Ave do Paraíso

 

…nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências vai se anulando e negando a si mesma em sua aparente repetição até que nada seja nada e ninguém seja ninguém que tenham sido antes, e a frágil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e veem e sabem o que não se diz nem sucede nem é cognoscível nem comprovável.

Javier Marías.

 

Na superlotada sala de espera, a tela muda exibe uma ave de plumagem multicolorida, intensa, irregular e espetada, dançando freneticamente, saltando adiante e para trás sobre o galho de uma árvore perdida no tempo e no espaço; em seguida, há um corte e vemos outra ave, menor e de cor monótona, tom sobre tom, que parece avaliar aquele show de calouros; novo corte, e outra surge, com plumagem diferente da primeira, na forma e nas cores, bem como nos passos da dança; um quarto e último corte para a “monótona”.

Essa sucessão de imagens me traz à mente o documentário sobre as Aves do Paraíso, habitantes na Nova Guiné. É o mais impressionante, belo e artístico exemplo de exibição para conquista sexual que presenciei. Parece que os machos dessa espécie exibem plumagens diferentes. Aqueles que têm plumagem idêntica à da fêmea são condenados a cuidar da prole, formando um casal. Os “artistas diferentes” tomam seu rumo após a conquista, deixando a fêmea solitária e com o filhote.

A vivacidade contrasta, violentamente, com a apatia do ambiente em que estou, intenso em linhas retas, de poucas cores, muita gente com a atenção voltada aos telefones. Não se ouve nenhuma conversação. Há os que olham para o chão e os que folheiam revistas velhas e manuseadas, raramente um livro. Às vezes, escuta-se o ruído de uma folha rasgada, de uma página dilacerada enfiada no bolso ou bolsa, sem nenhum pudor, assumindo todos os demais como cúmplices.

 

Acende-se um número no monitor: o meu. Sou atendido por uma moça, nova, de olhos negros e faiscantes, melancólica, o rosto sorridente é o escudo para a expressão cansada do corpo. O exame exige que eu tire a roupa e me deite em uma cama móvel de metal, encimada por um equipamento que percorrerá todo o meu corpo. O médico descobriu que tenho osteoporose e quer saber o quanto de massa óssea eu já perdi. Os preparativos são demorados, o lugar é frio e a máquina, ameaçadora. O silêncio torna todas as sensações muito concretas, quase corpóreas. Ele é estilhaçado pela minha voz: “Gosta do seu trabalho?”. “Ah, eu amo o que faço.” “Faz tempo?” “Dez anos.” “Você mora perto?” “Santo André.” “Puxa, é tão longe de Moema.” “É. Levo uma hora e meia, de moto. Quando saio cedo, é rapidinho. E, como trabalho em dois empregos, o dia passa depressa, quando me dou conta já estou em casa novamente, à noite. O outro emprego é na filial deste laboratório, a que atende a clientela mais humilde, de baixa renda.” “E o atendimento é diferente?” “É diferente, moço, os equipamentos são descartes daqui, a equipe é bem menor, e a fila de clientes, muito maior.” “Como você descobriu sua vocação?” “Comecei como atendente e fui me encaixando em posições e salários melhores. Fiz um curso técnico de instrumentação, e consegui meu lugar atual. Apesar de gostar daqui, a firma fez um acordo comigo uns tempos atrás e fui demitida. Sabe aquela vontade de melhorar? Indenização, direitos, e coisa e tal. Com a grana, comprei um salão de beleza, perto de casa, e comecei a trabalhar por conta. É uma coisa bacana trabalhar sem patrão, a gente tem mais entusiasmo; comecei a guardar um pouco de dinheiro, para cuidar do meu futuro, sabe como é?, casar, ter filhos, casa própria, essas coisas que dão segurança, calor e alegria.” “Mas, menina, você já trabalha em dois lugares, como você consegue estar no terceiro?” “Ah, não, não. Quem cuida do salão, agora, é a mãe. No começo, eu cuidava após deixar meus empregos, mas tive que abandonar depois de um tempo e lutar para ser readmitida. A minha irmã caçula arrumou duas crianças, e foi na sequência abandonada pelo pai delas. Ele não quis saber da responsabilidade. E o senhor acha que posso deixar minhas sobrinhas na pior? Ah, elas são tão lindas. Tomo conta como se fossem minhas. Minha irmã, coitada, é uma largada, desanimada, faz algum servicinho de casa (lava, passa, cozinha). Raspei o fundo do tacho das economias. Mas elas todas estão bem. Com o tempo tudo se resolve. O senhor não acha?”

 

 

Enquanto a ouvia, calculava: seis horas aqui, seis horas no outro emprego, uma hora para almoço, feito sanduíche de mortadela em cima da motoca, três horas de trânsito, ida e volta, tudo isso totaliza dezesseis horas. Oito horas para dormir, jantar, arrumar suas coisas, ajudar a mãe nas contas e problemas do salão, além dos problemas da irmã. Porque essa mulher não mandou tudo ao diabo que o carregue e cuidou só da própria vida? Será que ela quer algum? Ou é tudo uma exibição?

