Quadros de uma exposição

Ele veio de Aix que é de onde veio Cézanne e é

desse jeito que são as pessoas elas acham

que se vem de um lugar talvez se tenha

um pouco das coisas desse  lugar.

Gertrude Stein

 

Praga

 

Um sonho de viagem ou uma viagem rumo ao sonho. Na companhia da minha irmã, visitaríamos pela primeira vez a casa de Kafka, alugada pela irmã dele para lhe proporcionar paz, o silêncio indispensável para escrever. Já sonhava em ver a mistura de cores e casas de dois e três andares, geminadas, cortadas pelas ruas de paralelepípedos, formando um mosaico, avançando em grandes moles sobre nós, os milhares de visitantes. Ilha fluvial do rio Moldava e suas janelas emolduradas debruçadas sobre os canais. Do cinza que varre as ruas cortadas por trilhos, também nascem as lápides dos cemitérios e as construções góticas, palácios e catedrais que terminam em pontas afiadas puxadas pelas mãos dos artistas e apontando para o céu. Elas dizem algo para quem as vê. Atravessar a ponte do Rei Carlos, teríamos a sorte de escolher um dia com neblina, e cada trecho seria uma descoberta, olhar o largo curso do rio, ver o que Kafka tinha visto centenas de vezes, e mais tarde sentar no Café Kafka e olhar uma jovem tomando um sorvete, sentada em um canto privilegiado.

 

O avião pousou suavemente no aeroporto local. Desembarcamos em último lugar, esperando que os apressados saíssem primeiro. Alguém apareceu para nos ajudar com a bagagem, indicou a esteira e seguimos o carretel de pessoas onde cada uma pescava suas malas, disse algo que não entendemos, apontando a casa de câmbio, agradecemos, fazendo gestos que não precisávamos. Perguntou pelo nosso nome, olhou os documentos. Seguimos adiante, congelados pelo frio do ar condicionado, ajustado para o clima Ártico. Logo nos entregou para outro senhor que ostentava uma tabuleta com o meu nome pendurada no pescoço, e que, descobri mais tarde, ser o motorista do ônibus vermelho, antiquado, duplo, colocado à nossa disposição. Ele nos conduziu para fora do saguão, e tivemos o primeiro contato com o ar local, regulado para o clima África. Ele aparentemente não falava nenhum outro idioma a não ser o dele, incompreensível. Ele nos levou até ônibus já com o motor ligado, bufando sobre nós, mostrando que estávamos atrasados. Estacionado em meio à centena de carros, em um dia de sol faiscando a pino, começamos a arrumar a nossa bagagem, apenas duas malas. Como fôramos os últimos a chegar, tivemos de colocá-las no lugar mais alto, em meio a uma infinidade de outras malas, pacotes e engradados, tudo arrumado e encaixado com lógica, mas o espaço restante parecia insuficiente. Fizemos muita força para abrir espaço. O motorista colocou suas mãos em concha para eu subir. Sobre aquele equilíbrio instável, puxei as malas pelas alças e as subi até a altura da cabeça e as empurrei, bati, esmurrei até que entrassem naquele espaço, tudo isso sob os grunhidos de incentivo? aprovação? impaciência? daquele homem lá embaixo. O ônibus estava lotado de outros viajantes, um casal de indianos (que bem poderiam ser bengalis ou paquistaneses) nos sorriu imediatamente, assim que nossos olhos se cruzaram. Um sorriso de desconforto e apreensão. Todos sentados em ordem, a mesma ordem das malas, aguardando a porta se fechar para iniciar a parte seguinte da viagem. Ninguém se atrevia a falar com o motorista, talvez pelo fato de se utilizar de um quepe, vestir um paletó com dragonas, camisa cinza com gravata da mesma cor e coturnos. Era a força da ordem. Tentei balbuciar algo, apontando para a cidade, fiz algumas micagens mostrando o meu relógio e o céu, fazendo menção ao Relógio Astronômico de Praga. Nada. Olhou-me fixamente e pediu meus papéis. Disse alguma coisa. O indiano me olhava, assim como sua mulher e as duas filhas, todos sorrindo de medo. Um painel na frente do ônibus se acendeu com o nome Maribor, a distância e o tempo da viagem. Uma viagem de aproximadamente cento e cinquenta quilômetros que demorou três horas e meia; a região é montanhosa e a estrada, sinuosa, com trechos em que se afunilava até se tornar via única. Fomos obrigados a parar e dar vazão ao fluxo contrário, estacionados no acostamento, à direita um abismo considerável e a montanha à esquerda. Os indianos conversavam em sussurros entre si. Esperamos um tempo enorme para escoar a fila interminável de veículos, até o tremular da bandeira levantada. Era o sinal de partida. Depois do contraste entre o Ártico e a África, o suor do meu corpo secou deixando um rastro insuportável. Seguimos viagem, velocidade máxima controlada, atravessamos lentamente a primeira cidade, de nome ignorado e ilegível, apesar do esforço da placa indicativa, parecida com aquelas encontradas no oculista, lotada de consoantes e vogais acentuadas e riscadas, que juntas não fazem sentido algum. No destino, paramos ao lado de uma construção de onde saiu a nossa sobrinha, sorridente, com um papel em mãos autorizando a sua despensa da jornada de trabalho, graças ao tio e a tia que chegaram para visitá-la. Falei com ela da intenção de visitar Praga. E ela me explicou que arranjou a viagem dessa maneira, por ordem do seu superior: ele a liberaria para nos acompanhar, desde que fosse para conhecer nossas belezas regionais. Olhei para minha irmã. Ela parecia animada, aliás, ela sempre parece animada, tem uma juventude eterna, entusiasmada com toda e qualquer oportunidade surgida. Perdida a chance de conhecer a casa de Kafka, fomos conhecer algumas cavernas (Postojnske) com vinte e um quilômetros de extensão, além de estalagmites, estalactites e desenhos pré-históricos, embalados pela trilha-sonora da interessante história (contada em espanhol) de um dragão que soltava fogo pelas narinas e que divertia muito todos os visitantes desde os tempos medievais. O que é vivo não comporta cálculo. (Franz Kafka)

