Galeria

Perfil de um ser eleito

 

         Ainda muito jovem era um ser que elegia. Entre as mil coisas que poderia ter sido, fora se escolhendo. Num trabalho para o qual usava lentes, enxergando o que podia e apalpando com as mãos úmidas o que não via, o ser fora se escolhendo e por isso indiretamente se escolhia. Aos poucos se juntara para ser. Separava, separava. Em relativa liberdade, se se descontasse o furtivo determinismo que agira discreto sem se dar um nome. Descontado esse furtivo determinismo, o ser se escolhia livre. Separava, separava o chamado joio do trigo, e o melhor, o melhor o ser o comia. Às vezes comia o pior: a escolha difícil era comer o pior. Separava perigos do grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava: só para sopesar com susto o peso das coisas. Afastava de si as verdades menores que terminou por não chegar a conhecer: queria as verdades difíceis de suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser já começava a parecer aos outros como rodeado de mistério: por ser ignorante, era um ser misterioso. Tornara-se uma mistura do que pensavam dele e do que ele realmente era: um sabido ignorante; um sábio ingênuo; um esquecido que muito bem sabia de outras coisas; um sonso honesto; um pensativo distraído; um nostálgico sobre o que deixara de saber; um saudoso pelo que definitivamente, ao escolher, perdera; um corajoso por já ser tarde demais e já se ter escolhido. Tudo isso, contraditoriamente, deu ao ser um alegria discreta e sadia de camponês que só lida com o básico. E tudo isso lhe deu a austeridade involuntária que todo trabalho vital dá. Escolha e ajustamento não tinham hora certa de começar nem acabar, duravam mesmo o tempo de uma vida.

         Tudo isso, contraditoriamente, foi dando ao ser a alegria profunda que precisa se manifestar, expor-se e se comunicar. Passou a dar-se através da pintura. Nessa comunicação o ser era ajudado pelo seu dom inato de gostar. E isso nem juntara nem escolhera, era um dom mesmo. Gostava da profunda alegria dos outros, pelo dom inato descobria a alegria dos outros. Por dom, era também capaz de descobrir a solidão que os outros tinham. E também por dom, sabia profundamente brincar o jogo da vida, tranformando-a em cores e formas. Sem mesmo sentir que usava o seu dom, o ser se manifestava: dava sem perceber, amava sem perceber que a isso chamavam amor. O dom era como  falta de camisa do homem feliz: como o ser se sentia muito pobre e não tinha o que dar, o ser se dava. Dava-se em silêncio, e dava o que juntara de si, assim como quem chama os outros para verem também.

         Pouco a pouco o equívoco passou a rodear o ser : os outros olhavam o ser como uma estátua, como um retrato. Um retrato muito rico. Não compreenderam que para o ser, ter se reunido, fora trabalho de despojamento e não de riqueza. Por equívoco, o ser era festejado. Mas sentir-se amado seria reconhecer-se a sim mesmo no amor recebido, e aquele ser era amado como se fosse um outro ser. O ser verteu as lágrimas de uma estátua que de noite na praça chora sem se mexer. Nunca o escuro fora maior na praça. Até que de novo amanhecia e o ser renascia. O ritmo da terra era tão generoso que amanhecia. Mas de noite, quando chegava a noite, de novo escurecia. A praça de novo crescia em solidão. De medo, os que o haviam elegido dormiam: medo porque pensavam que teriam de morar na solidão da praça? Não sabiam que a solidão da praça fora apenas o lugar de trabalho do ser. Mas que ele também se sentia só. O ser prepara-se a vida toda para ser apto do lado de fora da praça. É verdade que o ser, ao se sentir pronto assim como quem se banha em óleos e perfumes, notou que não lhe havia sobrado tempo para existir como os outros: era diferente sem querer. Alguma coisa falhara, porque, quando o ser se via no retrato que os outros haviam tirado, espantava-se humilde diante do que haviam feito dele. Haviam feito dele nada mais, nada menos, que um ser eleito. Isto é, haviam-no sitiado. Como desfazer o equívoco? Por simplifica;áo e economia de tempo, haviam fotografado o ser numa única pose e agora não se referiam a ele, e sim à fotografia. Bastava abrir a gaveta para tirar de dentro o retrato. Qualquer um conseguia uma cópa que vustava, aliás, barato.

         Quando diziam para o ser: eu te amo, o ser se perturbava porque nem ao menos podia agradecer: e eu? por que  não a mim também? por que só ao meu retrato? Mas não reclamava pois sabia que os outros não erravam por maldade. O ser às vezes, por uma questão de solidão, tentava imitar a fotografia,  o que no entanto terminou por torná-la mais falsamente autêntica. Às vezes ele se confundia todo: não aprendia a copiar o retrato, e esquecera-se de como era sem o retrato. De modo que, como se diz do palhaço que sempre ri, o ser às vezes, por assim dizer, chorava sob a sua caiada pintura de bobo da corte.

