Omar

– Entrou como quem entra em uma caixa de música com a tampa entreaberta. Esperando encontrar algum tipo de redenção, alívio, purgação ou dor. Nenhuma de nós sabe quem encontrará pela frente. Sabemos que é uma fisgada, uma puxada na carretilha. É o que faço neste último ano: ampliar meus horizontes.

Entra uma mulher alta. Grande, com o rosto absolutamente oval, olhos verdes oblíquos, sedenta, um Rolex Presidente em cada pulso, cabelos ruivos, vestida de preto, saltos altíssimos. Passado o susto inicial causado pelo engano, perguntou por que eu chorava. Contei um caso de desilusão, indiferença. Toquei seu braço quando fez menção de sair. Pedindo desculpas, olhei fixamente em seus olhos e pedi com os meus que ficasse. O motorista fechou a porta e seguiu na direção combinada.

Ela me conta o sucesso da sua transportadora, do seu trabalho desenvolvido ao longo dos anos, do abdicar de sua vida pessoal para atingir suas metas. Além disso, encontrou no Jardim Japonês uma fonte de prazer estético. Estudou, conheceu e aprendeu as técnicas de formação, e agora se dedica à pratica do Bonsai, pela falta de tempo e espaço. O marido aprendeu a fazer Origami. Ele está construindo uma cidade completa. Com ruas, prédios, prefeitura, jardins, estádios, uma perfeição. Ele disse que aquele que constrói mil origamis tem o seu desejo atendido, ao terminar. Depois de me contar, fez questão de apresentar-me, pelo fone de ouvido, as canções de Tsuyoshi Nagabuchi, seu cantor predileto.

Amar uma mulher não é nada difícil, é uma ação narcisista, fácil. Um olhar bem demorado no espelho e acaba por se revelar outra face do mesmo corpo. Uma ação decorrente das mesmas ausências, angústias e carências. Ela sempre se inicia com o toque. Um toque matreiro e acidental forma o primeiro arco voltaico que eleva as temperaturas para a solda.  Depois da surpresa inicial, sirvo dois martinis bem secos, e um alívio sereno parece nos preencher.

De onde estamos, a cidade inteira fica à mostra. Abaixo e adiante, os focos interiores de luz de uma raia olímpica ressaltam o azul profundo e imóvel da água. Um ponto repentinamente tocado por um inseto atraído pela luminosidade se espalha quase até a borda, enquanto ele alça vôo, da água sobe um vapor. No terraço, deitadas de costas, estamos acomodadas e observamos; o momento nos convida a mergulhar. Ficamos debruçadas olhando a linha civilizada do horizonte deixando tudo para trás. Aproximamo-nos naturalmente uma da outra. Lado a lado. Os pés se encostam. As pernas, coxas, troncos, ombros e cabeça. Tateando-nos, avançamos no assunto do trabalho, no que nos é exigido pela carreira: um comando firme, um poder decisório sobre as diversas opiniões, conflitos, batalhas para afirmação e resultados. Principalmente, os resultados das nossas ações. Ganhar o respeito, a admiração e a grana antes reservadas apenas aos homens. E, após o respeito, vem a predominância. Ambas concordamos com a antiga dependência de satélite entre o homem e a mulher, éramos a Lua do planeta Terra. Hoje, ela está prestes a ser ultrapassada e extinta. E cada uma pincelou cores diferentes, fortes, à imagem: a atração que exercemos sobre os líquidos na Terra; o afastamento crescente da Lua; o resfriamento ocasionado por essa distância, até a extinção da Terra.

– Quanta soberba. Quanta imaginação. Só em sonhos mesmo.

– Quem saberá? Posso continuar? Quer ir embora?

Atravessamos a raia algumas vezes, relaxando. Ao subirmos, encontramos as toalhas para nos enxugar. Pergunto se poderia tirar dela o excesso de água. Não espero pela resposta, e inicio massageando sua cabeça, secando seus cabelos, com toda a calma do mundo. Apalpo as felpas da toalha contra o seu rosto, mais carinho que trabalho; passeando pelo torso, desvencilho-me dos fios e da faixa que o recobrem. Cada molécula de água das suas costas é objeto de minha preocupação e se integram ao algodão em minhas mãos. Também assim procedo quando a viro de frente, desde o colo, passeando pelos seios, até o abdômen. Ela mesma tira a parte de baixo do traje e me convida para o ventre, a virilha, em um breve afastar de pernas. Um inseto sibilante se aproxima de nós. Nem o mais leve sobressalto. Ninguém se dá conta dele. Continuo explorando cada pedaço daquela seda, cada nuança de suas mucosas, indo em direção às penugens. Após trocar a toalha por outra recém-aquecida, meu próximo passo é segurar suas coxas e, percorrendo-as com movimentos lentos e firmes, seco suas pernas. Ela, de olhos cerrados, agarrando firme a borda da espreguiçadeira, vez por outra suspira. Dou uma atenção toda especial aos seus pés. Por mérito próprio, bem cuidados, sem nenhuma das marcas deixadas pelos calçados feitos em série, parecem jamais ter pisado qualquer solo, sempre flutuando à minha espera. Seco cada um dos dedos. Meu rosto está próximo o suficiente para ela sentir o calor da minha respiração. E sente. Como sente, sentimos. Terminado o dorso, dedico-me à sola dos pés. Aperto com meus polegares todos os pontos, formando uma trilha imaginária. E os pressiono para tirar todo o estresse ainda acumulado. E beijo seus pés, um após o outro, de cima abaixo.

Afasto-me dela e me deito, extenuada. Não exatamente cansada, mas descarregada, vazia. E logo sinto o seu peso sobre mim. Não apenas a sombra, mas o corpo também me cobre. Agradecida, age. Rápida, direta e eficaz. Repete todos os meus movimentos, sem ajuda de toalha: seca o meu corpo apenas com a boca. Percorre-me desde as orelhas até os pés. Também fico com os olhos cerrados e as mãos presas, agarradas ao corpo dela, apertando e soltando conforme o momento. Um controle-remoto. E o melhor dos mundos se joga sobre mim. Aquela sensação de entrar no mar, quando as águas cobrem os seus pés, seus tornozelos, suas coxas, sempre subindo e envolvendo seu corpo em outro. Morno, marulhante, sonoro, os inesperados salpicos salgados nos lábios. Ela a toma no colo, balançante, fundindo-se em outro ser. E, de súbito, uma onda vem e se arrebenta contra mim, me lança longe. Fico semienterrada na areia, com arrepios de febre terçã, arqueando meu corpo até o ponto máximo que a espinha permite. E nada mais pode me tocar. Restam as convulsões, os tremores e o nada.

Alguém canta ao fundo: “Con la dulce y total renunciación.”

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