Geraldinos

Deserto de Gobi, Cantão, Nápoles, Santos, São Paulo, Edifício Itália, terraço, tarde da noite, estrelas, luzes, azul-marinho acobertando os sonhos, o piscar de umas e outras, indiferente. Tão indiferente quanto ele. Amanhece com névoa, anunciando um dia de sol. Ele, do seu escritório, comanda os contêineres, circulantes pelo mundo, despejando também aqui o seu conteúdo, aumentando o paraíso das coisas. A cidade espanta a névoa e se torna nítida e cinzenta. Ao olhar para baixo, vê um rio.

O rio dá cor e aquece o tempo, traz o sal do suor à flor da pele, e tudo se contamina. Os mais variados tipos caminham, desde o início, um fluxo buscando uma compra perfeita, um presente, um enfeite, uma lembrança ou a paga de algo que ainda não aconteceu. Na beira das barrancas ficam os mascates, os ambulantes, os marreteiros, mais acima os lojistas. Uma flora e uma fauna, buscando no alarido o seu espaço. Sonho os mesmos sonhos daquela mulher negra com peruca ruiva, óculos com hastes vermelhas e lentes espelhadas; do rapaz com seu panamá de ráfia, espetado por uma pena branca; da baiana e sua saia rodada, bata rendada, cabelos embrulhados no turbante; do esguio abissim rastafári e suas roupas largas; do índio boliviano com seu chapéu-coco e poncho multicolorido; do mineiro de chapéu de feltro cinza, terno amarelo gema, e seu guarda-chuva engessado no braço esquerdo colado ao corpo. A sirene da polícia ou a lâmpada giratória sobre o capô alardeia um corre-corre. Uns daqui, outros dali, bancadas de madeira retrátil são escondidas, as toalhas que as cobriam agora fechadas sobre as pontas, são partes dos trajes de outras gotas do rio.  Os guarda-sóis são palmeiras raquíticas, oferecendo sombras bamboleantes para as frutas. “Antes de cantar, Ângela Maria comeu desta melancia.”

Cantando estridente em um dos braços do rio, o fliperama e o menino. Com roupa de couro agarrada ao meu corpo frágil, danço alucinado sobre o piso do quadrilátero colorido e pulsante, coloco meus pés sobre os pontos luminosos que se acendem, em uma torrente que mal posso acompanhar. Não toco nas barras de segurança, e aquela menina, pálida, assexuada, observa com gestos de aprovação e uma destemperada alegria. Desmanchado em suores, o cabelo grudado na testa, o coração empurrando o peito e a pulsando na garganta, tiro a jaqueta, coloco outra moeda, e inicio outra rodada, mais rápida, em busca do prêmio inatingível.

O mesmo prêmio da repórter que se aproxima do casal deitado sob o pórtico da União dos Bancos. Ela amamenta um dos filhos. Teve doze ao todo. Perdeu quatro.  Seis a justiça tomou. Estes dois são dele, apontando para o homem ao lado. “A gente sofre muito, até cospem nele. Ninguém olha pra gente. Amamento até secar o leite. A comida é pouca, mas o leite é farto.” “Eu estou com ela faz dois anos. Ela fala por nós, não tenho jeito para isso. Não sei falar, aprendi a ‘bater’ carteira, jogar para o parceiro contar o dinheiro mais adiante, e sair na carreira; das coisas que dão sopa por aí, pego, troco, me viro para arranjar alguma comida. Cansei da competição. Até na cadeia ela existe. Quando sobra alguma coisa, arranjo umas pedras pra nós esquecermos. Durante o dia, escondo minhas coisas, e ela fica aqui na porta, as pessoas têm dó, e ‘eles sempre arranjam alguma grana’.”

Com a grana do dia no bolso, o asiático corpulento, carregador de mercadorias, termina sua jornada na hora do almoço, toma sua sopa com legumes, pimenta e vinagre, pelando de quente, e não move um músculo.  Não dou a mínima. Sofri de paralisia no rosto, o médico chamou de síndrome de Möebius, e por isso ninguém sabe o que dizer de mim, minha face não tem nenhuma expressão. O rosto é sempre igual.  Divirto-me com uma vara de bambu, medindo quase dois metros, toda lixada e cheia de areia, vedada e pintada com tinta imitando alumínio. Fico aqui na esquina e faço dele um poste ereto, seguro pelas minhas mãos, firme. Coloco um tripé com um aviso de cartolina junto a mim. Hoje o pessoal da tevê está fazendo entrevistas. As mulheres passam, leem o cartaz (Dança do Poste) e, ato contínuo, fazem alguns movimentos tímidos.  Tentam adivinhar pelo meu rosto o que estou pensando, e não veem nada. A clareira se forma. A segunda encosta virando-me as costas, logo em seguida trepa com os pés na parte mais alta, depois desce coleando o corpo até o chão,  pousando sinuosa, e recebe uma ovação. A próxima fica mais animada e, sem se preocupar com a saia, agarra-se à vara como se fosse seu parceiro, bamboleia, arroja-se para o alto e estica as pernas em espacate. A plateia vai ao delírio. Claro, algumas mulheres a xingam, mas isso apenas renova o seu ânimo.

Ânimo que atrai a reportagem para perto. Os camelôs se aproximam também, falando, gesticulando, os vendedores de lá das barrancas só observam. A repórter escolhe uma senhora de lenço verde na cabeça, sarará, olhar esgazeado, para entrevistar. Ela não quer saber de nada, nem de ninguém, está ali para vender. Ameaça o cinegrafista com um cabo de vassoura, guardado para estas ocasiões, e diz: “Sai, sai. Ninguém mexe nas minhas coisas”. Ouve-se ao fundo: “Nem os homes consegue tirar nada dela, eles passam reto. Têm medo dela. Ela é a única entre nós que se safa”. Alguém comenta: “Ela tem família, o marido é vendedor no viaduto ali perto”. A equipe se desloca, e com ela a pequena multidão. Outra ambulante pede para ser entrevistada, consegue seu intento, pede desculpas e diz que precisa ir ao banheiro. “Me espera, que eu já volto.” O cortejo segue adiante para encontrar o vendedor: um homem impecável, de terno, camisa social e gravata, caminhando com alguns cones de papel branco, brilhante,  na mão direita erguida ao máximo.

De fato, é o máximo em vendas. Trabalho aqui faz vinte anos. Sempre vendendo amendoim torradinho. A senhora desculpe, mas não tenho como conversar agora. Estou no melhor do dia, é a hora do almoço. Abro o sorriso, olho para o lado e digo: Oooooiiiiiiiii. É o meu reclame. A repórter me diz: “Há problema se eu acompanhar, aqui ao lado, o seu trabalho?” Concordo com a cabeça, e, entre um grito e outro, conto as minhas peripécias. Comecei a trabalhar como todo mundo, de sandália, calção e camiseta, e um sorriso sempre estampado no rosto. Depois de algum tempo fui abordado pelo polícia, que tentou proibir meu trabalho, como ilegal. Um cliente amigo, que vinha logo atrás, se apresentou como delegado da Polícia Federal, ordenando ao outro me deixasse em paz. Este me deu seu endereço, e pediu que eu fosse até lá.  Ganhei dele um terno completo, par de sapatos, camisa, gravata, tudo enfim. As minhas vendas triplicaram logo no primeiro mês. Aprendi muito com isso. Jamais abdiquei da imagem. Hoje, a senhora pode ver, estou com minha equipe me ajudando. Aponto para meus quatro sobrinhos: um cuida de trazer sempre amendoim fresco e quentinho, os demais ficam nas imediações para completar o faturamento. Logo, logo, estarão todos equipados para o trabalho. “Meus clientes dizem que deveria ter registrado o nome Oi. Que hoje eu estaria rico. Que nada, se eu tivesse registrado, eles usariam Ai. (Sorriso)”

