A vida dos espelhos.

Pedir é melancólico. Mas dar o é ainda mais.

- Rubem Fonseca

Ele passou por um portão gradeado. Foi atendido e encaminhado para um ambiente ornado com móveis torneados da nogueira. As cortinas quase fechadas ofereciam a nesga onde ele via a piscina completamente azul e a folhagem cerrada sobre o verde-musgo. Submerso nas almofadas do sofá, aguardou Dulce.

“Eu te darei o céu.”

Levítico.

Aquilo que jamais poderei fazer: comer alimentos que contenham fermento durante a Páscoa, vestir roupas feitas com tecidos mistos (linho com algodão), comer frutas de árvores com menos de cinco anos. Isso não é problema para mim, eu gosto de seguir regras. Elas sempre serão os sinais avançados da minha salvação. Fui autorizado pelo rabino a cortar a minha barba. Afinal de contas, ela é mesmo tão rala, quase invisível. Conversei também a respeito da alegria da música, do seu caráter misterioso, e dos efeitos que ela produz em mim. Quando canto, não gaguejo. Cantando, faço com que meus pesadelos desapareçam. O touro que sai de dentro do mar avança contra mim, bufando e apontando seus chifres, desaparece das minhas noites. Não acordo mais suando medo. O rabino recomendou que eu me afastasse do vício do onanismo.

Está no ar: Histórias Possíveis 59 . Onde você encontrará a continuação desta história. E mais, muito mais. Obrigado, por sua leitura, desde já.

Hoje foi um dia tão dinâmico.

Ele amava mais o Japão que ela

involuntariamente representava

do que ela própria;

amava a fuga, não o fato.

Daniel Piza.

— O senhor, depois, me passa os dados?

— Quais dados? — perguntou Pedro.

— Esqueceu?

— Hã?… Não, só não me lembro agora.

— Pode deixar — fazendo menção de sair.

— Se você me lembrasse, talvez…

— Deixa pra lá. Obrigado — e deixou a sala, fechando a porta atrás de si.

“Acho apertadas minhas roupas do amanhã.”


“Quando Salomão chorava pela morte do seu filho

e alguém lhe disse: “Você não alcança nada com isso”,

ele retrucou: “É exatamente por isso que choro,

porque nada alcanço.” Elias Canetti

Siga a linha verde. Foi o comando que ouvi logo na primeira vez. Olhei para o chão e acompanhei a linha até ser barrado pela porta do elevador. Ao sair, demorei alguns instantes para recapturá-la. Eu a segui pelas alamedas coloridas com flores artificiais, bustos beneméritos, arejadas por janelas cerradas. Ao longe, alguns morros, o ziguezague do asfalto e do o meu pensamento.

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Peixinhos dourados

Ao  Ralph Kaldeich

O banheiro é branco e imaculado, o piso, a parede, as peças. A janela possui uma veneziana pintada da mesma cor, dividida em quatro grandes quadriculados vítreos. Por ali passa o sol, que bate direto em cima do lavatório, irradiando a luz em todo ambiente. Apoiado em um plinto de mármore sem mescla, uma coluna que culmina com o tampo, sobre o qual há uma cuba apoiada formando uma circunferência, dividida ao meio. Uma elegante torneira de aço forma uma curva por onde esguicha a água corrente. O recipiente onde se coloca o sabonete é de cristal, com uma válvula por onde escorre o líquido dourado. Por alguma ilusão, imaginei que ele fosse translúcido e apenas refletisse a cor da estrela; não. É dourado, suave e pastoso ao repousar na concha da mão. Leva-se uma mão de encontro à outra, espreme-se o líquido com ritmo e se forma a espuma prodigiosa que as envolverá, completamente, exceto por pequenas quantidades caídas inteiras, pisciformes. A pia está vedada e a água se eleva até mais da metade, forçando que a destape. Em seguida, a massa d’água adquire um movimento circular, no mesmo sentido dos ponteiros do relógio, e capta a minha atenção. Percebo alguns peixes dourados em volta do ralo, parecem fazer um esforço para ficar de fora; o buraco negro os puxa para dentro. Outros conseguem, mas por pouco tempo. Ao se grudar na louça, eles se desfazem, perdem a sua forma original, restando pequenos pedaços agarrados. Tiro totalmente a espuma das mãos e, com as pontas dos dedos, eu os ajudo a cumprir seu destino final.

Dingo

Wednesday morning at five o´clock as the day begins
Silently closing the bedroom door
Leaving the note that she hoped would say more
She goes downstairs to the kitchen
Clutching her handkerchief
Quietly turning the backdoor key
Stepping outside she is free

(Lennon&McCartney)

Meus tios, meu pai e minha mãe estão envolvidos na briga pela herança de Artur Alves Reis, litigando para receber algo, acreditando seu, o direito. E as brigas e discussões e reuniões infindáveis em que eles estão envolvidos desde a cremação do corpo perdem seu peso sobre mim quando me lembro de um deles, que não está aqui e faz muita falta.

Segredo é um atributo de toda família. A minha, contudo, possui algo diferente, um enigma: meu tio Dingo. Um homem esquivo e impassível. Alto e magro, com marcas fundas variadas e irregulares na pele. Estava sempre vestido com apuro, mas de maneira simples. Deixava à mostra apenas o rosto e as mãos. Os cabelos cortados na altura exata para ficarem como cerdas, cinzas, de uma escova. Tivemos uma, se posso dizer assim, intensa convivência por um período. Uma pessoa instruída que se alimentava apenas de frutos, folhas, sementes, legumes e raízes. Tinha bom humor, mas entranhado. Não extravasava suas emoções; ele as sentia e sabia que jamais poderiam ser descritas; evitava, pois incompreensão e discórdia. Quem quisesse encontrá-las devia ouvir as suas histórias, a alegria dos seus apelidos, sua delicadeza.