         Então ele tentou um trabalho subterrâneo de destruição da fotografia: fazia ou dizia coisas tão opostas à fotografia que esta se eriçava na gaveta. Sua esperança era tornar-se  mais vivo que a fotografia. Mas o que aconteceu? Aconteceu que tudo o que ser fazia só ia mesmo era retocar o retrato, enfeitá-lo.

         E assim foi indo, até que, profundamente desiludido nas mais legítimas aspirações, o ser morria de solidão. Mas terminou saindo da estátua da praça, com grande esforço, levando várias quedas, aprendendo a passear sozinho. E, como se diz, nunca a terra lhe pareceu tão bela. Reconheceu que aquela era exatamente a terra para a qual se preparara: não errara, pois, o mapa do tesouro tinha as indicações certas. Passeando  o ser tocava em todas as coisas e, mesmo solitário, sorria. O ser aprendera a sorrir sozinho.

Clarice Lispector.

Viagem ao fim da noite.

 

Nesses momentos, é um pouco desagradável ter se tornado tão pobre e tão duro como nos tornamos. Falta-nos quase tudo o que seria necessário para ajudar alguém a morrer. Só temos dentro de nós coisas úteis para a vida de todos os dias, a vida do conforto, a vida nossa apenas, a patifaria. Perdemos a confiança no meio do caminho. Expulsamos, rejeitamos a piedade que nos restava cuidadosamente no fundo do corpo como uma pílula infecta. Empurramos a piedade para o final do intestino junto com a merda. Ela está bem ali, pensamos.

E eu permanecia diante de Léon, para me compadecer, e nunca tinha me sentido tão constrangido. Eu não conseguia…Ele não me achava…Sofria…Devia procurar um outro Ferdinand, bem maior do que eu, é claro, para morrer, ou melhor, para ajudá-lo a morrer, mais suavemente. Esforçava-se para ver se por via das dúvidas o mundo não teria feito uns progressos. Fazia o inventário, o pobre infeliz, na sua consciência….Se não haviam mudado um pouco, os homens, para melhor, enquanto ele tinha vivido, se quem sabe não havia sido injusto sem querer com eles…Mas só havia eu, eu sozinho, ao lado dele, um Ferdinand bem verdadeiro ao qual faltava o que faria um homem maior do que sua simples vida, o amor pela vida dos outros. Disso eu não tinha, ou praticamente tão pouco que não valia apena mostrá-lo. Eu não era grande como a morte. Era bem menor. Não tinha a grande ideia humana. Inclusive teria sentido, acho, mais facilmente tristeza por um cachorro morrendo do que por ele, Robinson, porque um cachorro não é esperto, ao passo que ele, apesar de tudo ele era um pouco esperto, Léon. Eu também era esperto, éramos espertos…Tudo o mais ficara pelo caminho, e até essas caretas que ainda podem servir junto aos moribundos eu as tinha perdido, positivamente eu tinha perdido tudo pelo caminho não encontrava nada do que se precisa para morrer, nada a não ser malícias. Meu sentimento era como uma casa aonde só se vai durante as férias. É apenas habitável. E além do mais é exigente também, um agonizante. Agonizar não basta. É preciso gozar ao mesmo tempo que se morre, com os últimos suspiros é preciso ainda gozar, bem embaixo da vida, com as artérias cheias de ureia.

 

Louis-Ferdinand Céline, tradução de Rosa Freire d’Aguiar.  Página 522. Editora Companhia das Letras.

Anna Kariênina, Parte 3

Konstantin Liévin encarava o irmão como um homem de enorme inteligência e cultura, um homem nobre, no sentido mais elevado da palavra, e dotado da capacidade de agir em prol do bem comum. No entanto, no fundo de sua alma, quanto mais envelhecia e quanto mais intimamente conhecia  o irmão, vinha-lhe ao pensamento, de  modo cada vez mais frequente, que essa capacidade de agir em prol do bem comum, da qual se sentia completamente privado, talvez não fosse uma virtude, mas sim, ao contrário, a falta de alguma coisa – não uma falta de gostos e de desejos bons, honrados e nobres, mas uma falta de força vital , daquilo que chama de coração, daquela aspiração que obriga a pessoa a escolher, entre todos os inumeráveis caminhos que se apresenta na vida, somente um e desejar apenas esse. Quanto mas conhecia o irmão, mais notava que Serguei Ivánovitch e muitos outros que agiam em prol do bem comum não eram levados pelo coração a esse amor ao bem comum mas sim concluíam por força da razão que era bom incumbir-se disso e apenas por esse motivo o faziam. A hipótese de Liévin era também confirmada pela observação de que as questões do bem comum e da imortalidade da alma não entusiasmavam seu irmão mais do que uma partida de xadrez ou de que a construção engenhosa de uma nova máquina.

Liev Tolstói, traduzido por Rubens Figueiredo, Cosac Naify, 2005

 

 

 

Water

If I were called in
To construct a religion
I should make use of water.