 

Paris

 

Encontramos o hotel e nos acomodamos sem ajuda de ninguém. Quando solicitada, recebemos um caloroso não como resposta. O primeiro sinal da esfuziante hospitalidade parisiense. A minha primeira preocupação foi a de encontrar a casa de Balzac. O convívio que tivéramos (eu e ele) por vários meses incendiou minha imaginação de tal maneira que eu me considerava um amigo vindo de outra era para visitá-lo e à sua cidade. E, de fato, não foi difícil localizá-la. Estava ali por perto. Não falo francês. Após várias tentativas frustradas de fazê-lo, aprendi que anotar o endereço é mais prático: 47, rue Raynouard, 75016. Ao chegarmos, percebi que não poderia fazer a visita tal como planejara. O terreno onde ela foi construída é uma clareira dentro de uma ravina. Eu estava na calçada da rua aqui em cima. A casa, lá embaixo. Uma escadaria me conduziria até lá, caso eu pudesse descê-la. Mas eu não podia. O meu orgulho não me permitia ficar ali parado, alguém poderia oferecer ajuda para a descida, e minha recusa involuntária, automática, ofenderia o próximo ou me humilharia, ou ambos. Pedi à minha mulher que descesse com a máquina fotográfica e registrasse a escrivaninha (onde ele trabalhava à luz de vela e encharcado de café.) e a porta postiça, feita para facilitar sua fuga dos credores insistentes. Minha intenção de sentir o espaço em que ele viveu, tentar reviver os mesmos sentimentos e de alguma forma me conectar com o escritor foi frustrada. Aqui de cima, apesar de próximo, estava ainda distante da realidade dele. Daquela que ele deixou. A Paris que foi dele também foi a minha, a única que conheci, tão detalhadamente descrita. Foi a Paris que ficou em minha memória, e a que eu via fisicamente agora não alterou a impressão. Não quis visitar o cemitério de Père Lachaise para reviver a sua descrição detalhada, tampouco procurei ver a sua mansão na rue Balzac (8e arrondissement).  Ele a comprou (jamais pagou) para instalar a esposa depois de anos e anos de promessas não cumpridas, dificuldades e impedimentos, e, quando o fez, faleceu pouco depois.