Manuel veio das Minas Gerais, de uma família de tropeiros, e parou no interior de São Paulo, região de Sorocaba. Trabalhou como escriturário pelo Brasil. Estivera em Manaus e de lá me deixou boquiaberto com a história do calor do lugar. O ar era tão abafado e perfumado de floresta que poderíamos servi-lo como sobremesa, cortado em rodelas e cobertos com massa de sorvete. Descreveu a pesca do peixe-boi. Uma prática comum aos índios e caboclos, que ele narrava com  tristeza serena: “Esquentavam uma melancia e a jogavam no leito do rio, e subitamente ela era abocanhada pelo animal. Após algum tempo de agonia causada pela alta temperatura do miolo, ele se virava de borco: morto. Uma maneira prática de retirá-lo da água, sem grande esforço ou luta, visto que seu peso chegava até os quinhentos quilos”. Hoje se sabe que os poucos sobreviventes já têm nome, sobrenome e registro no IBAMA.

Ele me contou as histórias do nosso folclore: do Saci-Pererê, do Boitatá, da Curupira e da Mula-sem-cabeça. Leu todo o Monteiro Lobato. Nas refeições, fazia uma “vitamina” de cevada, lúpulo, levedo, aveia. Apesar do gosto horrível, experimentei várias vezes o seu preparado, com medo de desapontá-lo. Ele comia cerveja, nozes, tofu e suco dos frutos. Perambulava pela cidade para encontrar suas frutas prediletas: acerola, açaí, cajá, caju, cupuaçu, graviola, limão (uma variedade vermelha e doce), umbu, manga e maracujá, as de melhor sabor. Lembro que ele ficava horas escolhendo. Conhecia todos os tamanhos e variedades, aprendi com ele a gostar delas. Não tomava nenhum remédio, curava-se com plantas. Aprendera com uma índia no Mato Grosso.

Evitava, também, falar de sua vida pessoal. Apenas relatava nomes e lugares, não sabia de suas relações, se elas existiam ou não. Foi um enigma bondoso. Conversava muito com minha mãe. Parecia dar conselhos e acalmá-la. Trabalhava com escrita: fazer declarações ao fisco dava-lhe muita autoridade. Possuía uma caligrafia equilibrada e cuidadosa. Escrever tinha o método e o esmero da cerimônia do chá. Ensinou-me a empunhar o lápis ou a caneta. Você deve escrever assim: mostrava os três dedos (polegar, indicador e médio) juntos e esticados à frente, com o instrumento preso entre eles, naturalmente, sem forçar a pena ou o grafite no papel, dando forma às letras e palavras, e pousando a base da mão no papel. A mão que escreve deve deslizar sobre o papel fazendo o caminho do texto, jamais se retesando ou tomando uma posição perpendicular à folha. Regularmente trazia grandes livros para casa, com folhas em branco, pautadas e com linhas verticais formando colunas. Descrevia os atos das pessoas, logo após as quantificava, para no final fazer um balanço provisório, cujo resultado poderia ou não carregar para a próxima página. Todo final de ano, fazia algumas simples operações aritméticas e calculava o saldo das ações, o que foi acumulado, o que foi consumido, a quantidade de devedores incobráveis e o imposto que deveria ser pago. Explicava-me que cada papel que eu jogava na rua havia que ser retirado por alguém e isso logo mais apareceria também naquele livro. Eu não queria aparecer no livro dele, não assim; queria aprender com ele, não que ele soubesse de mim. Até hoje guardo meu papel no bolso.

Minha única irmã era a “pixoxó”. Foi assim que descobri meu primeiro pássaro. Até então, minha atenção jamais havia se prendido a nenhum deles. Sabiás, canários, azulões e bem-te-vis cantavam em grande quantidade e variedade por aqui, há muito tempo. Entretanto, o primeiro que vi foi esse extravagante e sonoro pixoxó. A voz estridente e canora daquela pequena garganta guardava semelhança com a da minha irmã. Logo, o apelido não era por acaso. Meu tio também a chamou algumas vezes de saracura. Minha mãe ria muito e dizia ser esse também o seu apelido de criança, diziam que ela também possuía perna fina. Assim que minha irmã ouviu, franziu a testa, suas feições ficaram vincadas e nunca mais usou esse apelido.

Tenho certeza que se daria muito bem com Fernando Pessoa, como se dava o tio Artur. Talvez alguém encontrasse seus cadernos e manuscritos em algum caixote perdido de suas várias mudanças. Encontrou a Rua dos Douradores em Manaus, talvez Araçoiaba da Serra, não sei. A frase que cotidianamente vem a mim: Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me. Seca-se-me a voz, como se houvesse uma audácia estranha em ter essas palavras em voz alta. É uma espécie de pudor de existir – não tem outro nome!”. Era um sussurro o seu … dia.

Ao chegar do trabalho, sempre com o guarda-chuva pendurado no braço, sentava-se para o café, preto e forte, e o cigarro de palha, ardido e cheiroso. Era o momento das lamúrias. Minha mãe o assediava com pedidos de dinheiro emprestado para a compra de algo; não reprovava, tampouco intercedia nas brigas do casal, nas discussões entre os irmãos da minha mãe e o cunhado, acusado de infidelidade. Serenava os ânimos com sua calma de bom ouvinte. Jamais interferia, mesmo quando eu era espancado pelo meu velho. Apenas se recolhia.