E sorrindo, escondo o marrom da pele atrás dos meus dentes, e vou vendendo meus acarajés, famosos por toda a região.  Acordo às cinco e meia para pentear meu cabelo e começo a bater a massa, deixo a comida toda  preparada para o dia. Nunca ofereci comida dormida. Só a feita no dia, para qualquer criança poder comer. Não sou daqui, sou da Bahia: Ah, eu vim de Ilha de Maré minha senhora / Prá fazer samba na lavagem do Bonfim / Saltei na rampa do mercado e segui na direção / Cortejo armado na Igreja da Conceição / Aí de carroça andei, comadre, / Aí de carroça andei, compadre. Sabe? Baiano é que nem cachorro: onde encontra carinho, fica. Todo mundo me conhece por aqui. Encontrei meu homem, um pernambucano da gota serena, atleta, centroavante, jogou três temporadas no Íbis, não deu certo, não, só fez um gol. Quando dá cinco horas, arrumo minhas coisas e vou pra casa. Meu negão está me esperando, tomo meu banho, conversamos, tomamos cerveja e brincamos. Ele é bom no plantão, sabe? Não, não posso ficar nervosa, porque fico feia, e se ficar feia ou triste ele arranja outra. É mais novo que eu, fogoso demais. Não tem defeito. Só o futebol. Ele vai todo fim de semana para o diabo do campo. Outro domingo, eu o ameacei, para que ele ficasse em casa. Ia fazer arruaça, botar um par de chifres nele, se ficasse só. Ele me disse: “Pode botar, mas eu quero, vou voltar pra casa feliz. Nem Vem Que Não Tem / Nem vem de garfo / Que hoje é dia de sopa / Esquenta o ferro / Passa a minha roupa.” Vestiu os óculos de decisão de campeonato (duas estrelas: uma branca, outra preta), arruda, e a figa de guiné.

O Senhor Adib é dono de um restaurante. Ao terminar o horário do almoço, oferece uma quentinha para aquela sarará, a Saracura, o suficiente para ela, o marido e para os filhos que deixou em casa. Uma ambulante, magra, cabelo pixaim coberto pelo lenço, rosto marcado pelas rugas, pelo sol e pelo sul, aparenta ter muito mais dos trinta e cinco anos. Defende-se da polícia gritando feito maluca. Dizem que trabalha para o homem que fornece a muamba para ser vendida. Mora em um contêiner com a família. Aproveita do sono leve e faz guarda das mercadorias do patrão.

Pelo meio da tarde, o rio deságua no deserto. Todo comércio cessa, os vendedores se vão, junto com alguns fregueses, divididos em três grupos: os homens para assistir à final do campeonato, as mulheres para lavar a escadaria de uma capela próxima, ou dos Aflitos ou dos Enforcados, e os pares de namorados para preparar a festa de comemoração, à noite.

Eu e você nos encaminhamos para aquele espaço fechado, por detrás de várias portas e cadeados, que é o nosso trabalho ou lar. Com uma vontade de apagar tudo, de não pagar nossos débitos. Sim, as pessoas achavam-se dignas de um crédito pessoal ilimitado conosco. E apagar significa começar do zero em outro lugar, uma nova história. Para encontrar o dia original, depois do final dos tempos. O primeiro dia de todos os outros dias. Mas, tudo isso é um erro. As pessoas que observei (observamos?) mostraram isso, sem intermediários.

Foto gentilmente cedida pela artista Daniela Schneider.



Inauguração.

Novo layout e projeto de blog. Espero que gostem.