 

Paris é o resultado das emoções genuínas dos seus habitantes e das evocações dos que a visitam. Estas é que dão cor e carne aos acidentes geográficos, são as recordações e lembranças que a transformam em cidade luz. Para aqueles que a visitam hoje em busca daquelas, Paris é uma cidade fria e bela como um lagarto e insensível como um táxi.

As lembranças de Marcel Proust foram espalhadas em dois lugares. No museu, estão seus objetos de uso pessoal, recolhidos ao longo de sua vida, arranjados da mesma maneira que ele descrevia minuciosamente em seus textos. Sua casa foi comprada por uma instituição bancária. Assim, a câmara revestida de cortiça, para evitar o ruído exterior, está preservada, e hoje é apenas uma dependência, parte de outro conjunto, servindo como atração para os atuais clientes. Estarão eles interessados naqueles vestígios de vida com tanto trabalho e nenhum emprego, exaurida na descrição de suas memórias, da sua época e da sua cidade? Eu, que gostaria de viver por alguns instantes no mesmo lugar em que ele viveu, eu me vi dividido em dois e sem conseguir decidir o que fazer. Não fiz nada.

 

 

Bézancourt

 

Rouen seria o próximo destino. Expulsos de Paris, tomamos a estrada e saímos. Ao chegar perto da cidade, fiquei impressionado com seu tamanho, pois a imaginava pequena, uma vila, mas me deparei com um lugar enorme, antigo, moderno, mão e contramão, rio, porto, cargueiro, transatlânticos, mastros, cordames, murais, marinheiros, operários, galerias, centros comerciais, catedrais, enxaimel, vidros, esplanadas, avenidas largas nas duas margens do rio caudaloso, tão vigoroso quanto o seu marrom, atravessadas por ruas até perder de vista. Ultrapassamos todos estes obstáculos e, ajudados por um satélite que falava português de Portugal, encontramos o hotel programado para nos receber. Ficava em uma rua estreita, com passagem autorizada para automóveis somente em certos dias. O olhar de desaprovação dos pedestres nos indicava que aquele não era o dia. Pedi o nosso quarto para o recepcionista e fui informado de que o lugar estava lotado. Havia uma convenção na cidade e, a propósito, não encontraria acomodação em qualquer outro lugar. Rouen estava lotada. Apesar disso, ele fez alguns telefonemas que serviram apenas para reiterar o que já dissera. A minha chegada estava prevista para dois dias depois.  Depois de muita insistência, descobriu um hotel a quarenta e tantos quilômetros dali. Imprimiu um roteiro com orientações para que eu o encontrasse e mo entregou. Fui despachado com um olhar. Antes de sair, perguntei onde ficava a casa de Gustave Flaubert. Quem? Ele não sabia, não tinha a menor ideia. Um escritório de turismo, talvez, tivesse alguma informação. Estávamos no final da tarde, com um trecho de estrada ainda pela frente. Resolvi deixar a cidade e encontrar Bézancourt. Arrisquei uma última pergunta: sabe me dizer se o hotel possui escada? Escaliers? Não, não há. Depois de uma viagem pelo interior da Normandia, encontramos a, agora sim, pequena cidade. Tão pequena a ponto de não caber nela o hotel, ele não existia, por telefone tentei me comunicar com a recepção, explicando que estava defronte à Igreja e não sabia como chegar até lá. Consegui entender algo como seguir por uma determinada estrada de terra à esquerda, deserta. Um grande vulto surgiu, atrás do muro com a placa, dentro da noite escura, silenciosa, e sem qualquer iluminação a não ser a dos faróis do carro. Entrei hesitante na alameda cascalhada até chegar ao pátio. Buzinei. Uma pessoa magra, envelhecida e gentil, apareceu e me convidou a entrar, e logo agarrou as malas, subindo pela escada principal de entrada (vinte degraus).  Atrás da recepção, outra escadaria, para o primeiro andar (trinta degraus). Nosso quarto. Podíamos escolher, éramos os únicos hóspedes. Jantei no quarto, depois fui explorar as figuras nas paredes, gravuras e cópias, da época de Napoleão III.

“Vous ne savez pas, vous, ce que c’est que de rester toute une journée, la tête dans ses deux mains, à pressurer sa malheureuse cervelle pour trouver un mot.

L’idée coule chez vous largement, incessamment, comme un fleuve. Chez moi c’est un mince filet d’eau. Il me faut des grands travaux d’art avant d’obtenir une cascade.”