Filho último de oito irmãos, vagueou pelo mundo afora sem nunca ter falado de ninguém. Viveu em pensões e com parentes em períodos alternados. Sempre que a convivência se estreitava, ele se mudava. Amizade não exige confidências, tampouco precisa de confirmações periódicas. Ele dava seu carinho dessa forma: convivendo. Quando do carinho se caminhava para a invasão e curiosidade, fosse amor, fosse algum outro sentimento humano qualquer, ele mudava de emprego, de cidade, e pronto. Ia embora. “Toda pessoa é morta pelo que ama.” Os seguidos empréstimos não pagos tampouco o prendiam onde quer que fosse. Um pesadelo o assolava constantemente: um tribunal do júri composto de rostos conhecidos o condena. Foge e encontra o caos em um redil de cães selvagens australianos com presas prontas para dilacerar sua carne.

Gostava de visitar o manicômio judiciário. Sentia necessidade periódica de conviver com os doentes. Observava e aprendia com a imperfeição deles. Passava as tardes de sábado conversando e ouvindo. Fez um resumo do que ouvia e me deu de presente a folha escrita à mão:

“Metafísica. o homem é uma criança com medo de castigo venera o suborno e morre com o taco de golfe nas mãos aos oitenta anos seu rosto e de qualquer outro é divino e horrível não sei pensar rosebud me compra um cigarro ninguém está vendo na Itália era porteiro da mais famosa exposição do Museu do Futuro haverá apenas veneno como alimento faço com a uva mais podre o vinho mais doce apoiado sobre o casco da tartaruga está o mundo onde músicos tocam instrumentos dourados de sopro uma canção inaudível das torneiras e dos homens apenas água é despejada inundando a maior e a menor coleção de notas do mundo seus detentores têm em comum sua inutilidade a vida inteira é um relatório dos fatos escrita no monólito negro a realidade é algo completamente distinto do que nos dão nossos sentidos me dá a sua guimba ao final encontramos o corrimão dourado de uma sólida e circular escada com degraus que levam sempre ao início é percorrida por esplêndidas mulheres em passo lento e ao serem indagadas pelo criador da tartaruga da utilidade respondem foi feita para a profanação para a noite do amante rosebud dois internos estão transando entre si não com monitores”


Às vezes, ele volta. Mas não consigo ver ou me lembrar de detalhes do seu rosto. Sei que era tanto sereno quanto horrível. Voltou hoje pela manhã, simultaneamente à leitura da história daquele velhote marido de dona Santinha, que havia lido mil e duzentos livros e chegara à conclusão de que isso não servia para nada. Foi embora nu, montado em seu burro. Depois de algum tempo, encontraram uma sandália à beira de uma cratera.

Minha ansiedade diminui ao contemplar o mar e decifrar os sinais que enviam as nuvens com seus mapas brancos e gordos em fundo azul. Fiz uma visita ao centro de atendimento aos alienados e a primeira frase dirigida a mim foi: “Me compra um maço de cigarros? Tá aqui o dinheiro, ó. Vai lá, ninguém tá vendo”.

Moar

“Esta noite vou estar com você
quando o sol morrer
e  A-M-R-O não será mais escrito assim… “
Bret Easton Ellis

— Ainda bem que não são muitos os anagramas de “amor”. Senão, pelo visto, ficaríamos horas e horas falando de suas aventuras.  A não ser que seja possível acrescentar letras. Amora também vale? É claro que vale, não?

O café onde estávamos promoveu um concurso para premiar o autor de uma frase usando o nome do local. Daquelas que fazem rimas tolas ou um jogo infantil de palavras. A premiação corria solta. Um casal de rapazes com uma criança de colo recebia o prêmio. Trocavam olhares amorosos. Um deles esboçava o agradecimento de modo quase inaudível.

— São cento e vinte possibilidades; se acrescentarmos uma letra, serão setecentas e vinte. Quem começou o assunto foi você – ela retrucou. — Não tenho necessidade de me exibir, de mostrar nada para ninguém. Aliás, lembre-se de que estou contando meus meses, porque você me telefonou. Pediu.

— Pois sim, mas eu não queria estar sentado, com a perna engessada e com uma luneta, olhando para as cenas do prédio em frente, tentando descobrir o que você está fazendo.

— E eu, de vez em quando, sinto falta de um rosto de pele escanhoada, azulado pela lembrança da barba cortada, de queixo quadrado, de nariz romano, cabelos pretos e ombros largos. O último deles me apanhou vestida com uma bata chinesa, vermelha, e me conduziu pela cidade. Entramos em alta velocidade em uma alça de acesso à Avenida Vereador Zé da Farmácia e nos deparamos com um auto em sentido contrário. Ele freou violentamente. Passado o susto, gesticulou furioso, xingou, e indicou a placa de contramão, pedindo que o motorista se afastasse de ré, dando passagem. O automóvel continuou imóvel. Dele, saíram dois homens, com muita carne, vestidos com calças jeans, camisetas de alças, braços e ombros à mostra. Vieram em nossa direção, abaixaram na altura da janela e disseram: “Caiam fora, dê você a porra da ré, e suma da nossa frente. Tá sabendo, mermão?”. “Você está errado, cara. É contramão.” “Chama a polícia. E bem rápido, enquanto você pode falar  e a gostosa aí está inteira”, o outro rosnou. Ele deu na partida. Nesse momento, aconteceu algo inimaginável: eles nos deram as costas. Imediatamente, o meu namorado bateu com a mão  no porta-luvas, tirou de lá uma Glock automática e ficou esperando que eles entrassem. Assim que se acomodaram, ele saiu.  Aproximou-se do outro carro, disparou três vezes, uma em cada vidro lateral e a última no de trás, vociferando: “Quero saber quem é que vai se afastar: eu ou vocês?”. E engatilhou a arma para disparar outra vez. “Saiam do carro, agora!” As veias do pescoço saltadas, as pernas fincadas no chão,  suas mãos agarrando a arma, fazendo mira. “Não precisa disso, mermão. A gente sai”, disse o carona. “Sai o cacete”, disse o outro, “a gente dá a ré e vaza. Falou?” O silêncio e a tensão da cena foram quebrados pelos tiros que ele deu no vidro dianteiro, um em cada lado e outro bem no centro. Os ocupantes não esperaram mais nada e deram o fora, batendo com as laterais na mureta de proteção, até desaparecer completamente. Ele voou  para o carro, engatou a marcha e correu desabalado até encontrar um fluxo de trânsito para se esconder. Em seguida, retomou a marcha normal até chegar em casa.  Jantamos alguma comida chinesa. Delivery. Nossa noite foi maravilhosa.

