Tag ‘Cegueira’

Presépio

El Pulmón

 

Presépio

 

 

Por que, até, perguntar por quê?

Por que não apenas descrever e depois

 deixar que a descrição responda

 a todos os porquês cabíveis?

Gore Vidal

 

 

Dia de trabalho duro na creche abarrotada de crianças. Uma correria natalina sem fim, pessoas indo e voltando. O recorte do jornal não descrevia o ramo da atividade, apenas listava as exigências para o exercício da função. Passei algumas horas, em dias alternados, participando do processo de seleção.

Olhando pela bandeira envidraçada das portas, conversando, imagino aquele negócio como pouco lucrativo, mal rendendo para uma pessoa viver. No entanto, ele surpreende o observador: constituído por dois sócios, ainda que bem diferentes. Um fez dali um refúgio para a aplicação de seu dinheiro, ou melhor, do excesso dele. Ele já tinha uma fonte de renda que o abastecia, e bem. Era funcionário público de carreira, obtivera o cargo que ocupava graças à influência política. A hipótese do rendimento ridículo nos dá o direito de pensar que ele pretendia obter prestígio, ganho indireto, não financeiro? Perseguir a imagem de um benfeitor? Ou atender ao pedido de algum chefão? Ou, quem sabe, a carreira na vida pública (todos voltados ao bem estar social), sendo homem de instrução rarefeita (primeiro grau incompleto) em meio a tantos bacharéis e doutores, moldara nele a exigência patológica de ser respeitado? Bem, já que tudo é vaidade, ela pode se manifestar nas mais curiosas e impossíveis atitudes. Uma delas, quiçá a mais curiosa, foi a matrícula deste homem (aos cinquenta anos) em um curso superior (curso vago) com presença livre, localizado em outro Estado. Curso em que compareceu apenas para fazer a inscrição.  E esta lhe rendeu poucas e decisivas (sempre dizia) linhas em seu currículo, suficientes para justificar sua indicação ao cargo de (sub) Chefe da Casa Civil do Governo do Estado.  Função que não lhe rendeu outra coisa além de distribuir muletas, covas, dentaduras e pernas mecânicas. Dinheiro? Nenhum. (Seu bordão predileto: “Dinheiro pouco, tenho muito. Dinheiro muito, tenho pouco”.) Frequentava aquela creche da mesma forma que o emprego e a faculdade, só para fazer contatos sociais e reafirmar a sua autoridade como patrão. A creche e seus problemas exigiam muito do seu tempo, e a única solução que encontrou foi a contratação de um assistente. Com ele, conseguiria tempo para se libertar dos maiores problemas.

Candidatou-se para a vaga um rapaz que acabara de terminar o primeiro ciclo. De aspecto saudável, um sorriso alvo e constante, que aparecia tão logo percebia a aproximação de alguém. Um irradiador de confiança e proximidade. Mostrou-se ambicioso e cheio de planos. O empresário relutara muito antes da admissão, o olhar do rapaz era errático e vago, insistindo em não se fixar no interlocutor, se prendendo nos locais mais disparatados. Ele não usava óculos escuros para ocultar a cegueira. Os olhos não eram vazados, mas opacos, e pareciam querer fugir da morbidez do interlocutor; só depois de algum tempo de conversa amena ao som agradável daquela voz, eles libertavam o olhar alheio daquela atração hipnótica. O entrevistador duvidou que ele pudesse desempenhar as funções sem enxergar. Entretanto, como não o conseguira despachar de pronto, o encabulado entrevistador, levado pela conversa agradável, pelas histórias divertidas que ouvia, de como ele fazia para conseguir o que precisava, exibindo acima de tudo a sua independência, acabou por admiti-lo. As constantes interrupções durante a entrevista, causadas por problemas que exigiam solução imediata, ajudaram muito nessa decisão. A premência e o desembaraço do candidato solaparam a dúvida. Imediatamente sentiu seu peito inundado pelo efeito de uma boa ação. Sentiu-se um ser superior.