Going to church
Would entail a fording
To dry, different clothes;

My liturgy would employ
Images of sousing,
A furious devout drench,

And I should raise in the east
A glass of water
Where any-angled light
Would congregate endlessly.

 

Philip Larkin

O Sonho interrompido.

 

                Ele frequentava o distrito da luz vermelha com tanto entusiasmo, como se dez anos fossem o sonho de um só dia, precisamente porque lá grassava o marginal, o obscuro, o clandestino. Se um dia o mundo fosse virado de cabeça para baixo e o  pródigo fosse louvado como o era o bom filho, ainda que ele tivesse perdido a própria casa em desperdícios, ainda assim não quereria receber nenhum louvor. A força que o movia era o desprezo que sentia pela vaidade hipócrita da mulher de respeito, da esposa amantíssima, pela fraude que ele via na justiça social – isso era o que o levava a buscar o lado escuro e desonesto das coisas. Ou seja, a buscar as manchas de uma parede que os outros tinham por alva e pura ele preferia encontrar beleza em um brocado esquecido no meio dos farrapos. Assim como o palácio dos justos está sujo das fezes de corvos e ratos, também no vale do vício se encontram e se colhem às braças as belas flores da civilidade e do afeto e os frutos das lágrimas perfumadas dos sentimentos verdadeiros.

Nagai Kafu, histórias da outra margem, traduzido por Andrei Cunha, Editora Estação Liberdade, Ltda.

 

 

O dragão e a princesa

 

Alejandra olhou-o assustada pelo fato de Martín ainda ter coragem de rir. Mas ao ver suas lágrimas certamente compreendeu que o que estava ouvindo não era riso e sim (como Bruno afirmava) esse som estranho que em certos seres humanos se produz em ocasiões insólitas, e que, talvez pela precariedade da língua insistimos em classificar de riso ou choro, pois é o resultado de uma combinação monstruosa de fatos suficientemente dolorosos para produzir lágrimas (e até mesmo lágrimas desconsoladas) e de acontecimentos suficientemente grotescos para ser transformados em riso. Do que resulta, assim, uma espécie de manifestação híbrida e terrível, talvez a mais terrível que um ser humano possa ter, e talvez a mais difícil de consolar, devido à intrincada mistura que a provoca. E diante dela temos muitas vezes a mesma e contraditória sensação que experimentamos diante de certos corcundas e coxos. As dores foram se acumulando em Martín, uma a uma, sobre seus ombros de menino, como uma carga crescente e desproporcional (e também grotesca), de modo que ele sentia ser necessário mexer-se com cuidado, andando sempre como um equilibrista obrigado a cruzar um abismo sobre um fio de arame, mas com uma carga descomunal e malcheirosa, como se levasse enormes fardos de lixo e excrementos, e macacos se esganiçando, e palhacinhos irrequietos e aos berros, que, enquanto ele concentrava toda a sua atenção em cruzar o abismo sem cair, o abismo negro de sua existência, lhe gritassem coisas ofensivas, caçoassem dele e armassem lá no alto, sobre os fardos de lixo e excrementos, uma algaravia infernal de insultos e sarcasmos. Espetáculo que (a seu ver) devia despertar na plateia um misto de pena e imenso e monstruoso regozijo, de tão tragicômico era; e por isso ele não se considerava no direito de abandonar-se simplesmente ao choro, nem mesmo diante de uma criatura como Alejandra, criatura que ele parecia ter esperado por um século; e pensava que tinha o dever, dever quase profissional de um palhaço que sofreu a maior desgraça, de transformar o choro numa careta risonha. Mas, à medida que foi confessando essas poucas palavras-chave a Alejandra, sentiu uma libertação e por instantes pensou que sua careta engraçada podia, final, se transformar num choro imenso, suave e convulso, e ele enfim desabar sobre Alejandra como se tivesse conseguido cruzar o abismo. E assim teria feito, assim gostaria de ter feito, meu Deus, mas não fez: apenas inclinou a cabeça para o peito, virando-se para esconder as lágrimas.

“Sobre herois e tumbas” de Ernesto Sabato,  traduzido por Rosa Freire D’Aguiar, edição da Companhia das Letras, de 2002

 

Capítulo 12 – I

- Sabe, na vida moderna as algemas e correntes têm funções de que seus agitados inventores jamais terão cogitado, numa era mais primitiva e mais simples. Se eu fosse incorporador de bairros de classe média, instalaria pelo menos um conjunto delas nas paredes de cada imóvel novo nos condomínios sofisticados. Quanto os moradores se cansassem de ver televisão e jogar pingue-pongue, ou seja lá o que fazem em seus lares, eles poderiam acorrentar um ao outro por algum tempo. Todo mundo iria adorar. As mulheres diriam: “Meu marido me botou na corrente ontem à noite. Foi maravilhoso. Seu marido tem feito isso com você ultimamente?” E as crianças voltariam correndo da escola para casa, onde as mães as esperariam para acorrentá-las. Isso ajudaria os pequenos a cultivarem a imaginação que lhes é negada pela televisão e faria cair bastante a incidência de delinquência juvenil. Quando o pai chegasse do trabalho, a família inteira poderia agarrá-lo e acorrentá-lo, por ter sido burro a ponto de passar o dia inteiro trabalhando para sustentá-los. Os parentes idosos e problemáticos seria acorrentados na garagem: suas mãos seriam libertadas só uma vez ao mês, para eles poderem assinar o cheque da previdência social. Algemas e correntes poderiam construir uma vida melhor para todos. Eu preciso dar a esse tema algum espaço em minhas notas e apontamentos.