— A nossa é uma história de desencontros. Lembra quando me perdi no Aeroporto de Los Angeles procurando você?  Você já tinha embarcado.  Você está cada vez mais distante. Aqueles milhares de quilômetros entre nós continuam aumentando. Adolescente e adulta, vivendo a sua vida e agarrando todas as suas chances. Você não interpreta seus instintos. Apenas os vive. (Digo isso querendo o contrário.) Eu também vivo a minha vida, sem tantas variações, mas cuidando de ser feliz, considerando o que há para ser considerado. Por exemplo, as coisas celestes, cuja consideração está reservada apenas aos homens.

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent silence

Vou até o balcão e pergunto o nome da banda que está cantando a música de fundo. Radiohead. Em todo o lugar não há mais nenhum casal como o nosso. Flagro alguns beijos. Há apenas uma mulher sozinha, com fones de ouvido, longas pernas descobertas pelo vestido bem curto, sentada em uma banqueta alta. Simula uma pose sexy, não conseguindo disfarçar o enfado. Outras duplas de homens ou de mulheres. Pais com filhos ou filhas. Lá adiante, uma mesa farta de executivos de ambos os sexos, rostos brilhantes, limpos, descolados, olhos vidrados, muitos óculos com lentes escuras. Cada um com seu escudo em forma de computador, a silhueta opaca de uma fruta. Estão conversando sobre o psicopata chinês que ataca os berçários e mata as crianças. Um deles menciona algo como liquidar a próxima geração.

— Vamos embora?

— Você não quer emendar? Podíamos dar uma volta.

— É?… Não.

— Então vou conhecer o iFly. É um tubo vertical de vento, a duzentos quilômetros por hora. Você paga uma taxa, recebe as instruções e um uniforme e fica planando, subindo ou descendo, dando piruetas, uma simulação do salto de para-quedas. É uma delícia. Meus amigos me falaram que as instalações são novíssimas, o lugar é seguro. Dá para reunir até seis pessoas.

— Se você quiser saltar de para-quedas, eu topo. Subir de avião, olhar, sentir o frio na barriga e saltar. Considerar. Vamos?

Saímos. A avenida está atulhada, em obras, o leito desviado em várias curvas para dar vazão ao imenso fluxo dos veículos. As grandes estruturas antigas estão sendo demolidas para dar lugar aos edifícios de vidros de cristal, que distorcem as imagens que refletem. Um formigueiro humano de capacetes amarelos e verdes e azuis caminha por entre as vigas de metal. Alguns manejam as escavadeiras, abrindo espaços para novos túneis. Precisamos pular de bloco em bloco, na calçada, para caminhar. Encontramos um templo antigo, que ainda resguarda algumas colunas e carrancas femininas suportando as vigas lá de cima. E de lá nos olham com as bocas e olhos bem abertos. Parecem horrorizadas.  O prédio da Igreja foi vendido para uma casa de shows. Por um tempo foi o maior point da cidade, até que foi fechada após o homicídio de um traficante, no auge de uma balada. O público se assustou e sumiu. Foi vendido novamente. Hoje, é a festa de inauguração de um centro comercial. A fachada foi restaurada para remeter à dignidade antiga. Manter a pose. Ele oferecerá a maior variedade de artigos com marcas famosas, acessíveis apenas para uns poucos privilegiados. Caminhamos até o estacionamento, cada um entrega seu bilhete para o manobrista. Um ambulante passa em frente ao estacionamento, nos vê e oferece, discreto:

— Tenho um estoque de camisinhas retardantes. O doutor vai querer?

Omar

– Entrou como quem entra em uma caixa de música com a tampa entreaberta. Esperando encontrar algum tipo de redenção, alívio, purgação ou dor. Nenhuma de nós sabe quem encontrará pela frente. Sabemos que é uma fisgada, uma puxada na carretilha. É o que faço neste último ano: ampliar meus horizontes.

Entra uma mulher alta. Grande, com o rosto absolutamente oval, olhos verdes oblíquos, sedenta, um Rolex Presidente em cada pulso, cabelos ruivos, vestida de preto, saltos altíssimos. Passado o susto inicial causado pelo engano, perguntou por que eu chorava. Contei um caso de desilusão, indiferença. Toquei seu braço quando fez menção de sair. Pedindo desculpas, olhei fixamente em seus olhos e pedi com os meus que ficasse. O motorista fechou a porta e seguiu na direção combinada.