Rachel

Alguns dias depois, levei o Mantis Carolina a um amigo que vinha mantendo uma fêmea solitária como mascote. Quando colocados no mesmo ambiente, o macho, alarmado, procurou escapar. Em poucos minutos, a fêmea conseguiu agarrá-lo. Primeiro, ela devorou-lhe a tíbia e o fêmur. Em seguida, roeu-lhe o olho esquerdo. Só então o macho pareceu dar-se conta da proximidade de um indivíduo do sexo oposto e pôs-se a fazer vãs tentativas de acasalamento. Em seguida, a fêmea comeu-lhe a perna dianteira direita, decapitou-o, devorando-lhe a cabeça. Só parou para descansar depois de ter comido todo o tórax do macho, exceto um bocado. Durante todo esse tempo, o macho persistira em suas frenéticas e vãs tentativas de ganhar acesso ao duto da fêmea, o que conseguiu apenas quando ela, voluntariamente, se posicionou por sobre ele, ocorrendo então a união. Sobreveio uma paz magnânima; ela, permanecendo quieta durante horas. Já os restos do macho não só apresentaram sinais de vida, mas intenso na corte e vorazes na cópula, durante três horas.  Na manhã seguinte, ela se livrara completamente do cônjuge, e nada havia restado dele, além de suas asas.
João Siqueira foi, durante toda a viagem, o alvo das atenções. Conduzia o maior rebanho do País. De origem humilde, sempre serviu aos poderosos, até que batesse e ultrapassasse o limite de sua dignidade. Perdeu pouco tempo na escola, ao perceber tratar-se de pura perda de tempo, apenas bobagens. Cabulava as aulas e vendia jornais. Comprou uma árvore genealógica que lhe deu nobreza de origem, e acrescentou o holandês ‘Van Der Ley’ ao nome. Homem de uma monocórdia obsessão: colecionar dinheiro. Gosta de comer da picanha só a gordura. E de subir as escadarias de toda Igreja que encontra. Sabe tudo a respeito da carne. Desde o preço, em todos os mercados, à qualidade. A melhor origem e o destino mais lucrativo. Tratava as mulheres com brutalidade e charme, jamais se deixou vencer por uma delas, incluindo a comissária. Para esse passeio, escolheu uma atriz iniciante: Scarlet Starlet. Estava disposto a investir na carreira dela (cheirava, de longe, a bom investimento).  Alta, sueca, cabelos louros nuançados, de seios majestosos e sem aquela bunda chata; estava fadada ao sucesso; adaptada aos dois hemisférios, sabia representar como ninguém.
“Escolho as minhas namoradas pelo som que emitem durante o sexo. Não tolero mulher silenciosa. Silêncio só de dia, e quando eu falo. De noite, quero ouvir gemidos, gritos, soluços, ou prantos. Há de haver intensidade, loucura, incentivo. Minhas transas e casos são rápidos e famosos. Mulheres, só as de espírito livre, com disposição para serem amarradas, conquistadas, sujeitadas. Dando e recebendo muita dor e muito prazer. Nunca mais quero sexo-baunilha. Chega do tradicional. Exploro o último limite da dor salvadora, aquela que conduz ao orgasmo infinito. Estase. Meu amigo morreu, enquanto se masturbava. Sem ar, sufocado pelos cordões da cortina, num hotel (“Hey, don’t knock: masturbation. It’s sex with someone I love.”) de Jacarta. Ele só escolheu aquele lugar porque lá a pena pela prática é a decapitação.”
O interior foi decorado de maneira a se parecer com uma tenda árabe, com vários ambientes: refeições, anfiteatro e espaço de estar, forrados com tapetes de seda originários das aldeias da Pérsia. A atração é um Ardabil com motivos florais, trevos nos cantos e medalhão de centro, lembrando a mesquita das mulheres (Xeique Lotf Allah) de Isfahan. A sensual escala das cores, desde o original vermelho profundo passando pelo ouro velho e fosco, salpicados de azuis e verdes, preparava para o branco do fim. O desenho do mestre parecia retratar sensações hoje perdidas.
Eu? Eu faço parte da tripulação. Vestido de branco, exceto pelo azul da gravata, em traje de marinheiro, anos trinta (Ginger Rogers & Fred Astaire), calça boca de sino e boina canoa. Trabalhava como dublê, antes de ser contratado. Saltar de um penhasco de trinta e cinco metros até encontrar a água? Pilotar uma Ferrari a duzentos quilômetros por hora e provocar uma explosão? Voar baixo em uma lancha nos canais de Veneza? Pular da barriga do avião? Era o que eu fazia. As mulheres sejam as do elenco ou as curiosas, me adoravam. Vivia rodeado delas. Também escrevo, mas escritor de gaveta. Sou uma pessoa maleável, gosto de ser gentil e agradar aos outros, e sei escutar e impedir meus ímpetos violentos e cruéis. Contrariar uma criança? Jamais.  Devo a minha vaga ao meu diálogo. A capacidade de encontrar palavras harmoniosas, dando um efeito estético a qualquer papo.
Viajar em um zepelim foi idéia da agência de propaganda. Despertar o interesse ao longo das cidades visitadas. Atrair a curiosidade pelo novo lançamento da Kiboi S.A. Um filé de gado negro asiático, para o qual o Japão, através de pesquisas genéticas e cruzamentos planejados, produziu a raça perfeita para o consumo. Alcançou  o máximo em maciez, sabor e preço. Eu fui o encarregado de revisar e preparar o texto de divulgação do produto. De uma forma clara e persuasiva.
O homem levou consigo o gado caminhando para onde nasce o sol, atravessou desertos e um último braço de mar, até chegar a uma ilha em forma de adaga. Lá, plantou arroz para matar a fome e considerou o animal que o auxiliava como parte da família. Em respeito ao Buda, proibiu o consumo da carne dos que tivessem longas pernas. Muitas guerras se travaram até a era Meiji. Quando o próprio imperador posou comendo carne, aconselhado pelos ilustres visitantes, em seus uniformes brancos de galões dourados, vindos do oeste distante. E os japoneses adquiriram esse hábito. O gado passou da tração à carne. E, para tanto, engendraram a raça perfeita para o consumo. O tratamento foi ainda melhor: acupuntura, massagem, maçãs, cerveja e grãos empapados em saquê. A cerveja é a responsável pelos veios brancos no rosa da carne, e também pela população saudável de germes no rume. Não faz esforço desmedido, caminha pelas fazendas familiares onde ainda é criado. Tem físico saudável. Não se distingue a gordura da fibra. Elas estão entrelaçadas. Imagem bela como o mármore. Mundos de prata e mundos de ouro rubro. Uma faz parte da outra. Não se separam mais. Graças ao azeite natural. O primeiro a experimentar o sabor, gostou; jamais se esqueceu, entregou tudo o que tinha para repetir a sensação. Seu sabor é comparável ao “foie gras”; ao mesmo pecado sem nenhuma culpa. Provou desde o sopro vital até o ápice do prazer para os sentidos, com um só bocado. O volátil desapareceu e se transformou na matéria, em carne. Loucura, belos gestos, egoísmo, traição, beleza e altruísmo, gordura, músculos. Graças a ela, construiu-se o Taj Mahal.
“Seu texto se inicia na página quinhentos de um livro ignorado e termina lá pela página duzentos de outro. É impossível acompanhar ou entender. Um murmúrio igual, monótono. Dá o prazer existente no espetar o pé de uma criança na imbuia do piso e exigir que fique girando incessantemente. Não quero saber a verdade do mundo. Aquele que está cem por cento certo é o maior canalha que pode existir. Você me descreve como se eu fosse um filhodaputa. Não quero seus fatos, sua ironia, quero só ouvir o som da minha própria voz. O fato é o lucro. Essa é a minha lei. E com você eu perco. Encontrei, em Paris, um escritor de sucesso. Ele, sim, é autor que vende livros. Autor que elogia e é elogiado. Não apenas um conversa-mole. Naquele renasceu o espírito daquele que escreveu as aventuras de James Bond.”
O dublê é bom de cama. É o meu gesto para fazer ciúmes ao João, e me aliviar. Além disso, ele é carinhoso e cuidadoso. Permanecemos horas brincando, ele parece ser inesgotável. Dá para saber algo de marionete, distante, depois de algum tempo. Vive  com a cabeça no ar. Ontem, ele me convenceu a apimentarmos a relação, e pediu que usasse roupa de couro e portasse um chicote. Em seguida, tentou me submeter com violência. Fiquei machucada, frustrada e ofendida.
Todo o evento foi um sucesso. Cozinheiros, jornalistas, socialites, todos aprovaram o produto. Aquele cetáceo de prata, sua sombra-ilha projetada no solo, foi o centro das atenções. A Lina prestou queixa contra mim, por agressão. E acionou o João pedindo perdas e danos. Scarlet foi contratada por um grande estúdio. Aluguei (parcos euros mensais) um quarto no apartamento do Sr. Colomb, na Rua Simon-Grubelier, e o ajudo na edição de seus almanaques. O próximo será destinado ao cruzadismo em Latim.
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Mapa D’Água


entre graças e gritos,
pino entre gretas e grades.
quem somos?