John Kennedy Toole, em Confraria dos Tolos, tradução de Alice Xavier, Edições BestBolso, 2012

 

58

 

Quando as imagens estão perdidas, o espaço também. Quando o som está perdido, a linguagem também. Murmura-se baixinho, não se sabe mais afinal o que se conta, no próprio coração da consciência subsiste ainda um pouco de desejo, mas se esse resto de desejo não existe mais, chega-se ao nirvana.

 

Como achar afinal uma linguagem pura e límpida, musical, indivisível, mais elevada que a melodia, além dos limites fixados pela morfologia e a sintaxe, sim distinção entre o objeto e o sujeito, que ultrapasse as pessoas, descarte a lógica, em desenvolvimento constante, que não recorra nem às iamgens, nem às metáforas, nem às associações de ideias ou símbolos? Uma linguagem que pudesse exprimir integralmente os sofrimentos da vida e o medo da morte, as dores e as alegrias, a solidão e o conforto, a perplexidade e a espera, a hesitação e a resolução, a fragilidade e a coragem, o ciúme e o remorso, a calma, a impaciência e a confiança em si, a generosidade e o constrangimento, a bondade e o ódio, a piedade e o desalento, a indiferença e a paz, a vilania e a maldade, a nobreza e a crueldade, a ferocidade e a bondade, o entusiasmo e a frieza, a impassibilidade, a sinceridade e a indecência, a vaidade e a cobiça, o desdém e o respeito, a presunção e a dúvida,  modéstia e o orgulho, a obstinação e a indignação, a aflição e a vergonha, a dúvida e o espanto, e o cansaço e a decrepitude e o grande despertar, e a incompreensão perpétua e a incompreensão sempre e ainda e a partida por causa de tudo isso?

 

A Montanha da Alma, de Gao Xingjian, tradução da edição francesa de Marcos de Castro.

Na catedral

 

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas agora não”. Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se posta ao lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: “Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro”, O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se havia equipado bem para a viagem, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: “Eu só aceito para você não achar que deixou de fazer alguma coisa”. Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo.  Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. “O que é que você ainda quer saber?”, pergunta o porteiro, “você é insaciável.” “Todos aspiram à lei” diz o homem, “como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?” O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: “Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a”.

 Franz Kafka, in “O processo”, página 230, traduzida por Modesto Carone, Editora Brasiliense, 1988

 

 Eu sou um gato.

Todos os estudos humanos se relacionam à personalidade. Terra e céu, montanhas e rios, sol e lua, estrelas e outros corpos celestes, todos não passam de nomes diversos do eu interior. Ninguém é capaz de descobrir outro tópico a ser estudado que não seja si próprio. Se o ser humano pudesse pular para o exterior de seu eu, esse eu desapareceria no momento em que se visse fora dele. Além disso, o estudo do eu só pode ser realizado pela própria pessoa e por ninguém mais. Por mais que se queira fazer ou que se espere que alguém o faça, é inútil, Por este motivo, os heróis da Antiguidade assim se tornaram por sua própria força. Se fosse possível para outrem entender o eu, seria possível julgar por si se estava dura ou mole a carne que outra pessoa comeu em seu lugar. Ouvir sermões pela manhã e, à noite, princípios a seguir, assim como ler um livro à luz do lampião em um gabinete, não passam de instrumentos para estimular o autoconhecimento. O eu não existe nos sermões pregados por outros, nos princípios experimentados por terceiros, nem em cinco carroças de livros corroídos pelas traças. Se neles existisse, o eu seria um espírito. É certo que em determinados casos o espírito pode ser superior à ausência completa de espírito. Há casos em que se encontra a substância verdadeira quando se persegue sombras. Muitas sombras se distanciam normalmente da verdade. Nesse sentido, meu amo demonstrava ser um homem muito sensível por mexer tanto no espelho. Acredito que era bem melhor do que se passar por um erudito engolindo Epicteto e outros seus semelhantes.  Natsume Soseki, traduzido por Jefferson José Teixeira, Edição da Estação Liberdade, 2008

Hespérides.