Ela me conta o sucesso da sua transportadora, do seu trabalho desenvolvido ao longo dos anos, do abdicar de sua vida pessoal para atingir suas metas. Além disso, encontrou no Jardim Japonês uma fonte de prazer estético. Estudou, conheceu e aprendeu as técnicas de formação, e agora se dedica à pratica do Bonsai, pela falta de tempo e espaço. O marido aprendeu a fazer Origami. Ele está construindo uma cidade completa. Com ruas, prédios, prefeitura, jardins, estádios, uma perfeição. Ele disse que aquele que constrói mil origamis tem o seu desejo atendido, ao terminar. Depois de me contar, fez questão de apresentar-me, pelo fone de ouvido, as canções de Tsuyoshi Nagabuchi, seu cantor predileto.

Amar uma mulher não é nada difícil, é uma ação narcisista, fácil. Um olhar bem demorado no espelho e acaba por se revelar outra face do mesmo corpo. Uma ação decorrente das mesmas ausências, angústias e carências. Ela sempre se inicia com o toque. Um toque matreiro e acidental forma o primeiro arco voltaico que eleva as temperaturas para a solda.  Depois da surpresa inicial, sirvo dois martinis bem secos, e um alívio sereno parece nos preencher.

De onde estamos, a cidade inteira fica à mostra. Abaixo e adiante, os focos interiores de luz de uma raia olímpica ressaltam o azul profundo e imóvel da água. Um ponto repentinamente tocado por um inseto atraído pela luminosidade se espalha quase até a borda, enquanto ele alça vôo, da água sobe um vapor. No terraço, deitadas de costas, estamos acomodadas e observamos; o momento nos convida a mergulhar. Ficamos debruçadas olhando a linha civilizada do horizonte deixando tudo para trás. Aproximamo-nos naturalmente uma da outra. Lado a lado. Os pés se encostam. As pernas, coxas, troncos, ombros e cabeça. Tateando-nos, avançamos no assunto do trabalho, no que nos é exigido pela carreira: um comando firme, um poder decisório sobre as diversas opiniões, conflitos, batalhas para afirmação e resultados. Principalmente, os resultados das nossas ações. Ganhar o respeito, a admiração e a grana antes reservadas apenas aos homens. E, após o respeito, vem a predominância. Ambas concordamos com a antiga dependência de satélite entre o homem e a mulher, éramos a Lua do planeta Terra. Hoje, ela está prestes a ser ultrapassada e extinta. E cada uma pincelou cores diferentes, fortes, à imagem: a atração que exercemos sobre os líquidos na Terra; o afastamento crescente da Lua; o resfriamento ocasionado por essa distância, até a extinção da Terra.

– Quanta soberba. Quanta imaginação. Só em sonhos mesmo.

– Quem saberá? Posso continuar? Quer ir embora?

Atravessamos a raia algumas vezes, relaxando. Ao subirmos, encontramos as toalhas para nos enxugar. Pergunto se poderia tirar dela o excesso de água. Não espero pela resposta, e inicio massageando sua cabeça, secando seus cabelos, com toda a calma do mundo. Apalpo as felpas da toalha contra o seu rosto, mais carinho que trabalho; passeando pelo torso, desvencilho-me dos fios e da faixa que o recobrem. Cada molécula de água das suas costas é objeto de minha preocupação e se integram ao algodão em minhas mãos. Também assim procedo quando a viro de frente, desde o colo, passeando pelos seios, até o abdômen. Ela mesma tira a parte de baixo do traje e me convida para o ventre, a virilha, em um breve afastar de pernas. Um inseto sibilante se aproxima de nós. Nem o mais leve sobressalto. Ninguém se dá conta dele. Continuo explorando cada pedaço daquela seda, cada nuança de suas mucosas, indo em direção às penugens. Após trocar a toalha por outra recém-aquecida, meu próximo passo é segurar suas coxas e, percorrendo-as com movimentos lentos e firmes, seco suas pernas. Ela, de olhos cerrados, agarrando firme a borda da espreguiçadeira, vez por outra suspira. Dou uma atenção toda especial aos seus pés. Por mérito próprio, bem cuidados, sem nenhuma das marcas deixadas pelos calçados feitos em série, parecem jamais ter pisado qualquer solo, sempre flutuando à minha espera. Seco cada um dos dedos. Meu rosto está próximo o suficiente para ela sentir o calor da minha respiração. E sente. Como sente, sentimos. Terminado o dorso, dedico-me à sola dos pés. Aperto com meus polegares todos os pontos, formando uma trilha imaginária. E os pressiono para tirar todo o estresse ainda acumulado. E beijo seus pés, um após o outro, de cima abaixo.

Afasto-me dela e me deito, extenuada. Não exatamente cansada, mas descarregada, vazia. E logo sinto o seu peso sobre mim. Não apenas a sombra, mas o corpo também me cobre. Agradecida, age. Rápida, direta e eficaz. Repete todos os meus movimentos, sem ajuda de toalha: seca o meu corpo apenas com a boca. Percorre-me desde as orelhas até os pés. Também fico com os olhos cerrados e as mãos presas, agarradas ao corpo dela, apertando e soltando conforme o momento. Um controle-remoto. E o melhor dos mundos se joga sobre mim. Aquela sensação de entrar no mar, quando as águas cobrem os seus pés, seus tornozelos, suas coxas, sempre subindo e envolvendo seu corpo em outro. Morno, marulhante, sonoro, os inesperados salpicos salgados nos lábios. Ela a toma no colo, balançante, fundindo-se em outro ser. E, de súbito, uma onda vem e se arrebenta contra mim, me lança longe. Fico semienterrada na areia, com arrepios de febre terçã, arqueando meu corpo até o ponto máximo que a espinha permite. E nada mais pode me tocar. Restam as convulsões, os tremores e o nada.