Mr. Dalloway



Mudou para Ilha Bela. Queria viver feito uma ilha. Rompeu quase todos os laços. Manteve apenas a visita aos amigos da mesa na casa de Artur. Passou a viver a própria vida. Passa por todos que o cercam sem ouvir nada, sem falar nada, apesar do movimento dos músculos da face que garante não ser deliberado: um reflexo instantâneo e automático, não significa nada, apenas condicionamento. Toda a intervenção na vida alheia se frustrara. Toda a intervenção da vida alheia também. Restam danos irreversíveis. Apresenta-se como ectoplasma perambulante, um pedaço de carne, separado dos demais.
Memórias.
Trabalhou em uma fábrica de papel higiênico em Gotemburgo por um ano. Solitário e entediado. Um trabalho mecânico servindo como meditação. Adquiriu o cacoete de coçar sempre o mesmo local, no peito, cantando sempre a mesma canção. Deixou aqui sua mulher. Um amigo da faculdade, Saul, se prontificou para ajudar no que fosse necessário. Ele, a princípio, não confiava nele. Um judeu com um sorriso constante no rosto, sem as pernas: um riso com tronco e braços. Pobre e conversador. Ria do quê? Um ótimo papo. Tita, ao contrário, não gostava de conversar, além de fazer o contrário do que falava. Se indagada, respondia sempre com um clichê, escudo de palavras para defendê-la do ataque. Gostava de cozinhar. Tatuou no antebraço esquerdo as imagens que ensinam o uso do fachi. No direito, a imagem de uma lagosta. E, nas costas, uma balançante Salomé, que ela fazia questão de mostrar, orgulhosa, requebrando-a com o corpo. Adorava dinheiro e sexo. Não quero casar com a miséria, e não sou amiga de ninguém. Oscilava entre o ódio e o desejo. Dizia que só o tratava mal porque o amava. Depois de algum tempo, ficou grávida. Saul, o provável pai da criança, o alertara quando ele estava em Bruxelas, visitando seus parentes; eles noticiaram que seu pai havia cometido suicídio. Professor de uma escola de primeiro grau, temperamento afável, muito tímido, foi alvo da indisciplina dos meninos até o limite do suportável. Ele se desesperara por não conseguir um denominador comum entre os alunos que não fosse a violência. A qualidade de vida por aqui piorou bastante, disseram os parentes. Estavam assolados pelos negros da África e pelos chineses que tomaram conta da praça principal, e, como ela, nosso comércio fracassando aos poucos. Após solucionarmos o nosso problema entre os flamengos e os valões, pensávamos em desfrutar a vida.  O pai não deixou nada escrito. Apenas decidiu.
Alimentos.
Ali mesmo Zé da Ilha comprava dos pescadores o nosso almoço. Geralmente tainha, marimbá, parati guaçu, vermelho, trazidos pela rede de fundeio, algum camarão, lambe-lambe e, às vezes, um polvo solitário. Mistura-os com bananas verdes, tempero, pirão, e pronto. “Estive em Angola também, lá fiz amizade com russos e cubanos, os donos do lugar. Fui convidado para um passeio de helicóptero, que percorreria a região norte, fazendo o reconhecimento da fronteira com a República do Congo. O passeio foi tenso. Além das pesadas nuvens, o auxiliar angolano não conhecia qualquer rudimento de pilotagem ou aeronaves, provocando uma raiva incontida do russo. Todos aqui são assim. A única palavra em português que aprendi para sobreviver é: filhodaputa. Chegamos a Dundo. No local do mapa onde existia uma colina, apenas um imenso buraco, com milhares de pessoas andando, subindo e descendo, armados com pás, picaretas, e balas. O morro desaparecera. Os congoleses descobriram lá uma mina de diamantes e cavaram intensa e rapidamente. Contou que Angola contratava milícias para acompanhar seus comboios. Mesmo assim, nenhum chegou; tampouco voltou qualquer miliciano. O mesmo horror ainda imperava por lá. Gontcharov foi também consultor especial do governo russo nos Bálcãs. E de lá trouxe esta história: ‘Sentado em um barranco próximo de Naissos (Nis), entre a Sérvia e a Bósnia, de costas para uma ampla casa rústica típica, rebocada a partir da metade de um artificial branco, diante da qual, sob a sombra das árvores, via-se a enorme mesa de refeição com dezenas de cadeiras, madeira maciça, coberta de linhos, vinhos, cristais, pratas e louça, tortas gibanica, burek, assados, Kobe beef, T-bones, samovar, joelhos de porco e repolho, fatuches, falafel e kebabs, narguilés. Cervejas, uísques, nalifka. Nela, os convidados, descobriram suas cabeças dos tarbuches, ushankas, barretes, turbantes, castores e coelhos, e discutiam, animados, os preços das mercadorias utilizadas lá embaixo. Os meus sentidos estavam divididos. A audição, às minhas costas, das risadas; a visão absorvida naquele vale extenso, ao sopé das montanhas, formando um palco, onde os atores de atracavam com as armas disponíveis. Um vai e vem de pessoas ora agachadas e protegidas, ora em pé correndo, atirando sem cessar, ocupando posições. Para logo depois voltar, sob fogo cerrado do inimigo em maior número. De cima se podia ver um pelotão atravessando o rio logo adiante, fazendo a outra perna da pinça que aniquilaria a todos à baioneta calada. Os corpos repousando no chão, disformes, em posições desnaturais. E do conflito inicial, restou um ou outro de um lado, e uma pequena maioria do outro. Apenas se pode dizer que houve muito medo e coragem de todos, e sorte para uns. É só. Ao chegar a cal, iniciou-se a cova coletiva e a minha atenção se desviou para o tato. Desde não sei quando, estava com a mão sobre o pescoço de um cão. Fugitivo, correndo e escalando aquela elevação, se postou ao meu lado, olhando como eu, e se aconchegou. Havia uma conexão entre nós. Fome? O aroma que vinha dali de trás, foi o laço. E fomos comer.’”
Cabo Horn.
Aqui posso desfrutar dos meus sentidos. Esquecer os raciocínios. O sol energiza-os todos. A visão fica mais apurada, é sempre surpreendida. O paladar é muito melhor. O tato tem oportunidades, texturas, que jamais teve na cidade. A audição remete ao tempo em que ainda éramos caçadores. E o olfato, que era alimentado pelos perfumes industriais e de comida, agora respira mar e montanha. No mais, estava infestado pelo esgoto que a cidade acumula e oferece. E o melhor: adquiri o direito de contradizer-me. Este é Aécio Pym. Um navegador que conheci por aqui. Ele cometeu a façanha solitária de dobrar o cabo Horn pilotando um barco de sete metros. Fiquei animado com a descrição e com os efeitos da viagem sobre ele; da beleza da amizade entre os pinguins e os albatrozes e da simetria entre seus ninhos. Tentei tempos atrás fazer a rota de Fernão de Magalhães e não consegui. O caminho é cheio de becos sem saída, exigindo do navegador uma resistência sobre humana. O risco de você se arrebentar contra os recifes é tão real que meu barco ficou imprestável. A nova rota fica mais adiante, na divisa entre o Atlântico e o Pacífico. Os inimigos serão outros: as correntes, o tempo, o vento. Eu conheci a região através de histórias de marinheiros.  Penso que estou melhor, aqui à beira-mar, vazio. Apesar dos vários corpos seminus, apesar do sol, dos instintos, consegui refugar.  A lembrança que me persegue: o desfile de modas que as meninas angolanas fizeram quando da nossa visita. Reuniram-se em doze ou quinze, não me lembro, e nos mostraram todos os padrões dos tecidos angolanos. A vila é toda feita de pequenas casas cobertas por colmos, com formato de ogivas, cercando a praça central de terra batida; em cada uma delas, há um odre de barro pendurado no alto da vara, chamando a atenção, enquanto as esperávamos. Colocamos nossa comida ali, para proteção contra as formigas. As meninas eram muito novas, vestidas com as saias longas, as cores muito fortes e contrastantes; belas, com os seios à mostra.
O retorno.
Saí em direção ao sul. Tive o horizonte, as montanhas e o céu por companheiros até chegar ao porto final. Ali, o céu e a terra se fundiram e tudo ficou azul, ondeante, ameaçador. Deixei Aécio em Ushuaia e segui viagem para fazer o mesmo roteiro. Não consegui. Submergi. Fui salvo pela guarda costeira chilena. Perdi o barco dele. Devolverei um novo. No meu peito, formou-se uma ferida e todo dia sai um pouco de seiva, que eu seco com uma gaze branca.

O deserto silente.


                                              … Não há no orbe uma
Coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.
Jorge Luiz Borges
Sábado com sol. Nesse outono esquecido, convenci meu filho a caminhar pelo parque. Logo na entrada, um ciclista equipado com sua bicicleta nos ultrapassa, lépido. Visitamos o Planetário, assistimos ao documentário sobre as estrelas, Via Láctea, Andrômeda. As galáxias são bilhões de estrelas, nebulosas compostas de pó, girando em torno de um buraco negro. Algumas parecem espirais, em suas órbitas colidem com outras, e se refundam, diferentes da anterior. No espaço sempre acontece algo. Esse movimento é violento, rápido e belo. Demonstra uma harmonia respirando junto conosco, fugazes observadores. Adquirimos a nossa esquecida dimensão. A colisão é um fator fundador da espécie humana. Formador e destruidor. Um asteróide com dez quilômetros de extensão atingiu a Terra, formou o que hoje é o Golfo do México e extinguiu os dinossauros. Sem essa destruição, dizem alguns cientistas, não haveria ambiente para o desenvolvimento dos cordados. 