Em sua ilha ergue-se um templo que os habitantes dessas regiões denominam de um modo que eu poderia traduzir como “As Maravilhosas Moradas”, que consistem numa cidade totalmente virtual, na medida em que não existem edifícios, mas apenas a sua planta traçada no terreno. Tal cidade tem a forma de um tabuleiro circular que se estende por muitas milhas: e todos os dias os peregrinos, com um mero giz, movem a seu bel-prazer os edifícios como se fossem peças de xadrez, portanto a cidade é móvel e variável e sua fisionomia muda constantemente. No centro do tabuleiro ergue-se uma torre, em cima da qual repousa uma enorme esfera dourada, que lembra vagamente a fruta que é abundante nos jardins dessas ilhas. E essa esfera é o deus. Não me foi possível descobrir quem seja exatamente esse deus: as definições que até agora me deram são imprecisas e reticentes, e talvez pouco compreensíveis para o estrangeiro. Deduzo que ele tenha relação com a ideia de completude, da plenitude e da perfeição: uma ideia altamente abstrata e pouco compreensível para o intelecto humano. E é por isso que pensei tratar-se do deus da da Felicidade: mas a felicidade de quem compreendeu tão plenamente o sentido da vida a ponto que a morte já não tem importância alguma; e é por isso que os poucos eleitos  que vão homenageá-lo não regressam mais. Velando esse deus, foi posto um idiota com cara de bobo e fala desconexa, que talvez mantenha contato com o deus por vias misteriosas que a razão desconhece. Quando manifestei o desejo de render-lhe homenagem, as pessoas riram de mim e, com uma de afeto profundo, que talvez contivesse uma ponta de compaixão, me beijaram as faces. 

Antonio Tabucchi em Mulher de Porto Pim, tradução de Rachel Gutiérrez, Rocco, 1999

A Aids e o Poeta de Alberto Manguel

 

Talvez haja uma metáfora que possa evocar esse espaço entre a nossa imaginação do mundo e a página (do ponto de vista do escritor), ou o espaço entre a página sólida e a nossa imaginação do mundo (do ponto de vista do leitor). No sétimo canto do Inferno , Dante descreve as penas cumpridas pelos ladrões, que, num universo espelhado de pecado e castigo, estão condenados a perder até a forma humana, e transformam-se incessantemente numa sequencia macabra de criaturas monstruosas. Essas transformações acontecem em etapas, de maneira gradual, de modo que não há nenhum momento em que a alma agonizante possua uma única e definida. E Dante diz:

 

Como acontece quando o papel queima

Espalha-se essa chama em mancha escura,

Já não mais branca e não ainda negra.

 

Entre a brancura da página e as letras autoritárias em preto, há um espaço, um momento uma cor sempre cambiante dentro da qual, talvez, tanto o escritor quanto o leitor consigam encontrar a iluminação, um pouco antes de o significado ser consumido pelas chama.

À mesa com o Chapeleiro Maluco, de Alberto Manguel, tradução de Josely Vianna Baptista, edição da Companhia das Letras.

 

A água é pura espera, como um túmulo egípcio. Paulo Henriques Britto

 

Elias Canetti, in Sobre os escritores, tradução de Kistrina Michahelles, José Olympio Editora.

Esta, penso, deveria ser a verdadeira missão dos poetas…

Em um mundo focado em desempenho e especialização, que não enxerga senão os vértices que almejamos numa espécie de limitação linear, um mundo que investe toda a força para atingir a solidão fria dos vértices e que despreza e elimina o que é acessório, o que é múltiplo e o que é essencial, que não se oferece para conquistar os vértices, em um mundo que cada vez mais proíbe a transformação porque esta se contrapõe ao propósito único da produção, que multiplica sem escrúpulos os meios para a sua autodestruição, simultaneamente tentando sufocar aquilo que ainda existe em termos de qualidades humanas anteriormente adquiridas, neste mundo, que podemos designar como o mais cego de todos os mundos, parece ser de cardeal importância que existam pessoas que, apesar dele, continuem exercitando este dom  da transformação.

Esta, penso, deveria ser a verdadeira missão dos poetas. Graças a um dom que era coletivo e agora está condenado à atrofia, mas que precisam de todas as formas tentar conservar, eles deveriam manter abertos os canais entre as pessoas. Deveriam ser capazes de se transformar em qualquer pessoa, mesmo a menor, a mais ingênua, a mais impotente. Seu prazer em reviver, dentro de si mesmos, as experiências os outros, jamais poderia ser determinados pelos meios dos quais consiste nossa vida normal, por assim dizer, oficial. Este prazer deveria ser totalmente isento da intenção de almejar êxito ou fama, deveria ser uma paixão em si: justamente a paixão da transformação.


 

jorge luis borges, em a cifra (1981) tradução de josely vianna baptista.

o cúmplice

Crucificam-me e eu devo ser a cruz e os cravos.
Passam-me o cálice e eu devo ser a cicuta.
Enganam-me e eu devo ser a mentira.
Incendeiam-me e eu devo ser o inferno.
Devo louvar e agradecer cada instante do tempo.
Meu alimento é todas as coisas.
O peso preciso do universo, a humilhação, o júbilo.
Devo justificar aquilo que me fere,
Não importa minha ventura ou desventura.
Sou o poeta.