Alguém canta ao fundo: “Con la dulce y total renunciación.”

Roma


A Guy de Montpassant

- Casou? Como assim?

- Casando. Casando como você nunca imaginou fazer, como você jamais ponderou propor; casando com alguém que me dá segurança, certeza, direção, ritmo e carinho.

- Por que você não me falou antes?

- Porque você não se interessou por nada que ocorreu comigo, desatou a falar de você, dos seus projetos, da sua… sei lá o quê.

- O que ele faz?

- Eu realmente preciso ir. Você me telefona e conversaremos depois, amanhã, qualquer dia, qualquer hora.

Abriu a bolsa, pegou um pedaço de papel amarelo e rabiscou um número.

- Ligue neste número.

E saiu. De fato, saiu. Sem a menor sombra de dúvida, ela foi embora.

(O meu amigo Marcelo sabe o quanto eu gosto de música. Eu e ele viajamos para Miami. Deixamos o hotel para descobrir qual seria a nossa cidade. Nos perdemos no bairro cubano, nas centenas de pontes e viadutos, até chegarmos à beira-mar. (Os mapas e as ruas são organizados pelos pontos cardeais, que desconhecemos.) Conseguimos um café, com sabor parecido ao do brasileiro. Andando ao acaso, demos de cara com uma loja com raridades musicais. Eu não conseguia me concentrar em nada. Continuava caminhando por dentro do lugar como se estivesse olhando para o mar, mas com estantes e corredores. Voltei ao mundo quando ele esbarrou em mim, acenando com uma caixa de nove horas de música do meu autor predileto. Olha o que eu achei. Olhei para um objeto distante e colorido se rebolando. Não me apetecia sequer pegá-lo. É o único exemplar, você não quer? Não, Má, obrigado, não quero. O preço é muito barato. No Brasil, você não vai achar. É exemplar de colecionador. Obrigado mesmo. Não quero. Já que é assim. Se você não se importa, vou comprar, tá? E saiu em direção ao caixa. Ao segundo passo, soou um gongo na minha cabeça. Ele vai comprar. Vai ficar nas coisas dele. Acenei com a mão, emiti um som qualquer, corri atrás dele e disse: Má, obrigado, mudei de idéia, tudo bem? Pego a caixa. O pacote está em casa, sem abrir.)

Dormi.

Perdi o interesse pelo que acontece entre os crepúsculos. Depois de três deles, encontrei a disposição para ligar. Ela pediu que fosse buscá-la na agência. Trabalha como diretora de criação em uma agência de publicidade. Estou trabalhando feito louca. Estamos em processo de fusão com uma empresa líder. Loucura geral. Ela sempre foi uma mulher bonita. Agora, mais segura de si, falava com uma entonação diferente. Como se eu fosse um cliente. Sei lá. Vestida com apuro, cobria, com o casaco, o busto e o colo, e as coxas com a saia justa. Deixava de fora pernas, mãos e cabeça. Os pés enfeitados com um sapato de salto finíssimo e uma abertura minúscula para os dedos. Os da mão vestidos com jóias disparando invejas eternas nos olhos femininos. Ela me alertou de que precisaria entregar uma peça em um cliente e depois me convidou para sentarmos em um café.

Na mais movimentada avenida da cidade, encontramos uma ilha do café. Refizemos o passeio do café pelo mundo, desde a Etiópia até o Brasil. Lembramos dele nas moças, rapazes, móveis, em todos os utensílios, exceto nas xícaras, imaculadas, quentes e brancas. Escolhemos, encostei o punho no queixo e ouvi:

Encontrei uma mulher muito diferente das que já conheci. Alguém que trabalha com projetos inteiramente pessoais, independente, faz questão de não revelar nada da sua vida. É um ser humano do sexo feminino, com educação, bom gosto e maluca. Começou a carreira participando de um Big Brother. Montou um personagem adequado às necessidades do programa, passou por todos os testes e foi selecionada. Mesmo sendo eliminada na finalíssima, iniciou sua trajetória. Queria conhecer e fazer amizade com as pessoas do meio, tornar-se uma pessoa conhecida da sociedade em geral. Vender a sua imagem de mulher provocante, filha de imigrantes, ingênua, burra e meiga, entusiasmada como um animal de estimação, intensamente livre e completamente despida de roupas e preconceitos. Ela liberou um vídeo em que aparecia no banco de trás de um Bentley com seu namorado (cantor famoso) e a mostrava num flagrante de um momento íntimo; formando um aro rosado e fulgurante de gliter com a boca, e ele despido da cintura para baixo, e de olhos fechados. E a cena se fecha com um rápido enrugar dos lábios se fechando firmes até formar um beijo para o espectador.

Passei a conhecer as festas de que ela participava. Como ela se comportava. Uma mulher inteiramente submissa aos desejos masculinos. Não sabia oferecer resistência alguma. Aparecia como uma pancada de chuva fresca em um deserto. Percorria todo o ambiente em conversas com os mais diversos tipos de homens. Sempre solícita e atenciosa. Provocante. Ela tem um poder impressionante de ouvir e compreender. Sugerir exatamente o que o interlocutor precisa ouvir. Como se saísse dele o pedido para ela usar aquelas palavras. De concordância, encorajamento e incentivo. Quando a atraída na armadilha era uma mulher, o comportamento era outro. Inofensivo. Uma verdadeira parceira. Que consegue conversar sobre diversos assuntos e interesses, com uma velocidade extraordinária, não oferecendo nenhuma ameaça, apenas mostrando ser outra vítima da tortura que os machos oferecem com a sua indiferença, lirismo, contradições, ausências e abandonos. E, automaticamente, voltava a chover naquelas hortas descuidadas, cheias de ervas daninhas.