Praticamente não se via a cegueira nele, nada a denunciava. Simpático, armado do sorriso, tudo funcionava. Ele se especializara em diluir, esfumaçar aquela insistente perplexidade inicial. O cego logo tomou conhecimento da rotina do lugar e acompanhava tudo e todos bem de perto.  ‘Macaco gordo’, aquele que quebra qualquer galho, era o que se comentava dentre os demais. Desde o primeiro dia, chegou bem cedo. Natural, ele colocou a mão no ombro de alguém, como se fosse um amigo antigo, pediu que o levassem até a recepção e ali se sentou. Depois de se apresentar, ficou ao lado do telefonista (um refugiado político), ouvindo como ele atendia aos chamados. Sendo ambos novatos, reagiam às perguntas usando o bom senso, distribuindo as chamadas para os ramais pedidos. Nada demais. Até que alguém perguntou qual era o número daquele telefone. O telefonista não sabia. Parou. Ficou olhando, hesitante, pensativo. Quando fixou o olhar no teclado, formou-se a imagem da resposta e foi dizendo: “O nosso número é 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e zero”. O cego exclamou: ”Não, não. Não é nada disso”.

O ceguinho se definia como alguém que trabalhava para viver, sua dieta era “não trabalha, não come”. Ele pontificava sua história, orgulhoso, agora como sócio, tendo começado como ajudante de telefonista. Alguém que olhou atentamente todo o panorama, participou dele, ombro a ombro, para só então modificá-lo.  Organizou uma rotina de trabalho, distribuídas segundo as características de cada empregado.  Ele se transformara em cada um deles. Fizera estágio em todos os departamentos: na limpeza, na cozinha, na brinquedoteca, na lavanderia. Acompanhara as entregas de mercadoria, a estocagem, os prazos de vencimento.  Entrevistara os pais, conversara com as crianças, atendera suas necessidades, antecipara seus desejos. Estivera obcecado para sair daquela amargura de viver da “mão para a boca”. Sempre adepto do trabalho intenso, da rapidez e da simplicidade, desprezava qualquer comportamento diferente desse. Enfurecia-se quando percebia desleixo, desrespeito e futilidades. E, no íntimo, antes de dormir, cansado, ficava sonhando com a oportunidade de se tornar sócio. E aconteceu quando ele já havia poupado o suficiente para comprar boa parte das ações. Ele também pensara na “segurança” que o cargo de sócio lhe daria. Excluía a terrível hipótese da demissão (um horror secreto dele). Essa obsessão, que ele pensava secreta, invisível, também agia sob os dois gumes da segurança e da insegurança. Ao ver os relatórios financeiros, tinha certeza de que fizera um mau negócio. Acreditava que poderia mudar isso. Não sabia como. Faltavam novas ideias, as informações. E desatou a estudar. Foi procurar o que precisava. Devia haver uma saída.

Imaginando a creche como um mecanismo de precisão, principiou apertando ao máximo todos os torniquetes da máquina. Intensificou, descreveu e dividiu todo o trabalho em uma sequência de tarefas uniformes, transformou as pessoas em peças de linha de montagem. Para cada tempo, um movimento. Cada um fazia uma determinada função, sempre igual, e com um mínimo de imprevistos. Eliminou qualquer diversidade. Diminuiu drasticamente o número de empregados.  Estava no centro de Santo Amaro, um lugar que se transformou, com o tempo, de cidade autônoma em bairro de periferia. Dos colonos alemães para os retirantes nordestinos. Crianças e adultos abandonados à própria sorte. Apenas com lugares para dormir, e ônibus à vontade, indo e voltando, levando e trazendo trabalhadores, que não tinham renda, tampouco tempo para mais nada. Depois desse aperto, conseguiu diminuir o valor das mensalidades e aumentar o número de crianças até o limite do inimaginável. Não havia espaço para mais ninguém.