“É, com o tempo tudo se resolve, claro”, eu disse, tentando animá-la. Será que sabemos se possuímos esse tempo necessário? De vez em quando, desce a impressão de que a vida é uma corrida de esquina em esquina, sem noção, e podemos ser pegos, a qualquer momento, por uma bala perdida. E pronto. Lá se foi o tempo. “É verdade, seu moço, mas a gente tem que fazer o correto, né? Pronto, terminei o exame.” “Você pode me adiantar o resultado?” “Posso, mas não devo, o senhor tem que conversar com o médico. Desculpe.”

 

Tempos atrás, ali perto, na Berrini, presenciei a cena da perseguição de um velho por uma turba de gente. Um apedrejamento. Ele tentava alcançar abrigo, uma casa feita de tábuas, precária, buraco construído sobre pedaços de frases sem sentido. A distância entre ele e os perseguidores diminuía a cada momento, ao passo que aumentava a distância entre a porta do buraco e o velho. O coitado sacava do medo força para correr, estava prestes a se render. Mandei o motorista parar e, quando toquei o trinco da porta para sair, ele me segurou pelo ombro, gritando que eu estava louco, que morreria ali mesmo na avenida, caso eu me metesse naquela confusão.  “Qual era a minha chance?” Assim que eu pusesse o pé fora do carro, ele arrancaria e me deixaria ali. Estava sério e exasperado. “Me desculpe, mas que tipo de herói é você?” Socado na boca do estômago, fechei a porta entreaberta e saímos dali.

A conversa com aquela enfermeira trouxe de volta essa cena. Ou talvez fosse a proximidade dos locais, ou apenas a tentativa de encontrar o meu verdadeiro rosto?  O só vá até onde puder aconselhado pelo meu pai.

 

 

Meu pai era um defensor ardoroso dessa estratégia. Vá até onde puder. Para mim, até então, essa metáfora não passava de uma frase solta no ar. Quem pode ir além? Ela ganhou densidade, corpo e história ao sairmos juntos de um almoço, depois de passarmos um bom tempo no Amigo Fritz, onde bastava ele chegar para que o almoço viesse correndo nas mãos do garçom. Sempre o mesmo prato. Após alguns minutos sentados, a cerveja estupidamente gelada apontava lá no fundo apoiada em uma bandeja e logo atrás dela o roxo do prodigioso nariz de Albert, que se espalhava em tons de vermelho naquele rosto comprido, até se desfazer contra o amarelo dos cabelos escassos. Uma segunda corrida com o repolho, as batatas e salsichas. Enquanto comíamos, ele guardava posição de sentido, contando os casos ocorridos. O do mendigo, que morrera dois dias antes, enquanto dormia sob a marquise que desabara no prédio ao lado.  “Nossa, quanta gente se juntou para ver.” E, apesar da conversa, o serviço era impecável, o copo jamais ficava quente ou vazio. Meu pai seguia uma rotina infalível. Parecia gostar disso, uma vida sem acidentes. Ignorava o acaso, fazia dele algo distante de si. “O mendigo é bem estúpido, não se deve dormir debaixo de marquises. Aliás, se não fosse estúpido, não seria mendigo.” E a conversa, invariavelmente, derivava para anedotas e casos engraçados. Enquanto ele se despedia de Albert, eu vi uma pessoa entrando no nosso carro e o chamei, avisando que estávamos sendo roubados. Ele se encaminhou calmamente em minha direção e confirmou o fato, enquanto o carro arrancava. E me mandou entrar. “Mas, pai, você não vai fazer nada? Corre lá, quem sabe a gente alcança o cara no farol.” “Que coisa mais estúpida! Pra quê? O carro está no seguro. Vou ligar pedindo o carro reserva e vamos pra casa. Cada um faz a sua função, faz aquilo para o que nasce. Esse é o tamanho da felicidade de cada um. Vamos entrar e tomar uma cerveja enquanto esperamos.”

 

 

Saí dali, peguei a Avenida República do Líbano em direção ao Ibirapuera e encontrei uma menina na calçada, às oito e meia da manhã. Bonita, negra, alta de pernas compridas, saia curta. Estava confuso, com fome, em jejum. Estacionei o carro, esperei ser abordado. “Bom dia. Está querendo se divertir?” “Quanto?” “Setenta” “Entre.”