Saímos. A luz nos invade, e esprememos os olhos. (Desde pequeno, gosto de ouvir a Dança Ritual do Fogo. Meu pai era música. Ele a ouvia sem parar, depois de se livrar do trabalho, quando conseguia silêncio. Era proibido mexer na vitrola, estando ele presente ou ausente. A continência era a cláusula pétrea. A agulha, delicadíssima, poderia se quebrar ou arranhar o vinil. Foi o meu primeiro desafio: mexi. Pronto. Repeti, cheio de dedos, todos os movimentos vistos milhares de vezes, e liguei o aparelho. Fiquei observando entre admirado e ansioso a lentidão do movimento do braço: primeiro, ele se deslocava para fora do disco, dava um suave sobressalto e se voltava para dentro, até o ponto exato do início dos sulcos, e então descia suavemente. Cerrei os olhos para ouvir com atenção. Ninguém. Nada. Silêncio. E ouvi, após o acorde inicial, o detonar de algo se quebrando. A cabeça se desintegrou em dezenas de pedaços.) 

Meu filho apenas andava e observava. (Ficamos muito tempo separados, depois do falecimento da mãe. Tânia foi um caso de amor doido e doído. Tanto tempo namorando, brigando, voltando, separando, até casarmos. Eu trabalhava como torneiro mecânico e pensava adorar meu trabalho, produzia minhas peças, segundo o projeto, sem surpresas, a fantasia se limitava a dois mícrons de diferença, o limite da tolerância entre a peça útil ou inútil. Quando a encontrei, senti um desarranjo tremendo. Tudo se mexia. Ela, posso dizer, era o oposto. Dava-lhe um trapo, e dali ela engendrava uma jóia. Sonhadora, extrovertida e com muitos amigos. Apaixonava ora um, ora outro, ora vários. Tinha muitos amigos. Nem sei dizer como nos atropelamos. Foi por meio de um amigo, com quem depois ela me traiu. Sim, foi isso. E eu? Me vinguei com a futura cunhada.)

- Como andam suas coisas, pai?
- Bem. Com os problemas de sempre, filho. E contigo?
- Fiquei com uma depê em Microeconomia.
- E a vida? Como o tem tratado?
- Normal.
- Filho, depois que casei com sua mãe, ela se transformou. Deixou tudo de lado, limitou suas opções a mim. Eu era muito ciumento e inseguro, e ela se encabulou. Deixou de representar, de dançar, de criar, e engravidou. E veio você, como ela, criativo e ousado. O mesmo interior, sem tirar nem por. A sua aparência é igual à minha. Mas a agitação é a dela.  A nossa única ligação era  gostar da casca dura, quase queimada, do pão. Fiquei com raiva disso, não tive coragem para compreender a sua pressa, agitação. A desobediência exacerbada de uma criança. Tinha ciúmes de você. A Tânia se tornou monótona, insegura, e o mimava, até que nos separamos. Eu não gostava mais dela. Tinha medo de vocês dois. Procurei outra mulher. Séria, trabalhadeira e metódica. Alguém que percorresse o caminho escolhido, sem desvios. Buscando a peça perfeita, esculpida e encarnada.
- Não esquenta, pai.
- Hoje, estou só. Faz tempo que não nos vemos. Sinto sua falta. Queria conversar mais com você. Eu conversei pouco com o meu pai. Ele também tinha a nossa cara. Esse cabelo fino e grudado, essa cara talhada a machado. Dele eu me lembro da frase: “Se não ganhar dinheiro, você não terá amigos e mulher. Cuide-se”. Será que eu conseguirei ser diferente dele?

Passamos por um grupo fazendo tai chi chuan. Liderados por um mestre oriental, movimentavam-se ao ritmo do vento balançando as árvores. Todos os galhos, braços, folhas e cabelos em uníssono. Emanava daquela lentidão uma força magnética, parecia impossível fazê-los parar, e nos atraía.

- Pai, eles não lembram aqueles guerreiros de terracota? O chinês nunca é singular, é sempre coletivo.
- Eles começaram o seu império pela força, dominando todos os vizinhos, fazendo o movimento das estrelas, anexando ou aniquilando os adversários. Crônica escrita e violenta da nossa espécie. A violência me fascina. Aquela coorte de guerreiros, um cúmulo, torna a morte coletiva, movimento. Isso anterior à razão. Estou certo de que ela é parte indissociável do homem. Violência e sexo são instintos natos. Todo o pacifismo é inútil, um cosmético, filho. Somos sobreviventes de uma matança de milhões de homens. À medida que aumentamos de número, a violência também aumentará, buscando equilíbrio. Nada pode ser feito. 

Andamos contra a corrente humana. Ao lado, sanfoneiros, rapazes fazendo embaixadas com bolinhas de tênis, pintores borrando suas telas, meninas atléticas olhando para os lados. Levo um tranco e fico sem a carteira. O ciclista nos ultrapassa novamente, suando em bicas, o cromado da bicicleta irradiando o sol.
Encontramos uma sósia perfeita de Tânia. Jovem, alegre, com uma cesta de vime, sobre a toalha alva, de onde oferece sonhos, polvilhados de açúcar, para as crianças que passeiam pela beira do lago. Sem perceber nos aproximamos dela. Fascinados pela coincidência, sentamos por ali.
Mostra a capa do seu livro: Stendhal. Logo estabelece uma conversa sobre Fabrizio Del Dongo. Uma história incrível, a da participação em Waterloo, como soldado. Apesar da movimentação das tropas e dos carros de combate, ele não conseguiu imaginar o que estava acontecendo, qual o papel daquela batalha ouvida ao longe. Considerava Napoleão uma estrela de primeira grandeza; alistou-se sem o consentimento do pai, pedindo ajuda à tia influente. O seu maior interesse era encontrar-se com ele. Nunca soube do acaso que determinou a ruína de seu herói. O homem tem tanta ilusão. Logo após esse episódio, conta de uma mulher apaixonada que perde seu marido para a Guerra Franco-Prussiana. Envilecida e humilhada, ainda em boa forma, consegue infectar de sífilis todo o Estado Maior prussiano, às custas de ser rejeitada por todos os concidadãos e pelo próprio marido, que sobreviveu a ela. Ela os atropelou e combateu a seu modo. Quantos pensamentos imperfeitos, não? “Desde o amanhecer haviam combatido pela Inglaterra e por seu dilatado império futuro e não sabiam disso.”
(Fiquei olhando, aterrorizado, as peças sobre o disco de vinil, rodando. Meus dedos grossos não conseguiam manejá-las. Nenhuma ferramenta para me auxiliar. Passei toda a tarde arrumando, ajeitando, encaixando. A minha vitória era fazer com que as peças ficassem juntas, de forma a parecer em ordem. Consegui, um pouco antes dele chegar. Coloquei o braço no repouso. Depois da janta, subi para meu quarto, até ouvir  a praga que ele soltou.)
Visitamos a exposição vinda de um país do norte da África: “O deserto não é silente.”
- Esqueci de contar, pai, vou ser guia no deserto.
Ao final do dia, observo que ele está me olhando. Procurando Macário Smerdiakov, seu pai? Estamos sentados à beira do lago, o perfil negro de um pato se forma ao atravessar o sol poente. Sobre nós, um galho seco com apenas uma pétala branca.