Antonio Lobo Antunes

“Os livros que escrevi trazem o meu nome mas tenho dificuldade em encontrar os seus autores. Só aquele que estou a escrever é feito por mim, os restantes parece-me sempre terem sido outros homens que os compuseram. Posso reconhecer-me no que sou hoje em algumas expressões, alguns desenhos de frase, alguns parágrafos talvez, gosto deles mas afiguram-se-me passos já dados, e que não desejo repetir, na direção do meu trabalho de agora, que, de certo modo, os engloba a todos. Julgo que compõem um único texto, ou que são afluentes de um único texto ainda não completo, e que, por mil anos que viva, ficará irremediavelmente truncado. Queria deixar uma catedral de palavras e dou-me conta que a catedral não tem fim. Queria arredondar o edifício, fechá-lo, e dou-me conta, desolado, da impossibilidade desse fecho, dada a inevitável limitação da vida. Não morrerei satisfeito, morrerei com a dor de não ter tido tempo. Construirei uma obra mais duradoira que o bronze, afirmava Horácio: isso julgo que consigo. Ou Ovídio: hei-de sobreviver ao tempo, ao ferro e ao fogo: isso acho que também consigo. Porém desejava mais do que isso: uma música sem fim, uma sinfonia total. Decerto o que digo é a frustração de todo o artista e o inevitável destino da condição humana. Goethe consolava-se declarando ser o facto de não chegar ao termo a nossa única grandeza. E não conheço, em tantos autores que li, um só para quem este problema não constitua o drama da sua existência. Não se alcança a praia por mais que se nade, não há fita de chegada para esta maratona angustiosa e exaltante. Quando a doença me filou pelo pescoço, essa ansiedade envenenou-me as horas. E, quando a mão me soltou, a marca dos seus dedos imprimiu-se-me na pele. Um dia, o conjunto de átomos que me compõem desintegrar-se-á sem remédio, e eu a meio da página de que não redigirei a última linha. Tenho o maior respeito pelos criadores visto que acabam sempre por perder e não mereciam perder. E tenho pena de mim porque triunfarei na derrota: um tiro bem acertado deitar-me-á ao chão a meio do voo, e serei uma perdiz esfarrapada numa moita, que um cachorro abocanhará para a entregar ao dono, o mesmo dono que traz, pendurados do cinto, aqueles que me precederam e enganchará no mesmo cinto os que vierem depois, com idêntica indiferença. Lembro-me das terríveis anotações de Mozart nas margens do seu Requiem, não tenho tempo, não tenho tempo, idênticas às de Gallois, que levou toda a noite a escrever antes do duelo que, de manhã, o matou, tentando condensar em poucos momentos as assombrosas descobertas dos seus dezanove anos de vida. É isto justo? E a resposta vem sinistra: é. Quem escolhe, ou foi escolhido, para este tipo de destino, finda, inevitavelmente, assim. É muito rara a correspondência de pintores, ou escritores, ou compositores em que a tragédia de que falo não esteja constantemente presente, como uma chaga viva. Piedade para nós que trabalhamos nas fronteiras do ilimitado e do futuro, suplicou Apollinaire e, de facto, somos dignos de piedade. Há uns verões, num mosteiro da Roménia, o bispo cantou, com os padres e os seminaristas, uma oração pelas almas eternas dos escritores falecidos. Era uma igreja belíssima, no alto de uma encosta batida pelo vento e pelos grandes bandos de corvos chegados da Ucrânia, cujos campos de trigo se viam muito ao longe, e o canto, de dezenas e dezenas de vozes, alargava-se pelas nogueiras à volta da igreja, profundo, omovente, cheio, em simultâneo, de tristeza e de esperança, enquanto eu pensava em Gogol, o grande génio da Ucrânia, que nos retratos se assemelhava a um corvo, botando no fogo, a soluçar, toda a segunda parte das suas extraordinárias “Almas Mortas” e, em seguida, deitando-se na cama, recusando comer, até à agonia poucos dias depois: a literatura também tem os seus mártires, e nunca esquecerei a comoção que senti nessa igreja e a certeza que Gogol voava também, com os restantes corvos, em torno da colina, sobre as nogueiras em flor. Apollinaire, ainda: abram-me esta porta à qual bato a chorar, num verso que poderia ter sido composto por qualquer criador e que está sempre presente em mim diante de todas as obras de Arte. Abram-me esta porta à qual bato a chorar, é o que oiço, desde os poemas babilónicos, de há doze mil anos, até à mínima palavra de hoje. E quando Maiakovski explicou
(desculpem tanta referência) comigo a Anatomia enlouqueceu: sou todo coração, estava a falar por nós. Conheci homens políticos importantes, desportistas excepcionais, criaturas de extrema bondade, santos anónimos de alminhas puras mas jamais me emocionei tanto como perante os criadores, não pela sua capacidade de nos oferecerem a beleza na palma da mão estendida, juntamente com a dignificação do Homem, mas pelo enorme padecimento inerente a esta capacidade, e a certeza pavorosa do seu trabalho estar destinado a ficar incompleto. Vem-me à cabeça Tolstoi moribundo, numa estação de caminho de ferro, percorrendo o cobertor com os dedos no gesto de escrever. É dessa maneira que gostaria de me ir embora: a escrever, com os dedos incertos, numa dobra de lençol, na tentativa falhada de completar o meu De Profundis necessariamente fragmentário. Oxalá, numa igreja da Roménia, cercada de corvos e nogueiras, um único seminarista, porque um único seminarista me chega, reze cantando pela alma eterna de mais um pobre escritor falecido.”