Flaubert à George Sand, 27 novembre 1866.

O Senhor não sabe, senhor, o que é ficar um dia inteiro, a cabeça nas mãos, espremendo o seu cérebro infeliz para achar uma palavra.

A ideia flui bem no senhor, incessantemente, como um rio. Mas em mim é um estreito filete de água. Eu preciso de muito trabalho na arte antes de obter uma cascata.

Resolvemos sair no dia seguinte. Seguiríamos viagem, sem voltar à cidade de Flaubert, um roteiro qualquer, passeando por vilas e lugarejos. Tive uma surpresa no café da manhã: fomos servidos por um senhor muito parecido com o Anthony Hopkins de Vestígios do Dia. Não resisti e perguntei se ele era da região. Não, ele nascera na Inglaterra e resolvera emigrar para a Normandia para acompanhar seu filho mais velho. Gostava de ler e admirava Thomas Hardy. A conversa girou em torno dos sentimentos dos personagens revelados pelo autor, e da sua repercussão em ambos os leitores.

 

Saint Michel de Montaigne

Bordeaux estava preparada para brindar com seus universitários, em festa, e muitos brindaram além da conta, um deles enfiou o tronco pela janela aberta do carro para nos dar informações que não pedimos. O hotel com centenas de quartos e logo fomos avisados de que o restaurante estava em manutenção e não poderia nos atender. Pensamos, após consultar um guia, que não seria um problema, a cidade tem muitas opções. Ocorre que entre ler e viver a diferença é bem grande. Não conseguimos encontrar um local para jantar que tivesse estacionamento. Devia ter lido com mais atenção. Teríamos que caminhar de um local para o outro, e a distância, grande demais, tornava inviável essa opção. Depois de várias tentativas infrutíferas e caminhadas trôpegas, resolvemos pedir ao hotel que resolvesse a questão, estávamos exaustos. A única sugestão oferecida foi um disque-pizza. Deitamos sem jantar.  Resolvemos deixar a cidade e procurar pousada num local próximo, fora do perímetro urbano. Conseguimos um hotel térreo, tranquilo, uma construção moderna, cercada de jardins e campos. Ali conseguimos fazer nossas refeições a um preço razoável. Que tal visitar a torre de Montaigne? É longe? Não, descobri que a distância não era tão grande e o local, de fácil acesso, poderíamos até marcar o dia e a hora convenientes para a visita. E saímos. Depois de enfrentar as rodovias e suas rotundas (dão a impressão nítida de que o mundo é uma organização metódica infalível), pegamos a saída correta e seguimos pela Aquitânia com suas estradinhas coleantes, sob o sol outonal, suas vinhas, igrejas, ruínas romanas, leões rampantes nos mastros, muros, até chegarmos ao castelo. Ele continua produtivo e habitado, produz seus vinhos, recebe os visitantes e foi reconstruído após um incêndio no século XIX, quando era propriedade de um ministro de Napoleão III. Na loja, comprei os ensaios em francês moderno e antigo. A moça, muito gentil, nos conduziu até a torre onde Michel de Montaigne passava seus dias.  Isolada do conjunto, fica em um canto da propriedade. O quarto e a biblioteca surgiram como prêmios para quem vencesse a escada em caracol. Pedi que tirassem fotos das vigas e as frases que ele entalhava (ou escrevia?), como eu faço nos meus papéis. Contaram-me que ele possuía um duto para poder ouvir a celebração da missa, nos dias em que era atacado pela gota e não conseguia descer os degraus. Tenho como recordação: a janela na qual provavelmente observava os campos, a escrivaninha e a cama com dossel. Sentei-me em um banco no pátio, com várias castanheiras, já sem folhas, e fiquei por um bom tempo olhando as estrebarias e áreas de serviço, com charretes. Um gato preto e miúdo se juntou a mim. Estávamos sós. Ninguém mais o visitava naquele dia, tínhamos paz e silêncio. Durante esse tempo, consegui me transportar para os anos quinhentos, e a imagem do seu grande amigo, Étienne, surgiu e parecia me chamar. Lembrei que Montaigne o visitava regularmente, um cansativo passeio no lombo do cavalo que levava aproximadamente noventa dias. Para quem se pode doar uma biblioteca senão a um amigo único? E, desse chamado, desse pensamento, surgiu o plano de fazer a mesma viagem, até Sarlat. O prazer do reencontro seria o mesmo que o levara a escrever sobre a amizade. E assim fizemos. A região que agora enfrentávamos era montanhosa, passava por inúmeros vilarejos, e uma pequena igreja nos fez parar. Ela, talvez, tenha sido construída por fiéis pobres, sem conhecimento suficiente da arte da alvenaria, estava fora de esquadro, torta mesmo, mas íntegra, e com um édito pregado na porta no qual constava o nome da paróquia e os dias das celebrações das missas. Igreja de Saint Thomas, o mesmo nome de meu filho. Retomamos o caminho, passamos pelo Hotel Cro-Magnon, construído no mesmo local onde vivia o nosso antepassado de trinta e cinco mil anos atrás, e pudemos ver, da estrada, a quantidade enorme de pessoas escalando e subindo as pedras para conhecer a gruta daquele homem. Seguimos pela Avenida Pré-Histórica até encontrar a próxima estrada que nos levou a Sarlat. Paramos na praça para almoçar, e no primeiro lugar que encontramos, logo na entrada, à esquerda. Um local alto que abria a paisagem aos nossos olhos, mais adiante uma escultura em bronze, de um rapaz sentado no piso, com os joelhos na altura do queixo, nos quais apoiava os braços, ostentando uma pose gaiata, leve, despreocupada. Eu estava sentado na praça quando vi se aproximar uma senhora parecida com a minha mãe, incrivelmente parecida, perdi a timidez e a cumprimentei, pedi informações sobre a casa de La Boétie, ela me respondeu sem se mostrar surpresa, indicando o local, alertando que não chegaria a ele de carro. Fora construído um passeio em volta, para proteger a construção. Naquele dia, além do mais, estava fechado.