Um dia, os sócios foram convidados para uma festa. Um acaso feliz. Raramente frequentavam o mesmo lugar. O temperamento social e amistoso de um contrastava com o isolamento do outro. Este não conseguia ver graça alguma na atividade social, exceto com seus poucos e fieis amigos; preferia o prazer de sentir a transformação das letras em frases, formando histórias. Entretanto, o convite veio de um amigo e cliente, era impossível recusar. E não se arrependeram. Submeteram-se a vários acontecimentos extraordinários, além da grata surpresa de serem recebidos com música. Cânticos de tempos antigos, já perdidos, em uma língua que desconhecia.  E, por algum sortilégio, a melodia, a harmonia e a letra abraçavam a alma do ouvinte por vários lados. Primeiro, mais alegre e festivo, da comemoração; mas logo outro se aproximava, melancólico, talvez por efeito da percussão. A letra acompanhava o ritmo, deixando o sabor da saudade da antiga terra e da esperança do novo lar na boca do ouvinte. A alma se descobriu maior que a soma das partes. O cego apenas as conhecia desconectadas. A complexidade foi uma grande novidade. Era a festa da páscoa judaica. Do povo judeu. Uma celebração da peregrinação, do caminho árido no deserto. Daquele deserto, que de vez em quando nos chama para a contemplação. A música é a suma dessa aspereza, dessa busca do imponderável e inacessível.

A originalidade não se resumia a isso, e tampouco a comida, tudo era diferente, desde os nomes que não conseguia entender até os sabores, diferentes, exóticos e deliciosos. Doce com salgado. Cebola e mel. Peixe e ravióli. Maçã e farinha. Não ao fermento. A rotina monótona do seu paladar explodiu, desapareceu. Antes de se começar a comer, foi lido um livro pelos familiares. Cada um relatava seu trecho. Oraram em hebraico.

Para um dos sócios, ocorreu a revelação do lado escuro da lua. Não conseguia conceber que seu amigo tivesse tradições tão diferentes, tão majestosas.  Tão ricas e estranhas. Foram os sons, os sabores, a complexidade da alma. Havia lido alguma coisa sobre o poder das tradições judaicas, porém a música transmitiu uma materialidade daquilo tudo. Apesar de não entender nada, soube e viu tudo o que havia de ver dentro dele.  Ele soube que sua cegueira revelava coisas obscuras aos demais. Entraria para a confraria dos cegos?  O sócio puxou-o de lado e, entusiasmado, relatava tudo que estava desfilando, as roupas, as joias, os enfeites. Foi uma das raras vezes em que se aproximaram.

Do nada, surgiu um casal dançando agarradinho. Jovens de quinze ou dezesseis anos. Ela possuía traços mongóis, contrastando com o loiro dos cabelos e a pele muito claros. Coisa de judeu russo, disse alguém. Ele, o sobrinho do cliente, era um rapaz moreno, cabelos crespos e fartos, robusto, sem nenhum traço particular.  Havia algo nele que chamava a atenção, porém ficava embaçado na sua imagem. Até que o mistério foi dissolvido pelo amigo que os convidara. Perguntando se tudo estava bem, se havia algo que poderia fazer por eles, ao mesmo tempo os convidava para sentar à sua mesa, como convidados de honra. Ali foram informados das rezas, dos significados das comidas e das canções, ouviram nomes exóticos, logo esquecidos. E o cego, curioso, perguntou daquele casal: “Por que só eles estavam dançando? Por que ninguém, além das crianças, os acompanhava?” “Ah! Eles são assim mesmo. Não ligam para essas convenções. Ela é muito alegre, divertida, ninguém nota, a não ser depois de algum tempo, que é portadora de Down.” E o amigo continuou: “Orgulha-se de ser diferente na risca da palma da mão. Seu atraso é bem leve, quase imperceptível. Ele, o sobrinho, sofreu uma lesão cerebral leve, adquirida em um parto muito longo. Bonito, moreno e forte, enrola a língua ao falar. O dano torna a fala quase incompreensível em suas pausas longas e sons guturais. As pessoas sempre querem terminar a frase por ele, tentam acertar o que ele quer dizer. Erram sempre, claro, e o deixam nervoso, ansioso”. Dançando, estavam felizes e sorridentes.