Jorge Luis Borges.

Chego ao terceiro modo de interpretar as eternas repetições: o menos pavoroso e melodramático, mas também o único imaginável. Refiro-me à concepção de ciclos similares, não idênticos. Impossível fazer o catálogo infinito de autoridades: penso nos dias e nas noites de Brama; nos períodos cujo imóvel relógio é uma pirâmide muito lentamente desgastada pela asa de um pássaro que nela roça a cada mil e um anos; nos homens de Hesíodo, que degeneram do ouro para o ferro; no mundo de Heráclito, que é gerado pelo fogo e que ciclicamente devora o fogo: no mundo de Sêneca e de Crisipo, em sua aniquilação pelo fogo, em sua renovação pela água; na quarta bucólica de Virgílio e no esplêndido eco de Shelley; no Eclesiastes; nos teósofos; na história decimal idealizada por Condorcet; em Francis Bacon e em Uspenski; em Gerald Heard, Spengler e Vico; em Schopenhauer, em Emerson; nos First Principles de Spencer e em Eureka de Poe… Dessa profusão de testemunhas basta copiar um, de Marco Aurélio: “Mesmo que os anos de tua vida fossem três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida a não ser a que vive agora, nem vive outra a não ser a que perde. O termo mais longo e o mais breve são, portanto, iguais. O presente é de todos; morrer é perder o presente, que é um lapso brevíssimo. Ninguém perde o passado nem o futuro, pois ninguém pode ser privado do que não tem. Lembra-te de que todas as coisas giram e tornar a girar pelas mesmas órbitas, e que para o espectador dá no mesmo vê-las um século, ou dois, ou infinitamente” (Reflexões, 14). (78)

 

A restauração das horas, Paul Harding

 

Tive a impressão de que, mesmo que eu conseguisse agarrar uma maçã com minhas mãos vacilantes como poderia mordê-la com meus dentes dissipados, digeri-la com meu intestino etéreo? Percebi que esse pensamento não era meu, e sim de meu pai, que até as ideias de meu pai escoavam de seu antigo ser. Mãos, dentes, intestinos, pensamentos, até, eram todos simplesmente mais ou menos convenientes à circunstância humana, e, à medida que meu pai se retirava da circunstância humana, também o faziam todas essas particularidades, devolvidas a alguma espuma incognoscível de onde talvez voltasse como estrelas ou fechos de cinto, poeira lunar ou pinos de ferrovia. Talvez já fossem todas essas coisas e meu pai estivesse se dissipando por percebê-lo; Santo Deus, sou feito de planetas e madeira, diamantes e cascas de laranja, de vez em quando, aqui e ali; o ferro do meu sangue já foi um dia a lâmina de um arado romano; escalpele-me e você verá meu crânio coberto das inscrições entalhadas por um marinheiro ancestral que jamais suspeitou estar cinzelando o meu crânio – não, meu sangue é um arado romano, meus ossos estão sendo gravados por homens com nomes que significam lutador do mar e viajante de oceanos, e as figuras que entalham são imagens de estrelas do norte em diferentes estações, e o homem que endireita meu sangue ao rachar o solo que se chama Lucian e vai plantar trigo, e eu não me consigo concentrar nesta maçã, esta maçã, e a única coisa comum a tudo isto é que sinto um sofrimento tão profundo que deve ser amor, e eles estão descontentes porque enquanto entalham e aram são perturbados por visões de tentar agarrar maçãs em barris. Desviei os olhos e subi a escada correndo, pulando os degraus que rangiam para não envergonhar meu pai, que ainda não passara de volta do barro à luz.

O fantasismo essencial do Mundo, Macedonio Fernández, tradução de Gênese Andrade

Sintamos, amada, o vazio do mundo, da apresentação geométrica e física das Coisas, do Universo, e a plenitude, a certeza única da Paixão, o Ser essencial, sem pluralidade.