O meu pensamento voltara àquela sala gelada, àquele sorrir triste, queria me livrar daquilo, o sorriso dessa garota é o mesmo, o olhar também é brilhante, doce (é negócio, cara, não é doce, é enjoativo, se liga!) “Vira na próxima à direita, o hotel é logo ali.” Entramos, ela se dirigiu ao banheiro. Eu me desloquei para o acidente no Rio, ele se repete uma vez mais, a mesma cena já repetida centenas de vezes, em câmera lenta.  Primeiro, o choque do rosto no para-brisa, surgido na minha frente do nada, é só o que vejo, depois o corpo que se choca com meu carro, e a mulher é lançada metros adiante. Não, eu não vinha correndo, estava em velocidade regular. Como é que pode alguém atravessar a rua desse jeito? Breco o carro imediatamente. A minha mão abaixa a trava de segurança do cinto, faço menção de sair do carro, olho no retrovisor e vejo uma pessoa correndo em minha direção, de boca aberta, gritando, falando alguma coisa, olho no outro espelho, um monte de gente corre também, vinda da praia, da ciclovia. O farol lá na frente me chama: verde, vem. Vou ser linchado. Ninguém vai querer ouvir nada. A batida não foi tão forte.  O pé direito assume o comando automaticamente e pisa forte no acelerador. Saio voando. Sigo pela Vieira Souto até a primeira à direita, entro na primeira rua que dá mão, cantando o pneu, assustando as pessoas que estão por ali, todos me olhando. De novo, olho no retrovisor, procurando algum carro que esteja me seguindo, olho pelas calçadas para saber se alguém vem correndo ou se há alguma gritaria. Nada. Não consigo disfarçar ou diminuir a marcha, continuo correndo até que o meu coração deixe de querer explodir no peito.  Depois da eternidade feita de minutos, descubro-me no Jardim Botânico. Estaciono junto ao meio-fio.

 

“Você não vai tomar uma ducha? Está todo suado.” “Não, obrigado.” Uma mulher atropelada no Rio não é manchete de jornal, talvez, no máximo, uma nota de pé de página.  Assistia à tevê diariamente, acompanhava o jornal, e não encontrei nada a respeito. Não era ninguém importante, filha de político, bicheiro, empresário. Uma mulher comum. Ainda bem. “Olha, benzinho, desse jeito tá difícil, venha para cá.” Depois de terminado, olhei para ela. “Qual é o seu nome?” “Ângela.” “Você tem nome de anjo. Mensageira.” “Não sei, mas as pessoas gostam de mim.” “Por que você não descobre a cintura, e essa saia, por que fica com enrolada na cintura?” “A minha barriga é feia, tem uma cicatriz, de uma cirurgia mal feita.” “Você acha que alguém vai reparar?” “O meu corpo é meu patrimônio, tenho vergonha de mostrar esse defeito.” “É, de fato, ninguém gosta de mostrar suas fraquezas.” “Mas você é tão bonito, perfeito. Seu equipamento é de primeira linha: GG” “Ângela, deixa de onda, peça uma bebida pra gente.” “Tome você, eu não bebo em serviço.” Enquanto ela se levantava, mostrando sua bunda redonda, bem delineada pela faixa na cintura, refleti se não poderia servir como minha confessora. Afinal, era uma estranha, não havia nenhuma ligação, sequer sabia o meu nome, não preenchi ficha alguma, era uma tentação. Quem sabe posso encontrar um alívio? A palavra como exorcismo. Liberação. O que ela vai me dizer? Você tem cara de ser esperto mesmo. Rico não vai preso. Dos homens você foge, e da sua consciência? Lugares-comuns. Nada disso me ajudaria a resolver a questão. A enfermeira, quando contou sua história, despertou essa recordação. Mexeu comigo, me humilhou. Ângela seria uma boa confidente. Ou condenação certa, ou demonstração piedosa, pedindo que eu me arrependesse. Com ela poderia me defender. Talvez ela dissesse algum lugar-comum. Desfiando sentimentos comprados em supermercados?  Ouvidos na novela das nove. E se ela dissesse: Você foi um cagão de primeira. Devia enfrentar as pessoas porque estava com a razão. Mas, ouça bem, coragem só aparece em quem tem. É verdade que a justiça dos homens é falha, mas qual é o problema? Você vai morrer mesmo, cara. Ou sofrer um enfarte saindo daqui e plof. Acabou. É vantagem de fugir da engrenagem? Ela vai te pegar mais adiante. Ninguém escapa. Caso ela falasse assim, eu ficaria chocado. Ela estaria mentindo, e para si mesma. Aquele rosto era uma máscara. Mentirosa como eu mesmo sou. Pensar assim é fácil. Agir assim no calor é diferente. A sua história, ou era uma adaptação feminina da dança da ave-do-paraíso, para uma cantada, ou um conto moralista para provocar piedade. Piedade só vale se é gratificada. E esse é o caso dela. Eu acabava de descobrir que era mesmo um covarde. Tão covarde quando o motorista que me impediu.

 

Não, não contaria nada para Ângela, não valia a pena incluí-la nessa busca. A moral e os fatos são passageiros, e tudo estará mesmo derruído em um futuro bem próximo.

Quando ela voltou, depois do segundo banho, me olhou e, julgando-me mais sereno, ofereceu uma segunda, “a dose do santo”. E gastei toda a minha força, renascida, dentro daquela fenda.

Deixei-a nas proximidades do local onde a pegara, e ela se despediu, deixando um número de celular, avisando da disponibilidade nos dias úteis, horário comercial, exceto segundas-feiras e Sexta-Feira da Paixão. Guardei dela o gesto de retirar do maço de notas de cem, que lhe ofereci, o valor que ela quisesse. Perguntou-me se poderia revistar minhas roupas. “Claro.” Sem descobrir nada, contou todas as notas: dez. Retirou cinco. Para que eu não ficasse sem dinheiro, explicou.

Até onde ela foi com esse gesto?

 

 

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