Depois de algum tempo, os dançarinos se aproximaram das mesas. Cada um sentou-se ao lado dos seus familiares. Famílias muito ricas que ajustavam, discretamente, o casamento deles. A menina olhava para a mãe e, indicando o menino, fez um sinal característico de apontar a mão para a boca, intermitente, a mão bem fechada, exceto pelo polegar e o mindinho esticados para cima, sugerindo que: “Ele está bêbado”. Por seu lado, o menino se aproximava do pai e, mostrando a menina, fazia gestos frenéticos com a mão para dar ênfase em suas palavras. O indicador apontando para o ouvido e girando insistentemente. “Ela é louca.” E todos desataram a gargalhar.

Na volta para casa, o sócio investidor disse para o cego: “Que pena, não? Gente tão rica e tão desafortunada. O que adianta ter helicóptero para levar os meninos para todo lugar? De que adianta tanto dinheiro?”. E enfileirou mais uma série de demagogias emocionais ou preconceitos sentimentais semelhantes. O cego desanimou de continuar a conversa, limitou-se a ouvir.

A festa, seus cânticos, suas demonstrações de riqueza e poder, tudo isso lhe transmitiu alguns ensinamentos.

O primeiro sócio usou o seu tempo livre para iniciar um novo negócio. Gastou grande quantidade de seu capital para abrir um salão de recepções. Lugar de reunião das pessoas para fazer celebrações, bodas, campanhas.  Como frequentador assíduo delas, acreditava que possuía conhecimento necessário para prepará-las e cobrar por isso. O cego, por sua vez, deslumbrado com aquelas famílias, percebeu que os ricos também tinham seus deficientes, membros com corpos e mentes devastados que precisavam de cuidado. Elas eram famílias como todas as outras que ele já conhecia. Nem sempre o casamento era uma forma plausível de solução. Pensou mais, que aquele local no centro do bairro periférico era inapropriado e inseguro. Precisava de um lugar mais arborizado, com mais “qualidade de vida”. E tratou de encontrar o lugar “certo”. Encontrou uma casa senhorial, que passava a impressão de ser habitada por gente de bem. Um ótimo sinal para se cobrar um preço diferente. Enquanto um se embriagava com as festas, frequentadas por pessoas com cartão de boca-livre, o ceguinho se empenhou no treinamento de boas maneiras, em procedimentos especializados, contratando estagiários em fisioterapia, fisiatria, todos com salário de fome, é verdade, mas ambição de fazer dinheiro, e para isso se sujeitando a qualquer trabalho.

Se o ceguinho fazia as coisas pela intuição, o conhecimento trouxe novas possibilidades para ele. Por exemplo, pôde testar seu poder de convencimento com as mulheres.  Conhecia as jovens e bonitas pelo cheiro e pelo tato. Aproveitou a oportunidade e trocou quase todos os funcionários antigos por novos, na idade e no comportamento, a grande maioria do sexo feminino. Fez da creche uma extensão da sua família. Uma vez atraídas para junto de si, usava de todos seus argumentos para conquistá-las. Ele sempre dizia que precisava de uma mulher o elogiando o tempo todo. Claro que a estratégia era óbvia demais, apesar das incessantes negativas dele.  As meninas, logo depois de conquistadas, corriam e avisavam às demais. Mesmo com toda essa algaravia, nada mudava. A sequência continuava seu ritmo. Uma depois da outra. Diziam todas elas que, para o cego, cada conquista bem sucedida só confirmava sua tese, cínica, cretina, sobre o interesse. Isso não se chamava amor, tampouco amor fraterno, era outro negócio, o interesse pela riqueza de bens ou segurança e satisfação que a companhia dá. Segundo elas, isso tudo era uma armadilha, sem saída possível. De nada adiantava ele se declarar um monogâmico serial e fiel. Conquistava e as jogava fora. Não parecia ter consciência de que esse era um jogo inevitável e sem saída para elas. Não se envolvia emocionalmente, não se entregava. Ao encerrar o ciclo de cada mulher, ele enchia o peito de orgulho e afirmava que nenhuma delas ficava desemparada, abandonada. Cada fim de caso, pacífico ou tempestuoso, só ocorria quando a moça se empregasse em outro local, ou mesmo arranjasse um casamento. Apesar de tudo, ele jamais foi acusado de ser um homem sem escrúpulos. E escrúpulo, para ele, era isso: ninguém ficava na rua da amargura. Não havia nem amor, nem ódio. Apenas conveniência.