Sorrirás como enlaçada ao vazio de uma janela que parecia dar a uma imensa e imóvel Realidade Externa e que bruscamente se reduz a um ponto, se pensares um instante que numa imagem de cena que sonhas ou imaginas pensando desperta pode haver toda a extensão do mundo e no entanto cabe em teu espírito ou mente, ou, se quiseres, na vibração de uma molécula imperceptível de sua “casca cinza”, como dizem os fisiologistas. Se tendo abrangido com tua vista um panorama com sol, terra, céu boques, rio ou mares, ribeiras, edifícios, depois o pensas ou sonhas, tens exatamente a mesma imagem imensa encerrada em um ponto de tua mente, de tua alma, ou caso se queira numa microscópica célula nervosa de tua casca cinza. E ainda mais, essa mesma casca cinza e o cérebro todo é uma imagem de tua mente, pois não saberias que existe não fosse por imagens que tens de sua forma, cor, divisões, desenhadas ou vistas, e tuas imagens de contato, de temperatura, se estudaste anatomia. Se a casca cinza existisse por si, como poderia pensar nela mesma? Pois isso que estamos discorrendo é precisamente um pensar a casca cinza em si mesma, um imaginar-se da casca cinza a si mesma. Isso somos, com a nitidez de um círculo, nós, um pensar a casa cinza em si mesma. Como o órgão das imagens teria uma imagem de si? Como a casca cinza, onde se diz que reside o pensamento, pensaria em si mesma, enquanto o olho não pode ver diretamente a si mesmo; vemos tudo através dele e não o vemos?

Se dentro de minha mente não há extensão e em qualquer imagem minha posso representar tudo o que vi, é simplesmente porque não há a Extensão, todo o Universo não é mais que um ponto, e, menos ainda, não é mais que uma ideia, uma imagem em minha alma.

É essa extensão a que cria a ilusão de pluralidade, que não é aplicável à única realidade do ser: a Sensibilidade.

Paro por aqui; creio em muitas tentativas de comover tua dolorosa crença na morte, que sinto que o obstáculo que me domina para impedir que meu amor por ti seja o todo-amor que mereces e que é todo o valor da realidade é essa discrepância que nos separa, enquanto tu acreditas que nos espera morte e um terminar de nossas pessoas e de nosso amor e eu não creio que o todo amor possa florescer em seres que se creiam passageiros.

 

O que me acontece, Macedonio Fernández, tradução de Gênese Andrade

Descubro o mais doloroso e intenso dos assuntos de romance, poema ou teatro, e tempos depois minhas meditações sobre estética me impõem a verdade de que o assunto em arte carece de valor artístico, é extra-artístico, e, além disso, a inveção de assuntos de arte é uma das máximas ociosidades, pois a vida transborda de assuntos. …

O mau é ter pensado

Depois de ter feito o mal.

 

Carta a Greco,Niko Kazantzakis, editora Ulisseia limitada, s/d

Havia anos que o suspeitava, mas desde essa noite que tenho a certeza: existem em nós trevas, facetas múltiplas, gritos roucos, bestas ocultas, esfaimadas. Então nada morre? Nada pode morrer neste mundo? Enquanto vivermos, todas as luas anteriores ao homem, as formas, as sedes, as dores anteriores a todos os séculos, continuarão a viver, a ter fome e sede, a torturarem-se conosco. Invade-me o terror quando ouço rugir nas minhas entranhas a carga terrível que trago comigo. Nunca serei então salvo, o fundo do meu ser nunca será purificado? De tempos a tempos, raramente, eleva-se uma doce voz do mais profundo do meu coração: – Não tenhas medo, eu farei leis, imporei um lamento potente, que faz calar essa doce voz:

- Não tenhas ilusões, eu desfarei as tuas leis, perturbarei a tua ordem, destruir-te-ei; eu sou o Caos!

Diz-se que o Sol por vezes para no caminho para ouvir cantar uma rapariga. Se fosse verdade! Se a necessidade pudesse mudar a sua rota, seduzida por uma alma que canta na terra! Se pudéssemos, chorando, rindo, cantando, criar uma lei que ponha ordem no Caos! Se a doce voz que existe em nós pudesse abafar o lamento!

Quando estou ébrio ou encolerizado, quando me aproximo da mulher que amo, quando a injustiça me oprime e quando levanto a cabeça rebelde contra Deus ou contra o Demônio, ou contra os representantes na terra de Deus e do Demônio, ouço em mim esses monstros que rugem e dão coices para quebrar o alçapão, regressar à luz e retomar as armas. É que eu sou o seu último refúgio; tudo o que lhes resta de vingança, de alegria ou sofrimento, só através de mim poderá manifestar-se. Se eu desaparecesse, desapareceria comigo. Um exército de monstros ocultos e de homens que sofrem será precipitado comigo no túmulo. É talvez por isso que me tiranizam tanto e tanto se apressam; essa a razão por que minha juventude foi assim tão impaciente, insubmissa e aflita.

Matavam e matavam-se, sem respeitar a sua vida nem a dos outros. Amavam e desprezavam, com a mesma prodigalidade desdenhosa, a vida e a morte. Comiam como glutões, bebiam como esponjas, não se deitavam com mulheres se iam para a guerra. No Verão, andavam de tronco nu; no Inverno, envolviam-se com peles de animais. Mas de Verão e de Inverno tinham um cheiro quente de feras.




 

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