 

Posadas

 

Três homens em um carro ultrapassado. Ultrapassado pelos demais, com mais pressa e compromissos, e ultrapassados no tempo, o auto e os homens. Navegávamos um mar verde de erva-mate, algumas coxilhas, reses e árvores mirradas, rumo ao interior do continente sul-americano. O sol teimava em não desaparecer ao final do dia e avermelhava o céu, afogueando as nuvens e as águas do rio Paraná. Cruzamos a fronteira com a Argentina, engabelando o guarda-marinha, que insistia em pedir a carteira de identidade com menos de dez anos da emissão. Expliquei-lhe que essa lei não existia no Brasil, e mostrei a minha carteira da Ordem dos Advogados para comprovar que a fonte era legítima. A ocasião da viagem foi oportuna para mim, o homem do meio, em idade, entre eles. Gostaria de conhecer onde morou Horácio Quiroga, escritor uruguaio radicado na Argentina, cuja descrição de uma enchente e do efeito das toras pela corrente do rio era algo que dominava o meu imaginário desde que o lera pela primeira vez. Eu tinha certeza de que ele vivera na beira do rio, e Posadas é a cidade argentina que o margeia. Não busquei mais informações, não precisava de mais nada. Descobri um parente que morava lá, os nossos avós egressos da mesma cidade alemã, compartilhando o mesmo sobrenome. O homem, mais velho, era nascido nas imediações e fora dele a ideia da viagem para rever parentes e amigos. Durante o trajeto, fiquei sabendo que ele atravessava o rio a nado, ao chegar, vindo do Paraguai, e ao sair, para economizar o dinheiro do transporte e manter a forma física. Depois, mudara-se para o Rio Grande, onde fizera a vida, acumulara fortuna e influências. No final da vida, por problemas legais, entrara na clandestinidade. Dissera para o filho, o mais moço, que seus amigos sofreram muito apenas por editar alguns livros. “Pai, é melhor não falar disso, os livros foram apreendidos por denúncia da própria gráfica.” “Coisa de gente burra.” “Nada, pai, é coisa de gente que tem medo de se envolver com essa coisa racista.” “Bem, é melhor não falar mesmo, vocês não entendem nada.” Ao encontrar a cidade, estacionamos próximos ao centro e ligamos para os familiares do tio para marcar o encontro em um flat com vista para o rio, de água densa, oleosa, que rebatia a luz do sol sem alterar sua cor. No meio de uma praça arborizada, ruas asfaltadas se projetando até bem próximo das águas, quando o betume se transformava em terra vermelha. Ficamos sentados no terraço, curtindo o final daquele dia úmido, sem brisa, e monótono como o correr da água. Acordamos no dia seguinte com o café da manhã posto na mesa pelo velho tio. Ele saíra e comprara pão, queijo, geleia, manteiga, maçãs e chá no supermercado. Algo que nunca houvera presenciado: a preocupação dele com o próximo, nunca o vira tocado pela graça. Sempre pela razão, pela lógica. Aproximei-me desconfiando, perguntei-lhe se esperávamos alguém. “Perguntas pelo café? Não, não, é para ti e teu primo.”