Fiquei inteiramente apaixonada por aquele ser. Aprendia o desembaraçar de situações conflituosas, o início, o desenvolvimento e o fim das relações entre as pessoas. Quais são as nossas necessidades. Os significados dos nossos gestos, dos nossos trajes, o que revelava a pele, descoberta ou coberta, de determinada parte do corpo. O significado de uma jóia. Do cabelo, penteado ou despenteado. Curto ou longo. Eu me senti como se fosse, no aquário, um peixe, e fora dele um instrutor. Depois do meu aprendizado, fui apresentada às outras integrantes do clube de amigas. Nada ali era casual. Eu era participante de um projeto dela. Ela me escolheu. Ela escolhia as festas. As recepções e ocasiões em que estaria presente. Ela era o imã. E nós replicávamos o conhecimento aprendido. Éramos seus fenótipos. Ela nos contava a história do pássaro. Como um operário com poucas ferramentas. Não tem a mão do esquilo, nem o dente do castor. O corpo do pássaro é sua ferramenta, é com o peito que ele aperta e comprime os materiais, até torná-los dóceis e sujeitá-los à obra em geral. Nós éramos seus pássaros.

A primeira festa de que participei foi inesquecível. O lançamento mundial de um produto, no Teatro Municipal. Vestimos-nos de forma parecida. Cada uma de nós recebeu uma limusine com motorista e ficávamos aguardando o seu chamado. Ela chegou com o atraso indicado para estas ocasiões. E circulava pelos salões, conversando ora com um, ora com outra. Até encontrar a pessoa indicada. Alguém que a desejava, alguém desiludido, alguém precisando de amor. Aproveitava o momento ou a oportunidade para dizer confidências, ousar comportamentos. Ela se afastava, procurava um lugar discreto ou não, conforme o caso, o assunto se apimentava, e as labaredas apareciam, os rostos se afogueavam, eletrificavam-se as mãos. Até o bater no último ponto suportável. Neste exato momento, ela sussurrava: “Encontro você dentro de quinze minutos, na porta lateral. Estarei em meu carro, no banco de trás, com a porta destrancada.” E se retirava.

Neste instante, ela me ligou, deu o horário, mandou que eu ficasse à espera. Eu instruía o motorista para arrancar tão logo entrasse a pessoa. Eu deveria estar chorando, com um lenço que cobrisse parte do meu rosto. Só depois de alguns instantes eu deveria me mostrar surpresa e aflita. Quando estivéssemos em movimento. Depois que minha cabeça estive repousando no seu ombro. Aos descerrar os olhos, mostrar meu momento de medo, surpresa e simpatia. Contar a minha desilusão. E, ao final das contas, foi ótimo um engano dessa natureza. O acaso nem sempre revela surpresas desagradáveis. Bem, o resto você já sabe, não?

- É uma mulher?

Imagem gentilmente cedida pela artista Daniela Schneider

Amor

Um dia, caindo de bêbado, liguei. É, liguei para a minha ex-namorada. De alguns meses atrás. Doze, para ser exato. Uma mulher genial, de ótimo humor, bonita, alta, magrinha. Aliás, falsa magra. Tudo correto. Você está curioso de saber o porquê do fim?

Ela perdia o controle com muita facilidade. De uma hora para outra, sem mais nem menos, saía a brigar comigo. Que eu não dava a mínima importância para o que ela dizia. Que eu não contava meus segredos, que era muito calado. E me desancava, a mim, a minha geração, os homens, e tudo mais que era possível. Desatava a chorar lágrimas com peso e densidade. Dentro delas, as microscópicas desilusões vinham à tona. E eu naufragava. Não havia sexo de reconciliação. Durava ao menos dois dias. Depois deles, tirávamos ao redor de quatro semanas como férias.

Lua-de-mel. Passeávamos no parque, e, se não havia ninguém por perto, ou se houvesse alguém por perto e não fosse ameaçador, ou mesmo ameaçador, se encontrássemos algum lugar mais ermo ou fechado mesmo com uma trinca de plástico, ela me agarrava, me jogava no chão, e lá ficávamos alucinados de amor. Trançando pernas, braços, aproveitando todas as posições anatômicas que estivessem à disposição pela fisiologia, coreografia ou fantasia. Até que o cansaço pedisse licença. Assim: desmaiando um ou outro. Sem prévio aviso. Como se a luz apagasse, Te Deum cantado pela voz invisível do sonho. Se houvesse alguma seriedade, ou consequência em mim, jamais ligaria novamente. A última discussão foi digna das docas do porto. Eu tentando ser calmo e ponderado. Mas ela estava do outro lado, atirando potes, pratos e pires. Apoplética. Cismou que eu a traia com sua amiga. A melhor amiga. Eu sequer a conhecia direito. Apenas fiz menção ao tamanho da bunda, do corpo, ao jeito sacana de ser. Homem não diz nada sem abrir a calça. Não diz do que não conhece, já sabia que você estava a fim. Sentia. Quer que eu ligue para ela e arranje as coisas? Não, obrigado. Ah, não! Você já conseguiu sozinho, né? Não consegui nada, pare com isso, por favor. Por favor o cacete! Você é um merda de um conquistador barato. Com essa conversinha mole, fica dando em cima de todas as mulheres, não há ninguém que arrume você. Pensa que eu não sei? Covarde. Aproveitador. Sabe do quê mulher, falei olhando para a ponta do sapato. Olha pra mim, seu bosta. Encare a situação de frente. Olhei ainda calmo. Tá vendo? Sua calma é a de quem tem culpa. Sai daqui. E atirou o primeiro pote. O segundo: prato. Depois o pires. Eu tentei me desviar, mas este me pegou no ombro. Ela abriu a gaveta de talheres, e dali coisa boa não sairia. Tentei subir para o quarto dela. Com um pulo felino, ela se interpôs entre mim e a escada e avançou com um garfo na minha direção. Não me restou alternativa. Agarrei sua mão com a força do medo e a fiz soltar. Foi a minha confissão assinada de culpa, testemunhada pelo talher e pelo roxo do pulso.

