fez a posição do corvo. Aquele desconhecido, saído não se sabe de onde, fez com perfeição a chamada kakasana, um modelo de equilíbrio, de transformação lúdica da energia. Fazendo do homem um pássaro.

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Uma resposta para “amaso ama amabo”

  • Djabal, tenho sempre a mesma sensação ao ler os seus textos no(s) blog(s): como você consegue escrever literatura do mais alto nível como se fosse uma simples postagem…

    Você tem material para muitos romances por aqui (e inspiração também).

    Nota: Lindo o título: MAPA D’AGUA!

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