 

No dia seguinte, procuramos pelo parente a fim de conhecê-lo. Roberto era o editor do jornal provinciano, de oposição aos governos federal e local, e exibia aquela disposição combativa do jornalista, apontando as mazelas do lugar (falou da epidemia de pólio na região, que afetou milhares de crianças, por falta de saneamento básico), interessado pela música brasileira (Martinho da Vila), e contou a história do avô (nosso parente comum) e de seu casamento com uma mulher local (culpado por não ser uma descendente de alemães). Depois, nos convidou para um almoço em sua casa. Ao contrário, nós é que queríamos oferecer-lhe e à família um almoço, em local que ele nos indicasse e que servisse um bom “asado”. Aceitou de bom grado, encontramos o local lotado, ele apresentou suas credenciais e conseguiu uma mesa ao lado da utilizada pelo governador provincial e sua comitiva. De frente para o rio, eu podia ver as pessoas fazendo caminhadas com fones de ouvidos, levando seus cães, andando de bicicleta, velhos e moças, indo e voltando, contando suas distâncias nos marcos miliares. Aguardava uma chance na conversa para lhe perguntar sobre Quiroga. Houve uma pausa súbita, quando ele disse que apoiava o candidato da oposição para a próxima eleição. Eu cortei a conversa com minha pergunta. “Sim”, respondeu apontando para o rio, “Quiroga morava lá em cima, perto da casa do meu avô, sabes que os alemães gostam de se isolar, um belo local, rústico e bem distante daqui. Eu e minha mulher”, agora apontou para a índia ao seu lado, “passeávamos no final de semana por lá, quando solteiros.” A resposta foi suficiente para não tocarmos mais no assunto, ninguém se animou a conhecer uma choupana no meio da mata. A conversa retomou seu rumo, e ele nos informou que seu candidato, segundo as pesquisas, seria eleito. Tudo ficaria melhor. Após o almoço, foram conhecer a cidade paraguaia do outro lado. Eu fiquei. Encontrei um mercado de pulgas e nele uma banca com livros. Uma edição completa das obras do Horácio veio até mim, fechada em envoltório plástico. Nova, sem uso. A edição era de má qualidade, as folhas e as capas não resistiriam ao uso e se soltariam. Conversei com o livreiro, também uruguaio, sobre o escritor, sabia detalhes biográficos, mas não o havia lido.  Barganhei um pouco, sem sucesso, e comprei os dois volumes. Hoje, estão encadernados.

 

Rio de Janeiro

 