Ao sairmos, encontramos o ciclista. Coberto por uma capa de papel laminado, a bicicleta partida em dois pedaços. Foi atropelado. Nenhuma vela acesa. Apenas um guarda-sol aberto protegia o corpo, talvez simulando um beijo.

Mentaculus

Mulher recebe por engano 20 quilos de maconha pelo correio.
Atônita e com receio de ser acusada como cúmplice caso chamasse as autoridades, preferiu vender a mercadoria e consumir uma pequena parte. E com o resultado do seu trabalho transformado em dinheiro, foi à procura do remetente. Tencionou apresentar ao remetente distraído a prestação de contas, pagar pelo que consumiu e, quem sabe?, receber uma gratificação pelo gesto.
A venda não causou dissabores. A quantidade era muito pequena diante do número de pessoas que a procuraram. Filas se formaram, chamando a atenção de seus vizinhos, a quem explicou, em conversas banais, ter publicado um anúncio em um site de relacionamentos dizendo-se honesta, bonita, com idade de 25 a 37 anos, solteira, empregada, com salário anual de cinquenta mil dólares e inclinação sexual indefinida. Evitou colocar foto em virtude de sua timidez.
Todos os esforços na busca do remetente se mostraram inúteis. Ninguém o conhecia. Passou alguns dias naquela cidade, tentando obter pistas. Alugou um seriado, por indicação, chamado Weeds.
Pediu demissão do emprego, mudou de cidade e, utilizando os contados feitos por ocasião da venda do pacote original, tornou-se uma fornecedora habitual e discreta do produto.
Todos os dados pessoais foram omitidos a pedido da entrevistada. Ela também pediu para que deixássemos claro que ela nada recebeu para conceder a entrevista. Indagada se aconselha o consumo da erva, pediu a transcrição integral da resposta.
 “Não aconselho. A desordem psicológica, alimentar ou afetiva desaparece. O seu pensamento é um Gavião de Penacho, e tudo fica distante e sereno. Simurg. Compreende-se o Gato de Schröndiger. Você descobre que tudo é e não é. Sente o ruído finíssimo da chuva tocado pelo Kodo, e milhões de neutrinos atravessando seu corpo. Andar vestida ou despida não faz diferença. Oi, Teddy! O contato humano não é mais hostil. O vazio dá muito medo. Volto à infância. Quero mandar meu abraço para o Farid Attar.”
Homem perde controle de veículo enquanto fazia sexo e destrói casa.
O casal, morador do condomínio Pomar, saiu da cozinha e foi para a sala de estar conversando sobre o conteúdo do relatório final da pesquisa a ser enviado para cientistas britânicos. Um grupo de aproximadamente quinhentas pessoas concordou em avaliar o seu desempenho sexual mediante o uso de preservativos de tamanhos inadequados. O quanto isso atrapalha, ou não, a relação sexual. O marido é engenheiro e elaborou uma planilha com todas as tentativas efetuadas, a data, a hora, bem como o tamanho da camisinha utilizada e o resultado final, se o orgasmo foi atingido, pleno, parcial ou falhado. Se houve ou não irritação da genitália do marido, ou da mulher, ou de ambos. Capacidade de deslize, sensibilidade.
Nesse momento, ouviram um estrondo, como uma pancada e um rangido de coisas se partindo, e correram em sua direção. Encontraram a cozinha e a lavanderia inteiramente destruídas. Dentro, uma caminhonete Dodge soltava fumaça. Como se estivesse com raiva de estar ali. Abriram a porta. Encontraram um casal. Desmaiado. Dispostos a encontrar os ferimentos, interromperam a busca, boquiabertos.
Não desmaiaram com o acidente. Estavam parcialmente nus. Da cintura para baixo. Em posição de repouso, após o ato. Plácidos e satisfeitos. Despertaram às custas de água fria. Tomando conhecimento dos danos causados. Sem demonstrar inibição, os jovens, aparentando vinte e cinco anos, relataram sua aventura. Tinham acabado de assistir ao filme Crash. Gostaram muito, principalmente das cenas de sexo dentro dos automóveis e das perseguições e acidentes. Queriam saber se o prazer seria, de fato, maior do que o normal. Escolheram correr pelas ruas do seu condomínio, por questões de segurança. Declararam não imaginar que o prazer fosse tão grande ao ponto de fazê-los desmaiar. Não sabiam informar se a ingestão de álcool contribuiu para o efeito. Informaram que os pais se responsabilizariam pelos prejuízos: cinquenta mil dólares. O rapaz foi preso, acusado de dirigir alcoolizado.
Diante do estado em que ficou a residência o casal se transferiu para um hotel próximo. Lá, o marido tentava terminar o relatório. E chegou à conclusão: o tamanho é fundamental. Os fabricantes deveriam alterar a classificação do produto: de pequeno, médio, grande, super. Para: grande, super e gigante. Perguntou a opinião da esposa: “Timing é tudo”.
Raposa no galinheiro.
Veio de Basildon, Essex, a notícia de um galo chamado Dude. Ele se livrou de uma raposa quando de sua última e sorrateira visita ao galinheiro. Ela, por sua vez, era reincidente, invadiu o galinheiro no último Natal, chupando todos os ovos e matando uma galinha. A proprietária, Miss Marple, 43 anos, logo se esqueceu do incidente; mas o galo, não. Hoje ao retirar os ovos para o café-da-manhã, percebeu a confusão. O poleiro, em forma de tábua, caído no chão, e sob ele o corpo inerte e frio da raposa, coberta de sangue, da cabeça às patas. O local não foi invadido, não há nenhum vestígio  estranho, tudo em paz, exceto as marcas das diversas bicadas na cabeça do animal. E concluiu: “Foi o meu carijó, de quem já levei várias corridas, com a ajuda das meninas, o autor do crime”. 
O fato, divulgado no jornal do Metrô de Londres, foi lido por uma diplomata brasileira, na cidade em visita de negócios. Ela tinha acabado de participar, vestida de baiana, do debate no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Preocupada, cuidou de fazer contato com a editoria do jornal para conseguir alguns números extras da edição. Queria enviá-los aos eus superiores. E também para o marido, torcedor do Cruzeiro.
Vocês viram La Fontaine?
A revisão das fábulas parece não ter fim.  Notícias dando conta do contrato de milhões, assinado pela cigarra para as próximas temporadas na Broadway, turbaram o ambiente no formigueiro. As formigas devotadas ao trabalho, principalmente as operárias, confessam a tremenda humilhação diante das outras pela ordinária preocupação com o inverno, com os grãos e a economia para os tempos de escassez. Apesar das acusações de exagero contra a imprensa, a cigarra nunca mais apareceu para pedir abrigo. As conhecidas amigas do trabalho estão reticentes no trabalho duro, pensando em fazer um curso de canto, dança ou mágica.
Enquanto isso, na cidade de Dongguam, Província de Cantão, Xiang Jun, 26 anos, está desempregado e seus esforços para encontrar trabalho resultam em nada.  Gastou suas últimas moedas fabulando uma solução. Após beber uma boa quantidade de aguardente de arroz, subiu em uma torre de fios de alta tensão e ali dançou como equilibrista. As autoridades se apressaram a desligar a energia, e durante quatro horas tentaram convencê-lo a descer de lá. Conseguiram depois de prometer conseguir trabalho em um formigueiro local. Satisfeito, ele deixou o corpo cair sobre um colchão cheio de ar.  A imprensa local (Guandong Daily) não noticiou o fato.