O silêncio foi o tutor do término. Não nos falamos mais. Aos poucos amigos restantes que perguntavam dela, eu desconversava. Tinha vergonha de contar, e não pretendia assumir nenhuma separação, e muito menos o motivo dela. Usava a frase predileta dos americanos nos filmes: “Não quero falar desse assunto”. Arrumei amigos de uma nova safra. Saíamos para beber e conversar. Grande circuito da cerveja. “Uma cerveja não faz mal. Duas também. Nem dez. O que faz mal é o exagero.” Quando começávamos a discutir o porquê da nuvem de álcool no firmamento ser a causadora da marcha da multidão de borboletas desde o Canadá até o México, sabia que devia ir embora. Só trabalhava e bebia. Amortecido. Anestesiado. Não atinava. E ainda não compreendo aquele comportamento. Uma hora boa, outra ruim. A boa, fantástica. A ruim, infernal. As duas de outro mundo, não o das pessoas normais. Algumas aventuras mornas, nesse meio tempo. Algum amor pago. Todas assim. Meia-boca. Uma válvula preênsil contra um êmbolo transmissor. Aulas práticas de mecânica de leve fricção.

Até o dia em que, ao me levantar, percebi que estava prestes a perder completamente a consciência. Todo o cenário começou a girar à minha volta. Estava leve, o corpo sem peso. Minha mão atingia as coisas antes ou depois da hora. A visão nítida dos objetos, mas eles estavam sob o fundo azul-cobalto do céu, antes da tempestade, onde perdemos a noção de distância. Resolvi sentar e esperar um pouco.  Com o tempo adquiri uma capacidade muito grande de absorver álcool. Jamais dei vexame, e este não será o meu primeiro dia. Já sei, vou ligar para ela. Sentado e senhor de mim, disquei.

-Alô?

- Oi. Você pode falar agora?

- Espere um pouco.

- …- Pronto, pode falar.

- Quero ver você.

- Quando?

- Amanhã.

- Que horas?

- Oito horas.

- Onde?

- Vamos jantar?

- Pode ser.

- Na nossa bodega?

- ‘Tá bem.

De manhã cedo, tomo a mezinha salvadora: uma dose de conhaque, uma gema de ovo e vinagre. Salpico bastante tabasco e molho inglês. Engulo de uma só vez. Pronto, ficarei novo em folha.

Depois de tanto tempo. Pontualmente às oito, ela chega. Está mais linda. A pele clara, sem nenhuma mancha. A separação lhe fez bem. Não mudou nada, se mudou foi para melhor, espero. Não dá para perceber ainda. Olho dentro dos seus olhos. Hoje é o dia bom. Eles estão claros, consigo me ver, límpidos como espelhos. Pergunto o que ela quer. O de sempre. Faço a nossa escolha. Não esqueceu nada? Ah, sim. O vinho: Chiante. Agora, sim. E desatamos a falar de generalidades. Assuntos sem controvérsias, o que estou lendo, o que ela está escutando. Quem apareceu de novo no cenário. Duas horas depois, estou, estamos agitados. E pergunto se ela quer esticar o jantar. Vamos para minha casa, na Granja Viana. Eu a reformei e pintei, está nova. Ela hesita um pouco. Pensei: É agora. Vamos. Acendo a lareira. Adorávamos o fogo. Despertava-nos a compreensão das coisas que não podem ser descritas. Ficávamos deitados olhando as fagulhas e bruxuleios, caracóis de luz saídos da morte da madeira. Raramente nos beijávamos, conversávamos com as mãos e os olhos. Revivemos a nossa melhor noite. Cada mês ausente foi recompensado. Em doze movimentos plenos de ação, ardor, coragem e saudade. Parecia que jamais estivéramos separados. Eu quase a penetrei por inteiro, para morar dentro dela, tamanha a fusão entre nossos corpos. Suados. Amados. Banhados. Suados. Amados. Salgados. Quebradiços e tesos como biscoitos prestes a quebrar com um estalo dos dedos. Atemorizados por algo que quebrasse todo o encanto. Interiormente, fui invadido por uma paz sem igual. Nenhuma ressaca. Simples momento de indecisão. Para qualquer lugar que eu olhasse ou me movesse seria bom. Sem angústia. A pressa foi afastada para sempre. A paz. Invadido pelo sentimento de paz. Leve como uma pluma. Um fio de teia de aranha que caísse sobre o membro o tornaria rígido outra vez.  Assim que um raio cortou o céu, ouvimos o trovão, eu me levantei para entrar, estendi a mão:
- Vamos?

- Aonde?

- Para dentro da casa.

- Eu preciso ir.

-…!?

-… Casei.

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