A empresa prosperou rapidamente. A quantidade de clientes diminuiu e a renda aumentou. As mensalidades subiram exponencialmente. Ele fazia aumentos sucessivos, até atingir o que considerava uma porcentagem razoável da renda familiar do doente. Cada cliente era uma renda vitalícia. Quanto melhor cuidasse, mais tempo teria de ‘aluguel’. Escolheu como tesoureira a menina a quem prometera, pela primeira vez, casamento. Isso lhe assegurava a sua lealdade. Além disso, ensinou-a a fazer poupança. Nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Era metódica e foi bem fácil treiná-la para obedecer às suas ordens. O cegueta manipulava a conta caixa. Desviava o lucro para sua própria conta. A empresa, no papel continuava deficitária pelo aumento excessivo dos custos. Bastava ele declarar uma despesa para que ela se tornasse realidade, até que o lucro zerasse. E o cego continuava solteiro.

O convívio entre os sócios se tornou ainda mais distante. Ambos viviam dentro de bolhas flutuantes que raramente se tocavam, e, quando isso ocorria, por força de algum vento assoprado de algum lugar ou por falta de espaço, o toque se dava naquela casca tênue, que se costuma chamar de “polidez”. Um breve toque, um curto diálogo, e logo elas se separavam. O capitalista estava habituado com o prejuízo, pois, se jamais tivera lucro, por experiência, com as modificações ou sem elas, continuava na mesma. Ele não atinou nada, a sua bolha toda ocupada com seu novo negócio e suas três mulheres. Ambos trabalhavam da mesma forma, e o negócio continuava aparentemente igual. O capitalista economizara o salário do funcionário, tornando-o sócio. Considerava que fizera um bom negócio. Em determinados momentos do dia, na sua passagem diária pela sala do cego, observava atentamente o seu comportamento obstinado, a cabeça afundada na mesa de trabalho, absorto, perdido em seus projetos mirabolantes e grandiosos, só levantando para ir embora. Sempre o último a sair. Dessa observação constante surgiu o pensamento de que tanto trabalho, e tanta modificação, algum efeito deveria surtir nas finanças. Como é que o sócio vivia sem o salário? Os empregados estavam mais felizes, todos trabalhavam melhor, treinados pelo sócio. Essa reflexão começou a pipocar no seu cérebro, coadjuvada por algum funcionário maledicente: “O senhor colocou um sócio e perdeu sua liderança, ninguém o respeita mais. Só existem olhos para o ceguinho”.

Um dia, ele levantou a cabeça, saiu de sua cadeira e chamou o sócio. Apresentou um projeto de expansão, o de fazer com que ambos aplicassem uma nova soma de dinheiro para instalar várias filiais da creche. Estava na hora de se fazer um bom dinheiro.  A sociedade, doravante, só cuidaria de deficientes e idosos ricos (família, bem entendido, de alta renda). Para tanto, bastava aprofundar o estudo dos hábitos dos ricos e idosos, cuidando de ter os serviços exigidos por aquela gente. No íntimo, ele já sabia da necessidade de jovens perfeitos e belos, simétricos e pobres. Esse plano não entusiasmou o investidor, mas ele concordaria desde que o cego também entrasse de sócio no outro negócio, o de recepções. O ceguinho sabia que o outro negócio ia mal das pernas, exigindo constantes investimentos. As bolhas se tocaram e se afastaram.