A minha presença é indispensável em um negócio na cidade.  Marquei o compromisso para o final da tarde. E saí cedo, para passear. Seria a minha segunda viagem ao Rio de Janeiro em pouco tempo. Em ambas, estive só. A primeira fora para comprar um livro. Só existia um exemplar em um sebo. Pedira à vendedora que o reservasse, comprara a passagem e duas horas depois estava lá. Com o livro na mão, almoçara e viera embora. Agora seria diferente, queria visitar a Rua Cosme Velho, número dezoito. A casa de Machado de Assis, em que viveu por vinte e tantos anos. Cheguei bem cedo, tinha bastante tempo para encontrá-la. A imagem na memória era de um sobrado arborizado, com sótão e sacada no dormitório principal, no andar superior, feito de colunas torneadas de cimento, portão de lanças de ferro, com dez metros de frente para a via. Peguei um táxi e dei o endereço para o motorista, chegamos rapidamente e começamos a busca pelo número. A numeração não era regular, os números cresciam ou decresciam desordenados. Paramos no local onde o número deveria estar, caso obedecessem a algum critério. Um posto de serviços da Previdência Social, um prédio de estilo soviético, enorme, cinza, com uma guarita impedindo a entrada. O motorista perguntou onde era o número dezoito da rua. “Sei não, senhor.” Eu perguntei: “O senhor sabe onde é a casa em que morava o Machado de Assis?” “Ouvi dizer que era ali do outro lado da rua.” “Obrigado.” A numeração era ímpar do outro lado da rua. Além disso, nenhum prédio tinha semelhança com o que eu buscava. Talvez a numeração tenha se alterado com o tempo, a rua pode ter sofrido alguma mudança no nome ou na extensão. Seguimos adiante, para o local indicado pelo funcionário, e ali encontramos a Casa do Minho, um misto de casa de shows folclóricos e churrascaria gaúcha. Parei desanimado no estacionamento, mas resolvi subir um pouco mais a rua, imaginando qual seria o local aprazível que teria conquistado o escritor.  Parei em uma esquina, no sopé do morro, e vi uma placa de metal reluzindo em um muro. Um homem destrancava o portão para entrar, e perguntei: “Aqui é a casa de Machado de Assis?” “É sim, senhor.” “Posso entrar para ver?” “Infelizmente, não. Se fosse final de semana, até poderia, mas hoje os proprietários estão aí e não é possível visitar.” “É uma empresa?” “É uma companhia cinematográfica.” “Obrigado.” Desisti da busca. A casa era bem grande, totalmente diferente do que eu esperava. Não era, definitivamente, o número dezoito da Cosme Velho, que talvez tivesse sido ampliada, reconstruída, algo assim. Ele estava chutando. É comum as pessoas dizerem qualquer coisa ao invés do humilde “não sei”. Dei o novo endereço, meu tempo havia se esgotado.

 

Depois de voltar, fiz uma busca sobre a Rua Cosme Velho, 18. Encontrei um site com esse nome. Nele havia, além da biografia e bibliografia, a informação a respeito dos objetos deixados pelo autor em testamento ao seu compadre: um jogo de xadrez esculpido em madeira (existindo apenas seis no mundo, sendo este o único na América do Sul); dois meios-armários; duas cadeiras pequenas; uma mesa de chá com a figura de O Anjo da Noite; uma mesa de jantar com dez cadeiras; um aparador grande; dois aparadores menores; um leito de casal; um lavatório; uma mesa; uma escultura; um caldeirão; um quadro, óleo sobre tela, de autoria de Roberto Fontana, intitulado A Dama do Livro; uma impressão emoldurada com os nomes dos trinta amigos que se cotizaram para presentear o escritor com o quadro A Dama do Livro; um recorte emoldurado do soneto feito por Machado em agradecimento aos amigos que lhe ofertaram o quadro, publicado no jornal A Gazeta de Notícias de 18 de abril de 1895; um quadro, óleo sobre tela, de autor desconhecido, representando uma marinha; uma reprodução fotográfica do quadro Retrato de Mme. Récamier, de François Gérard, ofertado ao escritor por Graça Aranha; cinco pastas contendo documentos.

Não creio que seja necessário explicar muito mais. Basta mencionar que esse acervo ficou jogado durante muitos anos, dividido em lugares diferentes, até que fosse reagrupado graças à iniciativa de outro escritor, que, diante do estado lamentável, desmontou todas as peças para restaurá-las. Hoje, estão exibidos, em condições normais de temperatura e pressão, protegidos da umidade, do passar do tempo e das visitas, no prédio da Academia que ele fundou num século passado.

 

 

São Paulo

 

Em última análise, parece-me que devíamos ler apenas livros que nos mordam e firam. Se o livro que estamos a ler não nos desperta violentamente como uma pancada na cabeça, para que nos havemos de dar ao trabalho de o ler? Para nos dar felicidade, como tu dizes? Por Deus, seríamos igualmente felizes sem livros nenhuns; em caso de necessidade, podíamos nós próprios escrever livros que nos tornassem felizes. Do que precisamos é de livros que nos atinjam como a desgraça mais dolorosa, como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós próprios, que nos façam sentir como se tivéssemos sido expulsos para o meio dos montes, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser a picareta para o mar gelado dentro de nós. É isto que penso. – Franz Kafka, carta a Oscar Pollack, 1904.