Singuratat

“Sei que sou totalmente indigno de opinar em matéria política,
 mas talvez me seja perdoado acrescentar que descreio da democracia,
 esse curioso abuso da estatística.” J.L.Borges

Chego após conseguir me livrar da cidade congestionada. Um dia exaustivo, calor, umidade, pressão, ansiedade, interesses, negócios. Solto o colarinho, tiro a gravata e o paletó, e os coloco no devido lugar. Estranho o ambiente arrumado, as crianças na casa dos amiguinhos, o inabitual jantar prestes a ser servido. Trocamos beijos de boa noite. Elena está vestida de preto, em contraste marcante com sua pele muito branca. Lembra-me daquela que conheci.
Trouxe um documentário para assistirmos: Singuratat. Abrir a janela, esquecer dos meus problemas.
Conta a história de um casal e sua vida em um país europeu antigo, ex-colônia do império Romano, pobre, na região dos Cárpatos. Ele, filho de lavradores, com pouco estudo e muita força de vontade, subiu na hierarquia do poder graças ao seu senso de oportunidade. Ela também veio do campo. Frequentou por alguns anos o ensino fundamental, destacou-se em bordado.
Quando surgiu a chance de conduzir o país, ele se apresentou. Trouxe consigo a esposa, parentes, e amigos.  Administrava a nação como a sua casa. O momento econômico era favorável e o inimigo estrangeiro estava afastado para sempre. “O sucesso seria dividido apenas entre nós, e ninguém mais.”
Usou de toda a sua energia. Não se intimidou diante das dificuldades e as ultrapassou, passando por cima de todos que ousassem divergir de seu pensamento. Construiu uma rede de informações; contratou os melhores poetas, artistas e engenheiros. Encenou muitos espetáculos, contando a sua visão peculiar da História. Lembrou de reis e lutas o passado. Deixou que o chamassem de Pai da Pátria. Exilou os dissidentes. Tratou de construir e de comemorar. Erigiu palácios e distribuiu moradias. Sagrou uma comunhão eterna. Acumulou fortuna. Graças ao tempo em que trabalhou como secretária em uma indústria química, sua mulher era tratada, por exigência dele, como cientista de renome internacional. Os revisores eram punidos por qualquer erro de grafia nos seus nomes. Controlava toda a programação da tevê, imprimiu um minucioso manual das cenas, ângulos e situações permitidas. Governava por meio das imagens.
Espalhou o medo. Todos tinham medo de falar, de contestar, de apresentar qualquer sugestão. A liberdade se reduziu aos bilhetes com pedidos de casamento colocados nos bolsos dos paletós pelas operárias da indústria. Obedeciam-no submissos. Cada concessão era um pedaço oferecido pela consorte. Seus pedidos não pararam. Ao se reeleger, recebeu um cetro dourado, obra especial de seu joalheiro.
Depois de vinte anos de prosperidade, como sempre, as coisas mudaram. Toda a produção passou a ser vendida para pagar as contas. O dinheiro escasseou. Havia pouca comida. A quantidade de insatisfeitos aumentou. Ele foi para o estrangeiro e pediu dinheiro emprestado mostrando seus planos mirabolantes de sucesso no futuro. Iniciou o processo de compra de aviões de um reino distante. Para tal, exigiu ser recebido com a máxima pompa oferecida a um Chefe de Estado. Desfilou imponente perante multidões. Sua mulher foi laureada pelo Instituto Real de Química. A negociação fracassou quando ofereceu produtos agrícolas como pagamento.
Recusou todas as sugestões de mudança. Ignorou as deserções. “Todos traidores, vermes oportunistas.” Era comum o “suicídio” do responsável.   Os subordinados não mostravam os relatórios desagradáveis. Considerava-se o pastor de seu povo, e compreendia ter chegado a época das pragas do Egito. Tinha o filho, um bêbado e jogador inveterado, como sucessor.
Assistiu naquela noite à história do presidente que tanto admirava. Repetiu várias vezes a cena do cortejo na Dealey Plaza. O conversível deslizando solene. Os acenos para o povo, exatamente como ele fazia. As bandeiras.  A emoção transbordante daquela união entre o povo e o pai. Sentiu fisicamente o amor daquela esposa se jogando para trás a fim de defender o marido. A bala que esmigalhou a cabeça dele restou como um detalhe menor.
Ninguém ousou contestar a sua decisão de reunir o povo. Anunciar suas ordens. Prever um futuro brilhante. Pregar paciência e luta. Na praça de costume, o palco para seu discurso transmitido ao vivo para todo o reino. E, no transcorrer da transmissão, uma confusão prendeu a sua atenção e brecou sua fala. Viu o paraplégico se levantar da cadeira de rodas. A multidão gritava palavras de ordem e quebrava a Ordem. Aquele fragor se dirigia a ele: “Liberdade, liberdade”. Alguém cochichou: “Eles tomaram o prédio”. Ele e a mulher fugiram em um helicóptero, obrigando o piloto a decolar sob a mira de um revólver.
O casamento estava desfeito. A população dominou as instalações da tevê estatal.  Retirou as câmeras do almoxarifado e passou a gravar todos os seus movimentos. O poder se estilhaçou. Os rebeldes encontraram escondido o Primeiro Ministro e o colocaram no ar exigindo, segundo as leis vigentes, que renunciasse. “Nós queremos ficar na legalidade.” Mostravam cenas de soldados se abraçando aos manifestantes. Invadiram o prédio do comitê central e jogaram pela janela centenas de livros. Queriam encontrar os simpatizantes do ditador. Os integrantes da polícia secreta. Quase ninguém aparecia. Todos apresentavam documentos de identidade,  provando inocência. “São documentos falsos”, ouvia-se uma voz  sem rosto. Encontrou-se o filho do casal. Estava com a testa ferida, um filete de sangue, o olhar esgazeado, parecia não compreender o que estava ocorrendo.
O julgamento da dupla foi transmitido ao vivo. Apesar de nervosos, ele sempre aquietava a mão dela com a sua. Queria ter a última palavra, o último argumento. Mas era necessária a imagem; a palavra perdera integralmente o seu valor de informação, de transformação. A imagem reinava soberana. A imagem e a bala.
Ambos foram executados, a câmera conferindo as identidades dele e dela, em close, mostrando os procedimentos adotados para a acomodação dos corpos aos respectivos caixões. “Talvez aqueles sacrifícios fossem capazes de reconstituir aquele corpo quebrado, devastado e nu?”
Logo após o término do documentário, a esposa se aproxima, senta e diz: “Nicolau, precisamos conversar”.