Apesar da recusa do investidor, a creche inaugurou a primeira filial com seus próprios recursos. Alugou uma grande e velha mansão em um bairro chique. E, com esse aluguel, tudo se tornou diferente. Viver perto de gente de bem foi o primeiro de decisivo passo. O lugar era espaçoso, claro, dentro de um bosque, imitando uma estação de águas, sem nada que o identificasse como depósito de gente.  Eu percebia que a sociedade entrava em nova fase. Não se atendia mais os pobres. O “morto de fome” começava a aplicar sua ideia, mesmo sem a aquiescência do outro, e o empreendimento se fortaleceu, adquiriu força. Ah, esquecia de um detalhe: ele se aproveitava de sua condição física e, agora, manipulava também os clientes para obter aquilo que queria. Usava um arsenal de diversas máscaras, uma para cada tipo de negócio. Cuidava de incapacitados, deformados, aberrações e velhos, ganhava a vida com isso, fazia bem o trabalho e arrancava dinheiro da culpa dos pais das crianças. Vivia disso. Estudou, aperfeiçoou-se e ganhou notoriedade pela sua eficiência e aplicação. Passou a ser apelidado de “braço direito” da sociedade. Todos notavam a sua condição submissa em relação ao outro sócio. E esse prêmio de consolação o engrandecia. Ele sabia que, mesmo incompetente ou burro feito uma porta, como às vezes se sentia, as pessoas lhe dariam a chancela contrária, por compaixão. Não pode haver, pela lei de Deus, um cego imbecil e incompetente. Não existe o deficiente medíocre. Bem como não existe o morto vil. Mesmo inútil e incompetente, prevalece o mito da aberração como privilegiada no quesito da inteligência. É a lei da compensação. E aplicam a justiça inexistente no reino dos homens. Aquela que só existe no reino particular da publicidade, das páginas das revistas, dos finais felizes dos filmes de amor e nas fábulas para crianças. O deficiente poderá ser uma ruína moral, mas será sempre considerado trabalhador e justo.

Um empregado da creche começou a namorar, em segredo, uma menina de dezessete anos com sequelas de poliomielite. O vírus a tornara prisioneira da sua cama e de seu travesseiro de plumas. Tetraplégica. Nem a devastação integral em seu corpo impediu que ela aprendesse a pintar com a boca. Ativa e obstinada pela independência, vendia suas obras para uma associação suíça, acusada de diversas irregularidades, incluindo desvio de verbas, e com esse rendimento conseguiu juntar uma boa soma. Em segredo, ela destinava essa grana para a compra de uma coleção de tintas importadas. O cego não viu, não sentiu essa paixão no ar. Afinal, ele mesmo ensinara a todos: “Escondam seus sentimentos, eles não interessam a ninguém.” Ou talvez ela, paixão, não existisse mesmo.  O fato é que tomou conhecimento mediante o testemunho tardio da menina. Ambos tinham o hábito de conversar, e ela, um dia, desabafou.  Não suportava mais guardar segredo daquele seu amor, e, depois de uma série de indiretas não compreendidas pelo rapaz, passou a se servir das diretas, das assertivas. Todas errando o alvo. Ele, o enfermeiro, não entendia, ou fazia que não. Correspondia com algo mais que amizade. Algo bem leve, sem palavras, só gestos, toques e olhar enquanto tratava de suas várias escaras pelo corpo. Conhecia a intimidade dele, do corpo, mais do que ela mesma. Talvez restasse alguma consciência nele, mas foi engolfada pelo furor selvagem e apressado do sentimento dela. E a abraçou. Era o seu maior desejo. A sua maior conquista. E saiu. Saiu, de posse do dinheiro dela, para comprar a sua coleção de tintas na Michelangelo. Não voltou.