 

Às vezes, as pessoas creem que ir ao lugar onde determinada pessoa nasceu ou viveu possa transmitir algo; que botar seus olhos na mesma paisagem trará as mesmas recordações. As viagens que fiz poderiam ser assim interpretadas. Poderiam, também, servir como demonstração da minha debilidade diante da disposição alheia de apenas engolir velozmente aquelas paisagens. Ou, ainda, a forma sentimental de culpar o insensível degrau, ou as escadas, pela minha impossibilidade. Por outro lado, as viagens através das eras levam ao desprezo do nosso horizonte e das pessoas que vivem e respiram o mesmo ar do nosso tempo.

 

Fui receber o escritor saído do interior do país. Como não nos conhecíamos pessoalmente, combinamos um local depois de fazermos uma descrição mútua e sumária. As horas passaram, as portas desceram, os funcionários, os empregados saíam. Tarde da noite, alguém desceu a escadaria com uma mochila nas costas vagueando pelo lugar, olhando de um lado para o outro. Era ele. Nós nos reconhecemos pelo olhar, depois de uma breve hesitação. Ele vinha para assistir ao show de sua banda preferida e ficou hospedado em minha casa.  E, pela primeira vez, convivi com um escritor.  Eu acordava de madrugada para ler. Ao sair do banho para ir ao trabalho, lá estava ele: escrevendo, sentado à mesa com seu caderno. Chegava à noite e ele estava sentado, lendo ou escrevendo. As conversas e a grande coincidência de interesses, de comportamentos e de temperamento não vêm ao caso e os pouparei disso. No entanto, suas atitudes exibiam algo que, apesar de conhecer através dos livros, não havia sentido, visto, presenciado. A busca da palavra, o afinco necessário para encontrá-la. E encontrar não descreve, nem resume, nem explica o processo.  Não basta encontrar; depois de achada, ela tem que expressar, por menor que seja, o inteiro significado do que se quer dizer. Na frase, no parágrafo, no texto. E o processo de reescrever se inicia. Incessantemente. Essa vivência ilumina. Transforma.

 

Nós nos tornamos amigos e hoje ele mora em São Paulo. Convivemos de muito perto, eu o incentivo sempre a viajar, para conhecer o mundo, e ele me incentiva a escrever, a encontrar e conhecer a palavra. Ele tem uma vida de trabalho, como a minha própria, mas ele passa o dia inteiro escrevendo. Não faz nada além disso. Focado. Mesmo sabendo que seu trabalho não é bem remunerado na imensa maioria dos casos, ele não se importa. Mesmo sabendo que não encontrará nenhuma verdade, não receberá nenhuma revelação, isso não importa, ele escreve. Ao comentar com entusiasmo um de seus autores favoritos, Thomas Pynchon, disse: “Os livros dele são um exemplo de liberdade, de que se pode escrever qualquer coisa. Não importa o quê, importa como”.

Os tempos são outros, a literatura parece viver em um gueto, no caldo insosso da palavra falada e da miscelânea das imagens. Vivemos dentro de uma multidão de seres que não se interessam por ela. Aleijões sentimentais. Como desde muito cedo ele encontrou e escolheu a sua vocação, não se adaptou ao mundo. O fato de vivermos em um é um mero detalhe, ele tem o seu paralelo e faz contatos breves e intermitentes, para rir, assistir a uma partida de futebol, ir ao cinema. Cinema é outra paixão e, se tiver tempo, quem sabe um dia dirigirá um filme.

 

Temos a mesma rotina, com objetivos diferentes. Ele dá vazão ao ser que o habita e o aperta como uma esponja e deita o líquido no papel pautado, em letra miúda, garranchos de cor preta ou azul. Fica seco. Vazio. É esse vazio que o anima, transfigura. Não se deixa distrair. Eu sou um distraído.

Hoje ele me ligou para dizer que na TV passaria um documentário inédito sobre a vida e a obra de Fellini, não perca. E brincou: não vi e já gostei.

Acreditar também faz parte de uma espera [...] Estou falando realmente de um estado de alma, de um estado cotidiano no qual essa sensação de espera nunca me abandonou. Se o senhor me perguntar o que é que eu espero, vai me complicar. – Federico Fellini, em “Eu Sou um Grande Mentiroso”.

         Eu? Eu sou um distraído.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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