Peixe-Palhaço

Dinheiro é como eletricidade. Chocante quando em doses moderadas,
letal quando aplicado em excesso. Injeção letal é mais humano. I.Lessa
Houve um acordo tácito para encontrar o quarto jogador de nossa mesa. Nada foi falado, nada foi alterado. O ar, intrometido entre nós, é um pouco diferente: mais denso, quer evitar um contato direto entre as pessoas; também permaneceu um halo, às vezes percebido com o giro repentino da cabeça.
Sultana insiste em dormir próxima à Nega Luísa. Lindinha está em férias, desapareceu por uns tempos. O sabiá-una persiste em sua melodia. Ao ouvi-la atentamente, percebemos também uma leve modificação no timbre, no tom, no vigor.
Algumas pessoas têm comparecido para nos acompanhar por uma, duas ou três rodadas. Algo as expele. Etéreo. Irredimível.
Surge Tom Shakespeare. Veio do distante norte. Uma figura simpática que ganhou as folhas ao receber uma bolada na loteca, e mais: as telas da tevê. Foi quando desapareceu. Declarou a todos que não mudaria em nada a sua vida, mas enfrentou muitas dificuldades. Fugiu, brigou, desequilibrou-se, e morreu. Várias vezes. O mundo se aproximou muito dele, e fez notar que não haveria lugar e muito menos quem acreditasse nele. Ele deixou de ouvir música, beber, e começou a ter de explicar, falar, conversar, opinar, refletir. O cérebro dele passou a ser privilegiado. As mulheres o achavam lindo, era requisitado. A sua última namorada precisava muito de dinheiro, que ele deu. Mas não o suficiente. Jamais seria o suficiente.  Ele resolveu se mudar, uma pequena alteração, ficando por ali mesmo nas redondezas. Comprou um belo relógio numa loja de penhores, pagou alguns velórios e dívidas dos amigos. Depois de um tempo, o xerife desconfiou de algo e começou a investigar seu provável homicídio. Abriram covas nas casas, a nova e a antiga. Seu desaparecimento foi convertido em busca de corpo e a namorada foi a principal suspeita.
Paris, França. Soube, pelo noticiário da tevê, que Jean-Claude Duvalier foi premiado com uma grande soma de dinheiro. Queria aprender com ele. Sabia que morava em Paris; sabia, pois, o suficiente. Descobriu também uma insuspeita habilidade para aprender as línguas dos homens. Com algumas semanas, conseguiu emprego na casa dele, como assistente de cozinha. O fato de comer muito pouco foi decisivo na sua contratação.  Passados seis meses, demitiu-se. Tinha visto tudo. Viveu a história daquele homem e não a queria para si. Um constante beija-mão aos benfeitores e banqueiros. Jogava paciência contra o tempo, mulheres, amantes, objetos, coleções e pessoas contratadas para mentir. Bajuladores. Ele já vivia imóvel. 
Assistiu a uma reportagem sobre a vida de Hailê Selassiê. Ficou impressionado com alguns fatos de sua vida. Apesar dos constantes banquetes em que comparecia, comia pouco. Quase nada, apenas roçava o prato e mastigava interminavelmente o pequeno bocado levado à boca. Seus lábios apenas se abriam após um esforço sobre-humano. Levava sempre alguém consigo para ouvir o que ele sussurrava. Uma ponte levadiça para o mundo. O repórter disse como fecho da história: “… ele sabia que, quando alguém, armado, ultrapassa a própria história, esse alguém deve morrer”.
Despencou em nossa mesa. O Zé e o Esmérdia o aceitaram e ele virou o Big. A sultana e a Nega olharam de lado, sem emitir opinião alguma. Aprendeu o mahjong e o dominó. Era fã deste por ser rápido e prático.  Ainda estava descobrindo o país, sua gente, e o calor e o frio. Sem extremos.  Tudo parece diferente. Móvel. Um parque de diversões.
Vestia um colar chamado Dadá. Era assim que o Zé o chamava. Um colar. Vivia às voltas com seu livro: Você merece. Escrevia e reescrevia. As palavras iam e vinham.  Queria escrever um livro para o primeiro lugar na lista dos mais vendidos. Big prometera ajudar. E para isso queria exatamente pegar o tom, o ritmo, passar as idéias, pensamentos. “Você gosta dele?”, perguntei. “Já gosto dele; é simples gostar. Basta dizer o que ele quer ouvir, precisa ouvir, não é fácil viver com o mundo em silêncio. Isto é a beleza. Anseios iguais. Um texto que salva. Se o leitor quer o bem; que esteja de bom humor. Sempre há esperança.” “Gostar do igual é gostar de si mesmo?”, insisti. “Cara, eu só quero vender livros. Refletir? É angustiante. Ele quer salvação. Imortalizar-se. Ele precisa de alguém dizendo que ele pode. O dia todo. Toda hora. Basta abrir o livro e tomar uma drágea: ler uma página.”
História na tevê. As catacumbas dos católicos. Durante os primeiros séculos, os cristãos se abrigaram em cidades subterrâneas para fugir da fúria dos romanos. Os revolucionários americanos e maçons construíram seus túneis em Filadélfia para fugir dos impostos dos ingleses. Na Itália, as catacumbas hoje são depósitos de corpos e mercadorias. A instituição se transformou em uma Cosa Nostra e desafia o poder.  Na Segunda Grande Guerra, a América enviou seu agente especial Lucky Luciano para facilitar a invasão dos aliados contra o despotismo do ditador. Luciano trabalhou com eficácia e ganhou liberdade total de ação. Ele conseguiu ser um homem do subterrâneo e da cidade. Serviu ao crime, à cúria, à malta, escorregou por entre as malhas, conservou seu dinheiro e o doou aos pobres ao fim de sua vida. Abordava turistas apenas para ouvir seu idioma natal.
Big vencia quase sempre. “Sorte de iniciante”, resmungava Smérdia.  Parecia que a sorte escolhia o novato para prendê-lo conosco. Ele nos levou a uma praia, em um final de semana. Deserta. Com um morro em cada ponta: Monte H e Morro do Americano. Após comermos peixe na brasa com os pescadores na praia, subimos pela coxilha até o ponto ideal. Ali ficamos olhando. À nossa direita, podíamos observar o sol se encaminhar rumo ao pico do monte. Ouvimos que, nesta época do ano, ele cai exatamente em cima daquela ponta. Nossa atenção foi chamada pela luta de um vaqueiro para laçar um touro nas proximidades. Uma batalha. Couro, cordas, chifres, músculos, fúria, força, esperteza, dominação. Ambos saíram feridos. “Estou acostumado com isso. Esse animal tem três anos, viveu à vontade, e agora vai para o estábulo. Vou preparar o bicho para cobertura”, explicou o vaqueiro. Big perguntou: “Como é a doma?” “É simples: não reaja. Ele vai jogar você no chão, quebrar tudo, corcovear, escoicear, chifrar. Deixe. Não reaja. E ele ficará seu amigo”, e mostrou uma cicatriz de trinta pontos no antebraço.
Ao final de tarde, o sol foi penetrado pelo pico do monte. Uma sagração majestosa destacada da linha do horizonte. O calor era temperado pelo vento noroeste que soprava constante; tudo estava próximo e ameno. As trilhas por entre o verde sinuoso eram convidativas às descobertas.  A paz se espalhou no ambiente. Uma cerimônia. Até que ele se escondesse com a luz.
Big nos contou que sempre foi auxiliar, desde os três anos: de caminhoneiro, de cozinha, de lenhador e vaqueiro. Conseguiu um trabalho em um circo. Caminhará, de ora em diante, com ele, até aprender o ofício de malabarista e de trapezista. Abrirá outras portas do mundo. Era a sua despedida. Quando e se atingisse Aden, consideraria vender armas.
Descemos à praia, procurando pouso. Noitinha fresca, a lua despontou no horizonte, na direção oposta, redonda e vermelha, nítida e próxima, oferecendo um foco cálido de luz. Só marulho, areia, pedras e estrelas no céu e, faiscantes, no mar. Seria o fruto daquela união? Iluminou uma orquídea catléia madura e da mesma cor, ao nosso lado.

Artur Alves Reis

“Viveu, bem vividos, noventa e oito anos. “Português da gema”, como gostava de dizer, dando um acento carioca à origem e denunciando seu apaixonado gosto pelo pastel de Santa Clara.”

continua em Histórias Possíveis # 56 ; ficarei muito feliz com sua leitura e (quem sabe ?), comentários.

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