A paralítica fora uma aposta do cego. Apesar de ela não ter um gato para puxar pelo rabo, apostou na carreira, sabia que ela um dia pagaria suas mensalidades. Algo que ela , agora, fazia com folga. Vivia feliz e realizada. E, mais que tudo, sentia-se amada. Triste pela ausência do enfermeiro, que deveria estar ocupado com alguma coisa, ou doente, mas que logo, logo estaria de volta. Ela conseguiria o telefone dele e ligaria qualquer dia desses. O cego ouviu quieto e sem interrupção toda a história. Sentindo-se muito mal. E prometeu, conversando consigo mesmo, que faria alguma coisa.

Saiu dali e, imediatamente, pegou o endereço do indivíduo na secretaria e se dirigiu à casa dele. Morava em uma vila distante, em uma casa pouco mais que miserável, na barranca do rio. Ao chegar, ouviu vindo dos fundos, o rangido de uma porta, os palavrões de alguém, xingando a privada. Procurou por ele e foi informado que estava trabalhando. Agradeceu e saiu. Esperou por mais de quatro horas até que ele voltasse. Ouviu primeiro o ronco de uma moto, deduziu que seria ele. Quando o veículo se aproximou, saiu de onde estava para encontrá-lo. Não precisou falar muito. O sujeito confessou tudo. Comprou a moto com o dinheiro dela. Ele prometeu devolver. “Não há necessidade disso. Volte para o trabalho.” “Como assim?” “Apenas volte, eu compro as tintas para ela. Vamos esquecer tudo.” Instaurou-se um silêncio profundo e constrangedor, até que se ouviu a voz do cego Jeremias: ”O estado de saúde dela é delicado, não há mais tempo para nada. Nada”.

O sócio capitalista morreu há pouco tempo, depois de tanto tempo de sociedade, disse a recepcionista, enquanto eu esperava o cego me atender, para a entrevista final.  Ele, já velho, se casara alguns anos antes. Mulherengo, namorava três mulheres ao mesmo tempo. E, pior, elas sabiam disso. Marcara o casamento em vários lugares diferentes, com receio do escândalo que poderia ser causado pelas mulheres rejeitadas; escolhera, na última hora, o cenário para o matrimônio. Viveram dez anos casados e sem filhos. Na última conversa que teve com o cego Jeremias, ouviu dele o conselho: “Vocês deveriam adotar um filho. Ele lhe daria muitos anos a mais de vida”. Ouviu, sem atenção, esse conselho que não pedira. E seguiu adiante. Um pouco mais tarde, surgiu uma grave e penosa doença, que lhe causou uma morte dolorosa. Jeremias, quem sabe motivado por gratidão ou agradecimento pelo primeiro emprego, oportunidade conseguida, que o livrara da detestável profissão de acordeonista que o destino parecia lhe reservar, acompanhou toda a doença. Tentou, mesmo sendo rejeitado, se aproximar do doente. Ouviam-se os rumores que ele queria ser premiado com alguma coisa no testamento já registrado e escriturado no Tabelião.

Após o féretro, a viúva se apresentou na empresa para tomar o seu lugar de sócia, como herdeira. Tencionava participar ativamente da condução dos negócios. Atônito, Jeremias a recebeu muito bem. Vestido com a roupa da abnegação, do bom anfitrião. Não foi necessário muito tempo para que ambos percebessem que não havia espaço comum entre eles, dois projéteis rumo à colisão. O cego Jeremias perguntou se o sócio havia dito alguma coisa a respeito dele. Ela se apressou em responder, sem hesitar um só instante: “Ele me deu a missão de ficar por aqui, não importa o que aconteça ou o que você diga. Disse mais, que você jamais deixaria seu trabalho, sua criação”. E completou: “Que você é o melhor profissional que ele conheceu”. Jeremias se afastou, entre surpreso e triste.

Como candidato, durante o malfadado processo de seleção, convivi por vários dias com os funcionários, ouvindo comentários de todos, desde a copeira até o guarda do estacionamento. Este relato é o resultado dessas conversas, alguns detalhes não devem ser deixados de lado. Eu fui rejeitado ao posto de gerente da creche. Jeremias não admite funcionários deficientes. Algum tempo depois deixou para sempre a empresa. 

 

 

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